Capítulo 2

Riddick

— Vão! — Eu não entrei com eles, mesmo querendo fazer isso, por que existiam coisas muito complexas para se fazer, que só eu posso. Às vezes me arrependo de não ter passado esses conhecimentos que tenho. Mas eu sei por que não fiz isso. Não fiz, pois não achei a pessoa certa.

Estamos atrás de um contrabandista. Ele contrabandeava tudo que você possa imaginar. De drogas, a pessoas. Eu soube de uma fonte segura que ele estaria aqui, o chamam de Trayrom! Particularmente, acho isso uma cafonice, mas tudo bem. Não faço ideia do por que, apenas quero pegá-lo, e acabar com a raça desse desgraçado.

— Equipe diamante, podem entrar! — Falei pelo alto-falante da escuta. Eu tenho muitos homens que trabalham para mim, todos altamente treinados, por mim, é claro. Divido todos em equipes; são quatro ao total: Equipe prata, ouro, bronze e diamante.

— As escutas estão oks? — Perguntei apenas para confirmar. Eu não sei o que, mas sinto que algo não está bem, e pior que isso, está me inquietando.

— JJ, ok!

— Joan, ok!

— Victor, ok!

— Mara, ok!

Todos responderam o chamado, e se prepararam para entrar, eu fiquei na van, olhando pelas câmeras do capacete. JJ foi o primeiro a entrar, e analisou o perímetro e tudo estava limpo. Não deveria está assim. Tinha que pelo menos, ter um guarda, ou, dois para não ter suspeitas.

— John, está tudo limpo. Eu sinto que tem alguma coisa errada! — JJ falou com preocupação em sua voz. Eu tomei uma decisão que era para ter feito antes.

— Recuem todos, isso é uma ordem! — Falei autoritário e todos me responderam, menos Mara. Eu olhei na tela, onde ficava sua câmera, mas havia sido desligada.

— JJ cadê a Mara? — Perguntei, pensando no pior.

— Ela estava aqui até nesse instante. Espera! — Pediu, deixando-me mais aflito.

— O que foi? — Apertei meus punhos.

— Senhor, a casa está toda cheia de explosivos. — Eu senti pela voz dele, que a merda era das grandes.

— Saiam! — Tomei essa decisão, e foi a mais acertada.

— E a Mara? — Joan indagou.

— Saiam! — Repeti a ordem. Chamei Mara pela sua escuta, mas não houve retorno. Do nada sua câmera liga, me deixando em alerta. Eu a vi, cheia de sangue no rosto.

— Está vendo, comandante Riddick! — Uma voz desconhecida pronunciou. Quem será? E como sabe o meu nome?

— Você deve está se perguntando quem sou eu, e como sei o seu nome! — Ele falou debochando. Por acaso tem vidência, porra! Não conseguia ver seu rosto, mas de alguma forma, eu já sabia quem é.

— Trayrom! — Exclamei com asco.

— Bingo! — Proferiu rindo. Desgraçado. A minha vontade, é de ir até lá e destruir cada osso do corpo dele.

— Solte-a imediatamente! — Mandei, como sempre faço.

— Ou o quê? — Demandou troçando com a minha cara. Eu fiquei calado, esperando-o se manifestar. — Vocês invadem a minha casa, e ainda querem mandar em mim! Essa cadela vai morrer por sua causa Riddick. — Avisou enraivecido.

— Seu desgraçado, eu vou acabar com você!

— Shiii! Pare de ameaças vazias. — cuspiu no chão — Sabemos que você nunca vai me encontrar!

— É o que veremos!

— Adeus Riddick! — Apontou com a arma para Mara — Diga adeus a sua namoradinha também.

— Mara! — Gritei aflito.

— Me perdoe amor! — Foi o que ela disse, antes de ele atirar na cabeça dela a sangue frio. Quando me preparava para entrar no prédio, meus soldados estavam chegando e me impediram. Em poucos segundos o prédio explodiu, eu nem pude pegar o seu corpo.

— Eu sinto muito, senhor! — Todos falavam chocados. Olhavam-me com pena. Que porra de piedade! Eu não quero compadecimento de ninguém, droga. Eu só sentia ódio e, mas ódio. Eu vou matá-lo com minhas próprias mãos, acabarei com a raça desse desgraçado, não sei quando, mas, eu vou fazer isso, ou, não me chamo John Riddick.

Abla Dinis

Há tempo para tudo, tempo para todas as coisas. Mas por que eu sinto que tudo que eu fiz, não fez e não faz nenhum sentido? Passei o resto da minha juventude tentando provar que sou eficiente, que sou boa no que faço.

