O estofado de couro italiano da limousine blindada era macio, mas Helena sentia-se sentada em uma chapa de ferro quente. O isolamento acústico do veículo era tão perfeito que, assim que a pesada porta se fechou com um baque surdo, o barulho ensurdecedor dos flashes e os gritos dos repórteres do lado fora sumiram por completo, como se tivessem sido deletados do mundo. O silêncio que se instalou ali dentro era denso, quase sufocante.
Arthur Valente cruzou as longas pernas com uma elegância predatória, encostando-se no banco personalizado. Ele não olhou para ela de imediato. Ignorando a presença de Helena como se ela fosse apenas um fantasma incômodo, ele esticou a mão Memory e serviu-se de uma dose de uísque em um copo de cristal do minibar embutido na lateral do veículo. O som do gelo estalando contra o vidro ecoou no espaço confinado, aumentando a tensão.
Só depois de dar o primeiro gole, devagar, é que os olhos cinzentos e cortantes do bilionário finalmente se fixaram em Helena. O olhar dele era como um raio-X, avaliando cada milímetro da postura dela.
- Você tem exatamente dois minutos e quarenta segundos restantes, senhorita Antunes. E eu sugiro que comece a falar algo que faça sentido antes que eu aperte este botão e mande meu motorista jogá-la na próxima calçada - a voz dele era um barítono calmo, mas carregado de uma frieza implacável.
Helena engoliu em seco, sentindo um nó na garganta. A aura de poder que emanava de Arthur era esmagadora, capaz de fazer qualquer homem de negócios experiente tremer. No entanto, a imagem de Marcos e Letícia se entrelaçando naquela cama de hotel ainda estava fresca em sua mente. O ódio puro e o desejo de reviravolta que queimavam em suas veias serviram como um escudo. Ela endireitou as costas e ergueu o queixo, recusando-se a baixar os olhos.
- Como eu disse lá fora, senhor Valente, nós dois temos problemas urgentes que se resolvem com a mesma e exata solução: um casamento instantâneo e puramente comercial - Helena começou, mantendo o tom de voz o mais firme e profissional que conseguia. - Meu avô, como o senhor deve saber, é o presidente majoritário do Grupo Antunes. Ele está internado em estado grave na UTI e o testamento dele possui uma cláusula rígida: eu preciso estar legalmente casada até o meu aniversário de vinte e cinco anos, que acontece depois de amanhã. Se eu não cumprir a exigência, o controle de todas as ações da família passa automaticamente para o meu tio. O mesmo tio que acabou de arquitetar um golpe contra mim.
Arthur tomou mais um gole de seu uísque, a expressão permanecendo uma máscara congelada e impassível. Ele não demonstrou a menor surpresa ou pena.
- Um drama familiar previsível e fascinante, senhorita Antunes - Arthur rebateu, com um toque nítido de desdém nos lábios perfeitamente desenhados. - Mas ainda não ouvi a parte que me interessa. Eu sou um homem de negócios, não uma instituição de caridade ou um herói de contos de fadas para herdeiras desesperadas. O que eu ganho com isso?
- O senhor ganha a sua permanência no trono da sua própria empresa - Helena disparou de volta, inclinando-se um pouco mais para a frente, diminuindo a distância entre eles. - Os jornais de economia estão especulando há semanas sobre a votação secreta do conselho do Grupo Valente, que acontece nesta próxima segunda-feira de manhã. Seu primo rival está movendo céus e terra, usando sua reputação de solteirão recluso e "instável" para alegar perante os acionistas que o senhor não tem a maturidade ou a estabilidade familiar necessária para liderar o império do seu avô. O senhor precisa projetar uma imagem de homem de família sério e comprometido. E precisa disso antes de segunda-feira.
Arthur estreitou os olhos cinzentos. Pela primeira vez desde que ela entrara no carro, um brilho de real interesse - misturado com um perigo iminente - cruzou suas pupilas cor de tempestade. Ele colocou o copo de cristal de lado com cuidado, o estalo do vidro quebrando o restante da distância psicológica entre os dois.
- Você é muito audaciosa para uma mulher que estava chorando lágrimas reais há menos de dez minutos no saguão - ele observou, a voz caindo um tom, tornando-se um sussurro perigosamente baixo que fez os pelos dos braços de Helena se arrepiarem. - Mas dedução lógica e leitura de jornais não são o suficiente para me fazer colocar uma aliança no dedo. Por que eu escolheria você? Se eu estalar os dedos agora, posso conseguir cem modelos, atrizes ou herdeiras de famílias tradicionais dispostas a assinar qualquer contrato de fachada antes do anoitecer.
