Ponto de Vista: Helena Salles
Respirei fundo e de forma constante ao sair do escritório do advogado, o ar fresco da manhã fazendo pouco para esfriar o fogo em minhas veias. Os papéis estavam assinados. O processo estava em andamento. Não havia mais volta.
Caminhei até o "Doce Encontro", o pequeno café onde André e eu tivemos nosso primeiro encontro. Era o nosso lugar. A dona, uma doce senhora chamada Maria, sorriu radiante quando me viu.
— Helena, minha querida! Você está brilhando! — ela exclamou, correndo para me abraçar. — André esteve aqui ontem mesmo, comprando todas as minhas tortinhas de limão. Ele disse que você estava com desejo. Aquele homem te mima demais.
Forcei um sorriso, mas meus olhos ardiam. Me mimar. Sim, ele havia construído uma bela gaiola para mim e a forrado com seda e ouro. Uma lágrima escapou e traçou um caminho frio pela minha bochecha.
— Oh, querida, o que há de errado? — Maria perguntou, a testa franzida de preocupação.
Antes que eu pudesse responder, uma sombra caiu sobre nossa mesa.
— Acredito que isto seja seu, Sra. Bastos.
Olhei para os olhos grandes e falsamente inocentes de Karina Couto. Ela segurava uma cadeira, aquela com a placa de latão que dizia: "Reservado para Helena". Minha cadeira. Ela a colocou ao lado dela com um sorriso açucarado.
— Eu só queria te agradecer novamente por tudo — ela disse, sua voz escorrendo gratidão falsa. — André tem sido tão generoso. Ele até pagou meu novo apartamento. Disse que era o mínimo que podia fazer depois que eu salvei seu maior projeto.
Outra mentira. Uma pequena, mas que caiu como uma pedra no meu estômago. André me disse que tinha dado a ela um bônus em dinheiro. Ele nunca mencionou um apartamento.
Karina deslizou um envelope pardo grosso pela mesa.
— Pensei que você deveria ter isto.
Minhas mãos pareciam pesadas enquanto eu abria o fecho. Dentro havia dezenas de fotografias brilhantes. Fotos dela e de André. Na nossa cama. No escritório dele. No banco de trás do carro dele. Eram explícitas, íntimas e projetadas para infligir a dor máxima. Cada imagem era um corte preciso, rompendo mais um fio do meu passado.
Olhei para cada uma delas, minha expressão indecifrável. Quando terminei, empilhei-as ordenadamente e as deslizei de volta para o envelope. Eu não senti nada. A parte de mim que podia sentir esse tipo de dor havia morrido na noite anterior, assistindo a um monitor granulado em uma sala de segurança escura.
— Ele é obcecado por mim — disse Karina, inclinando-se para a frente com um sussurro conspiratório. — Ele diz que nunca se sentiu assim por ninguém. Ele diz que você é... fria. Como uma bela estátua. Fácil de admirar, mas impossível de amar. — Ela sorriu com desdém. — Mas não se preocupe. Tenho certeza de que você será uma ótima ex-esposa. Sra. Bastos soa bem, mas acho que vou me acostumar a ser a Sra. Salles.
— É tudo seu — eu disse, minha voz calma. — O nome, o homem, a vida. Pode ficar com tudo.
O sorriso dela vacilou, substituído por um lampejo de fúria. Minha compostura estava arruinando sua vitória. Ela agarrou seu café gelado, os nós dos dedos brancos, claramente com a intenção de jogá-lo em mim.
Mas então seus olhos se voltaram para a porta, e sua expressão mudou em um instante. A raiva desapareceu, substituída por um olhar de puro terror teatral. Com um grito gutural, ela virou a xícara inteira de café na frente de sua própria blusa branca.
— Helena, como você pôde? — ela gritou, lágrimas brotando em seus olhos.
A porta do café se abriu com um estrondo. Era André. Ele viu a cena — eu, calma e seca; Karina, soluçando e encharcada de líquido marrom — e seu rosto endureceu.
Mas ele não correu para ela. Ele correu para mim.