Com apenas dezesseis anos, larguei tudo e fui me alistar no exército brasileiro. Havia acabado de perder minha mãe, meu pai já estava morto há muito tempo. Digo isso, porque nunca o conheci, quer dizer, nem eu e nem minha irmã gêmea. Ela se chama Panyin Dinis, e eu me chamo Abla Dinis, temos 23 anos. Gêmeas univitelinas. Para quem não conhece, gêmeos univitelinos, são os que nascem da mesma placenta.

O fato do meu nome e o da minha irmã serem de origem africana, não significa que somos de lá. Temos esse nome graças a nossa falecida mãe, ela trabalhava com missões à África. Ela era apaixonada por esse povo maravilhoso. Lembro que uma vez, ela nos levou, nós duas, e ficamos assustadas pelo nível de pobreza, no entanto, encantadas pelo lugar. Eu fico muito puta quando vejo reportagens sobre a África que só mostram as misérias. As pessoas esquecem que existem muitos lugares lindos por lá. É igual aqui no Brasil, só que aqui é o contrário. Existem muitos lugares pavorosos, mas só mostram os melhores. Acho isso patético.

Meu nome significa “rosa selvagem”, perguntei uma vez a minha mãe por que esse nome, ela disse que eu nasci dando chutes, eu parei para imaginar a cena, e sempre que eu faço isso, eu começo a sorrir. O nome da minha irmã significa mais velha de gêmeos. Então vocês já sabem o porquê de ela se chamar assim, né? Quem falou por que ela nasceu primeiro, acertou em cheio.

Nunca fui descolada como ela; nunca fui de chamar a atenção do sexo oposto como ela fazia. Eu sempre vivi no meu canto, sonhando em um dia ser a melhor no que eu escolher fazer.

Ser irmã e ter uma irmã é muito bom, ainda mais se essa irmã for a sua gêmea. Ser gêmeo é nascer com seu melhor amigo, seu melhor confidente. Sempre fomos bastante unidas, contávamos sempre uma com a outra. Quando nós duas éramos mais jovens, ela sempre fez mais sucesso com os meninos. Seu corpo chamava bastante atenção, já eu, sempre fui gordinha. Eu perdi peso depois que entrei para o exército. Também quem não perderia? Treinava todos os dias sem parar, quanto mais doía, mais eu me exercitava. A dor é simplesmente a fraqueza saindo do corpo. Era o meu mantra de todos os dias.

Nós éramos muito unidas, mas como quaisquer irmãos, depois que nós crescemos, acabamos nos distanciando. Claro que não totalmente, eu acabei escolhendo o exército e ela desejou ficar e fazer um cursinho que hoje não lembro o nome.

Sempre quando eu podia, ligava para saber se ela estava bem, se precisava de algo. Mas por algum motivo, ela parou de atender meus telefonemas, e isso me magoou muito, me machucou demais, no entanto, eu não insisti mais. Foquei todos os meus esforços no exército. Com sete anos, conquistando o meu espaço, consegui alcançar um posto de oficial. Tenente-coronel. Essa é a patente militar de um oficial superior situada entre a de Major e a de Coronel. Nesse posto o militar pode receber o comando de um Batalhão. Na verdade, eu seria designada a um batalhão, só que eu não quis. Vocês devem está se perguntando por quê?

Tudo que sonhei, eu conquistei, claro com muito esforço. Mas hoje, eu percebi que nada daquilo valeu a pena. Eu me sentia vazia e não estava feliz. Com toda a dor do mundo, eu fui até o meu superior e pedi baixa. Foi uma luta, mas por fim, ele liberou.

Estou a caminho de casa, doida para ver a minha gêmula, é assim que a chamo carinhosamente. Acabei de descer do táxi, bati na porta, só que não houve nenhuma resposta. Estou com minha roupa do exército, então estou chamando bastante atenção, coisa que detesto.

— Pan! — Chamei novamente e nada. Estava quase chamando novamente quando fui impedida por uma vizinha.

— Ah! Você é a irmã de Panyin. — Não encarei como pergunta, pois ela notou a nossa semelhança. Mesmo assim, lhe respondi educadamente.

— Isso! 

— Nossa! Vocês são muito parecidas. — Fez o que todos fazem quando veem gêmeos. Encarou curiosa e com um grande sorriso.

— Sorte a nossa! Sabe onde posso encontrá-la? — Eu não gostei da cara que ela fez. Oxe, eu sinto que há algo de errado.

— Eu sinto muito... — Tentou falar, mas lhe interrompi, nervosa.

— Por que sente muito? Onde está a minha irmã? — Há cacete, detesto quando enrolam ao falar comigo.

