Capítulo 2

dois

REGISTRAR = PROCESSAR = ENTENDER

7 DE JUNHO DE 2011 – PARA A SESSÃO COM GLEASON

Levei quase uma semana para sair do buraco desta vez, mas ao menos não me deixei afundar

totalmente. Sabia que estava encrencado, equilibrando-me na beira do abismo e mais uma vez

achando que seria capaz de dar um salto e voar – ganhar altitude e pairar sobre o precipício

que eu tinha consciência de que iria me engolir. Isso já aconteceu antes, mas felizmente não

agora.

Esta é a minha vida: o tempo todo me aproximando e me afastando da beira de um buraco que

ora me fascina, ora me apavora – um buraco cheio de qualquer coisa que a minha imaginação

dite no momento. É imperativo que eu me mantenha distante, mas quanto mais perto chego,

melhor me sinto. Ou pior. E essa é a ironia ridícula, porque sou compulsivamente atraído para

esse perigo e, quanto mais perto chego, mais perto quero chegar. Essas profundezas

representam uma fuga inimaginável – às vezes pura euforia, outras vezes, uma dor tão intensa

que não consigo nem começar a descrever. Seja como for, a beira do abismo me chama com

suas mentiras que soam como promessas. Mentiras doces, sedutoras, às quais nem sempre

consigo resistir.

Os remédios ajudam. Assim como a terapia. Minha força de vontade também ajuda, quando

consigo encontrá-la. Assim como meu intelecto, que, por incrível que pareça, não está

amarrado às outras funções do meu cérebro deficiente. Tenho o conhecimento mais profundo

que a experiência pessoal é capaz de proporcionar. Em meio a tudo isso, quase sempre sei o

que está acontecendo comigo, mesmo que às vezes me sinta distante, como um espectador.

Ainda assim, tento pôr em prática uma das muitas estratégias destinadas a evitar que eu seja

engolido. Nem sempre funciona.

Minha maior influência é minha esposa. Graças a ela estou decidido a manter uma boa

distância do precipício, mesmo que nem sempre eu consiga. Às vezes, como quando ela ficou

doente, o precipício vem até mim. Às vezes, isso acontece sem motivo algum. O abismo cresce

de forma inexplicável, mesmo que eu corra dele para salvar a vida, até ficar sem chão sob meus

pés e me ver perdido outra vez. Por mais que eu me esforce, é em vão.

Para muita gente, esse abismo não existe, mas ele é uma ameaça real para quem sofre de

transtorno bipolar. Sei que pareço um dependente químico, mas nenhuma droga causa a mesma

sensação que a loucura quando está prestes a nos dominar, nem o desespero que vem

imediatamente após você ter cedido a ela.

7 DE JUNHO – MAIS TARDE

Reli a última coisa que escrevi no diário procurando identificar alguma merda reveladora

capaz de levar meu psiquiatra, Gleason Webb, a torcer o nariz e me mandar refazer tudo. Mas

não vi nenhum trecho em que eu possa ter extrapolado. Aquele ali sou eu, sim, e acho que

descrevi a situação bastante bem para um pirado.

Eu estava esperando Lucy na escadaria da frente desta clínica que às vezes parecia ser o meu

lar longe de casa. Estava tendo um bom dia, interna e externamente. Podia sentir meu eu

estável emergindo aos poucos, porém com confiança. Eu tinha que admitir que sentira falta

desse cara. Ele me deixa satisfeito. Não é lá muito excitante, mas é cômodo e seguro, e posso

contar com ele para pensar com clareza.

Consultei o relógio e me perguntei onde estaria Lucy – a essa altura já deveria ter chegado.

Levantei-me e comecei a andar de um lado para outro, mas logo tornei a me sentar. Ela

chegaria quando chegasse, não havia motivo para ficar nervoso. Sorri porque de repente me

dei conta de que os remédios tinham funcionado. Eu era capaz de argumentar comigo mesmo e

isso me alegrou... O milagre dos psicotrópicos. Lucy ficaria feliz – ela gostava mais do Cara

Estável do que de mim, o que não era propriamente verdade. Lucy me amava – mesmo com

parafusos soltos, peças sobressalentes e partes danificadas. Ela amava o pacote todo – dizia

que devia ser assim ou não faria sentido me amar. Jurou, faz uma eternidade, que isso era

verdade e fez jus a esse juramento. Quem teria acreditado nisso? Essa mulher ainda me

fascina, sobretudo em momentos como este, quando saio do buraco com o cérebro embotado e a

primeira coisa que consigo enxergar com nitidez é o seu amor. Todo ser humano que não bate

bem deveria ter a mesma sorte.