— Helena, você está bem? — ele perguntou, suas mãos pairando sobre meus ombros, seus olhos me examinando em busca de qualquer sinal de ferimento. — Ela te machucou? O que aconteceu?
— Ela... ela jogou o café dela em mim! — Karina lamentou do chão, agarrando o estômago. — Ela disse que eu estava tentando roubar você dela!
André lançou-lhe um olhar de puro gelo.
— Saia, Karina — ele ordenou, sua voz perigosamente baixa. — Nunca mais chegue perto da minha esposa.
Ele me ajudou a levantar, seu braço firmemente em volta da minha cintura, e me guiou para fora do café, deixando Karina chorando no chão. Ele me levou para casa, a testa franzida em uma performance perfeita de preocupação.
— Não acredito que ela faria isso — ele murmurou, me conduzindo para nossa sala de estar branca e impecável. — Eu vou resolver isso. Vou mandá-la embora amanhã. Ninguém ameaça minha família.
— Estou cansada, André — eu disse, minha voz sem expressão. — Quero ir para o meu ateliê. — Era um cômodo que ele raramente entrava, meu santuário.
— Claro, meu bem. Vá descansar.
Ele me seguiu até a porta, prometendo consertar as coisas, se vingar por mim. Ele até se ofereceu para me fazer uma massagem nos pés mais tarde. O marido amoroso e dedicado, desempenhando seu papel com perfeição.
Senti uma onda de exaustão me invadir, um cansaço que ia até os ossos. Eu só queria dormir. Escapar do pesadelo acordado em que minha vida havia se tornado.
Ele me trouxe um copo de água, seu toque gentil no meu braço.
— Aqui, beba isso. Você parece desidratada.
Bebi sem pensar. A água tinha um leve gosto amargo, mas eu estava cansada demais para me importar. Deitei-me na chaise longue do meu ateliê, e um sono pesado e antinatural me dominou.
Acordei no meio da noite com uma dor lancinante no abdômen. Era uma cãibra violenta e torturante que me roubava o fôlego. Gritei por André, mas não houve resposta.
Tropecei até a porta do ateliê, minha mão agarrando minha barriga. Estava trancada por fora. O pânico arranhou minha garganta. Eu estava presa.
Gritei o nome dele de novo e de novo, batendo na pesada porta de carvalho até meus punhos ficarem em carne viva. A dor se intensificou, uma agonia implacável e ardente que trazia pontos pretos à minha visão. Minhas pernas cederam, e eu desabei no chão, o mundo se dissolvendo em um vórtice de dor.
Meu último pensamento consciente foi uma oração pelo meu bebê.
Quando acordei, o cheiro estéril de antisséptico encheu minhas narinas. Eu estava em um quarto branco e estéril, um soro intravenoso no meu braço. Ouvi vozes do corredor, baixas e urgentes.
Era André. E Karina.
— Você está feliz agora? — a voz de André estava tensa de irritação. — Eu coloquei um sedativo na água dela, como você queria. Ela ficou apagada a noite toda. Isso prova que eu te amo?
— Você tinha que fazer isso — a voz de Karina era um ronronar triunfante. — Ela precisava aprender uma lição. Ela não pode simplesmente sair impune depois de me humilhar.
O mundo ficou em silêncio. O ar em meus pulmões se transformou em gelo. Um sedativo. Ele havia me dopado. Sua esposa grávida. Tudo para apaziguar sua amante. Tudo para me punir por um crime que eu nem cometi.
Um grito cru e primitivo se formou em meu peito, mas eu o sufoquei. Em vez disso, cravei as unhas na palma da minha mão, fazendo crescentes profundos na carne macia. A dor aguda me ancorou, um ponto focal em um universo de dor.
A porta se abriu com um rangido, e André entrou, seu rosto uma máscara de devoção preocupada. Ele viu meus olhos abertos e correu para o meu lado.
— Helena! Oh, meu Deus, meu bem, você acordou. Você me deu um susto tão grande.