- Porque nenhuma delas oferece a estrutura e a urgência que eu tenho - Helena respondeu, os olhos faiscando com uma determinação que surpreendeu o próprio bilionário. - Eu não estou propondo que a gente planeje um casamento. Eu tenho um casamento inteiramente pronto, pago e estruturado para amanhã de manhã. A Catedral metropolitana já está reservada e decorada. Os maiores empresários, políticos e influenciadores do país estarão presentes nos bancos. A imprensa nacional estará cobrindo o tapete vermelho na entrada. Se o senhor aceitar, amanhã o país inteiro testemunhará Arthur Valente se casando com a herdeira legítima dos Antunes. Uma união perfeita de dois impérios. Seu primo não terá uma única linha de argumento para contestar sua estabilidade no conselho na segunda-feira.
Helena fez uma breve pausa, respirando fundo. O perfume amadeirado, caro e intimidador de Arthur parecia invadir seus sentidos, mas ela continuou:
- Além disso, eu não quero um único centavo do seu dinheiro. Só preciso do seu nome, do seu status e do seu poder por trezentos e sessenta e cinco dias.
Arthur a avaliou em um silêncio absoluto que pareceu durar uma eternidade. Seus olhos examinaram o rosto de Helena detalhadamente, detendo-se nos vestígios das lágrimas que ela tentara limpar, mas focando principalmente no brilho de puro gelo e inteligência que emanava dela. Arthur era um mestre em negociar e ler as fraquezas humanas; ele sabia que aquela mulher estava sofrendo uma dor brutal, uma decepção que destruiria a maioria das pessoas, mas a frieza com que ela estava transformando aquela dor em uma jogada de mestre corporativa o impressionou profundamente. Ela era útil. E o mais importante: orgulhosa demais para tentar chantageá-lo no futuro.
- Um ano - Arthur repetiu a condição, pesando as palavras na mente. - Sem qualquer envolvimento emocional. Sem direito à minha fortuna pessoal no divórcio. Um contrato de separação total de bens estrito e confidencial.
- Exatamente - Helena concordou imediatamente. - E com duas regras inegociáveis: fidelidade pública absoluta enquanto o contrato durar, para que nenhum dos dois manche a imagem do outro na mídia, e um divórcio amigável e silencioso daqui a exatamente um ano.
Arthur olhou para o relógio de ouro maciço em seu pulso esquerdo. Os três minutos haviam se esgotado. Ele esticou o braço e apertou o botão do interfone que o comunicava diretamente com o motorista na cabine da frente.
- Mude a rota - Arthur ordenou, a voz firme e autoritária. - Vá direto para a sede do Grupo Valente. E ligue para o meu advogado pessoal, mande-o ir para a minha sala de reuniões privada imediatamente.
Helena finalmente soltou o ar que nem percebeu que estava segurando nos pulmões. Seus dedos, escondidos sob o tecido do vestido, relaxaram. Ela tinha conseguido a atenção do monstro.
Arthur voltou a focar seus olhos nela, um sorriso frio, enigmático e quase imperceptível brincando no canto de seus lábios aristocráticos.
- Muito bem, Helena Antunes. Nós temos um acordo preliminar. Meu advogado vai redigir as cláusulas legais agora à tarde e nós assinamos tudo antes do fim do dia. Mas você mencionou que seu casamento já estava pronto para amanhã. O que, exatamente, vai acontecer com o noivo original que deveria estar no altar?
O rosto de Helena, antes tenso, transformou-se em uma expressão de pura e calculada frieza. Sem dizer uma palavra, ela puxou o celular do bolso, desbloqueou a tela com o polegar trêmulo e estendeu o aparelho na direção do bilionário. O vídeo da traição de Marcos e Letícia começou a rodar na tela de alta definição. O som das risadas de deboche da prima e as palavras nojentas de Marcos sobre usá-la apenas para assinar os cheques e roubar o dinheiro da família ecoaram dentro do carro.
Arthur assistiu à gravação inteira sem mover um único músculo do rosto, mas uma de suas sobrancelhas se ergueu ligeiramente ao ver o nível de baixeza dos dois traidores.
- Entendo - disse o CEO, devolvendo o celular para ela com total indiferença. - Uma traição barata e clichê. Você vai até o hotel confrontá-los agora? Cancelar a recepção e expor os dois em particular?
