Ponto de Vista de Adriel:
Antes de ser Adriel Tavares, o marido negligenciado de um bilionário, eu era Adriel Alencar, um jovem e promissor arquiteto. Minha família, embora não estivesse na mesma estratosfera dos Tavares, tinha uma respeitável construtora. Eu era seu único filho, apaixonado por criar espaços que não fossem apenas bonitos, mas que tivessem alma.
Então conheci Afonso Tavares em uma gala de caridade. A mídia o chamava de "uma mente única em uma geração", um "fazedor de reis", um "visionário". Eles também o chamavam de máquina. Um recluso obcecado pelo trabalho que administrava seu império global com uma eficiência aterrorizante e zero emoção.
Eu vi outra coisa. Vi a solidão em seus olhos cinzentos e frios, a tensão sutil em sua mandíbula que insinuava a imensa pressão que ele carregava. Eu era ingênuo. Caí na fantasia do homem que poderia derreter o coração do rei de gelo.
Então, quando a empresa da minha família balançou à beira do colapso e os Alencar, em uma aliança desesperada, propuseram um casamento aos Tavares, eu concordei sem pensar duas vezes. Meus amigos ficaram horrorizados.
"Adriel, esse homem não tem coração," meu melhor amigo, Jaxon Martinez, me avisou. Jaxon, um arquiteto de sucesso por direito próprio, me conhecia desde que éramos crianças. "Ele está comprando um marido respeitável para ser o rosto de sua vida doméstica, assim como compra uma nova empresa. É uma transação."
"Eu posso mudá-lo," eu insisti, minha voz cheia do otimismo tolo de um jovem de 22 anos apaixonado. "O amor pode mudar qualquer um."
Jaxon apenas balançou a cabeça, seus olhos cheios de pena. "O amor precisa de um coração para criar raízes, Adriel. Não tenho certeza se ele tem um para oferecer."
Ele estava certo.
Em nossa noite de núpcias, após a recepção luxuosa da qual ele mal participou, Afonso ficou na janela do chão ao teto de nossa suíte penthouse, de costas para mim.
"Adriel," ele disse, sua voz tão estéril quanto o quarto. "Vamos ser claros. Eu cumpri minha parte do acordo. A empresa da sua família está segura. Em troca, espero que você seja um Senhor Tavares competente, discreto e apresentável. Não interfira no meu trabalho. Não faça exigências emocionais. Não espere nada mais do que este casamento é: um contrato. Fui claro?"
As palavras estilhaçaram meus sonhos românticos, mas não minha esperança. Por cinco anos, eu me agarrei a essa esperança. Suportei os aniversários esquecidos, os feriados solitários, as aparições públicas onde ele me tratava como um acessório decorativo. Cozinhei refeições que ele nunca veio para casa comer. Projetei uma casa na qual ele nunca viveu de verdade.
Meu único consolo era a mentira que eu contava a mim mesmo: ele não me ama, mas também não ama mais ninguém. Ele é simplesmente incapaz disso. Seu coração pertence ao seu trabalho.
Mas vê-lo naquela delegacia, se rebaixando por Cássio Webster, expôs essa mentira pela patética autoilusão que era. Afonso não era incapaz de amar. Ele era capaz de uma devoção feroz, avassaladora e humilhante.
Ele apenas não era capaz de dá-la a mim.
Os cinco anos de espera, de esperança, de suportar – tudo desmoronou em uma única e esmagadora constatação. Não era que ele não pudesse amar; era que ele não me amaria. A dor dessa verdade era mil vezes pior do que a simples ausência de afeto. Era uma rejeição do meu próprio ser.
Foi nesse momento que eu soube que tinha que ir embora. Meu amor por ele tinha sido a única corrente que me prendia a esta gaiola dourada. E agora, ela estava quebrada.
No dia seguinte, com o braço em uma nova tipoia, pedi ao meu advogado para redigir os papéis do divórcio. Não pedi um único centavo da fortuna de Afonso. Eu só queria uma coisa: minha liberdade. Meu nome. Minha vida de volta.
Fui ao escritório dele, o imponente monólito de vidro que era o coração de seu império. A recepcionista me olhou com uma mistura de surpresa e pena. "Senhor Tavares, o Senhor Afonso não está."
"Eu espero," eu disse, minha voz firme.
"Ele... ele não vem ao escritório há três dias," ela admitiu hesitantemente.
