Capítulo 2

Ponto de Vista: Joana Rezende

Eu não fui para casa naquela noite. A ideia de voltar para aquela gaiola dourada, sabendo que Bruno estava lá, respirando o mesmo ar, fingindo... me dava arrepios. Em vez disso, direcionei o táxi para um destino que não visitava há anos: a mansão da família Tavares. A mãe de Bruno, a Sra. Tavares, era uma mulher de caráter formidável, uma matriarca que defendia a tradição e a honra acima de tudo. Ela era da velha guarda, do dinheiro antigo. Se alguém podia entender a gravidade da traição, era ela.

Os grandes portões de ferro se abriram silenciosamente, revelando uma longa e sinuosa entrada ladeada por carvalhos antigos. A mansão se erguia à frente, um monumento a uma linhagem aristocrática em declínio. Um contraste gritante com a cobertura fria e moderna que eu dividia com Bruno. A empregada, uma senhora idosa que conhecia Bruno desde menino, abriu a pesada porta de carvalho. Seus olhos se arregalaram ligeiramente de surpresa com minha chegada tarde da noite.

"Sra. Tavares, é tarde. Está tudo bem?"

"Preciso falar com a Sra. Tavares, por favor. É urgente." Minha voz estava firme, não traindo nenhum do tumulto que se agitava dentro de mim.

Alguns minutos depois, fui conduzida ao escritório da Sra. Tavares. Ela estava sentada ereta em uma poltrona de encosto alto, um xale de caxemira sobre os ombros, uma palavra cruzada pela metade no colo. Seu cabelo prateado estava impecavelmente penteado. Seus olhos, aguçados e inteligentes, encontraram os meus.

"Joana, querida. O que a traz aqui a esta hora?" Seu tom era educado, mas carregava uma corrente de preocupação.

Caminhei até sua mesa, meus movimentos deliberados. Da minha bolsa, tirei um documento dobrado. Era o relatório preliminar do tipo sanguíneo do hospital, declarando claramente a incompatibilidade de Clara. Coloquei-o sobre o mogno polido.

"Este é o relatório de sangue da Clara, Sra. Tavares," comecei, minha voz baixa e uniforme. "Como pode ver, o tipo sanguíneo dela é AB Negativo. O meu é O Positivo, e o de Bruno é B Positivo. É biologicamente impossível."

Seu olhar caiu para o papel, depois voltou para mim, um lampejo de choque em seus olhos. Seus lábios se afinaram em uma linha sombria.

"O que você está insinuando, Joana?" ela perguntou, sua voz agora mais fria, mais aguda.

"Não estou insinuando nada," respondi, encarando-a diretamente. "Estou afirmando um fato. Clara não é minha filha biológica. E Bruno sabia disso. Ele trocou nossos filhos na maternidade. Minha filha, aquela que me disseram que morreu, foi substituída pelo filho dele com outra mulher. Uma mulher com quem ele tem um caso há anos."

A Sra. Tavares pegou o relatório, seus dedos traçando as palavras como se para se certificar de que eram reais. Seu rosto, geralmente tão composto, se desfez ligeiramente. Um suspiro escapou de seus lábios, rapidamente suprimido.

"Bruno... ele não faria isso," ela sussurrou, mais para si mesma do que para mim.

"Ele fez," contrapus, minha voz endurecendo. "E esta noite, eu o ouvi planejando me declarar emocionalmente instável, me dopar e me confinar, para me remover 'permanentemente' de suas vidas para que ele e Carla pudessem finalmente ser uma 'família' com a Clara."

Seus olhos, geralmente tão orgulhosos, agora continham uma vergonha profunda e profunda. Ela olhou para mim, realmente olhou para mim, e viu a dor crua, a devastação total sob minha aparência composta.

"Joana, minha querida..." Ela estendeu a mão, tremendo ligeiramente. "Eu sinto muito, profundamente."

Recuei imperceptivelmente. "Sentir muito não começa a cobrir isso, Sra. Tavares. Vim aqui esta noite porque preciso da sua ajuda. Não por vingança, embora eu garanta que isso virá. Preciso da minha liberdade. Preciso desaparecer. E preciso encontrar minha filha." Uma única lágrima, sem ser convidada, traçou um caminho pelo meu rosto. "Preciso da minha vida de volta. E preciso de justiça para minha filha."