Ponto de Vista: André Bastos
O pânico me dominou no momento em que vi seus olhos abertos. Estavam fixos em mim, mas vazios, desprovidos do calor e do amor que sempre foram minha âncora.
— Helena — sussurrei, minha voz falhando. — Meu bem, você acordou. Você me matou de susto.
Estendi a mão, meu polegar acariciando suavemente sua bochecha, enxugando uma lágrima que eu não tinha visto cair. Sua pele estava fria.
Uma onda de culpa e terror me invadiu. O que eu tinha feito? Como pude ser tão estúpido, tão imprudente? Era apenas um sedativo leve, algo para ajudá-la a dormir, para acalmá-la depois da cena no café. Karina tinha sido tão insistente, tão perturbada. Ela chorou, ameaçou nos expor se eu não provasse minha lealdade. Em um momento de fraqueza, de querer silenciá-la, eu concordei.
— Sinto muito, Helena — engasguei, caindo de joelhos ao lado da cama dela. Enterrei o rosto nos lençóis brancos e impecáveis, meu corpo tremendo com soluços fabricados. — Tive uma emergência de última hora no trabalho. Tive que ir. Tranquei a porta do ateliê sem pensar, é apenas um hábito de quando temos visitas, para proteger seu trabalho. Quando cheguei em casa, encontrei você... Sinto muito, muito mesmo.
A mentira tinha gosto de cinzas na minha boca, mas era necessária. Eu não podia perdê-la. Não agora. Nunca. Ela era a esposa perfeita, a mãe perfeita para meu filho. Ela era a base da vida perfeita que eu havia construído.
Olhei para ela, meus olhos suplicantes. Seu olhar era perturbadoramente firme. O silêncio se estendeu, denso com acusações não ditas. Ela tinha que acreditar em mim. Ela me amava. Ela sempre me perdoava.
Nos dias seguintes, não saí do seu lado. Dei-lhe caldo na boca, li sua poesia favorita e recontei histórias de nossos momentos mais felizes. Eu era o marido perfeito e penitente, e lentamente, vi o gelo em seus olhos começar a derreter. Ou assim eu pensava.
Então veio a ligação do meu escritório em Londres. Uma crise que exigia minha presença imediata.
— Tenho que ir, meu bem — eu disse, beijando sua testa. — Só por algumas horas. Volto antes que você perceba.
Ela simplesmente assentiu, os olhos fechados.
Saí do hospital e fui direto encontrar Karina. Ela estava me esperando em uma clínica particular, o rosto pálido.
— Estou grávida, André — ela sussurrou, os olhos arregalados.
O mundo parou. Outro filho. Um menino, talvez. Meu filho. Uma onda de orgulho triunfante me atravessou. Eu, André Bastos, era poderoso o suficiente, viril o suficiente, para criar duas novas vidas, para garantir meu legado duas vezes.
Caí de joelhos, minha mão instintivamente indo para sua barriga lisa.
— Um bebê — suspirei, minha voz cheia de uma admiração genuína que surpreendeu até a mim mesmo. — Nosso bebê. — Eu teria tudo. A esposa perfeita e a amante excitante. O herdeiro legítimo e o filho secreto. Era perfeito.
Estava tão perdido em minha fantasia triunfante que não vi a sombra no corredor. Não vi Helena parada ali, seu rosto uma máscara pálida e sem emoção, observando toda a minha performance.
Ponto de Vista: Helena Salles
Eu o observei ajoelhar-se diante dela, sua expressão de pura e genuína alegria. Era o mesmo olhar que ele teve quando eu lhe disse que estava grávida. A mesma admiração terna, o mesmo orgulho possessivo. Não era único. Não era especial. Não era nosso. Era um roteiro que ele interpretava, e ele acabara de encontrar uma nova protagonista.
Meu coração, que eu pensei já ter sido estilhaçado em pedaços irreparáveis, de alguma forma encontrou uma maneira de se quebrar ainda mais.
Meu celular vibrou. Uma mensagem de Karina.
Era a foto de um prédio recém-construído, uma estrutura elegante e moderna de vidro e aço. Meu projeto. Uma galeria de arte particular na qual eu vinha trabalhando há meses, uma surpresa para André.