Três dias. Em cinco anos, Afonso nunca esteve longe de seu escritório por mais de um dia, a menos que estivesse em uma viagem de negócios. "Onde ele está?"
A recepcionista se mexeu desconfortavelmente. "Ele está... participando do Leilão de Caridade Estrela da Noite."
Meu coração deu uma reviravolta amarga. Ele havia perdido nosso jantar de aniversário no ano passado por causa de uma "fusão urgente", mas tinha tempo para ir a um leilão?
"Com o Senhor Webster, presumo," eu disse, o nome com gosto de cinzas na minha boca.
Ela se encolheu e desviou o olhar. Isso foi resposta suficiente.
Dirigi até a casa de leilões. O salão brilhava com lustres e a alta sociedade. E lá, na primeira fila, estava Afonso. Cássio estava grudado ao seu lado, sussurrando em seu ouvido. Afonso ouvia com um sorriso paciente, do tipo que ele nunca, jamais, me deu.
O leilão começou. O item em leilão era um raro colar de diamantes rosa, "O Coração do Oceano".
"Cinco milhões!" alguém gritou.
"Dez milhões!" outra voz contrapôs.
Cássio fez beicinho, puxando a manga de Afonso. "Afonso, é tão lindo."
Afonso nem olhou para o palco. Ele simplesmente levantou sua placa.
"Cem milhões," sua voz cortou a sala, calma e decisiva.
Um silêncio atordoado caiu sobre o salão de leilões. O leiloeiro, boquiaberto, gaguejou: "Dou-lhe uma... dou-lhe duas... Vendido! Para o Senhor Afonso Tavares!"
A sala explodiu em aplausos. Cássio jogou os braços ao redor do pescoço de Afonso e o beijou, um beijo longo e possessivo, bem ali na frente de centenas de pessoas. Os flashes das câmeras eram ofuscantes.
Eu fiquei nas sombras no fundo da sala, sentindo-me invisível. Ele havia comprado um colar de cem milhões de reais para seu amante sem pensar duas vezes. Em nosso terceiro aniversário, ele mandou seu assistente me enviar uma caneta com a marca da empresa.
O contraste era tão brutal, tão ridículo, que era quase engraçado.
Meus pés se moveram antes que meu cérebro acompanhasse. Caminhei pela multidão que se abria, meus passos firmes, meus olhos fixos nele. Parei bem na frente deles, o envelope pardo contendo os papéis do divórcio em minha mão boa.
O sorriso de Afonso desapareceu quando me viu. Ele instintivamente se moveu para proteger Cássio atrás dele, seus olhos se tornando frios e duros. "Adriel. O que você está fazendo aqui?"
"Tenho algo para você," eu disse, minha voz surpreendentemente calma. Estendi o envelope.
Ele não o pegou. "Estou ocupado."
"Só vai levar um momento. É o nosso acordo de divórcio."
Cássio espiou por trás do ombro de Afonso, seus olhos arregalados com uma inocência fingida, mas eu podia ver o triunfo brilhando dentro deles.
"Divórcio?" A testa de Afonso se franziu, não com tristeza, mas com aborrecimento. Como se eu fosse um pequeno inconveniente, uma mosca zumbindo ao redor de sua cabeça. "Não tenho tempo para isso agora."
"Então arranje tempo," eu disse, minha paciência se esgotando. "Eu quero acabar com isso. Nós dois sabemos que este casamento tem sido uma farsa. Vamos apenas assinar os papéis e seguir caminhos separados. Você pode ficar com ele, e eu posso ser livre."
A mandíbula de Afonso se contraiu. Ele olhou para Cássio, depois de volta para mim, seu olhar desdenhoso. "Discutiremos isso mais tarde. Saia."
"Não," eu me mantive firme. "Vamos discutir isso agora."
Antes que ele pudesse responder, uma mão esguia se esticou e arrancou o envelope de mim. Cássio riu, segurando os papéis no alto. "Oh, um divórcio? Afonso, você não me contou!"
Ele tirou os papéis, seus olhos os percorrendo com um ar zombeteiro. "Separação total de bens, sem pensão... Tsc, tsc. Adriel, você está saindo sem nada? Que triste."
Eu o ignorei, meus olhos fixos em Afonso. "Assine."