Mickey estava esperando por mim sentado na escada do Edgemont Hospital. De calça jeans e

camiseta cinza, não lembrava em nada um paciente. Assim que atravessei a rua e ele me viu, seu

rosto se iluminou e tive vontade de rir. Ele parecia tão bem, tão saudável. Os ombros largos e as

pernas compridas são sua marca registrada. Mas o sorriso é o que mede sua sanidade e, daquela

distância, ele parecia perfeitamente bem. Mickey ficou de pé e empurrou os óculos escuros para o

alto da cabeça, onde o cabelo escuro continuava farto, a mecha prateada caindo sobre a testa do

mesmo modo como quando o conheci. Caminhou ao meu encontro com um sorriso tímido e, ao chegar

perto, me envolveu num longo abraço apertado – mas não apertado demais, o que era um bom sinal.

Cheguei a pensar que dava para ver o meu Mickey ali dentro, naqueles olhos escuros que poucos dias

antes tinham uma expressão insana e desfocada.

– Como você está? – perguntei.

Mickey se afastou e passou a mão no meu cabelo.

– Melhor, Lu. Estive com Gleason hoje de manhã. Ele confirmou que posso ir para casa na sexta.

Dei um beijo nele.

– Bom para você. Bom para mim.

– É. – Ele me puxou de novo para seus braços. Aquele era o meu Mickey.

– O que você estava fazendo aqui fora?

– Esperando você. Peony disse que ficaria de vigia.

Ele olhou para cima e segui seu olhar. De fato, a enfermeira de Mickey, Peony Litman, me acenou

da janela do terceiro andar. Tinha no mínimo 70 anos e, fiel à sua formação conservadora, vestia-se

toda de branco e usava touca.

– Ela falou que podemos dar uma volta, se você se responsabilizar por mim.

Olhei para cima e acenei. A enfermeira sorriu e acenou em resposta.

Edgemont é um velho hospital colonial que passou por algumas reformas. Na aparência, continua

feioso e antiquado, mas essa instituição é eficiente o bastante para atender Brinley e New Brinley. O

hospital fica no meio de um terreno impecavelmente cuidado e, nessa tarde amena, havia vários

pacientes ali fora. Fiz Mickey passar o braço em volta do meu ombro e inspirei a suave fragrância de

lilases e lavandas.

– Senti saudade de você, meu bem – disse ele.

– E eu de você.

– Pelo menos não peguei um avião nem roubei nada. Não saí cavucando o jardim...

– Graças a Deus.

Na semana anterior, o humor e a energia de Mickey haviam alçado voo aos poucos, à medida que

ele ajustava a medicação. Este é o problema de Mickey: aliviar os sintomas depressivos com

remédios, Prozac por exemplo, às vezes o leva à hipomania – ele gosta disso, razão pela qual ele não

se dispõe a reverter o quadro, sempre achando que pode controlar essa energia. Dessa vez, porém,

apesar da tentativa de seu médico de tratá-lo como paciente ambulatorial, Mickey não conseguia

dormir. Se não houvesse intervenção, em seguida viria a psicose. Graças a um ajuste na medicação e

alguns dias de internação em Edgemont, ele agora estava próximo do que se considera normal para o

restante do mundo, mas que, para o meu Mickey, está longe disso. Ainda assim, é mais fácil

recuperar-se disso que dos surtos depressivos.

– O que você tem feito? – perguntei.

– Nada de mais. Um bocado de estabilização. Quando fica chato, conto as papadas de Peony.

– Não implique com ela. É um trabalho duro cuidar de você. Jared apareceu por aqui?

– Duas vezes. Ele teve notícias do arquiteto e quis me mostrar alguns projetos. São bons. Acho que

vamos derrubar aquela parede do fundo para abrir espaço para mais mesas.

