A dor no meu peito era uma pulsação surda, um lembrete constante do peixe de madeira se quebrando no chão. Engoli a amargura, forçando-a para baixo, um nó se formando em minha garganta. Eu não choraria. Não na frente dele.
Alguns dias depois, Breno me trouxe um tablet. Era elegante, caro e estranho em minhas mãos ásperas. Na tela, uma série de vídeos era reproduzida: a boca de uma mulher, formando palavras meticulosamente, cada movimento exagerado, claro. Exercícios de leitura labial. Ele queria que eu aprendesse a falar. Ou melhor, a ler a fala.
Olhei para a tela, depois para ele, uma pergunta silenciosa pairando no ar. Por que agora? Por que essa urgência repentina de me "consertar"?
Ele evitou meu olhar, andando de um lado para o outro no pequeno apartamento. "Alina, eu... eu tenho que ir embora por um tempo. Um longo tempo." Ele parou, de costas para mim, olhando pela janela suja para a cidade pobre e extensa. "A trabalho. Por nós. Para finalmente nos tirar daqui."
O mundo girou. Meu estômago revirou. Ir embora? Sem mim? O pensamento foi um golpe súbito e dilacerante. Minha visão embaçou. Uma única lágrima escapou, traçando um caminho quente pelo meu rosto.
Estendi a mão, agarrando seu braço, meus dedos cravando no tecido caro de seu terno. Apertei, depois apontei para mim mesma, depois para a porta, depois para ele. Por favor. Leve-me com você. Meus olhos suplicavam, uma agonia silenciosa.
Ele puxou o braço, gentilmente, mas com firmeza. "Não, Alina. Você não pode vir." Sua voz era plana, desprovida do calor que eu lembrava. "É muito perigoso. E... você precisa se concentrar nisso." Ele gesticulou vagamente para o tablet. "Quando eu voltar, você estará diferente. Melhor."
"É para o seu próprio bem, Alina", ele acrescentou, sua voz suavizando apenas uma fração, um fantasma do antigo Breno. "Lembra como sempre sonhamos com uma vida além deste cais? Uma vida onde você não teria que lutar, onde estaria segura? É assim que chegaremos lá."
Ele estava usando nossos sonhos, nosso passado compartilhado, como uma arma contra mim. As palavras, destinadas a acalmar, pareceram uma traição. Baixei a mão, meus ombros caindo. A luta me deixou. Eu apenas assenti, um movimento pequeno e derrotado.
Dias se transformaram em semanas. Eu sentava em nosso apartamento frio e vazio, o tablet minha única companhia. Eu observava os lábios da mulher, imitando os movimentos em minha mente, os sons estranhos e silenciosos. Minha língua parecia pesada, sem uso. Lembrei-me de como era difícil aprender qualquer coisa nova quando criança, como meu mutismo tornava frustrante cada tentativa de comunicação. Como Breno sempre fora paciente, usando sinais e desenhos para preencher a lacuna. Agora, era apenas eu e a tela piscando.
Uma tarde, a porta rangeu ao abrir. Kassandra Medeiros estava lá, seus olhos me percorrendo, um sorriso de escárnio torcendo seus lábios perfeitos. "Ainda brincando com seus brinquedos, mudinha?" Sua voz era como gelo polido, afiada e cortante. "Breno me disse que você está aprendendo. Que gracinha."
Meu sangue gelou. Olhei para além dela, esperando, rezando, por Breno. Por sua presença familiar e protetora.
Ele saiu de trás dela, seu rosto indecifrável. Meu coração disparou. Ele estava aqui! Ele a impediria. Ele sempre impedia.
Mas ele não o fez. Ele apenas ficou lá, seu olhar distante.
Kassandra sorriu. "Você realmente é um fardo, não é? Uma âncora silenciosa o arrastando para baixo. Ele merece muito mais do que um brinquedo quebrado."
Minha respiração falhou. Olhei para Breno, meus olhos suplicando para que ele negasse, para que me defendesse.
Ele encontrou meu olhar por um segundo fugaz, depois desviou o olhar, sua mandíbula se contraindo. "Ela tem seus desafios, Kassandra", disse ele, sua voz baixa, quase se desculpando com ela. "Mas ela está... tentando."
Desafios? Tentando? As palavras me atingiram como um golpe físico. Ele me chamou de fardo, de desafio. Meu coração não apenas se partiu; ele se fraturou em mil cacos. Parecia que meu peito estava desabando, meus pulmões se recusando a puxar o ar. Lágrimas, quentes e incontroláveis, escorriam pelo meu rosto.