"Ele está muito ocupado para assinar seus papéis bobos," Cássio ronronou. Ele se aninhou mais perto de Afonso. "Mas... eu posso assinar por ele."
Eu zombei. "Não seja ridículo."
"Eu sou?" O sorriso de Cássio era puro veneno. Ele enfiou a mão no próprio bolso e tirou algo que fez meu sangue gelar. Era um pequeno e primorosamente esculpido carimbo de jade, uma chave de assinatura pessoal.
Eu conhecia aquela chave. Era uma chave de assinatura digital única que Afonso usava para seus documentos mais privados e importantes, ligada diretamente aos seus dados biométricos. Tinha mais poder do que uma assinatura escrita. Ele uma vez me disse que a guardava mais de perto do que sua própria vida.
E ele a havia dado a Cássio Webster. Ele confiava neste garoto fútil e manipulador com as chaves de todo o seu reino.
"O Afonso confia em mim para tudo," Cássio arrulhou, vendo o olhar de devastação em meu rosto. Ele abriu uma pequena almofada de tinta que tirou do outro bolso, pressionou o carimbo nela e, então, com um floreio, o bateu na linha de assinatura do acordo de divórcio. O baque seco ecoou no silêncio repentino ao nosso redor.
"Pronto," disse Cássio, sua voz pingando condescendência enquanto ele empurrava os papéis de volta para o meu peito. "Você está livre. Agora saia da nossa frente. Você está estragando nossa noite."
Ponto de Vista de Adriel:
As últimas palavras de Cássio foram um sussurro zombeteiro em meu ouvido. "Nunca mais tente ficar entre nós, Adriel. Você não tem ideia do que ele está disposto a fazer por mim."
Eu cambaleei para trás, agarrando os papéis do divórcio contra o peito. A marca pesada da chave de assinatura digital de Afonso parecia queimar um buraco através do papel, através da minha pele, direto para a minha alma. Era a zombaria final. Meu casamento de cinco anos, um vínculo que eu uma vez considerei sagrado, foi oficialmente encerrado pelo amante mimado do meu marido, carimbado como uma fatura insignificante.
O mundo ao meu redor parecia se distorcer, as luzes brilhantes e a conversa educada do salão de leilões se transformando em uma névoa nauseante. Eu estava em uma sala cheia de pessoas, mas nunca me senti tão completamente sozinho.
De repente, uma sirene estridente soou pelos alto-falantes, seguida por uma voz frenética e automatizada.
"FOGO DETECTADO. POR FAVOR, EVACUEM O PRÉDIO IMEDIATAMENTE. ISTO NÃO É UM EXERCÍCIO."
O pânico explodiu. A multidão bem-vestida se dissolveu em um bando gritando e empurrando. Alguém bateu no meu ombro ferido, e eu gritei, cambaleando para o lado. Outro empurrão por trás me fez cair no chão.
Minha cabeça bateu no mármore polido com um estalo doentio. Os papéis do divórcio se espalharam ao meu redor.
"Afonso!" ouvi Cássio gritar de algum lugar próximo. "Afonso, me ajude! Eu caí!"
Através da floresta de pernas em pânico, vi Afonso, que já estava se movendo em direção à saída, se virar bruscamente. Seu rosto era uma máscara de puro terror, mas não pelo fogo, não pelo caos.
Era por Cássio.
Uma patética e desesperada centelha de esperança se acendeu em meu peito. Eu também estava no chão. Machucado. Em perigo. Ele me veria? Ele finalmente, por um segundo, me escolheria?
Seus olhos, afiados e focados, varreram a multidão em pânico. Eles passaram direto por mim, sem sequer registrar minha presença, como se eu fosse um móvel descartado. Ele se fixou em Cássio, que estava dramaticamente agarrando seu tornozelo a alguns metros de distância.
"Estou indo!" Afonso gritou, sua voz cortando o barulho. Ele latiu ordens para seus guarda-costas. "Peguem ele! Abram caminho! Tirem ele daqui!"
Os guarda-costas se moveram com eficiência brutal, empurrando as pessoas para o lado para criar um casulo ao redor de Cássio, levantando-o e o apressando em direção à saída. Afonso ficou bem ao seu lado, sua mão na base das costas de Cássio, seu corpo um escudo contra a multidão crescente.
Ele não olhou para mim. Nenhuma vez.
Ele passou direto por mim, seu sapato de couro caro a centímetros do meu rosto.
