Capítulo 2

Ponto de Vista de Isabela Ferraz:

"Um trocado, na verdade. Mas deve dar para o funeral, talvez." As palavras de Caio ecoavam em meus ouvidos, uma cruel canção de ninar de traição. Ele me ofereceu menos que nada pela vida do meu pai, uma ninharia tão miserável que parecia uma ferida nova.

Apenas algumas horas depois, eu vi — uma enxurrada de posts nas redes sociais. Caio havia comprado para Eva Dantas um Porsche 911 Targa clássico, um testemunho reluzente de sua devoção, que diziam valer milhões. A foto a mostrava, uma mão delicada repousando no capô polido, um sorriso tímido brincando em seus lábios. "Ah, Caio, você não devia", dizia a legenda dela, seguida por uma série de emojis de coração. "Você sabe que não ligo para bens materiais, mas este gesto... diz muito sobre seu coração."

Suas palavras foram uma nova facada, um testamento do abismo entre o valor percebido dela e a vida do meu pai. Caio, em sua lógica perversa e distorcida, havia declarado abertamente: um carro, uma bugiganga, valia mais que uma vida humana, mais que o homem que me amou incondicionalmente.

Uma compreensão profunda e desoladora se instalou em mim. No mundo deles, a vida era barata, facilmente descartada, enquanto gestos superficiais e metal reluzente tinham um valor imensurável. A certidão de óbito do meu pai parecia pesada em minhas mãos, um contraste gritante com a alegria frívola que emanava da persona online cuidadosamente curada de Eva.

O médico legista ligou, sua voz gentil. Ele me informou que meu pai, um homem de dignidade silenciosa, havia recusado o tratamento antes do que eu sabia. Ele escolheu partir, sabendo da enorme dívida que pesava sobre meus ombros, na esperança de me poupar de mais sofrimento. A culpa era um cobertor sufocante. Ele morreu por mim, pensando que isso me libertaria, e eu nem sequer consegui salvá-lo.

Lembrei-me da vida que eu havia colocado em espera por ele, a bolsa de estudos da faculdade de artes recusada, a carreira musical adiada, tudo para manter a galeria funcionando, para manter seu legado vivo. Eu havia sacrificado meus sonhos pelos dele, e ele, por sua vez, havia sacrificado sua vida pela minha. O ciclo de dor parecia interminável.

Mas algo mudou dentro de mim. A dor, a culpa, a agonia crua e lancinante, começaram a se calcificar. Endureceu-se em uma determinação fria e focada. Eu não era mais apenas uma vítima. Eu era uma sobrevivente, e devia ao meu pai viver, viver de verdade, e fazer aqueles que nos prejudicaram pagar.

Calculei meticulosamente cada centavo devido aos Almeidas, cada pagamento humilhante, cada apresentação forçada. Eu os pagaria de volta, até o último centavo. Então eu iria embora, uma mulher livre, desvinculada de seus contratos cruéis e jogos distorcidos. Eu me prepararia para minha fuga, silenciosa e invisível.

Enquanto isso, a reconciliação de Caio e Eva se tornou um espetáculo público. Suas fotos cuidadosamente encenadas enchiam meu feed — jantares à luz de velas, caminhadas em praias particulares, mãos entrelaçadas. "O amor verdadeiro sempre encontra o caminho de volta", declarava uma legenda. Meu estômago revirava.

O estresse, a dor, o abuso implacável, cobraram seu preço. Meu corpo, já frágil pela reação alérgica, começou a falhar. Eu tossia constantemente, um som profundo e rouco que rasgava meus pulmões. Meu peito parecia apertado, meus membros pesados.

Eva, sempre a intelectual, postava sobre sua "jornada de autodescoberta", sua "busca por iluminação filosófica". Ela compartilhava fotos de si mesma, um livro na mão, um olhar pensativo no rosto, sempre em um cenário perfeitamente curado. A hipocrisia era nauseante.

Outra emergência médica. Desta vez, uma infecção pulmonar grave, consequência do meu sistema imunológico enfraquecido. Eu estava em outra cama de hospital, o bipe familiar das máquinas um conforto mórbido. Meu corpo era um campo de batalha, marcado e cansado.

