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O DONO DO MORRO E A IRMÃ DO SUB

9.4 / 10.0
Após enfrentar uma devastadora perda familiar, a vida de Rafaella sofre uma reviravolta completa. Sem alternativas, ela se muda para a comunidade controlada por seu irmão mais velho, o líder do crime local. Entre o luto e a nova realidade perigosa da favela, ela tenta se adaptar a um mundo de violência e poder. Embora possuam personalidades distintas, o destino e as circunstâncias os mantêm unidos em uma trajetória intensa de sobrevivência e lealdade.

O DONO DO MORRO E A IRMÃ DO SUB Capítulo 1

Rafaella narrando

Eu sempre fui uma garota calada e observadora. Desde pequena aprendi a viver entocada nos compartimentos de casa, esquecida pelos meus pais. Eles não tinham muito tempo pra mim por causa do trabalho. Sempre foi o trabalho em primeiro lugar. Mas mesmo assim, eu os amo tanto que não consigo nem explicar. Tenho um irmão mais velho, Raffael. Mas ele já não vive mais conosco. Motivo? Meus pais enxotaram ele de nossas vidas, sem direito a despedida. A última vez que o vi e falei com ele, Raffael estava brincando de boneca comigo, algumas horas depois ele foi expulso. Nunca me faltou nada além de atenção e carinho. Tinha a Maria, minha governanta ou babá, tanto faz. Ela é meu porto seguro, ao contrário dos meus pais, está sempre aqui para me amparar quando eu cair.

Não diria que eu vivo, eu só sobrevivo dia após dia. Bom, não tem nada de importante na minha vida, quem vive de verdade tem alegria no coração. Eu sequer tenho isso. Espero que isso possa mudar um dia. Que eu construa laços afetivos, que eu tenha um bom emprego e uma família pra amar e ser amada na mesma intensidade.

Desperto dos meus pensamentos, e afasto a preguiça que se instala no meu corpo. Me alongo e levanto da cama, vou direto ao banheiro tomar aquele maravilhoso banho pela manhã para afastar toda a negatividade. Logo após, me visto rapidamente com o blusão da escola pra cobrir o cropped que decidi usar, e penteio meus cabelos. Me perfume inteira, e pego todos meus pertences necessários. Desço a escada e vou para a cozinha.

- Bom dia, Maria. - cumprimento Maria assim que a vejo.

- Bom dia, querida. - sorri.

- Meus pais já foram trabalhar? - começo a me servir o café da manhã. - Não os vi chegando ontem. - passo a nutella na torrada.

- Sim. Na verdade, seu pai viajou à trabalho e sua mãe o acompanhou.

- Nossa. Nem para se despedir. - lamento.

- A dona Suzana falou que iria ligar para você.

- Grande coisa. - bufo. - Maria, já vou indo para a escola.

- Sim. Boa aula, Rafinha. - mando beijo no ar.

Saio da cozinha e pego minha mochila que larguei em cima do sofá. Vou para a entrada de casa e espero o motorista encostar o carro.

- Bom dia, senhorita. - André me cumprimenta e abre a porta do carro para mim.

- Bom dia. - entro no carro.

Na escola, ando pelos gigantes corredores até chegar na minha sala, a qual a primeira aula seria Artes. Sento no fundo da sala, na frente do Daniel, meu melhor amigo.

- Oi, mi amor.

- Oi. - encosto a cabeça na parede.

- Boa notícia. - fala empolgado.

- Qual é a notícia? - pergunto sem interesse.

- Vai ter uma festa lá em casa. Meus pais convidaram os seus pais. - sorri mostrando os dentes. - Você vai né?

- Talvez. - dou de ombros. - Quando vai ser a festa?

- Hoje. - bate palmas.

- Em uma segunda-feira? - ergo a sobrancelha.

- Não vai ser uma festa daquelas. - faz uns sinais esquisitos. - É só uma social que os meus pais querem fazer para comemorar o contrato com uma empresa americana aí. - fala rápido. - Foi de última hora. Nem deu tempo de preparar muita coisa. - explica.

- Hum. Acho que vou. Meus pais viajaram hoje cedo, então eles não vão. - suspiro.

- Imagina só, várias meninas lá em casa. - fala olhando para o teto.

- Imagina só, vários meninos lá na sua casa. - falo fazendo a mesma pose que ele.

- Coitada de você. Quem disse que vou deixar você sair pegando os meninos? - dá um peteleco na minha testa.

- Credo. - sorrio. - Você pode pegar e eu não?

- Sou homem, é de natureza. Mulher tem que ficar em casa lavando à louça.

- E esse seu machismo aí? - rimos.

- Tô brincando.

- Ei, vocês dois! Prestem atenção na aula. - a professora ordena, visivelmente irritada.

- Desculpa. - olho pra lousa.

- Desculpa, professora desdentada. - sussurra.

- Menino! - rimos.

- Vou ter que falar outra vez? - olha para a gente.

- Não, professora. Pode dar sua aula.

A aula terminou rápido. Passei a aula inteira jogando bolinha de papel na lixeira, em um completo desafio para que a professora não me pegasse no flagra. Não tinha nada pra fazer. Desenhar e pintar não é a coisa mais divertida e interessante para mim.