Agarrei o pingente de apito de prata que sempre usava no pescoço, aquele que Breno me dera anos atrás. Era uma coisa simples e barata, mas era nosso sinal. Um sopro agudo significava "perigo". Dois significavam "preciso de você". Três significavam "estou perdida". Levei-o aos lábios, soprando uma explosão desesperada e penetrante. Duas notas agudas. Preciso de você, Breno!
Ele não se moveu. Ele nem mesmo se encolheu. Ele apenas ficou lá, me observando chorar, seu rosto uma máscara de indiferença. Lembrei-me de sua promessa no dia em que me deu: "Sopre isso, Alina, e eu virei correndo, não importa o que aconteça."
Soprei de novo. Mais duas notas penetrantes. E de novo. E de novo. Desesperada, frenética, minha respiração irregular.
De repente, ele se moveu. Ele passou por Kassandra, seus olhos ardendo. Ele marchou em minha direção. Meu coração palpitou com uma esperança desesperada. Ele me ouviu! Ele se importava!
Ele parou na minha frente, seu peito arfando, mas seus olhos... não estavam cheios de preocupação. Estavam cheios de uma raiva fria e furiosa. Ele viu meu rosto manchado de lágrimas, o apito tremendo em minha mão, e sua expressão endureceu. "Qual é o seu problema, Alina?" ele exigiu, sua voz baixa e perigosa.
Kassandra riu, um som arrepiante. "Oh, ela está fazendo birra, é? Que... primitivo."
Algo se quebrou dentro de mim. Primitivo? Birra? Minhas mãos, geralmente tão hábeis com pincéis e carvão, se fecharam em punhos. Sem pensar, eu ataquei, minhas unhas arranhando a bochecha de Kassandra. Não foi um golpe forte, mas deixou uma linha vermelha tênue.
Kassandra gritou, agarrando o rosto. "Sua pequena besta miserável! Ela me arranhou! Breno, ela me atacou!"
Breno se virou, seu rosto contorcido de fúria. "Alina! O que você fez?" Ele agarrou meu braço, seus dedos cravando. "Peça desculpas a Kassandra. Agora." Sua voz era uma ordem áspera.
Olhei para ele, incapaz de falar, incapaz de me mover. Pedir desculpas? Pelo quê? Por me defender de suas palavras venenosas? Por ousar sentir algo?
Kassandra, sempre a atriz, tocou delicadamente sua bochecha, um brilho triunfante em seus olhos. "Oh, está tudo bem, Breno. Ela não sabe o que faz. Ela é apenas uma coisinha selvagem, não é?" Suas palavras estavam pingando falsa simpatia, destinadas a incitá-lo ainda mais.
A mandíbula de Breno se contraiu. "Peça desculpas, Alina!" ele sibilou, seu aperto se intensificando. Ele me empurrou. Com força. Minha cabeça estalou para trás, a dor explodindo em meu pescoço enquanto eu tropeçava, batendo o ombro contra a parede. Ele estava olhando para Kassandra, seus olhos cheios de preocupação, depois de volta para mim com desprezo absoluto. "Você é inútil, Alina. Um estorvo. Sempre foi."
Ele me empurrou de novo, desta vez com mais força. Minha visão turvou. Ele ainda estava olhando para Kassandra, ignorando minha dor, descartando toda a minha existência.
Uma dor aguda e lancinante atravessou meu pescoço, me fazendo ofegar. Instintivamente, agarrei-o, meu corpo se contorcendo para longe da parede. Meus movimentos eram desajeitados, uma tentativa desesperada de afastar as facas invisíveis que pareciam me apunhalar.
"Pare de se debater, Alina!" A voz de Breno era um rosnado baixo, tingido de nojo. Ele confundiu minha dor com desafio, minha agonia com uma encenação. "Você só está piorando as coisas!"
Então veio o estalo. Minha cabeça virou para o lado, o som ecoando na pequena sala. Meu ouvido zumbiu. Minha bochecha ardeu, uma sensação de queimação se espalhando rapidamente. Vi estrelas, brilhantes e vertiginosas, antes que tudo se dissolvesse em um borrão nebuloso.
Silêncio. Um silêncio aterrorizante e pesado desceu sobre a sala, quebrado apenas pela minha respiração irregular. O ar parecia denso, sufocante. Meu corpo vibrava com uma dor surda, uma pulsação profunda e generalizada que parecia emanar de cada osso. Minha visão ainda estava turva, mas através da névoa, vi o rosto de Breno. Ele parecia... assustado. Sua mão pairava no ar, tremendo ligeiramente.