Mickey e o sócio vinham falando sobre essa expansão da casa noturna desde o ano anterior. Seria

ótimo ver algo finalmente acontecer.

Ele olhou para mim.

– Preciso lhe contar uma coisa, Lu.

Parei. Essas palavras costumavam ser um prelúdio à catástrofe, por isso me preparei. Será que ele

havia comprado outro ônibus no eBay, contratado mais imigrantes para pintar a nossa casa ou pegado

emprestada uma cabra para comer nossa grama?

– Estou ouvindo – falei.

– Não é nada ruim. É só que há uns quatro meses, Lucy, eu... Eu estava bem, então comprei uma

passagem para nós num cruzeiro.

Fitei-o com uma expressão séria.

– Num cruzeiro?

– Queria lhe fazer uma surpresa.

– Ok, estou surpresa. Quando viajamos?

– Bom, devíamos ter viajado na quinta-feira, seu último dia de aulas.

– Ah... – suspirei. – Seria divertido. Por que não me contou?

– Eu ia contar, mas queria que fosse surpresa.

– Que amor.

– Estou pedindo reembolso. Talvez consiga metade do dinheiro, porque foi uma internação de

emergência. Sinto muito, meu bem.

– Eu também! Dá para imaginar? Sexo na praia à meia-noite. Nós dois nadando nus no mar... Acho

que preferia que você não tivesse me contado.

– Sexo na praia?

– Sexo na praia, Michael. E muito.

Mickey abriu um sorriso – meu marido estava deslumbrante e com uma expressão espantosamente

normal.

– Que tal irmos para o Havaí no seu aniversário, em setembro?

– Hummm.

– Sério. Vamos. Isso vai me manter bem.

Não posso dizer quantas vezes esse mesmo plano não deu certo – talvez nem sejam tantas quanto eu

imagino, já que aprendemos a não planejar demais. Mesmo assim a ideia do Havaí me pareceu

fabulosa. Beijei o queixo dele.

– Lucy, juro que vou fazer dar certo.

– Tenho uma sugestão – falei. – Juntamos o dinheiro, fazemos as reservas, eu compro o biquíni.

Daqui a três meses, no meu aniversário, com ou sem você, eu vou para o Havaí.

– Ah, eu irei também. Você não vai sem mim.

– Sei disso, mas só por garantia... Você vai ter que cumprir a promessa.

Ele passou o braço em volta de mim e continuamos a passear, sonhando e fazendo planos, até os

remédios deixarem a boca de Mickey seca demais para falar. Quando voltamos à Unidade

Psiquiátrica no terceiro andar, Peony estava de prontidão para nos deixar entrar.

– Lucy! Que bom ver você, meu bem. Como vai?

– Nada mal.

– Já começaram as férias de verão na escola?

– Sim. Como isso é bom!

A velha enfermeira estalou a língua.

– Todo mundo acha que meu trabalho é difícil, mas eu não trabalharia com adolescentes nem pelo

dobro do que ganho.

Sorri. Eu sentia a mesma coisa com relação ao trabalho dela. Peony entregou a Mickey os

comprimidos e um copinho descartável com água e o observou tomá-los. Depois que ele engoliu, ela

examinou sua boca e debaixo da língua. Esse pequeno gesto invasivo sempre me surpreendia. Na

nossa vida normal, Mickey era um empresário brilhante, divertido, bem-sucedido. Um bom amigo e

ótimo de papo. O cara que preparava o jantar se chegasse em casa antes de mim e que resmungava

quando eu lhe pedia que desse um pulo no Mosely para comprar absorventes. Que fazia rodízio nos

meus pneus e pagava a conta de luz. O cara ao qual eu ainda não conseguia resistir quando saía do

banho. E que também era esse cara aí, que de vez em quando se desviava do rumo cuidadosamente

mantido, a ponto de Peony precisar checar se não havia escondido o remédio debaixo da língua.

Apertei sua mão e ele respondeu apertando a minha.