- Não - Helena respondeu, guardando o celular na bolsa com um sorriso cortante que contrastava perfeitamente com sua beleza delicada e clássica. - Marcos e Letícia acham que eu sou uma sonsa ingênua. Eles estão contando as horas para subir ao altar amanhã de manhã e colocar as mãos na herança do meu avô. Eu vou deixar que eles pensem que venceram o jogo até o primeiríssimo segundo.
Arthur cruzou os braços robustos, genuinamente divertido pela primeira vez em toda a semana. A audácia daquela mulher era fascinante.
- E qual é o plano, afinal?
- Amanhã de manhã, eu vou entrar naquela igreja vestida de noiva, caminhando calmamente. Mas quando o padre começar a cerimônia e chegar o momento de Marcos dizer o 'sim', eu vou fazer com que esse mesmo vídeo seja projetado nos telões principais da igreja, diante de todos os convidados da alta sociedade e da imprensa presente. E então... - Helena cravou seus olhos castanhos bem no fundo das pupilas cinzentas de Arthur - ... o senhor vai entrar de surpresa pela porta principal da Catedral, assumir o lugar dele no altar e se casar comigo diante de todo o país. Eu quero ver a alma da minha prima e do meu ex saindo do corpo quando perceberem que, tentando me deixar na miséria, eles me transformaram na Senhora Valente.
Arthur soltou uma risada curta, sombria e visivelmente impressionada. O plano dela não era apenas uma reação desesperada; era um ataque diabólico, público e absolutamente devastador. Como um homem que construiu seu império destruindo concorrentes implacavelmente, Arthur sabia reconhecer uma estratégia de aniquilação perfeita. E aquela vingança pessoal tinha um toque de pura genialidade.
- Você é muito mais perigosa e fria do que eu imaginei, Helena - Arthur murmurou, inclinando o corpo robusto na direção dela. A distância entre seus rostos foi reduzida a poucos centímetros, fazendo com que Helena sentisse o calor da respiração dele e a intensidade magnética de sua presença dominante. - Eu aceito fazer parte do seu show. Mas grave bem o que vou lhe dizer: ninguém usa ou passa a perna em Arthur Valente. Se você hesitar amanhã, ou se isso for qualquer tipo de armadilha armada pela sua família, eu garantirei pessoalmente que o resto do Grupo Antunes seja esmagado e reduzido a pó antes do anoitecer de segunda-feira. Estamos entendidos?
Helena sustentou o olhar assustador e magnético do bilionário. Um arrepio involuntário percorreu toda a sua espinha, mas não era de medo; era a adrenalina do início da sua nova vida.
- Estamos perfeitamente entendidos, parceiro de negócios - ela respondeu, firme.
A limousine desacelerou suavemente, parando em frente à entrada privativa do imenso arranha-céu espelhado do Grupo Valente. O contrato de fachada seria redigido e assinado nas próximas horas, mas o verdadeiro teste de fogo - e o início da destruição de Marcos e Letícia - aconteceria na manhã seguinte, no altar da Catedral.
O reflexo no espelho do camarim VIP da Catedral Metropolitana era o de uma noiva perfeita, mas Helena sentia como se estivesse vestindo uma armadura de gelo. O vestido de renda francesa, esculpido sob medida para o seu corpo, tinha uma cauda longa que se espalhava pelo chão de mármore. O véu de tule cobria seu rosto delicado, e a tiara de brilhantes reluzia sob as luzes fortes. Para qualquer pessoa que entrasse ali, ela era a imagem viva da felicidade pré-nupcial. Mas, por trás da maquiagem impecável, os olhos de Helena guardavam o segredo de uma execução iminente.
A porta do camarim se abriu abruptamente, e uma lufada de perfume adocicado e enjoativo invadiu o ambiente.
- Ah, minha nossa! Você está simplesmente divina, prima! - Letícia entrou no quarto com um sorriso radiante no rosto, fingindo uma emoção que, até o dia anterior, Helena teria jurado ser real.
Letícia usava o vestido de madrinha rosa-bebê - o mesmo que estava jogado de qualquer jeito no chão da suíte 1004 algumas horas atrás. Ela se aproximou de Helena, ajeitando o véu da noiva com dedos falsamente cuidadosos.
- O Marcos é o homem mais sortudo do mundo. Quando eu vi ele lá fora, no altar, ele estava tão ansioso que as mãos dele até tremiam. Ele mal pode esperar para que você assine os papéis e vocês finalmente se tornem um só - Letícia disse, a voz mansa e carregada de uma falsa ternura que fez o estômago de Helena revirar.
Helena forçou um sorriso sutil, mantendo a expressão serena. "Ele está ansioso pelo dinheiro do meu avô, e você pela sua comissão", pensou, sentindo uma onda de asco. Era impressionante como Letícia conseguia olhar em seus olhos e mentir com tanta naturalidade após ter entregado o próprio corpo ao noivo da prima na véspera do casamento.