Eva, alheia ou indiferente, continuava sua farsa. "O desapego dos desejos mundanos é o caminho para a paz interior", ela escreveu, sob uma foto de si mesma meditando em um iate. Suas palavras eram uma zombaria amarga da minha realidade.

Finalmente, o dia chegou. Eu havia economizado o suficiente. Entrei no escritório impecável de Clarice Almeida, um cheque branco e nítido apertado em minha mão trêmula.

"Aqui", eu disse, minha voz firme apesar do tremor em minha alma. "Cada centavo que devo à sua família. Estamos quites."

Clarice, com seus olhos afiados, pegou o cheque. Ela olhou para mim, um brilho de algo que eu não conseguia decifrar em seu olhar.

"Nos deixando, Isabela?", ela perguntou, sua voz surpreendentemente suave. "Porque a Eva voltou?"

"Porque eu cansei", respondi, a verdade simples e brutal. "Cansei dos seus jogos. Cansei do seu filho. Cansei desta vida."

Ela assentiu lentamente.

"Sabe, sua avó e eu éramos amigas de infância. Viemos de origens semelhantes. A Galeria Ferraz, já foi um farol de integridade. Sempre admirei sua família."

Uma expressão estranha, quase melancólica, cruzou seu rosto, uma rachadura momentânea em sua fachada gelada.

"Este... este casamento, era para selar uma aliança poderosa. Pensei que beneficiaria a todos. Suponho que eu estava errada."

Meu coração martelava contra minhas costelas. Amiga de infância? Uma aliança poderosa? Do que ela estava falando? Mas eu ignorei. Não importava agora.

Virei-me e saí, deixando a gaiola dourada para trás. As pesadas portas de carvalho se fecharam, selando meu passado. O ar fresco encheu meus pulmões, frio e limpo. Eu estava livre. Pisei na luz do sol, minha visão momentaneamente cega por seu brilho. Uma nova vida. Um novo começo.

Então, uma dor súbita e aguda. Uma mão tapou minha boca, outra torceu meu braço para trás. A escuridão desceu, rápida e absoluta.

Capítulo 3

Ponto de Vista de Isabela Ferraz:

Minha cabeça latejava. O mundo girava. Tentei me mover, mas meus pulsos e tornozelos estavam amarrados, roçando em uma corda áspera. O pânico arranhou minha garganta. Onde eu estava? O que estava acontecendo?

Uma voz familiar cortou a névoa.

"Olha o que o gato trouxe, Caio."

Meus olhos se abriram de repente. Caio Almeida estava ao lado de uma chaise longue, seu rosto uma máscara de aborrecimento. Ao lado dele, envolta em seda, estava Eva Dantas, suas feições perfeitas torcidas em um olhar de falsa preocupação.

"Caio?", murmurei, minha voz rouca pelo desuso. "O que é isso? Por que estou amarrada?"

Ele suspirou, passando a mão por seu cabelo perfeitamente penteado.

"Não se faça de inocente, Isabela. Você tentou fugir. Mas nós temos... certas obrigações a cumprir."

Obrigações? Minha mente disparou.

"Do que você está falando?"

Eva riu, um som que irritou meus nervos em carne viva.

"Ah, querida, você é a mercadoria, lembra? Uma muito útil, aparentemente."

Meu sangue gelou.

"Mercadoria? O que vocês fizeram?"

O olhar de Caio era frio.

"Você foi trocada, Isabela. Um acordo de negócios. Pela estabilidade do império Almeida, é claro."

Trocada. Como uma ação. Como um móvel.

"Para quem?"

O sorriso de Eva se alargou, revelando um lampejo de malícia genuína.

"Para alguém que aprecia... ativos únicos. Alguém que está esperando por você há muito tempo. O Juiz Medeiros."

Medeiros. O nome enviou um arrepio de puro terror pela minha espinha. O homem lascivo e cruel que orbitava os negócios de Caio como um abutre, seus olhos sempre se demorando em mim por tempo demais. Ele teve um papel na ruína da minha família, um peão menor no grande esquema de Clarice, mas um predador mesmo assim.

"Não", sussurrei, a palavra um apelo desesperado. "Você não pode. Ele não."

Caio deu de ombros, como se estivesse discutindo o tempo. Eva simplesmente se abanou com uma mão delicada, sua expressão entediada.