Depois de anos de paciência, perseverança e competência, Gleason – o Dr. Gleason Webb – enfim

chegara a um coquetel eficaz para tratar o transtorno bipolar de Mickey. Medicamentos que meu

marido às vezes abandonava por motivos que tinham sentido apenas para ele, mas que sempre

conduziam a uma reintrodução gradual do coquetel, situação em que nos encontrávamos nesse

momento. É necessário um pequeno punhado de comprimidos diários para manter o equilíbrio do

meu marido: um estabilizador de humor, em geral litium, às vezes Depakote, com frequência ambos;

vez por outra Risperdal, para impedi-lo de ouvir vozes; Neurontin, para que não tenha convulsões –

efeito colateral do Risperdal; Mantidan, para os sintomas semelhantes aos do Parkinson que podem

ser provocados pelo uso do Depakote; Propranolol para os tremores e Benadryl para a rigidez

muscular causada por eles; Rivotril para a ansiedade e Stilnox para ajudá-lo a dormir. Sem contar os

antidepressivos acrescentados quando necessário. Tudo isso funciona como mágica para normalizar

o comportamento, o humor e as reações de Mickey, mas depende de ele tomar o que lhe é prescrito e

nas horas certas, o que costuma ser uma loteria.

Esta é a música de fundo da nossa vida: Mickey está tomando os remédios? Se eu fosse outro tipo

de esposa, daquelas que contam os comprimidos, e observasse Mickey engoli-los, como faz sua

enfermeira, a resposta seria um sim retumbante. Mas nunca consegui me imaginar tirando dele essa

responsabilidade, essa dignidade, por isso nunca o encorajei a depender de mim. Na saúde ou na

doença, eu gostava dele com autonomia, não dependente. Isso não significa que eu não fique de olho

nele nem que deixe de cuidar da situação durante os surtos. É isso que se faz quando se ama alguém

como Mickey. Não estou reclamando. Fui informada de como seria esse tipo de vida. Tive dezenas

de oportunidades de mudar de ideia. A verdade é que acho que amei Mickey desde o momento em

que o vi. Graças a Deus, porque agora não consigo me imaginar amando – ou sendo amada por –

outra pessoa. Apesar dos reveses (e de um cruzeiro cancelado), sei que escolheria Mickey de novo.

Capítulo 3

três

8 DE SETEMBRO DE 1998

Ela me deu o número do telefone e, embora eu soubesse que jamais ligaria, decorei-o mesmo

assim. Não pude evitar. Ninguém me via como ela. Tenho certeza de que isso soa estranho, mas

olhar para mim e me ver são duas coisas muito diferentes. E eu conheço a diferença, já que fui

olhado por mulheres – e não poucos homens – durante a maior parte da minha vida adulta.

Lucy, porém, parecia me ver não sob o prisma da atração de uma mocinha, mas sob uma luz

muito mais generosa, crua e reveladora. Para começar, ela me desarmou por completo quando

eu flertava com sua irmã, que, devo confessar, era muito bonita – loura, inteligente e muito

interessante, apesar de definitivamente não fazer o meu tipo. Mas eu estava me divertindo e

aproveitando sua companhia enquanto as pessoas chegavam à minha casa noturna para uma

festa de aniversário. Então, essa garota – ela era apenas uma garota – entrou, e o clima mudou

na mesma hora. Para melhor. Todo mundo a conhecia e sem dúvida a adorava. Sei que é clichê,

mas não consegui tirar os olhos dela enquanto ela circulava pelo salão. Abraçava todo mundo e

ria com todos. Vestia um suéter preto justo, uma saia curta e botas – e, em matéria de beleza,

era exatamente o meu tipo. Achei que talvez ela tivesse me flagrado olhando-a, porque quando

enfim se aproximou de nós, fiquei meio ansioso. Porém não era comigo que ela queria falar,

mas com a moça que eu estava paquerando, e quase desmoronei ao descobrir que as duas eram

irmãs. Ela sorriu para mim de um jeito ostensivamente aprovador e disse que se chamava Lucy

Houston. O nome lhe caía como uma luva. Mais baixa que a irmã, ela tinha um incrível cabelo

castanho que logo desejei tocar. Priscilla parecia uma autêntica modelo – muito bem tratada.