- Obrigada, Letícia. Você sempre foi tão... dedicada à minha felicidade - Helena respondeu, escolhendo cada palavra com duplo sentido. - Eu garanto que o dia de hoje será inesquecível para todos nós. Especialmente para você e para o Marcos.
- Ah, eu tenho certeza que sim! - Letícia riu, uma risadinha afetada, achando que a prima continuava a mesma boba ingênua de sempre. - Vou voltar para o cortejo, os padrinhos já estão se posicionando. Não atrase, hein? O pastor já está apostos e a igreja está lotada com toda a alta sociedade. Até os fotógrafos de fofoca conseguiram autorização para entrar!
Assim que Letícia saiu, fechando a porta, o sorriso de Helena sumiu instantaneamente. Ela respirou fundo, tentando acalmar o ritmo acelerado de seu coração. Ela pegou o celular sobre a bancada de maquiagem. Havia uma mensagem de Marcos enviada há dez minutos: "Mal posso esperar para ver você entrar, meu amor. Minha vida só começa de verdade depois do nosso 'sim'."
Helena sentiu uma risada amarga subir por sua garganta. Ela digitou apenas um "Até logo" e apagou a conversa. Em seguida, abriu o aplicativo de mensagens e enviou um texto para um número que não estava salvo em seus contatos, mas cuja foto de perfil ostentava apenas um brasão elegante em tons escuros:
"Estou pronta. O plano está em andamento. Não atrase."
A resposta veio em menos de trinta segundos, direta e cortante, bem ao estilo do homem que a enviou:
"O painel de controle dos telões da igreja já foi hackeado pela minha equipe técnica. O seu vídeo vai rodar no momento exato. Entre e faça a sua parte. Eu farei a minha. - A.V."
Ao ler as iniciais de Arthur Valente, Helena sentiu um arrepio familiar percorrer sua espinha. O contrato que haviam assinado no final da tarde anterior, na cobertura do Grupo Valente, estava guardado em um cofre seguro. Pelas próximas cinquenta e duas semanas, ela seria, perante a lei e o mundo, a esposa do homem mais poderoso e temido do país. Mas primeiro, ela precisava chutar Marcos e Letícia do trono de mentiras que eles haviam construído.
Um tapinha suave na porta interrompeu seus pensamentos. Era o cerimonialista, com uma expressão ansiosa.
- Senhorita Antunes? Está na hora. Seu tio já está esperando para conduzi-la ao altar.
O tio de Helena - o pai de Letícia, que estava apenas esperando o casamento acontecer para tentar assumir as ações do avô doente - sorriu falsamente ao ver a sobrinha sair do camarim. Ele ofereceu o braço esquerdo a ela, fingindo o papel de um tutor amoroso. Helena segurou o braço dele com firmeza, sentindo o tecido caro do terno que provavelmente fora comprado com o dinheiro que ele já desviava das empresas.
As portas duplas de madeira maciça da Catedral se abriram, e a tradicional marcha nupcial começou a ecoar pelos altos tetos góticos da igreja.
O cenário era deslumbrante. Fileiras e fileiras de bancos de carvalho estavam preenchidas pela elite financeira e social do país. Centenas de pessoas se viraram para olhar a noiva. No final do longo tapete vermelho, no altar decorado com milhares de orquídeas brancas, estava Marcos. Ele vestia um fraque impecável e exibia um sorriso vitorioso, os olhos brilhando com a ganância disfarçada de romance. Ao lado dele, na fileira dos padrinhos, Letícia a assistia com um olhar que misturava deboche e superioridade.
Helena começou a caminhar. Cada passo dado com seus saltos agulha parecia o tique-taque de uma bomba-relógio. Ela manteve o olhar fixo para a frente, recusando-se a vacilar. Ela olhou para os lados e viu os grandes telões de LED que haviam sido instalados nas laterais do altar para que os convidados do fundo pudessem assistir à cerimônia em tempo real. No momento, os telões mostravam imagens ao vivo de sua caminhada lenta.
Marcos estendeu a mão para recebê-la assim que ela alcançou o topo do altar. O toque da mão dele era frio e fez a pele de Helena arrepiar de repulsa, mas ela permitiu que ele a guiasse até o centro, ficando de frente para o celebrante. O tio de Helena deu um beijo falso em sua bochecha e recuou, juntando-se ao resto da família com uma expressão de dever cumprido. Eles achavam que o plano deles tinha dado certo. Achavam que os Antunes estavam em suas mãos.