"Alina...", ele começou, sua voz um sussurro tenso, um brilho de algo indecifrável em seus olhos. Era arrependimento? Culpa? "Eu... eu não quis..."
Mas as palavras morreram em seus lábios. Eu não conseguia ouvi-las, não de verdade. Minha mente estava girando, um caleidoscópio de memórias estilhaçadas. Lembrei-me de uma vez, há muito tempo, quando um grupo de garotos mais velhos me encurralou em um beco, ameaçando cortar minhas pinturas. Breno, então apenas um garoto magricela, apareceu como se do nada. Ele os atacou, um borrão furioso de membros, recebendo golpe após golpe, seu rosto uma máscara de determinação. Ele rugiu: "Toquem nela de novo, e eu mato vocês!" Ele não se importava com as chances; ele só se importava em me proteger. Ele me carregou para casa, seu braço em volta dos meus ombros, sussurrando garantias, seu próprio corpo machucado e sangrando.
Agora, era a mão dele que me atingira. Suas palavras que cortaram mais fundo que qualquer lâmina. Uma frieza profunda me envolveu, me gelando até os ossos, uma frieza que não tinha nada a ver com o ar de inverno lá fora. Ela se infiltrou em meu ser, congelando meu coração, minha esperança.
"Vá em frente, sua mudinha", a voz de Kassandra cortou a névoa, doce, mas cheia de veneno. "Peça desculpas para mim. Curve sua cabeça. Você me deve isso." Ela estava lá, régia e perfeita, sua mão ainda tocando levemente sua bochecha, uma marca vermelha tênue mal visível.
Atordoada, consegui me levantar, meus membros pesados e sem resposta. Virei-me para Kassandra, minha cabeça baixa, meu corpo tremendo. Fiz um pequeno e patético gesto de desculpa, um apelo silencioso para que este pesadelo terminasse. Parecia que cada grama da minha dignidade estava sendo sistematicamente arrancada.
Saí cambaleando da sala, minhas pernas mal me sustentando, e me tranquei no meu quarto. Caí no chão, minha bochecha pulsando, meu pescoço doendo. Uma onda de arrependimento me invadiu. Por que eu não lutei mais? Por que não gritei, mesmo que um grito silencioso? Talvez se eu tivesse mostrado a ele mais raiva, mais força, ele teria... o quê? Ido embora mais cedo? Me ignorado completamente? Uma parte de mim, uma parte pequena e sombria, desejava ter sido mais forte, desejava tê-lo afastado eu mesma.
Nos dias seguintes, recusei-me a sair do meu quarto. Quando Breno deixava pratos de comida do lado de fora da minha porta, eu esperava até que ele fosse embora, então jogava as refeições intocadas no lixo. Cada prato descartado era um desafio silencioso, uma recusa em aceitar suas oferendas vazias. Passei minhas horas de vigília curvada sobre o tablet, forçando-me a me concentrar nos exercícios de leitura labial. Cada palavra, cada movimento silencioso dos lábios da mulher, era um degrau para longe dele, uma tentativa desesperada de construir uma ponte para um futuro onde eu não precisaria de sua voz, sua proteção, seu amor condicional.
O inverno se aprofundou. A neve caiu, cobrindo o cais com um branco imaculado e enganoso. O ar crepitava com uma falsa alegria. A família de Kassandra, os Medeiros, era conhecida por suas extravagantes celebrações de inverno. Eu podia ouvir os acordes fracos de música, as risadas distantes, o estourar de rolhas de champanhe de sua grande propriedade na mesma rua. Era tudo um contraste gritante com o silêncio desolado do meu quarto, o vazio arrepiante em meu coração.
No dia da grande festa de noivado dos Medeiros, a curiosidade, ou talvez um fascínio mórbido, me tirou do meu quarto. Vestida com minhas roupas mais simples e escuras, saí do apartamento, uma sombra silenciosa se misturando à penumbra do início da noite. Contornei as bordas de sua vasta propriedade, encontrando um ponto de observação onde eu podia ver os convidados chegando, as luzes brilhando da mansão imponente.
Então, uma comoção repentina. Um grito agudo. As portas se abriram e uma empregada saiu correndo, seu rosto pálido de terror. "O vestido! Oh, o vestido! Está arruinado!" ela lamentou, sua voz ecoando no ar fresco da noite.
Outra empregada se juntou a ela, ofegante: "O vestido de Sua Senhoria! Aquele de Paris! Está rasgado, sujo! Quem poderia ter feito uma coisa dessas?"