Lucy, por sua vez, era mais natural e, acreditem, não precisava de coisa alguma para

embelezá-la: tinha a pele clara, grandes olhos verdes, o nariz pequeno e arrebitado, lábios

carnudos e beijáveis. Acrescente a tudo isso o fato de ela dar a impressão de ser muito legal e

Lucy Houston se torna praticamente irresistível.

Descobri, afinal, que estávamos comemorando seu 21o aniversário – jovem demais para os

meus 29 anos. Porém algo aconteceu quando ela subiu no palco comigo. Eu só estava tentando

fazer meu número, contar algumas piadas, arrancar umas gargalhadas, aquela coisa de

sempre. Chamei-a para fazer uma rápida figuração e ela não hesitou. Então o restante do

mundo desapareceu e só ficou ela. Não sei o que Lucy fez, mas de alguma forma conseguiu que

eu saísse de trás do personagem que mostrava ao mundo e olhou para quem sou de verdade. E

não titubeou. Quando a beijei, por pura diversão, e ela retribuiu, acho que a reconheci de um

jeito cósmico, como uma parte perdida de mim mesmo que eu não sabia que tinha perdido. Não

sei se esse tipo de coisa acontece com pessoas normais, mas para mim foi irrefutável. E para

alguém situado bem aquém da bendita linha da normalidade, foi chocante a ponto de apavorar.

Fiquei apavorado a ponto de me tornar um imbecil. Aquela garota deslumbrante me deu seu

número de telefone e deixei que ela fosse embora.

Conheci Mickey Chandler em 1998, quando eu estudava na Universidade Northeastern, em Boston.

Lily me convenceu a passar meu aniversário de 21 anos em Brinley, onde organizou uma festa e

convidou todos que conhecíamos. A desculpa para o evento foi o meu aniversário, mas eu sabia que

minha irmã precisava de uma distração. Ela e o marido, Ron, tinham acabado de passar pela

experiência terrível de uma adoção que dera errado.

Achei que a pobrezinha jamais se recuperaria da longa espera por aquele filho precioso, que

chamou de James Harrison Bates, em homenagem ao nosso pai e ao sogro. Todos nos apaixonamos

pelo menino, um garotão saudável e encantador. Então nós o perdemos. A mãe, que tinha 15 anos,

mudou de ideia. A menina – com a mãe, que era uma idiota, e o advogado – simplesmente bateu à

porta de Lily e pediu o filho de volta. O termo jurídico é revogação de adoção e em Nova York, seu

local de origem, a mãe tem 45 dias para ir à justiça cancelar seu consentimento. Ela fizera isso no

último dia do prazo, o que abriu uma ferida profunda no coração de Lily que achei que nunca iria

cicatrizar.

Minha irmã jurou que jamais tentaria de novo. Não dava para culpá-la. Não depois de dois abortos

espontâneos e procedimentos exaustivos para resolver o problema – incompetência istmo-cervical. E

mais uma adoção fracassada. Da primeira vez, a mãe mudara de ideia antes de o bebê nascer e,

apesar de ter sido um golpe para Lily, não doeu tanto quanto a perda de Jamie. Depois dele, o

assunto “bebê” virou tabu. Mais tarde, tornou-se desnecessário – eu jurei jamais ter filhos e Priscilla

se casou com sua carreira, insistindo que não estava interessada em constituir família. Mas na época

em que Lily perdeu esse filho, Ron ficou tão desesperado para curar sua dor que comprou para ela

uma mansão vitoriana dilapidada no centrinho histórico de Brinley, e a loja de antiguidades que os

dois batizaram de Fantasmas no Sótão tornou-se seu filho. O contrato foi assinado na véspera do meu

aniversário de 21 anos, o que fez com que a minha grande festa também fosse uma comemoração para

eles.

Lily fez de tudo para que o meu aniversário fosse fabuloso. Encontrou um lugar para a festa e

contatou o proprietário para transformar a ocasião num grande evento. Convidou todos os meus

amigos e até algumas das minhas mães postiças. Foram várias ao longo dos anos, já que eu tinha

apenas 17 anos quando nossa mãe morreu – e aos olhos das mulheres de Brinley ainda não era adulta.