Ela me encarou, seu olhar inabalável. Vi as engrenagens girando em sua mente, pesando reputação, honra da família, contra as ações impensáveis de seu filho.

"Você sempre foi uma boa esposa para o Bruno, Joana," ela disse lentamente. "Você trouxe estabilidade para a vida dele, dignidade ao nome da nossa família. Você derramou seu coração naquela criança. Você transformou o Grupo Rezende em um império muito além do que seu pai imaginou. Você nunca foi apreciada o suficiente." Suas palavras eram uma acusação contundente a seu próprio filho.

"Ele desperdiçou tudo," eu disse, minha voz mal passando de um sussurro. "Por uma mentira."

A Sra. Tavares fechou os olhos, um suspiro profundo escapando dela. Quando os abriu novamente, o aço aristocrático estava de volta. "Ele vai pagar por isso," ela declarou, sua voz firme. "Ele vai pagar por sua desonra. E você, Joana, terá sua liberdade. E sua filha." Ela se levantou, sua postura régia apesar da idade. "Considere feito. Eu cuidarei de todos os assuntos legais. Bruno receberá papéis de divórcio que ele nem perceberá que está assinando. Você estará livre, com tudo a que tem direito, e mais."

Um leve vislumbre de esperança, como uma estrela distante, apareceu na vasta escuridão do meu desespero. "Obrigada," consegui dizer, minha voz rouca.

"Vá," ela ordenou, seus olhos ardendo com uma determinação feroz. "Vá, e não olhe para trás. Eu garantirei que ele nunca mais a perturbe."

Deixei a mansão, uma calma surreal se instalando sobre mim. A promessa silenciosa da Sra. Tavares, a determinação de aço em seus olhos, ofereceu uma estranha sensação de consolo. A tempestade estava longe de terminar, mas agora eu tinha uma aliada. Uma poderosa.

Nos dias seguintes, movi-me como um fantasma pelo meu próprio escritório. Minha mente era um turbilhão de cálculos, estratégias e uma fúria fria e ardente. Mas meu rosto permaneceu impassível, meus movimentos precisos. Enterrei-me no trabalho, a única coisa que parecia real, a única coisa que eu podia controlar. Trabalhei até tarde da noite, o silêncio da minha casa um alívio bem-vindo da farsa constante. Cada e-mail enviado, cada negócio fechado, era uma pequena vitória em uma guerra que ninguém mais sabia que eu estava travando.

Uma noite, exausta, mas incapaz de dormir, rolei meu e-mail pessoal. Um e-mail anônimo. Meu sangue gelou. Eu sabia, de alguma forma, o que conteria. Era um arquivo de vídeo.

Meus dedos tremeram quando o abri. A qualidade do vídeo era granulada, gravada secretamente. Mostrava Bruno e Carla, no meu escritório, na minha mesa, entrelaçados. Seus sussurros eram audíveis, doentiamente íntimos. "Você é muito melhor que ela, Carla," Bruno murmurou, sua voz grossa de luxúria. "A Joana é tão fria às vezes, tão focada no trabalho. Você... você me faz sentir vivo."

Então, a risada baixa e triunfante de Carla. "E nossa pequena Clara. Ela merece uma mãe de verdade, uma família de verdade, não é, querido?"

Uma onda de náusea me invadiu. Meu escritório. Minha mesa. Isso não era apenas traição; era profanação. Era uma zombaria de tudo que eu construí, de tudo em que acreditei. O vídeo terminou, mas as imagens estavam gravadas em minha mente. Assisti de novo, e de novo, como se ao repetir o horror, eu pudesse de alguma forma entendê-lo. Mas não havia sentido, apenas uma ferida aberta de engano.

Meu telefone tocou, me fazendo pular. Era Bruno. "Querida, estou a caminho de casa. Acabei de terminar uma reunião tardia. Mal posso esperar para ver seu rosto lindo." As palavras, antes reconfortantes, agora pareciam veneno. Olhei para o meu telefone, a tela ainda exibindo as imagens grotescas de sua infidelidade. Ele ainda estava interpretando o papel. E eu, a tola, deveria acreditar nele.

Minha mão se apertou em torno do telefone, meus nós dos dedos brancos. Uma sensação doentia de nojo subiu pela minha garganta. Ele estava vindo para casa. Para mim. Para seu casamento de fachada, depois de derramar seus segredos vis com sua amante no meu próprio espaço. Esta noite, o jogo mudaria.

