Ponto de Vista de Anaís
Nós nunca chegamos ao esconderijo.
Em vez disso, acabamos em um hotel barato de aeroporto nos arredores de São Paulo. Eu estava tremendo, sentada na beirada do colchão afundado, agarrando minha bolsa como se fosse minha vida. Heitor andava de um lado para o outro no espaço apertado, o celular pressionado contra a orelha enquanto tentava arranjar um voo.
Então, a porta não apenas se abriu; ela explodiu para dentro.
Eu nem tive tempo de gritar. Dois dos soldados de Domênico encheram o pequeno quarto, bloqueando a luz do corredor. Heitor se moveu para interceptá-los, seus reflexos afiados, mas ele estava irremediavelmente em desvantagem.
Um deles bateu a coronha de uma pistola na têmpora de Heitor com um estalo doentio.
Ele caiu no carpete instantaneamente, inconsciente antes mesmo de atingir o chão.
"Não!", gritei, avançando em sua direção.
Mãos fortes me agarraram por trás, parando meu movimento com uma força brutal. Senti o cheiro de colônia cara misturado com o odor forte de pólvora.
Domênico.
Ele me virou, seus dedos cravando em meus braços. Seu rosto era uma máscara de fúria fria e implacável.
"Você acha que pode simplesmente ir embora?", ele sibilou, sua voz um ronco baixo e perigoso. "Acha que pode simplesmente sair com ele?"
Ele me arrastou para fora do quarto, passando por cima do corpo inconsciente de Heitor como se ele não fosse nada mais do que lixo na calçada. Ele me jogou no banco de trás de sua SUV blindada com força suficiente para me deixar sem ar.
"Dirija", ele ordenou ao motorista.
"Para onde você está me levando?", perguntei, minha voz tremendo tanto que as palavras mal se formavam.
"Para casa", disse ele, olhando para frente. "Mas não vamos para o apartamento. Vamos para a clínica."
"Por quê?"
"Jéssica está com hemorragia", disse ele. Sua voz era desprovida de emoção, completamente distante e clínica. "O estresse do seu pequeno show causou complicações. Ela está perdendo sangue."
Encarei seu perfil, horrorizada. "O que isso tem a ver comigo?"
"Ela tem um tipo sanguíneo raro, Anaís. B-negativo." Ele finalmente olhou para mim, seus olhos vazios. "Assim como você."
Meu coração martelava contra minhas costelas, um ritmo frenético e errático. Não era apenas medo. Era a arritmia com a qual eu vivia desde a infância. Uma condição que Domênico conhecia. Uma condição que tornava a doação de sangue perigosa, potencialmente fatal.
"Eu não posso", sussurrei, pressionando a mão no peito. "Você sabe que não posso. Meu coração... O Dr. Esteves disse que meus níveis de ferro estão muito baixos. Poderia desencadear um evento cardíaco."
Domênico olhou para mim. Ele não via uma esposa. Ele nem mesmo via um ser humano. Ele via uma peça de reposição.
"Ela está carregando meu filho", disse ele friamente. "Você vai dar a ela o que for preciso."
Chegamos à clínica particular da família minutos depois. Cheirava a antisséptico e dinheiro velho. Eles me arrastaram para uma sala de preparação. Jéssica estava na sala ao lado, gemendo de dor, embora sua voz me parecesse forte o suficiente.
O médico da família, Dr. Esteves, parecia pálido quando Domênico me empurrou para a cadeira.
"Sr. Rezende", ele gaguejou, olhando entre nós. "O prontuário da Sra. Rezende... sua condição cardíaca. Uma transfusão dessa magnitude é arriscada. Ela pode entrar em choque."
"Faça", Domênico ordenou.
Agarrei o braço de Domênico, meus dedos desesperados.
"Se eu fizer isso", eu disse, minha voz tremendo. "Se eu salvar sua amante e seu bastardo... você me deixa ir."
Domênico olhou para mim. Ele sorriu de lado, um toque cruel em seus lábios.
"Você não está em posição de negociar, Anaís. Mas tudo bem. Doe o sangue, e discutiremos suas férias."
Ele estava mentindo. Eu sabia que ele estava mentindo. Mas eu não tinha escolha.
A enfermeira inseriu a agulha. Observei meu sangue vermelho escuro fluir pelo tubo, me deixando para sustentar a mulher que havia destruído minha vida.
Senti o frio se instalar imediatamente. Meu peito parecia pesado, como se uma pedra estivesse sobre meu esterno, esmagando o ar dos meus pulmões.
"Diminua a coleta", alertou o Dr. Esteves, seus olhos nos monitores. "O pulso dela está caindo."
"Continue", disse Domênico da porta. Ele estava observando o monitor no quarto de Jéssica, não o meu.
A sala começou a girar. Pontos cinzentos dançavam em minha visão, obscurecendo as luzes fluorescentes fortes. Meu coração palpitou — um pássaro preso em uma gaiola, batendo as asas contra as grades em pânico.
"Domênico", sussurrei, minha cabeça parecendo impossivelmente pesada. "Eu... eu não me sinto bem."
Ele não se virou.
"Os sinais vitais de Jéssica estão se estabilizando", uma enfermeira gritou do outro quarto.
"Bom", disse Domênico.
Minha cabeça pendeu para trás contra a cadeira. O bipe do meu monitor cardíaco ficou errático. Rápido. Depois lento. Depois dolorosamente lento.
"Sr. Rezende!", o médico gritou, o pânico crescendo em sua voz. "Ela está tendo uma parada!"
Eu vi Domênico se virar então. Vi um lampejo de irritação em seu rosto, como se minha morte fosse apenas um inconveniente para sua noite.