Três mulheres em especial haviam representado esse papel, e todas estavam no Colby’s na noite da

minha festa – Jan Bates, Lainy Withers e Charlotte Barbee. Das três, era de Jan que eu me sentia mais

próxima. Artista talentosa, certa vez ela pintara um retrato de Lily, Priss e eu com nosso pai e o deu

de surpresa a mamãe sem motivo algum. Jan chegara à imagem do quadro a partir de fotos tiradas

quando éramos muito novas, mas ninguém seria capaz de dizer que nunca havíamos posado para ele.

O quadro ficou pendurado no quarto de minha mãe até ela morrer e agora está em cima da lareira de

Lily. Jan e Harrison Bates eram os amigos mais íntimos dos meus pais e não poderiam ter nos dado

mais carinho e apoio, mesmo se fossem parentes.

Lily me arrancou do abraço de Jan e me envolveu no seu, que retribuí. Minha irmã tinha emagrecido

muito e havia uma tênue linha de sofrimento em torno de seus olhos, mas ela conseguiu esconder tudo

isso, sobretudo ao ouvir Ron cantar “Parabéns para você”, desafinando a ponto de machucar nossos

ouvidos. Priscilla – nossa joia reluzente – se retirara para um canto, onde flertava com um cara

bonito, que dava a impressão de que precisava ser resgatado. Eu me aproximei dos dois e ela abriu

seu sorriso alvo e brilhante. Minha irmã mais velha estava deslumbrante numa calça jeans justa e

uma camiseta mais justa ainda. Flertava como uma cortesã, mas era a rainha dos contrastes. Quem a

visse nesse momento, não diria que vinha obstinadamente galgando os degraus do direito empresarial

e poderia fazer um oponente perder a capacidade de formar frases completas. Priss era casca-grossa

e uma ameaça tripla: bonita, brilhante e determinada. Só que tinha um ponto vulnerável de cuja

existência pouca gente, além de Lily e de mim, sequer suspeitava.

– Oi – falei.

– Oi – respondeu ela, tirando a mão do braço bem torneado do amigo por tempo suficiente para me

dar um abraço. – Feliz aniversário, Lu – sussurrou depressa no meu ouvido.

Em seguida voltou a seu lugar junto ao cara bonito, que agora me encarava.

Sorri.

– Meu nome é Lucy.

Ele se levantou. Era alto, com ombros muito largos e cintura delgada. Eu, ao contrário, sou bem

baixinha, meio moleca e precisei erguer os olhos para encontrar os dele. Ele estendeu a mão, que

apertei.

– Este é... Bom, para ser honesta – disse Priss com um sorriso –, nem sei o seu nome.

– É Mickey.

Ele abriu um sorriso bonito que deixava entrever um encanto extra por mim. Virei-me para Priss e

seu olhar me avisou de que ela o vira primeiro. Uma pena, já que ele era muito interessante. Tinha

um cabelo maravilhoso, escuro e anelado, com uma mecha grisalha que lhe caía na testa e tornava

difícil calcular sua idade. Trinta anos, eu diria. A boca era fantástica e seus belos olhos escuros não

se desviaram de mim um vez sequer enquanto eu o avaliava. Eu bem que podia me acostumar com

isso, pensei. Só que eu jamais disputava homens com Priscilla e não estava disposta a começar

agora. Por isso recolhi minha mão e disse apenas:

– Muito prazer.

Os olhos dele continuaram presos aos meus por tempo suficiente para eu saber que, se estivesse

competindo com Priss, ela teria problemas. Minha irmã, porém, estava nitidamente à vontade e

deixei-a assim enquanto circulava pelo salão e reencontrava meus amigos.

Naquela noite, o Colby’s – uma casa noturna na cidade vizinha mais próxima a Brinley – fervilhava

com música, cerveja e muita conversa. Eu estava botando o assunto em dia com Chad Withers, meu

amigo desde o jardim de infância, que agora dirigia com o pai a única funerária de Brinley. Chad me

contava sobre sua anêmica vida amorosa, quando alguém deu umas batidinhas num microfone

estridente e falou:

– Esse negócio está funcionando?