Minha respiração ficou presa na garganta. O vestido de noivado de Kassandra. Um símbolo de seu poder, de sua reivindicação sobre Breno. Os sussurros frenéticos das empregadas pintavam um quadro de dano irreparável.
De repente, todos os olhos se voltaram para mim. Fiquei congelada, pega pelo feixe de uma luz de segurança, uma figura solitária e escura na beira das festividades. Meu coração batia forte contra minhas costelas. Não. Não.
Balancei a cabeça freneticamente, minhas mãos se erguendo em um gesto silencioso de negação. Não fui eu! Minha garganta queimava com as palavras não ditas, a necessidade desesperada de explicar.
"Deve ter sido ela!" uma empregada gritou, apontando um dedo trêmulo para mim. "A garota muda! Ela está sempre à espreita, uma bruxinha ciumenta!"
Outra interveio: "Ela foi vista perto do camarim mais cedo! Ela provavelmente entrou sorrateiramente!"
Mentiras. Tudo mentiras. Eu não estava perto da casa, tinha acabado de chegar. Mas meu silêncio era minha maldição. Eu não podia me defender.
Então, Breno apareceu. Ele saiu da casa, seus olhos percorrendo a cena caótica, finalmente pousando em mim. Sua expressão era uma mistura de decepção e fúria, me gelando até a alma. Ele acreditou neles. Ele já acreditava neles.
Tentei fazer sinais, minhas mãos um borrão frenético: "Eu não fiz isso! Eu juro!"
Kassandra deslizou para fora, uma imagem de angústia aristocrática, seu belo rosto marcado por uma única lágrima perfeitamente colocada. Ela olhou para mim, depois de volta para Breno, sua voz um sussurro suave, quase piedoso. "Oh, Breno, não seja tão duro com ela. Ela está apenas... chateada. Talvez ela precise de uma mão mais firme." Seus olhos, no entanto, continham um brilho frio e calculista direcionado unicamente a mim.
Então, o pai de Kassandra, um homem formidável com olhos de aço, deu um passo à frente. Ele não disse nada, mas seu olhar era um peso pesado, me pressionando para baixo. Ele era a lei aqui.
Uma mão cruel me empurrou por trás, me fazendo cair de joelhos no chão gelado. O cascalho áspero cortou minha pele, mas eu mal registrei a dor. Meu olhar estava fixo em Breno.
Ele deu um passo à frente, sua voz cortando o ar festivo como um chicote. "De acordo com a tradição da família Medeiros", ele anunciou, sua voz desprovida de emoção, "qualquer ato de sabotagem contra a família, especialmente em um dia de celebração, é recebido com... um castigo público." Ele olhou para mim, seus olhos frios e duros. "Você será punida, Alina."
Meu mundo ficou em silêncio. Ele ia me punir. Ele.
Uma empregada empurrou um chicote longo e fino em sua mão. Parecia impossivelmente pesado, impossivelmente real. A multidão ao nosso redor, uma mistura de convidados e funcionários, começou a aplaudir, um murmúrio sedento de sangue. "Dê uma lição nela, Breno!" "Ela merece!"
Ele caminhou em minha direção, cada passo deliberado, seu rosto uma máscara de fúria justa. Meus olhos, arregalados de terror, suplicavam a ele. Por favor, Breno. Não faça isso. Não você.
A primeira chicotada cortou minhas costas, uma linha de fogo ardente. Eu ofeguei, um som silencioso e gutural, meu corpo se arqueando em agonia. O ar gelado queimava contra minha pele recém-ferida. Outra chicotada. E outra. Cada golpe ecoava não apenas em minha carne, mas no fundo de minha alma. Não era a dor física que ameaçava me quebrar, embora fosse imensa. Era a traição absoluta e esmagadora. Era a mão dele, a raiva dele, sua fria indiferença.
Meu peito se contraiu, um peso esmagador pressionando meus pulmões. Eu não conseguia respirar. Eu não conseguia gritar. Minha garganta estava travada, minha voz presa.
Ele sente alguma coisa? Eu me perguntei, minha mente divagando, uma pergunta desesperada e silenciosa. Ele sente sequer um lampejo de dor, de arrependimento, pelo que está fazendo comigo?
Enquanto minha visão turvava, ameaçando me engolir na escuridão, tive um último vislumbre. Breno, seu rosto ainda sombrio, mas agora, Kassandra estava em seus braços, a cabeça dela descansando em seu ombro, um olhar de satisfação presunçosa em seu rosto. Ele a estava segurando, confortando-a, enquanto eu jazia quebrada e sangrando a seus pés.