Capítulo 3

Ponto de Vista: Joana Rezende

A porta da frente se abriu com um clique familiar, e então a voz retumbante de Bruno ecoou pela cobertura. "Joana! Querida, cheguei!" Ele entrou na sala de estar, uma sacola de compras de grife pendurada em uma mão, um sorriso largo e ensaiado estampado no rosto. Ele parecia impecável, quase perfeito demais, como se tivesse acabado de sair de uma sessão de fotos de revista.

Eu estava sentada no sofá, um relatório financeiro aberto no colo, fingindo concentração. Meu coração martelava, uma batida frenética contra minhas costelas, mas minha expressão permaneceu cuidadosamente neutra.

"Bruno," reconheci, minha voz plana, sem levantar o olhar.

Ele atravessou a sala em poucos passos, exalando uma aura de colônia e falsa alegria. "Ainda trabalhando, meu bem? Você trabalha demais." Ele se inclinou, tentando beijar minha bochecha. Eu me movi sutilmente, virando a cabeça para que seus lábios roçassem meu cabelo. Ele parou, um lampejo de algo ilegível em seus olhos, depois se recuperou perfeitamente.

"Olha o que eu trouxe para você," disse ele, erguendo a sacola de compras. "Uma coisinha para compensar minhas noites tardias." Ele tirou um delicado colar de diamantes, as pedras capturando a luz. "Me lembrou dos seus olhos."

Meu estômago se revirou. O colar era lindo, caro. Um suborno. Uma distração brilhante da podridão que se alastrava sob nossa fachada perfeita. Olhei para ele, depois para o colar, meu olhar deliberadamente desprovido de emoção.

"É adorável, Bruno," eu disse, minha voz tão fria e lisa quanto os próprios diamantes. "Mas você sabe que prefiro escolher minhas próprias joias."

Seu sorriso vacilou ligeiramente. "Ah. Certo. Bem, eu pensei..." Ele parou, parecendo genuinamente confuso. Ele estava tão acostumado com minhas reações previsíveis, minha gratidão fingida.

De repente, a campainha tocou. Bruno se virou, a irritação passando por seu rosto.

"Quem pode ser?" ele murmurou, já se movendo em direção à porta.

Meu sangue gelou. Eu já sabia.

Era Carla. Ela estava lá, uma visão em um vestido justo, segurando um pequeno presente embrulhado com cores vivas. Seus olhos, inocentes e arregalados, pousaram em mim, depois no colar que Bruno ainda segurava.

"Bruno! Joana! Me desculpem por invadir. Eu só... vi essa coisinha adorável e pensei na Clara. E por acaso estava no prédio..." Ela parou, seu sorriso sacarino.

Meu olhar piscou para ela, depois de volta para Bruno. Ele ainda segurava o colar, seus nós dos dedos brancos. Notei um hematoma leve e recente em sua mandíbula, quase escondido pela barba por fazer. A briga no beco. A briga em que ele esteve horas atrás, antes de me mandar uma mensagem sobre sua "reunião tardia". Minha fúria explodiu, um grito silencioso e interno. Quantas mentiras eu engoli? Quantas dicas sutis eu perdi?

Os olhos de Carla pousaram no colar de diamantes mais uma vez. "Ah, Bruno, que lindo! É para a Joana? É tão... a cara dela." Seu tom era um pouco entusiasmado demais, um pouco sabido demais. Uma provocação sutil.

Bruno pigarreou, de repente sem jeito. "Sim, bem, parece que a Joana não ficou muito emocionada com a minha escolha."

"Ah, Joana, você é tão exigente!" Carla riu, um som que irritou meus nervos. "Mas é por isso que te amamos, certo?" Ela entrou no apartamento, seu olhar varrendo o espaço luxuoso, um brilho predatório em seus olhos. Ela já estava se mudando mentalmente.

Bruno, tentando parecer indiferente, caminhou em minha direção novamente. "Vamos, querida, deixe-me colocar em você," ele insistiu, estendendo a mão para o meu pescoço.

Eu recuei, quase imperceptivelmente, inclinando-me ligeiramente para trás. "Não, obrigada. Estou ocupada. E com dor de cabeça."

Sua mão caiu, um músculo pulsando em sua mandíbula. Ele estava perdendo o controle da narrativa, perdendo o controle de mim. Ele não gostou disso.