Todos pararam e voltaram a atenção para o pequeno palco no canto do salão. Achei que Ron

tivesse contado à gerência sobre o meu aniversário e que a certa altura isso seria lembrado. Porém,

fiquei surpresa ao ver o amigo bonitão de Priscilla assumir o posto de mestre de cerimônias com um

grande sorriso no rosto.

– Sejam bem-vindos ao Colby’s! É um grande prazer tê-los aqui. Estão se divertindo? Vocês todos

são de Brinley, certo? – perguntou ele.

Chad assoviou por entre os dedos.

– Ótimo, ótimo. Dizem que Brinley tem fama de ser divertida. Sei que isto aqui deve ser o

equivalente ao bingo no auditório da prefeitura, mas... – Mickey riu e depois pôs a mão no coração

fingindo pedir desculpas. – Brincadeirinha. Adoro Brinley. O pessoal de lá é muito legal. E rico,

pelo que ouvi dizer, o que é ainda melhor, então... bem, fiquem à vontade para gastar muito dinheiro.

O Howie, ali no bar, faz drinques especiais e esta noite está criando um chamado “A maioridade de

Lucy”, em homenagem à nossa convidada especial.

As gargalhadas ecoaram pela boate e senti meu rosto corar.

– É. A dose custa 21 pratas, então bebam. Estou atrasado com o pagamento da hipoteca. – Ele

estalou a língua e depois enfiou a mão no bolso e a tirou de lá. – Muuuuito bem, meu nome é Mickey

Chandler e adoramos comemorações especiais aqui no Colby’s, principalmente aniversários. Esta

noite estamos festejando Lucy Houston. – Ele deu um tapinha no bolso e pegou um pedaço de papel

dentro dele. – Quero agradecer à irmã da aniversariante, Lily, por me fornecer todos os detalhes

sórdidos sobre Lucy, se é que me entendem. Aliás, onde ela está? Alguém viu a aniversariante?

No ambiente pouco iluminado, um holofote me encontrou e eu fiz uma reverência exagerada

enquanto meus amigos me saudavam com gritos e aplausos.

Mickey aplaudiu duas ou três vezes.

– Ali está ela. Lucy tem agora 21 anos, tomem cuidado. Vejamos... Você estuda, certo?

Assenti.

– Faz faculdade em Boston, aproveitando a vida com as colegas de quarto, suponho. Vou lhe fazer

uma pergunta: a geladeira tem cantinhos individuais para você e suas amigas? Acertei, não foi? E

aposto que botou seu nome no queijo e em cada um dos ovos, certo? Admita, Lucy. – Mickey deu uma

risada. – Com os homens não é assim. É tudo propriedade coletiva, certo, pessoal? Comida, cerveja,

garotas. É de quem chegar primeiro. Não é verdade?

Chad assoviou, como se soubesse bem do que Mickey estava falando, e eu ri, só porque ele era

muito lindo! O mais importante foi que Lily riu, e ela precisava desesperadamente disso, o que me

transformou em uma fã instantânea de Mickey.

– Lucy, suba aqui – disse ele. – Me dê uma ajuda antes que eu estrague tudo e todo mundo volte

correndo para o bingo.

Nunca fui tímida e, antes mesmo que ele terminasse o convite, eu já estava passando por Priscilla a

caminho do palco. Ela pareceu um pouco aborrecida, mas não havia nada que eu pudesse fazer. No

palco, o lindo sorriso de Mickey voltou – aquele de quando nos vimos pela primeira vez – e, sem

minha irmã para impedir, eu me deixei aquecer pelo calor dele. Minhas irmãs são louras bonitas, mas

o cabelo bom mesmo é o meu – grosso e castanho-acobreado –, herdado de nosso pai. Naquela noite

eu o deixara solto e Mickey estendeu o braço e correu as mãos por entre os fios, aproximando-se

para examiná-lo. Que cheiro bom ele tinha!

– Por que você não é loura como suas irmãs? – indagou ele longe do microfone, esfregando uma

mecha entre os dedos. Então, se deu conta do gesto e a soltou. – E aí, Lucy? Vinte e um anos. O que

vocês, as garotas de 21, fazem para se divertir?