Agora estou no intervalo com o meu belo amigo e ele tá me pedindo dinheiro emprestado, como sempre. Infelizmente ou felizmente, não tenho mais dinheiro.

- Mano, me devolve a coxinha. - falo irritada.

E o Daniel como sempre tendo atitudes infantis, que me irrita, ao mesmo tempo que também me diverte. Ter amizade te deixa um pouco perturbada.

- Esqueci minha carteira em casa. Divide vai. - implora.

- Claro que não. Morra de fome. - pego a coxinha de volta.

- Malvada. Deus vai te castigar. - fala emburrado.

- Será? - falo olhando para o céu. - Por que você não compra fiado? Depois você paga a tia.

- Eu pedi, mas ela não deixou.

- Faz uma dança sensual pra ela. - falo séria. - Ela vai te dar todas as coxinhas da cantina, pode dar até outras coisas... - insinuo.

- Idiota. - rimos. - Me dá a coxinha! - tenta pegar da minha mão.

- Socorro! - grito e saio correndo pelo refeitório.

Ao perceber que ele não veio atrás de mim, olho pra trás e vejo o Daniel com a mão no rosto de cabeça baixa. Acho que ele deve ter ficado com vergonha.

- Daniel, meu amigo! - grito indo em sua direção. - Como está seu estômago? Passou a dor de barriga? - todos gargalham.

- Eu ainda te mato. - puxa meu cabelo e sai andando de cabeça baixa.

Pra quê inimigo?

- Daniel, me espera. - agarro seu braço.

Os amigos nasceram para serem humilhados não é mesmo?

Depois que a última aula da professora de matemática acabou, fomos liberados para ir embora. Fico sentada no banco enfrente a escola esperando meu motorista chegar.

Percebo Allan e seus amigos se aproximando de mim e suspiro cansada, lá vem mais uma bomba para eu aguentar.

- E aí, suave? - senta ao meu lado.

- Tava tudo de boas antes de você chegar, mas felicidade de pobre dura pouco - falo cínica.

- Pobre você? Sério? Maior dondoca da escola. - dá risada.

- Sou pobre de felicidade, ok?!

- Tô ligado. Vai na social do Daniel? - pergunta mudando de assunto.

- Talvez. - digo com indiferença. - Que saco, onde o André se meteu? - sussurro irritada

- Como?

- Esquece. Vou indo nessa, meu motorista ainda não deu as caras - levanto e ele me segue.

- Vou com você até sua casa, assim a princesa não corre perigo. - assinto forçando um sorriso - Falou galera, até depois. - se despede de seus amigos.

Senhor, me ajuda. Esse menino não vai largar do meu pé. Maldita hora que o Daniel resolveu sair com aquela sem bunda da Vanessa!

- Mas, e aí, você tá de rolo com alguém? - quebra o silêncio.

- Você quis dizer namorando?

- É isso aí mesmo. - ri.

- Enfim, eu não tô namorando. E você? - olho para ele.

- Tô só ficando com umas e outras aí, tá ligada?

- Ah, entendi. - cruzo os braços. - Você faz o tipo de garoto piranha né?

Ele me encara por um tempo e também cruza os braços.

- E você faz o tipo de garota esnobe que só fica com playboy?

Franzo o cenho e faço bico. Eu não sou esnobe poxa!

- Quem disse que eu sou esnobe? - falo irritada.

- Relaxa, pô! Tô ligado que você não é.

Sem acreditar em suas palavras, arqueio a sobrancelha desconfiada. Continuamos nosso caminho, e de vez em quando ele puxava uns assuntos meio nada haver. Mas tirando isto, ele é legal até.

Já em casa, pude finalmente relaxar e assistir meus desenhos sem ninguém por perto. Liguei para meus pais e só deu caixa postal, devem estar em alguma reunião importante, ou só não querem perder tempo comigo. Vou ao banheiro e tomo uma ducha bem relaxante, depois me visto para ir a social dos pais do Daniel. Grito pela Maria, mas ela não responde. Deve ter saído. Tiro uma foto, só pra deixar salvo no celular, até porque não uso Instagram ou Facebook.

[...]

Fazem umas duas horas que estou na social do Daniel e nada de ver ele, acredita? Como venho em uma festa que não vejo o dono? Já estou ficando irritada. Allan já veio aqui várias vezes e conversou um pouco comigo, mas depois ele saiu com uns garotos da escola.

- Tá tudo bem?

Uma garota que estuda comigo pergunta.

- Sim, por que? - olho para ela que está sentada ao meu lado no sofá.

- Não sei. Você está impaciente... Tá procurando o Daniel? - assinto. - Ah, olha ele ali! - aponta em direção as escadas.

Vejo Daniel aparecendo de mãos dadas com a Vanessa. Ele olha na minha direção, mas parece que não me vê, porque o mesmo vira a cara e vai falar com uns meninos da escola. Ele realmente não me viu ou está me dando um gelo legal? Sinto uma vontade enorme de chorar, mas me controlo.