"Parem a coleta!", o médico gritou.
A última coisa que vi antes que a escuridão me engolisse foi Domênico saindo da sala para segurar a mão de Jéssica.
Fechei os olhos. E pela primeira vez em muito tempo, esperei não acordar.
Ponto de Vista de Anaís
Acordei com o cheiro enjoativo de lírios.
Eu os detestava. Para mim, eles cheiravam a funerais.
Forçando minhas pálpebras pesadas a se abrirem, percebi que estava deitada em uma suíte de recuperação particular. Meu braço estava enfaixado com uma bandagem grossa, e meu peito doía com uma dor surda e persistente que irradiava pelas minhas costelas.
Domênico estava sentado na poltrona ao lado da cama, navegando distraidamente em seu celular. Ele parecia impecável — recém-saído do banho, cabelo perfeitamente penteado e vestido com um terno novo de carvão.
"Você acordou", disse ele, sem se dar ao trabalho de olhar para cima.
Tentei me levantar, mas o quarto balançou violentamente. Caí de volta nos travesseiros, ofegante.
"O acordo", grasnei, minha garganta parecendo uma lixa. "Você disse... se eu doasse o sangue..."
Domênico finalmente levantou o olhar. Ele se levantou, caminhou até a mesa de cabeceira e ajustou meticulosamente uma pétala no vaso de lírios brancos.
"Eu disse que discutiríamos umas férias, Anaís. Nunca disse que lhe concederia o divórcio", ele respondeu suavemente. "Você é minha esposa. Seu lugar é na cobertura."
Ele colocou o vaso de volta com um clique deliberado.
"Além disso", acrescentou ele, verificando seu relógio Patek Philippe, "você precisa se recuperar. Você está com uma aparência terrível."
Ele caminhou até a porta, a mão na maçaneta.
"Tenho um baile de caridade esta noite. Jéssica está se sentindo muito melhor, graças a você. Ela me acompanhará."
Ele abriu a porta.
"Descanse um pouco. O motorista virá buscá-la pela manhã."
E então ele se foi.
Fiquei ali no silêncio, encarando o teto branco e estéril. Ele havia me drenado para salvá-la, e agora a exibia pela cidade enquanto eu apodrecia em uma cama de hospital.
Estendi a mão para a mesa de cabeceira. Meu celular havia sumido. Domênico devia tê-lo confiscado.
Desesperada, encontrei o telefone do quarto e disquei um número que havia memorizado anos atrás.
Heitor atendeu no primeiro toque.
"Anaís?" Sua voz estava carregada de pânico. "Estou no saguão. A segurança não me deixa subir. Disseram que você estava em estado crítico."
"Estou viva", sussurrei. "Mas preciso sair daqui."
"Estou subindo", disse ele, sua voz endurecendo.
"Não", eu disse rapidamente. "Espere. Preciso voltar para a cobertura uma última vez."
"Por quê?"
"Meu passaporte", eu disse, minha mente acelerada. "E os arquivos. Se eu sair agora, ele vai me caçar. Preciso da vantagem. Preciso dos documentos do cofre."
"Anaís, isso é suicídio."
"Eu tenho que ir, Heitor. Apenas espere pelo meu sinal."
Na manhã seguinte, minha alta foi processada com uma rapidez suspeita. Eu me sentia esvaziada, frágil como vidro soprado.
Domênico estava esperando na entrada do hospital. Mas ele não estava sozinho.
Jéssica estava sentada no banco do passageiro da frente da limusine. Ela estava radiante, sua pele corada de saúde. Ela acenou para mim alegremente pela janela.
Domênico estava ao lado da porta traseira aberta, a impaciência gravada em seu rosto.
"Entre", ele ordenou.
Olhei para o banco da frente, depois de volta para ele.
"Ela enjoa no banco de trás", disse Domênico, dispensando meu olhar com um aceno de mão.
Entrei no banco de trás. Minha bagagem estava empilhada no banco de couro ao meu lado, me deixando espremida no canto como um pensamento tardio.
Enquanto dirigíamos pela cidade, Jéssica pousou a mão na coxa de Domênico. Ele imediatamente cobriu a mão dela com a sua.
"Oh, Dom, olhe", ela cantou, mostrando o celular. "A imprensa amou meu vestido ontem à noite. Estão nos chamando de 'Casal Poderoso do Ano'."
Domênico sorriu para ela — um sorriso genuíno e caloroso. Um que eu não via dirigido a mim há anos.
Silenciosamente, peguei o celular pré-pago que havia escondido no meu sutiã — a única coisa que Domênico não encontrou porque ele nunca mais me tocou.
Abri o Instagram.
Lá estava. Uma foto de Domênico e Jéssica no tapete vermelho. Seu braço estava possessivamente em volta da cintura dela. A legenda dizia: Construindo um legado.
Encarei a tela, minha visão embaçando.
Cinco anos atrás, eu perdi nosso filho com quatro meses de gestação. Liguei para Domênico do hospital, sangrando e apavorada. Ele não atendeu. Estava em uma reunião. Quando finalmente chegou em casa, me disse para parar de chorar, que sempre poderíamos "fazer outro".
Ele nunca postou uma foto nossa. Ele nunca nos chamou de um legado.
Olhei para a nuca dele.
Com os dedos trêmulos, digitei um comentário na postagem sob uma conta falsa.
Que você receba exatamente o que merece.
Bloqueei o celular e o escondi novamente.
Chegamos à cobertura.
"Lar, doce lar", Jéssica cantou.
Olhei para o prédio imponente perfurando o céu. Não era um lar. Era um crematório. E eu estava prestes a acender o fósforo.