– Bom, Sr. Chandler, garanto que deve ser a mesma coisa que os velhos pervertidos fazem para se

divertir.

– Por acaso essa é uma piada de velho? – retorquiu Mickey, fingindo-se ofendido. – Está querendo

acabar comigo? Mas vou lhe dar um pouco de corda, já que você é uma aniversariante tão sexy.

– Puxa, obrigada. Você também não é de se jogar fora – retruquei, estendendo a mão para dar um

tapinha em seu peito. Foi aí que ele me olhou de um jeito que eu não trocaria por dinheiro algum.

Ele logo se recompôs.

– Vocês adoram universitárias, não é? Mulheres jovens e deslumbrantes? Mas temos que agir na

hora certa, quando estão em pleno desabrochar mas ainda são bobinhas a ponto de nos darem uma

chance. Depois que começam a levar a vida a sério, acabou. Caras como nós não têm mais a menor

chance, certo, Lucy?

– Você está falando especificamente de mim?

Mickey olhou em torno com uma expressão teatral.

– Não estou vendo mais ninguém aqui no palco. – Então pegou mais um punhado do meu cabelo. –

Acho melhor checar se não é louro. Sim, estou falando de você – respondeu, bem perto de mim.

– Bom, eu garanto que você teria uma chance comigo.

Mais uma vez, ele ficou desconcertado e meus amigos passaram a provocá-lo. Abri um sorriso

largo.

– É por pena. Acertei? – perguntou ele. – Você é uma aluna exemplar que sente pena de um cara que

se formou magna-cum-nada e acabou como comediante de uma pequena casa noturna.

– Está brincando? – entoei. – Um comediante formado? Gamei!

Seus olhos risonhos não largaram os meus enquanto ele decidia o que dizer em seguida.

– Então, está ótimo! – falou. – Vamos lá!

Mickey Chandler me puxou para perto dele e, com um grande floreio, se inclinou para dar um beijo

de aniversário na universitária. Acho que a ideia era que fosse um selinho inofensivo, mas eu

mergulhei fundo – afinal, era meu aniversário –, e para ser honesta, ele também. Alguma coisa no

jeito como nossas línguas dançaram e nossos dentes se chocaram pareceu quase familiar. Foi

delicioso e não seria eu que daria um fim àquilo.

Quando enfim nos afastamos, eu estava sem fôlego e meio envergonhada. A máscara de Mickey

caíra de novo e ele deu a impressão de não acreditar no que acabara de acontecer. Ri e saí do palco

aos tropeços, sob a execução de “Parabéns para você”. Para os presentes, a coisa toda não passou de

uma grande diversão. Exceto para Priss, que parecia meio chateada. Mas não me arrependi. Era a

minha noite e o número de Mickey. Ele continuava a me olhar, tentando demonstrar indiferença. Isso

me deixou feliz. Ao voltar para junto do bar, Priss me deteve:

– O que foi aquilo?

– Nada. Só brincadeira.

– Tive a impressão de que foi mais que isso – disse ela, mordida.

Eu ri, olhando para o palco, onde Mickey Chandler continuava com os olhos fixos em mim enquanto

contava uma história engraçada sobre dois cachorros e um caixa eletrônico. Tentei imaginar o que

ele via. Priscilla, alta, loura e deslumbrante, com toda aquela volúpia siliconada vazando do bustiê,

repreendendo a irmã caçula, mais baixa e bem menos voluptuosa – porém bastante atraente de saia e

botas –, que não aceitava o puxão de orelha.

Mickey se preparava para descer do palco e falei:

– Esta é a sua chance, Priss.

Minha irmã levou um segundo para ponderar a sugestão, mas depois olhou por cima do meu ombro:

– Tenho uns assuntos para resolver. Considere o cara divertido meu presente de aniversário.

Virei-me e vi Trent Rosenberg olhando minha irmã como se ela fosse um filé e como se ele não

comesse havia mais de um ano. Trent tinha sido seu namorado no ensino médio, e ele e Priss eram o

boato mais antigo que circulava em Brinley. Eu queria acreditar que minha irmã estivesse acima dos

padrões dele. Sobretudo porque Trent tinha mulher e filhos.

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O Arqueiro

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