O celebrante pigarreou, abrindo a Bíblia e começando o discurso tradicional sobre o matrimônio, amor e fidelidade. As palavras dele ecoavam pela catedral, soando como uma piada de mau gosto para as três pessoas no centro daquele palco. Helena mal conseguia ouvir o que ele dizia; sua atenção estava voltada para o relógio de parede oculto atrás do altar. Faltavam menos de dois minutos para o momento crítico.
- Marcos de Almeida - a voz do celebrante finalmente mudou de tom, entrando na parte dos votos solenes -, você aceita Helena Antunes como sua legítima esposa, para amá-la, respeitá-la, na alegria e na tristeza, na riqueza e na pobreza, por todos os dias da sua vida?
Marcos olhou nos olhos de Helena através do véu, o sorriso se alargando. Ele nem sequer hesitou.
- Sim, eu aceito. Com todo o meu coração.
Um sussurro de admiração correu pelos convidados. Marcos estufou o peito, pronto para o próximo passo.
- E você, Helena Antunes... - o celebrante virou-se para ela - ... aceita Marcos de Almeida como seu legítimo esposo...
- Não - Helena interrompeu, sua voz clara, firme e amplificada pelo microfone de lapela, ecoando com uma força assustadora por toda a igreja.
O celebrante congelou. Marcos piscou, achando que tinha ouvido errado, e o sorriso em seu rosto vacilou. Um murmúrio chocado e imediato começou a se espalhar pelos bancos de convidados como um rastro de pólvora. Na lateral, Letícia deu um passo à frente, a testa franzida de confusão.
- Helena? O que você está fazendo? - Marcos sussurrou, tentando disfarçar o pânico crescente, esticando a mão para segurar o braço dela. - É uma piada? Tem um monte de repórteres aqui...
Helena deu um passo para trás, desvencilhando-se do toque dele com visível nojo. Com um movimento lento e teatral, ela ergueu as duas mãos e jogou o véu para trás, revelando um rosto que não tinha nenhuma gota de hesitação, apenas uma frieza mortal.
- Eu não aceito me casar com um lixo oportunista - Helena disse, a voz ecoando nítida pelas caixas de som. Ela olhou para a cabine de som no fundo da igreja e deu um leve aceno com a cabeça. - Mas, antes de encerrarmos essa farsa, acho que todos os nossos convidados merecem saber o verdadeiro motivo do nosso casamento.
No mesmo segundo, as imagens ao vivo dos noivos nos telões gigantes de LED desapareceram, sendo substituídas por uma tela preta que durou apenas um instante. E então, o vídeo gravado por Helena no décimo andar do hotel começou a rodar em alta definição, com o som perfeitamente conectado aos alto-falantes da Catedral Metropolitana.
As risadas manhosas de Letícia e os gemidos explícitos invadiram a igreja sagrada. A voz de Marcos ecoou nítida, estrondosa e humilhante para quem quisesse ouvir: "Amanhã eu me caso com o dinheiro da família dela... Helena serve para assinar os cheques... Você é a única que me dá prazer de verdade".
O caos absoluto se instalou na Catedral. Convidados se levantaram dos bancos, arquejando de choque. Os flashes dos fotógrafos da imprensa começaram a disparar loucamente em direção ao altar. O rosto de Marcos mudou instantaneamente de um bronzeado saudável para um tom cinzento de puro horror. Ele olhou para o telão, depois para os convidados, sentindo o chão sumir sob seus pés. Ao lado, Letícia cobriu a boca com as duas mãos, as lágrimas de humilhação e pânico borrando sua maquiagem enquanto os olhares de julgamento de toda a alta sociedade se cravavam nela.
- Helena... apaga isso! Por favor, isso é um mal-entendido! - Marcos gritou, tentando avançar na direção dela, o desespero tomando conta de sua voz.
Helena nem sequer piscou. Ela assistiu à destruição pública dos dois com um prazer gélido. Mas o show estava apenas na metade.
De repente, um estrondo ecoou nos fundos da igreja. As imensas portas principais de madeira da Catedral foram abertas de par em par com força, batendo contra as paredes de pedra. A luz do sol da manhã invadiu o corredor central, silenciando o falatório dos convidados quase instantaneamente.
Por entre as portas abertas, um homem alto, de ombros largos e vestindo um terno sob medida que exalava um poder absoluto, começou a caminhar pelo tapete vermelho com passos firmes e predatórios.
Arthur Valente havia chegado. E o verdadeiro pacto estava prestes a ser selado diante do mundo.