Capa do Romance O Arqueiro

O Arqueiro

9.0 / 10.0
Geraldo Jordão Pereira iniciou sua trajetória literária ao lado do pai na José Olympio. Em 1976, criou a Salamandra para o público infantil e, mais tarde, fundou a Sextante após o sucesso de Brian Weiss. Visionário, ele antecipou o fenômeno de O Código Da Vinci no Brasil. Além dos livros, dedicou-se com paixão a projetos sociais. A Editora Arqueiro homenageia seu legado, unindo o idealismo de Geraldo ao compromisso de tornar grandes histórias acessíveis a todos os leitores.

O Arqueiro Capítulo 1

onsulta com a Dra. Barbee. Almoço com Lily. Pegar a roupa na lavanderia. Passar no hospital

Cpara dar um beijo em Mickey. Eu estava deitada na mesa de exames, congelando, contando meus

compromissos do dia nos dedos enquanto aguardava. Charlotte Barbee dissera que voltaria logo para

terminar o exame, mas vários minutos tinham se passado. Contei nos dedos de novo. Almoço.

Lavanderia. Mickey. Havia alguma outra coisa, mas não consegui me lembrar o quê. Na verdade, não

conseguia ir além de Mickey. Fazia seis dias que ele estava lá – mas, é claro, muitos dias antes ele já

não era realmente o Mickey. Hoje de manhã, porém, ele me pareceu ótimo, quase o mesmo de

sempre.

Charlotte entrou apressada, pedindo desculpas.

– Droga de plano de saúde! Eles acham que não tenho mais o que fazer... – Ela bufou e depois

suspirou. – Onde estávamos, Lucy?

Num instante voltei à posição anterior, os pés descalços apoiados com firmeza nos estribos de

metal da mesa ginecológica, congelados como o restante do meu corpo.

– Por que todo esse frio aqui dentro, Charlotte? Isso é maldade.

Ela não respondeu, então levantei a cabeça do travesseiro e vi seu rosto entre meus joelhos

dobrados. Ela estava ajustando um par de afastadores para ter uma visão melhor daquilo que, na

minha opinião, jamais deveria ser visto.

– Então, como vai Mickey esta semana? – indagou Charlotte, ignorando meu comentário sobre a

temperatura.

– Melhor do que na semana passada – respondi, retesando-me em reação ao seu toque.

– Ele continua no hospital?

– Continua. Mas vai poder ir para casa na sexta, se estiver bem. E espero que esteja!

Charlotte Barbee abriu seu sorriso compreensivo.

– Há quanto tempo vocês estão casados?

– Quase onze anos.

– Não pode ser. Como o tempo passou tão depressa? Agora respire fundo.

Respirar fundo me fez tossir e então me lembrei: comprar pastilhas para a tosse.

Aquele era o meu checkup anual e Charlotte Barbee não podia ser mais meticulosa. Sabia o que

procurar e, se encontrasse alguma coisa, eu veria em seu rosto – como vira antes. Para um

observador desinformado, talvez parecesse apenas um exame de rotina comum, mas a verdade era

mais complicada. Eu estava sendo virada do avesso em busca de uma recorrência do câncer. Tivera

o primeiro episódio da doença sete anos antes, aos 26. A patologia me situava não na coluna das

mulheres adultas saudáveis, mas na coluna mais delicada das sobreviventes de câncer – quer dizer,

pelo menos até eu ter completado cinco anos sem recidivas. Respiro com mais facilidade agora que

estou na coluna saudável com minhas duas irmãs. O mesmo câncer que levou nossa mãe e nossa avó

ameaça também Lily, Priscilla e a mim. Com esses genes instáveis correndo em nosso sangue, somos

todas muito vigilantes, sobretudo a Dra. Barbee, em quem depositamos nossa confiança.

Lily se ofereceu para ir à consulta comigo, para me dar apoio moral, mas, honestamente, esses

checkups são mais difíceis para minha irmã do que para mim, por isso dispensei sua generosidade.

Lily é a mais preocupada de nós três, e seu maior medo é me ver adoecer de novo. Hoje em dia,

quando se trata de exames médicos, ela se prepara para o pior, rezando o tempo todo para ouvir as

palavras mágicas da boca de Charlote: está tudo ótimo. Essa declaração equivale a ganhar na loteria

e, até ouvi-la, Lily tem a convicção de que uma preocupação dedicada é a garantia de um bom

resultado.