"Qual é o problema, Isabela? São apenas negócios. Sua reputação, sua vida... é tudo apenas moeda de troca neste mundo."

Seu dedo perfeitamente manicureado tocou um colar de diamantes. *Isso* é valor real, seus olhos diziam. *Você* não é.

Caio assentiu.

"A Eva está certa. É sobre proteger o que é nosso. Seu... infeliz incidente... com o Medeiros poderia ter sido complicado. Este acordo limpa as coisas."

Uma percepção profunda e doentia me atingiu. Eles não eram apenas cruéis; eles eram verdadeiramente, profundamente maus. Não havia fundo para a depravação deles. Isso não era mais sobre dinheiro ou poder para eles; era sobre controle, sobre me desumanizar completamente.

Engoli em seco, um plano se formando em minha mente.

"Por favor, Caio", eu disse, minha voz cuidadosamente modulada para soar derrotada, desesperada. "Não me deixe com ele. Eu faço qualquer coisa. Por favor."

Fixei meu olhar nele, tentando projetar submissão total.

Um brilho de algo em seus olhos — pena? Arrependimento?

"Vou garantir que você seja... compensada, Isabela. Mais tarde. Apenas... coopere por enquanto."

Suas palavras eram ocas, sem sentido. Meu pai me ensinou isso.

Meu pai. A memória dele, suas mãos gentis, seu sorriso cansado, alimentou um fogo frio em meu ventre. Ele morreu acreditando que estava me libertando. Ele não teria morrido em vão.

A porta rangeu ao se abrir, e o Juiz Medeiros entrou pesadamente, seu olhar predatório e possessivo. Um sorriso grotesco se espalhou por seu rosto, seus olhos se demorando em minha forma amarrada.

"Ah, a adorável Isabela. Toda minha, ao que parece."

Caio colocou um pequeno pássaro de madeira, primorosamente esculpido, sobre a mesa.

"Conforme nosso acordo, Juiz. Uma peça rara, de fato."

O pássaro. Minha vida por uma bugiganga.

Caio e Eva se viraram para sair, já de costas para mim.

"Caio!", gritei, minha voz rouca e desesperada. "Não me deixe!"

Ele parou, mas não se virou. Eva puxou seu braço, sussurrando algo em seu ouvido. Ele assentiu, e eles continuaram pela porta, o clique da fechadura ecoando na sala cavernosa.

Medeiros avançou, seus passos pesados sacudindo o chão. Seus olhos, escuros e famintos, me devoraram.

"Agora, minha querida Isabela", ele ronronou, sua voz viscosa. "Vamos discutir seu passado... e seu futuro."

Ele desabotoou o cinto, um sorriso lascivo no rosto.

"Você sempre foi orgulhosa demais, pura demais. Vou arrancar isso de você."

Ele se lançou. Suas mãos, grossas e calejadas, agarraram meu braço, me puxando bruscamente da cadeira. A corda cortou minha pele. Gritei, me debatendo, meus membros amarrados inúteis. Ele me deu um tapa, uma dor aguda e ardente no meu rosto.

"Ainda lutando? Bom. Gosto de um desafio."

Minha mente disparou. Eu não podia deixar. Eu não iria. Meu pai não morreu para isso. Com uma onda desesperada de adrenalina, chutei, acertando-o em cheio na virilha. Ele ofegou, me soltando, agarrando-se, o rosto contorcido de dor. As cordas estavam frouxas, arranhando, mas eu tinha folga suficiente. Lutei, torcendo minhas mãos, rasgando as fibras ásperas.

A porta se abriu com um estrondo. Dois guardas enormes entraram correndo.

"Juiz! O que aconteceu?"

Medeiros, ainda curvado, apontou um dedo trêmulo para mim.

"Ela me atacou! Não a deixem sair!"

Meu coração afundou. Sem escapatória. Os guardas se moveram para bloquear as janelas, a única outra saída. Mas uma pequena varanda alta dava para um pátio abaixo. Era uma queda perigosa, mas era minha única chance.

Com um grito primal, me lancei sobre o parapeito. A queda foi um borrão vertiginoso, o chão correndo para me encontrar. Fechei os olhos com força, preparando-me para o impacto.

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