O texto abaixo dizia: "Ele construiu para mim. Um lugar para exibir minha arte. E em breve, um lugar para nosso filho brincar. Ele chama de 'Centro Karina'."
A dormência se espalhou por mim. Chamei um táxi, minha voz monótona enquanto dava o endereço.
Quando cheguei, a festa estava a todo vapor. Os amigos de André, nossos amigos, estavam todos lá. Estavam reunidos em torno de Karina, rindo, parabenizando-a, tocando sua barriga. Todos eles sabiam. Todos em nossa vida, todos em quem eu confiava, faziam parte da mentira. Eu era a única tola.
— Ela é arretada — disse um dos sócios de André, dando um tapa em suas costas. — Deve ser um menino. Você terá dois filhos, André! Um para o dia, um para a noite!
A multidão explodiu em gargalhadas.
André sorriu, envolvendo um braço protetor nos ombros de Karina.
— Veremos — ele disse, sua voz presunçosa. — Tenho que manter minha esposa feliz durante o dia, mas minhas noites... — Ele piscou para Karina. — Minhas noites são para minha rainha.
Eles falaram sobre eles. Sobre suas noites. As coisas que ele fazia com ela. Os sons que ela fazia. Detalhes íntimos de seu caso, servidos como conversa de festa para nossos amigos mais próximos.
Minha mão foi para o grande e ornamentado lustre pendurado acima da multidão. Era uma peça personalizada que eu havia encomendado da Itália. Eu conhecia suas falhas. Eu conhecia a fraqueza estrutural precisa na corrente que o sustentava.
Com uma força que eu não sabia que possuía, encontrei o guincho de manutenção escondido atrás de uma cortina de veludo. Dei um puxão forte e decisivo.
Houve um gemido de metal sob tensão, depois um estalo doentio. O enorme lustre de cristal balançou e depois despencou.
Estava vindo direto para mim.
Naquela fração de segundo, vi a cabeça de André se virar. Nossos olhos se encontraram do outro lado da sala lotada. O pânico brilhou em seu rosto. Ele começou a vir em minha direção, um grito gutural rasgando seus lábios.
— Helena!
Mas então, Karina gritou. Um som agudo e penetrante de terror.
O corpo de André vacilou. Ele parou. Ele se virou.
Ele a escolheu.
O mundo explodiu em uma chuva de cristal e luz. A dor, branca e absoluta, me consumiu. A última coisa que vi antes da escuridão me levar foi André, protegendo Karina com seu corpo, de costas para mim enquanto meu mundo desabava.
Eu estava sendo levantada, as vozes ao meu redor um rugido abafado. Eu estava em uma maca. André segurava Karina, que havia desmaiado, balançando-a gentilmente.
— Ela está bem? — ele perguntava aos paramédicos, sua voz frenética. — Verifiquem ela primeiro! Ela está grávida!
Eles começaram a me levar para passar por ele.
— Espere — ele ordenou, parando na frente da maca. Seu rosto era uma máscara furiosa.
— Sr. Bastos, sua esposa está gravemente ferida — disse um paramédico, tentando passar. — Precisamos ir.
— Não — a voz de André era de aço. Ele se abaixou e me puxou da maca, meu corpo batendo no chão de mármore frio com um impacto brusco. Minha cabeça bateu no chão, e a sala girou violentamente.
— Ela pode esperar — ele rosnou, pegando a inconsciente Karina em seus braços. — Cuidem da Karina primeiro. Meu filho está ali.
Ele passou pela minha maca, pelo meu corpo quebrado deitado em uma poça do meu próprio sangue, e a carregou para a noite.
Eu fiquei ali, o gosto de sangue na boca, as risadas de nossos amigos ainda ecoando em meus ouvidos. O homem que eu amei, o homem com quem me casei, o pai do meu filho, acabara de me deixar para morrer no chão de um prédio que eu projetei, em favor da mulher que destruiu minha vida.
Naquele momento, eu soube. O André que eu amava realmente se fora. E em seu lugar estava um monstro.