"Afonso!" O nome foi arrancado da minha garganta, um grito cru e desesperado. Mas foi engolido pelo rugido da multidão e pelo lamento das sirenes.
Eu me encolhi em uma bola enquanto as pessoas se atropelavam e tropeçavam em mim, o salto de um scarpin cravando em minhas costelas. O cheiro de fumaça estava ficando mais forte. Um pensamento horrível me dominou: eu ia morrer aqui. Pisoteado até a morte em um incêndio, a poucos metros do homem que deveria ser meu marido, o homem que nem sabia que eu tinha sumido.
Então, através da névoa de fumaça, eu o vi novamente.
Afonso. Ele estava voltando.
Meu coração saltou com aquela mesma esperança estúpida e teimosa. Ele voltou por mim. Ele se lembrou de mim.
Ele abriu caminho de volta pela maré de pessoas, seus olhos varrendo o chão com urgência frenética. Ele estava vindo direto para mim.
Ele estava quase em cima de mim. Tentei levantar minha mão, chamar seu nome novamente.
Ele se abaixou, sua mão se estendendo. Minha respiração ficou presa na garganta.
Seus dedos roçaram meu cabelo, fechando-se não em meu braço, mas em algo pequeno e brilhante no chão ao lado da minha cabeça.
Era uma clutch de grife. A de Cássio. Uma coisa berrante e incrustada de cristais que deve ter caído quando ele foi retirado às pressas.
Afonso a pegou, sua expressão aliviada. Ele se endireitou, deu uma limpada protetora na clutch com a mão e se virou para sair.
Ele estava me deixando. De novo.
Ele havia voltado para um prédio em chamas, arriscando sua vida, não por sua esposa, mas pela bolsa de seu amante.
A constatação foi tão esmagadoramente absurda, tão absolutamente devastadora, que parecia que o chão havia se aberto sob mim. A última centelha de esperança em meu coração não foi apenas extinta; foi incinerada.
Eu valia menos que uma bolsa.
A fumaça, a dor, o peso esmagador da minha própria insignificância – tudo convergiu, e meu mundo escureceu.
A próxima coisa que soube foi que eu estava em uma maca, as luzes brilhantes do teto de um hospital passando rapidamente. Um médico estava inclinado sobre mim, sua voz urgente.
"Ele tem uma concussão, múltiplas contusões e uma fratura na fíbula. Precisamos levá-lo para a cirurgia agora para imobilizar o osso."
Eles estavam me levando para a sala de cirurgia. Uma estranha sensação de distanciamento tomou conta de mim. Nem importava mais.
Assim que eles passaram pelas portas duplas da sala de cirurgia, dois dos guarda-costas de Afonso apareceram, bloqueando o caminho.
"Parem," disse um deles, sua voz monótona e intransigente.
O médico o encarou, horrorizado. "O que você está fazendo? Este homem precisa de cirurgia imediata!"
"Nossas ordens são para levá-lo ao Senhor Tavares," disse o guarda-costas.
"Isso é loucura! Ele está gravemente ferido!" protestou o médico.
A expressão do guarda-costas não mudou. Ele deu um passo à frente, agarrou a lateral da minha maca e, com um grunhido de esforço, simplesmente me puxou para fora dela.
Aterrissei no chão frio e duro de linóleo com um grito de agonia enquanto uma nova onda de fogo subia pela minha perna.
O médico e as enfermeiras ofegaram de horror. "O que você está fazendo?! Você vai matá-lo!"
O guarda-costas os ignorou. Ele me agarrou por baixo dos braços, minha cabeça pendendo para trás, minha perna quebrada se arrastando inutilmente atrás de mim, e começou a me arrastar pelo corredor como um saco de lixo.
A dor era excruciante, mas não era nada comparada à humilhação. Eu estava sendo arrastado, sangrando e quebrado, pelos corredores de um hospital, meu avental frágil mal me cobrindo.
Eles me arrastaram para a ala VIP, para uma suíte privativa luxuosa. Eles não me colocaram na cama vazia. Eles me jogaram no chão de mármore frio, aos pés dela.
Minha visão turvou, mas eu podia vê-lo.
Afonso. Ele estava sentado na beira da cama. E naquela cama, apoiado por uma montanha de travesseiros fofos, estava Cássio Webster, segurando uma bolsa de gelo na testa e choramingando.