"Bem, se a Joana não quer," Carla começou, seus olhos brilhando, "talvez eu possa pegar emprestado algum dia? Para uma ocasião especial, claro."

Meu olhar se fixou nela. A pura audácia. Ela estava demarcando seu território, bem na minha frente, com meu marido, na minha casa. O ar ficou denso com tensão não dita.

"Carla," eu disse, minha voz perigosamente calma, "acredito que você tenha trabalho a fazer."

Seu sorriso congelou. "Ah. Certo. Só vim deixar um presentinho para a Clara. Eu... eu vou deixar aqui." Ela colocou o presente em uma mesa lateral, seus olhos dardejando entre Bruno e eu. Uma mensagem silenciosa passou entre eles, um olhar rápido, quase imperceptível, que dizia muito. Ele estava dando a ela permissão para sair, para evitar mais confrontos.

"Sim, Carla," disse Bruno, sua voz estranhamente tensa. "Talvez outra hora."

Carla conseguiu um sorriso apertado, depois se virou e saiu, seus saltos clicando suavemente no chão de mármore. Bruno a observou ir, seus olhos demorando em sua figura em retirada, um olhar possessivo e saudoso que eu não podia confundir. O mesmo olhar que eu tinha visto no vídeo granulado.

Meu sangue gelou novamente. Não era apenas o caso. Era o desrespeito flagrante, a intimidade aberta, a maneira como ele olhava para ela mesmo quando eu estava bem ali.

"Bruno," eu disse, minha voz mal passando de um sussurro, "como você pôde?"

Ele se virou para mim, sua expressão confusa, quase inocente. "Do que você está falando, Joana? O que há de errado?"

A hipocrisia era de tirar o fôlego. Minha cabeça começou a latejar. Eu precisava de ar. Precisava de distância. Precisava agir.

"Não estou me sentindo bem," eu disse, levantando-me abruptamente. "Acho que vou para o escritório. Surgiram alguns assuntos urgentes." Peguei minha pasta, meus movimentos rígidos e não naturais.

"Agora? A esta hora?" Bruno protestou, uma nota de preocupação genuína, ou talvez irritação, em sua voz. "Querida, o que há de errado? Você tem estado tão distante nos últimos dias."

Você não faz ideia, pensei, uma risada amarga borbulhando em minha garganta.

Passei por ele, meu olhar fixo na porta. "Apenas trabalho, Bruno. Você sabe como é."

Ao entrar no elevador, ouvi seu suspiro, um som longo e exasperado. "Mulheres," ele murmurou, provavelmente para si mesmo. As portas do elevador se fecharam, cortando-o.

No momento em que as portas se fecharam, uma onda de náusea me invadiu. Pressionei minhas costas contra o metal frio, meus olhos apertados. A imagem de Bruno e Carla, entrelaçados na minha mesa, brilhou por trás das minhas pálpebras. Foi como um golpe físico, um soco no estômago que me deixou sem fôlego.

Cheguei ao meu escritório, minhas mãos atrapalhadas com as chaves. Uma vez lá dentro, tranquei a porta, sentindo uma necessidade desesperada de solidão. Fui direto para minha mesa, o cenário da traição deles. Meus olhos caíram na superfície polida, e senti uma nova onda de nojo. Isso não era apenas um móvel; era um símbolo da minha carreira, da minha ambição, do meu sucesso arduamente conquistado. E eles o profanaram.

Meu olhar pousou no computador. Minha mente, geralmente tão precisa, era uma confusão de emoções cruas. Raiva, sim, mas também uma determinação fria e calculista. Eles pensaram que poderiam me manipular, me dopar, me trancar. Eles pensaram que eu era fraca. Eles estavam errados.

Liguei o computador, meus dedos voando pelo teclado. Naveguei até o sistema de segurança do prédio, meu coração batendo com uma mistura de medo e determinação sombria. Cada escritório, cada corredor, cada canto e recanto do Grupo Rezende estava sob minha vigilância. Incluindo o meu próprio.

Eu precisava de provas. Provas irrefutáveis, inegáveis. Não apenas para mim, mas para o mundo. Para a Sra. Tavares. Para o meu futuro. Para a minha filha.

Encontrei a data e a hora. A filmagem da câmera do meu escritório. Minha respiração falhou. Era isso. O momento da verdade. Meus dedos pairaram sobre o botão de play, e então mergulharam.

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