— Aqui a chave da casa, ela deixou na minha mão. — Deu de ombros — Ela... Está no hospital João Batista Caribé.

— Mas... — Olhei séria. — Por que ela está em uma maternidade? 

Assim que fiz a pergunta, eu já sabia a resposta, mas a necessidade de ouvir alguém dizer falou mais alto.

— Sua irmã foi dar a luz. — Me olhava com pena. Porra, eu não quero pena, quero a minha irmãzinha, bem.

Capítulo 3

Abla Dinis

— Quando ela foi? — Não me importei se a pergunta soou rude.

— Ontem! — Respondeu calmamente. Meu coração estava apertado desde ontem, só que eu não sabia o porquê, até agora.

— Agradeço pela informação. — Entrei correndo, tomei um banho rápido e me preparei para sair de novo. Ela não me disse que estava grávida, na verdade não nos comunicamos muito nesses sete anos separadas. Como é que ela falaria?

Quando cheguei ao hospital, estava lotado. Não estranhei, afinal, o SUS no Brasil é uma miséria. Andei para cima e para baixo, para ter uma notícia da minha irmã e não foi fácil. As informações eram sempre contrárias, sempre diferentes.

— Família de Panyin Dinis? — Ouvi gritarem.

— Aqui! — Levantei a mão, eufórica, e corri para onde a mulher me chamou, estava um pouco longe.

— Siga-me, o médico deseja falar com você! — Informou friamente, sem ao menos olhar em meus olhos. Achei uma falta de empatia da parte dela, afinal de contas, estou nervosa, e com muito medo que algo esteja acontecendo. 

Fui até a sala do médico a contragosto, porque na verdade, eu preferia ver a minha irmã, primeiro, claro, meu sobrinho ou sobrinha. Entrei na sala e analisei a feição do tal médico. Eu vi imparcialidade, e algo a mais como... Pena. Eu não entendo por que ele está me passando isso. Droga! Essa porra hoje parece que é viral.

— Boa tarde! Quero que diga qual é a real situação, da minha irmã, e, por favor, sem rodeios. — Ele assentiu compreendendo, e fez o que pedi.

— Sua irmã deu entrada em trabalho de parto. — Falou tranquilamente.

— Isso eu já sei, doutor! Quero saber, por que está me olhando com pena. — O olhei contrariada. — É o bebê, é isso? Como está o bebê, doutor?

— Na verdade, são os bebês! — Sorriu. — São duas meninas muito saudáveis!

Gêmeas!! Senti algo tão bom por dentro. Eu tenho duas sobrinhas, isso é maravilhoso.

— E a minha irmã? — O sorriso do médico desapareceu. Meu coração começou a bombear rápido em meu peito.

— Houve uma complicação no parto, ela perdeu muito sangue, eu... — Engoliu seco. — Receio que ela não tenha muito tempo. 

Levantei exasperada, derrubando até a cadeira no chão.

— Como assim? — Apertei meus punhos. — Quero ver minha irmã, doutor!

— Claro! Venha comigo. — Ele me levou até a UTI, e me mandou vestir uma roupa esterilizada.

— É nesse quarto. — Entrei sem olhar para a cara do médico, e me dirigi até o leito onde ela está. Quando a avistei, a primeira coisa que vi foi a sua palidez. Ela está tão magra. Como eu pude abandonar a minha irmã? Como?

— Pan! — Chamei com lágrimas nos olhos.

— Ablinha! — Falou com dificuldade o apelido que me colocou desde a nossa infância.

— Não fale, isso pode lhe deixar cansada. — Ela riu tristemente, antes de falar.

— Eu estou morrendo minha gêmula. — Disse normalmente, fazendo meu coração sangrar.

— Pare de falar isso, você não pode me deixar. — Falei desesperada. — Você está vendo?  Eu voltei! Nós vamos ficar juntas agora. Eu, você e minhas sobrinhas.

— Abla, me escute. — Ela pediu com dificuldades, só que eu não quero aceitar.

— Deixe-me ser o seu abrigo, deixe eu lhe proteger minha Pan. — Eu pedia com tanta dor. Como se uma parte minha estivesse sendo tirada de mim.

— Abla! — Implorou.

— Por favor, pare.  Precisa de descanso, com toda certeza ficará nova em folha! — Eu pedia, dilacerada. Mas ela não me escutou, estava determinada a falar.

— Quero que me prometa uma coisa. — Mesmo com o obstáculo que é a sua respiração, não desistiu de falar. Eu não aguentava ver a minha irmã sofrendo desse jeito.

— Tudo o que quiser. — Falei por fim, para ela falar de uma vez, e depois descansar.