Quanto a mim, só espero ter mais tempo. Durante cinco anos me dei por feliz de receber a vida em

porções semestrais, pelas quais eu agradecia e comemorava como se tivesse passado a perna no

destino. Agora, se eu for considerada saudável nos checkups anuais, terei direito a nacos maiores de

tempo. Hoje é o meu segundo checkup anual, e devo dizer que doze meses dão de dez em seis. Ainda

assim, minha rotina é a mesma – recebo a boa notícia, agradeço a Deus e sigo em frente com a minha

vida. Mas só até chegar a hora de me preparar para a consulta seguinte e pesar mais uma vez as

estatísticas, que são desoladoras. Ao voltar, o câncer costuma se mostrar vingativo. Se sinto o medo

me dominar, o que acontece de vez em quando, eu o espanto com as palavras que ouvi do meu pai há

muito tempo.

Às vezes me pergunto se ele fazia ideia de que eu levaria sua sabedoria tão a sério. Mas, por causa

dela, a morte, no fim das contas, não me apavora. De estar morrendo, porém, não posso dizer o

mesmo. Já passei por isso antes e não me saí bem. Observar as pessoas que amo, o pavor nos olhos

de Mickey... Agradeço a Deus todos os dias por termos superado isso, pois descobri que sou muito

melhor em deixar partir do que em aceitar que me deixem partir.

– Preciso só de uma amostra de urina e você está liberada – disse Charlotte, trazendo-me de volta

ao presente.

– Então, está tudo bem comigo?

Pousando as duas mãos fortes e habilidosas em meus ombros, ela cravou os olhos nos meus:

– Vamos mandar todas as suas amostras para o laboratório e eles me ligarão dizendo que você está

ótima.

– Eu sabia. Quer dizer que não devo me preocupar com o cansaço?

– Lucy, eu estou cansada. Cansaço não é privilégio seu – queixou-se ela.

– E essa coceira na garganta?

– Abra a boca. – Ela me examinou com o auxílio de um abaixador de língua. – Não vejo nada que

me preocupe aqui. Há quanto tempo você está tossindo?

– Não sei. Alguns dias, acho.

– Vou colher uma amostra para ver se não há estreptococos, só para garantir.

– Você é uma médica maravilhosa – comentei, depois de quase me engasgar enquanto ela colhia a

amostra para o exame.

– Tento ser. – Ela pôs a amostra num pequeno frasco de plástico e sorriu para mim. – Tudo certo.

Agora vista essa camisola e vá fazer a mamografia.

– Maravilha – falei, com sarcasmo.

Ter meus pequenos seios imprensados no mamógrafo e examinados em busca de mudanças

microscópicas era a pior parte dessa provação. O câncer começa numa única célula, que recruta as

células à sua volta para a rebelião e depois sai vandalizando a vizinhança. Uma vez detectados

pontinhos numa mamografia, o dano já teve início. Charlotte ergueu meu queixo com o dedo e me

olhou como se lesse meus pensamentos.

– Lucy, eu ligarei se precisarmos conversar, mas não estou preocupada. Então não se assuste se eu

telefonar só para bater papo.

Assenti.

– Certo. Ótimo. Vamos jantar na semana que vem.

Do outro lado do corredor, forcei-me a conversar com Aretha enquanto ela manipulava meus seios

como se fossem massa de pão. Ela é a única técnica em mamografia de Brinley, por isso deve

conhecer os peitos da nossa pequena comunidade melhor do que suas donas. É uma mulher alta,

atlética e totalmente profissional. Fico imaginando o que ela deve pensar quando nos vê fora da

clínica, tocando nossas vidinhas cotidianas. Será que reconhece nossos peitos antes de registrar

nosso rosto?

Gosto de Aretha. Seu filho, Bennion, foi meu aluno de história e eu sabia que ela monitorava seus

deveres de casa. Pensei em lhe agradecer por isso, mas, como já falei, ela é o profissionalismo em

pessoa. Desde que comecei a fazer esses exames, Aretha nunca me disse nada até terminar seu

trabalho, e hoje não era uma exceção.

– Prontinho, Lucy. É sempre um prazer ver você. Benny adorava suas aulas.

– Ele é um bom aluno. Você deve ficar orgulhosa.

– Fico, sim.