Pego o celular e mando uma mensagem para o meu motorista vir me buscar. Levanto do sofá e vou até os pais de Daniel para me despedir. Luíza e Jorge são meus padrinhos, grandes amigos dos meus pais.

- Oi, Rafinha. - fala ao me notar.

- Vim me despedir, estou indo para casa.

- Já? Ainda está cedo. - meu padrinho entra na conversa.

- Amanhã tenho aula, não quero faltar por causa do sono. - sorrio. - Vou indo, tchau gente.

- Tchau, minha filha. Tenha uma boa noite. - me abraça.

- Já chamou seu motorista? Posso pedir para que o meu motorista a leve em segurança. - sugere.

- Não precisa, padrinho. Já chamei. - abraço o mesmo. - Tchau.

Ao sair da casa, espero André que não demorou muito para chegar. Chegamos em casa rapidamente e em segurança, fui direto para meu quarto e dormi do jeito que estava.

[...]

Fazem duas semanas desde a social na casa do Daniel, já voltei a falar com ele e tudo mais. Meus pais voltaram de viajem há três dias, porém continuam fora de casa. Sempre estão trabalhando.

No momento estou assistindo Descendentes 2, deitada no sofá, comendo Diamante Negro e outras coisas prejudiciais a saúde como diz minha mãe.

Falando nela, observo a mesma aparecer na sala e tento esconder os meus lanchinhos da tarde.

- Já te falei que isso não faz bem a saúde. - senta na poltrona.

Enfim, a nutricionista sem diploma.

- Mas é bom... - sussurro. - Mãe? - a chamo.

- Diga. - me olha.

- Posso ir ao shopping?

- Pode. Aproveite e compre um vestido novo para irmos ao jantar do amigo de seu pai.

- Eu tenho mesmo que ir? - suspiro irritada.

- Mas é claro que sim. Quer mesmo dar esse desgosto a seu pai? - nego.

- Não... Tudo bem, a senhora ganhou. Vou me arrumar para ir ao shopping. - levanto do sofá.

- Chame o Daniel para ir com você. - manda.

- Não precisa, eu vou sozinha.

Posso ter feito as pazes com Daniel, mas ainda me sinto mal por ele ter me deixado de lado.

- Garota teimosa. - bufa. - Vá e volte em segurança. - saio da sala. - Mamãe te ama! - grita.

- Também te amo! - grito de volta.

[...]

Nesse momento estou em uma tentativa de fugir do jantar do amigo de meus pais. Como irei fazer isso? Aquela velha história do "resfriado em última hora".

- Como foi ficar doente logo hoje? - põe a mão na minha testa.

- Desculpa mãe e pai... Eu realmente queria ir com vocês nesse jantar, mas aconteceu esse imprevisto. - finjo uma tosse.

- Não tem problema, querida. Fique em casa e descanse. - sorri. - Vá descendo, Suzana. Preciso falar com Rafaella a sós. - meu pai manda.

- Tudo bem. Tchau, filha. - beija o topo da minha cabeça. - Te amo.

- Também te amo, mãe.

Depois que minha mãe sai do quarto, meu pai começa a rir e eu o encaro assustada. Ele me descobriu, droga!

- Pai..? Ta tudo bem? - me finjo de desentendida.

- Não se faça de santa, Rafaella. Sei muito bem que isso é tudo showzinho seu. - para de rir e ajeita a gravata.

Meu plano de ser atriz da Globo falhou.

- Como o senhor sabe? - levanto da cama e o ajudo com a gravata.

- Seu irmão fazia a mesma coisa quando não queria ir a escola. - sorrimos. - Sei que sente falta dele, nós também sentimos. - assinto e volto a me deitar na cama. - Não fique brava conosco. Você sabe que...

- Eu sei. - o interrompo. - Vocês não tem culpa de nada, estavam apenas querendo se privar da tempestade que o meu irmão causou. - suspiro. - O que você e a minha mãe fizeram é o que muitas pessoas queriam fazer, mas não conseguem.

- Você falando parece que entende o nosso lado... - sorri bobo. - Mas nós todos sabemos que você sente uma mágoa.

- Verdade, eu sinto. Mas sei que vocês estão corretos, então não tem nada a se fazer.

Escuto minha mãe gritar lá de baixo e gargalho.

- É melhor eu ir. Tenha uma boa noite, querida. Amo você. - beija minha testa e sai.

- Igualmente, senhor Marcos! - grito pois ele já havia saído.

Amo meu pai, ele sabe tudo sobre mim. Mesmo distante, ele que me dá conselhos quando preciso, assim como Maria, ele me ajuda com qualquer coisa em que eu precisar. Lógico que amo minha mãe também, mas ela é mais reservada. Como poderia dizer? É na dela, não demonstra ser tão carinhosa quanto o meu pai.

Depois de algum tempo, Maria me chamou para jantar, logo após voltei ao meu quarto e fui dormir.

Acordo no meio da madrugada e saio do quarto desorientada, escuto alguém conversando na sala de estar e então sigo as vozes. Ao me aproximar das pessoas, ouço Maria falar.

- Como assim sofreram um acidente? - dou um passo para trás desnorteada.

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