— Cuida das minhas filhas por mim, dê todo o amor que não poderei dar as duas.

— Não fale assim. — Pedi com os olhos cheios de lágrimas. — Se você morrer, eu morrerei junto, você me completa Pan. Como posso perder uma parte de mim?

— Você não pode morrer comigo! — Declarou séria. — Não faça isso.

— Me perdoe por tê-la abandonado, eu deveria estar lá por você.

— Você só seguiu o seu sonho, assim como eu seguir o meu. Estou muito orgulhosa de você, eu a amo.

— Também amo você. — Eu já estava em prantos. Já vi muitos morrerem, eu sei quando a morte está por perto, e nesse exato momento, ela está aqui nos rondando.

— Promete que cuidará de Nia e Niara? — Perguntou com um meio sorriso.

— Com a minha vida! Você quer que eu coloque o nome delas assim? — Dei um meio sorriso, em meio às lágrimas.

— Quero! — Afirmou. — Nia significa...

— Desígnio, e Niara aquela que tem grandes propósitos. — Nós duas falamos juntas. Ela deu outro sorriso triste, cortando o meu coração.

— O pai delas? — Perguntei apertando sua mão fria.

— Eu não sei quem... — Não conseguiu terminar.

Meu Deus, a minha irmã precisava de mim, e eu não estava aqui para protegê-la.

— Me perdoe minha irmã, eu falhei com você. — Falei novamente, me sentindo culpada.

— Não se culpe pelas minhas escolhas, eu escolhi viver dessa forma.

— Mas... — Tentei falar, mas ela não deixou.

— Shiii! Não quero que fale mais desse jeito. — Exigiu. — Não pode carregar o mundo todo nas costas. Promete para mim?

— Está bem! Agora pare de falar, e descanse, por favor. — Eu implorei. Ela me chamou para perto dela, e me deu um beijo no rosto. Sentei ao seu lado, e zelei pelo seu sono. 

Ela respirava lentamente e cada vez, mais devagar. Teve uma hora que ela deu um grande suspiro, e parou de vez. Os aparelhos começaram a apitar, e eu comecei a entrar em pânico.

— Pan, Pan, acorda. Não brinca assim comigo... Acorda! — Eu gritava chacoalhando os ombros dela. Uma enfermeira entrou e pediu para eu sair enquanto o médico a olhava. Eu me debatia para me soltar e voltar para dentro, só que não deixavam. Os vi tentando reanimá-la e nada acontecia.

— Hora do óbito 15h00min! — Ouvi a voz entristecida do médico, olhando para o leito onde minha irmã jazia inconsciente.

Eu não conseguia acreditar que a minha irmã estava morta. Que a minha metade não estava mais neste mundo. Eu sinto como se ela só estivesse esperando por mim para dizer adeus. Era como se soubesse que eu estava a caminho. Eu fiquei aérea, sentada no banco da recepção, sem conseguir me mover.

— Abla Dinis! — Quando ouvi chamarem pelo meu nome, me levantei no modo automático, e fui ver do que se tratava.

— Qual é o problema?

— É sobre os bebês! — Eu não havia esquecido delas, eu só estava dando um tempo para assimilar tudo.

— Onde elas estão? — A mulher me levou até onde eu poderia vê-las, e foi me passando algumas informações.

— Você pode vir buscá-las amanhã!

— Certo! — Eu disse.  Mas na verdade estava em pânico, eu nunca cuidei de um bebê, ainda, mais de duas, e ainda por cima, recém-nascidas. Como irei alimentá-las? O resto é fácil, procuro no Google, agora e o leite materno, que é essencial para os primeiros meses de vida?

Bem, eu saí do hospital com esses pensamentos em mente, tentando achar uma solução para minha vida, que mudou drasticamente, novamente. Estou no ônibus a caminho de casa, eu tento conter as lágrimas, porém, elas são teimosas e caem sem parar. O ônibus parou na sinaleira, e eu olhei para o lado. Vi um carro muito luxuoso, provavelmente quem estava dentro deveria ser muito rico. Na verdade, riquezas nunca encheram meus olhos. O que atraiu meus olhos ao carro foi a sua singularidade. Ele é todo preto, e tem seus vidros todos filmados, não dá para ver nada por dentro, e isso me incomodou um pouco. Quando os carros começaram a rodar novamente, eu dei graças a Deus. Por incrível que pareça, ver aquele carro me deu uma vontade louca. Uma vontade de ir embora desse estado, e renovar as nossas vidas.

— É isso que vou fazer. Eu irei embora daqui, com minhas sobrinhas e recomeçar do zero. Só preciso encontrar o lugar certo.

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