Vesti-me e comecei a escovar meu cabelo comprido. Perdi um pouco a noção do que fazia, olhando

pelo espelho à procura dela. Preciso fazer isso em todos os checkups – é parte do ritual. Procuro

sinais de que a Morte esteja à espreita num canto, no espelho, de pé atrás de mim, ou flutuando em

torno do meu campo de visão. Mas não há nada, o que é muito reconfortante – ainda mais com as

palavras mágicas da Dra. Barbee.

Depois de pronta, fui a pé até o Damian’s, onde combinei de me encontrar com Lily para almoçar.

A caminhada, com o sol e a brisa morna no meu rosto, foi uma delícia. Adoro morar aqui. Brinley,

Connecticut, é uma cidadezinha onde se pode chegar a praticamente qualquer lugar em menos de

quinze minutos a pé. Do ancoradouro até “o centrinho” – a versão local de uma praça municipal –

são pouco mais de três quilômetros, e as ruas paralelas que formam nossos bairros se estendem

apenas por mais um quilômetro e meio de cada lado. Connecticut é cheio de história e charme, mas,

para mim, Brinley é o melhor de tudo: bairros antigos e respeitáveis, ruas arborizadas, aquela

política que é exclusividade de cidades pequenas, com reuniões de emergência no centrinho para

discutir o problema do cocô dos cachorros ou a necessidade de regulamentar a forma como são

enroladas as mangueiras.

Havia um monte de gente na rua e ninguém parecia muito apressado para chegar a algum lugar. Mas

talvez isso fosse apenas porque eu não tinha que ir a lugar nenhum, depois do início das férias

escolares e de ter corrigido 170 provas finais.

Vi minha vizinha Diana Dunleavy levando a neta, Millicent, para a aula de balé. A garotinha

rechonchuda fazia piruetas ao passar pelo mercadinho Mosely’s em seu tutu rosa-shocking. Diana

acenou para mim.

– Millie herdou todo esse talento de mim, sabia? – gritou ela do outro lado da rua.

Caí na gargalhada ao ver a menina dar uma trombada em Deloy Rosenberg, que vinha saindo da

Sandwich Shoppe com uma refeição para viagem. Ele deixou cair a bandeja de papel, virando um

dos sacos, mas aparentemente sem grandes danos. Ainda assim, Millie escondeu o rosto enrubescido

nas dobras da saia de Diana até que o chefe de polícia de Brinley desistiu de acalmá-la e se afastou

com seu almoço. Toda vez que encontro Deloy de uniforme lembro-me do meu pai.

Avistei Lily e Jan do outro lado da rua, então atravessei em zigue-zague para alcançá-las. Jan Bates,

nossa vizinha de porta, acabou virando sogra de Lily, exatamente como eu previra na infância. O que

eu não sabia na época era que Jan se tornaria uma verdadeira mãe para mim também.

Oscar Levine martelava uma placa no portão do nosso pequeno parque quando me viu. O

homenzinho ossudo largou o martelo e gritou:

– Lucy, você vem à Festa da Savelha no sábado, certo?

– Claro que ela vem, Oscar – respondeu Lily por mim.

Jan me deu um rápido abraço e sussurrou em meu ouvido:

– Diga que sim e pronto.

– Eu não perderia a festa por nada – respondi a Oscar. – Mickey já vai estar em casa até lá e

também vem comigo.

– Beleza!

A Festa da Savelha é um ritual de primavera que acontece em todo o vale do rio Connecticut, mas

nós, moradores de Brinley, seguimos a tradição à risca. Prestamos homenagem aos peixes

supostamente ameaçados pregando-os em pranchas de carvalho em volta de uma fogueira e depois

nos empanturrando com eles. Essa é apenas uma das muitas coisas que me fazem adorar morar em

Brinley.

– Bem, preciso ir ensinar garotinhos a plantar pinheiros – disse Jan, rindo. – Não se metam em

encrenca, meninas – recomendou, dando um beijinho em cada uma de nós antes de seguir seu

caminho.

Minha irmã então se virou para mim com um sorriso grande demais que não conseguia esconder sua

ansiedade.

– E aí, como foi? – perguntou, enlaçando meu braço no dela.

– Estou ótima. Charlotte não viu nada de preocupante. E Aretha disse que meus peitos estão

fantásticos.

– É, posso ouvi-la dizendo isso.

– Na verdade, falou que estão mais bonitos que os seus.

Lily riu.

– Bom, agora sei que você está mentindo. – Minha irmã é linda, tem cabelo louro e curto, pele clara

como a de nossa mãe e, ao sol, é quase translúcida. – Então está tudo bem? – perguntou, ficando

séria.

– Tudo bem – garanti, com uma leve tossida.

Ela se inclinou, encostando a cabeça na minha, e senti um tremor de alívio em seu corpo.

– Mentirosa.

– O quê?

– Sei que é cedo demais para ter certeza.

– Talvez, mas Charlotte não me pareceu nem um pouco preocupada. Por isso também não estou.

Lily me fitou nos olhos como se buscasse uma verdade escondida. Sempre fez isso.

– Estou ótima, Lil. Sinto que estou.

Ela assentiu, mas não desviou os olhos de mim.

– Ainda bem, porque... Você sabe, Lucy, que eu me recuso a enterrá-la.

– Sei – falei, apertando sua mão.

Na esquina, George Thompson, o único florista da cidade, carregava o porta-malas de um Cadillac

com mudas de flores primaveris. Ele resmungou um cumprimento indefinido para nós enquanto

arrumava os botões, contorcendo o rosto numa careta.

– Como vai Trilby, George? – perguntou minha irmã ao nos aproximarmos. – Ela melhorou?

– Não. E anda muito ranzinza. Sabe-se lá por quê, a culpa é minha por ela ter quebrado o pé. Não

fui eu que cismei de fazer “jazznástica”, caramba. Pare de rir, Lucy! Não tem a menor graça!

Lily me cutucou com o ombro e disse a George:

– Olhe só, diga a Trilby que o espelho antigo que ela encomendou já chegou. Ela pode passar para

pegar quando estiver melhor.

George parou o que estava fazendo e se empertigou. Aparentemente não sabia nada sobre um

espelho antigo. A situação parecia que ia azedar, mas Muriel Piper nos poupou do constrangimento.

– Oi, meus amores! – cacarejou. – Que dia lindo, não? Estou enlouquecendo com essas flores.

Ela deu uma gargalhada gostosa e rouca. Muriel é uma matriarca de Brinley, à beira dos 90 anos,

embora jamais admita a idade. Estava de calça jeans, um moletom com capuz e brincos de brilhantes

tão pesados que puxavam os lóbulos de suas orelhas para baixo – um modelito informal de

jardinagem, com certeza.

Muriel me apertou num abraço cuja força contradizia sua idade.

– Lucy, você está magra demais. Quero que vá lá em casa, que vou cozinhar para você. Nunca se

cuida direito quando Mickey não está bem.

– Ele vai voltar para casa na sexta-feira. E estou me alimentando muito bem.

– Só na sexta? Ele vai perder a cerimônia fúnebre de Celia amanhã.

Concordei.

– Bem, apareça com Mickey no fim de semana para eu dar um abraço nele. Adoro aquele menino. –

Então se virou para Lily. – E o seu também! Será que é possível ser mais bonito? Minha nossa!

– Vou contar a ele que você disse isso, Muriel.

– Não se atreva! Eu ficaria com vergonha! É melhor eu ir. Essas flores não vão se plantar sozinhas.

Muriel acenou para nós e arrancou com o carro, o porta-malas abarrotado de petúnias e gérberas.

Meu celular tocou no bolso e o atendi.

– Oi, Priss.

– Está tudo bem? – perguntou minha irmã mais velha, sem rodeios.

– Charlotte falou que pareço estar ótima, mas que vai ligar se os exames mostrarem algum

problema.

– Ok. Vou entrar numa reunião. Me ligue mais tarde. Quero saber de todos os detalhes. – E então

desligou.

Guardei o celular e olhei para Lily.

– Não é de espantar que ela seja uma grande advogada.

– Ela só queria saber se você está bem – disse Lily, fazendo pouco caso. – E aí? – emendou,

enquanto entrávamos no restaurante. – Mickey vai voltar para casa na sexta. Ele sabia da sua consulta

de hoje?

Balancei a cabeça, negando.

– Ele está se recuperando. Não quis falar nada até ter todas as notícias boas para dar junto.

– Você é uma boa esposa, Lu. Mic tem sorte de ter você.

Dei de ombros, dispensando o elogio e pensando que na verdade era o contrário. Depois de tudo o

que passamos, sei que hoje amo Mickey Chandler mais do que no dia em que nos casamos.

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