Capítulo 2

O mesmo prédio frio e reluzente de sempre, as paredes de vidro, as plantas falsas, o som metálico dos saltos de executivos apressados. Parecia que tudo ali dentro pulsava em um ritmo que eu nunca tinha aprendido a acompanhar.

Enquanto esperava ser chamada, apertei os papéis do meu plano de negócios contra o colo com força, precisava apenas que o gerente me desce a oportunidade olhando o que eu tinha planejado, talvez ele ficasse com pena e me liberando o valor que precisava ao menos para não sermos despejados, não agora.

Tudo rabiscado com noites sem sono e esperança de sobra.

Finalmente, o gerente baixinho e careca apareceu usando a sua camisa branca impecável, gravata azul escura, sorriso que parecia colado com fita adesiva.

- Senhorita Dawson, pode me acompanhar, por favor? - me levantei como quem caminha para a linha de tiro.

A sala era minimalista e fria, a cadeira de couro fez um rangido sutil quando me sentei. Ele se acomodou do outro lado da mesa com uma postura quase clínica, entreguei a pasta para ele e em seguida digitou algo no computador, olhou meus papéis, conferiu os números.

E tudo ficou em silencio, exceto pelo barulho dos seus dedos batendo em cada tecla do seu computador e isso era o bastante para deixar meu coração na garganta.

- Então... senhorita Dawson - ele começou, com aquela voz treinada, empática na medida. - Nós analisamos sua solicitação, conforme os documentos enviados, e, infelizmente, não será possível conceder o empréstimo no valor solicitado.

Eu não disse nada de imediato, o ar parecia mais denso, mais frio.

- Mas... - tentei sorrir, ou talvez implorar - é para salvar meu negócio. Um pequeno café, sabe? Local, familiar. Eu... eu tenho planos. Só preciso de tempo. Mais três meses e posso equilibrar as contas. Está tudo aqui. - Empurrei os papéis na direção dele com delicadeza, quase como se eles pudessem falar por mim.

Ele os olhou com uma expressão gentil, quase piedosa.

- Eu entendo, de verdade. Mas a renda atual e o histórico financeiro ainda estão muito comprometidos. Seu comprometimento com o crédito anterior, os atrasos registrados, somado à instabilidade de fluxo no negócio...

E então veio o sorriso, aquele sorriso corporativo: educado, polido, vazio.

O tipo de sorriso que transforma um "não," em algo que deveria parecer civilizado, mas machuca do mesmo jeito.

- Não podemos correr esse risco. - Foi como levar um tapa com luva de veludo.

Respirei fundo engolindo seco, a minha garganta ardia, mas me recusei a chorar ali na frente dele.

Apenas assenti, peguei meus papéis de volta e agradeci. Saí do banco com o mundo pesando nos ombros. O vento estava gelado, mas foi o silêncio que mais doeu.

Aquele era o quarto banco a me dizer "não." Quatro reuniões, quatro recusas, quatro vezes ouvindo que meu sonho não era suficiente, que minha luta não compensava o risco. Caminhei até o carro sentindo como se tivesse deixado pedaços de mim naquela sala estéril. Dirigir de volta para o Little Spoon, foi automático.

Eu não tinha forças para pensar, gritar e nem para desmoronar, não quando Noah dependia de mim. E aquela cafeteria, mesmo respirando por aparelhos, ainda existia. Ainda era nossa, e eu ainda estava de pé, mesmo em pedaços.

Fui até o carro como um fantasma. Abri a porta da joaninha com movimentos lentos, me joguei no banco e fechei os olhos. Por um instante, senti o volante gelado contra a testa.

Não agora. Não chora agora. Noah estava na escola e mais tarde precisava buscá-lo e tinha que fingir que estava tudo bem. Que a cafeteria ainda era nossa.

Liguei o carro. A joaninha resmungou, tossiu, e, como sempre, aceitou a batalha.

Dirigi até o Little Spoon sem pensar. As ruas passavam borradas. As lojas, os postes, os rostos - tudo se misturava em minha visão turva.

Estacionei no beco dos fundos, desci e olhei para a fachada apagada da cafeteria.

Estava tudo ali, o trabalho dos meus pais, meus sonhos e a infância do Noah.

As lembranças que a vida tentou deixar para trás e agora... tudo isso estava por um fio.

Apoiei a testa na porta de vidro e sussurrei:

- Só mais um pouco, tá? Só mais um pouco, por favor.

E enquanto eu estivesse de pé, o Little Spoon ainda tinha uma chance.

London

Alguns dias começam errados. Outros parecem planejados para te derrubar.

Acordei com o humor de um touro ferido.

Esfreguei o rosto ainda deitado, como se isso pudesse me preparar para o que viria. Mas nada poderia. Já sentia que aquele, seria o tipo de dia que se arrasta - e ainda pisa em você.

Levantei com preguiça e atravessei o quarto com passos pesados. A luz fraca da manhã filtrava pelas persianas, e a casa parecia quieta demais.

Na cozinha, o cheiro de café fresco me alcançou antes mesmo de eu chegar ao balcão. Peguei minha caneca preta favorita e dei um gole sem pensar.

Arregalei os olhos e me engasguei levemente.

- Mas que droga é essa? - murmurei, afastando a caneca como se ela tivesse me mordido.

- Bom dia, senhor Turner! - disse Inácia, minha governanta, entrando pela porta com seu típico sorriso gentil e vestido florido.

- Bom dia, Inácia... - soltei, com a voz arrastada e olhar morto. - Ou algo perto disso.

Ela me observou, os olhos atentos como de uma mãe experiente.

- O que aconteceu? Tá com essa cara de quem perdeu uma ação na bolsa e caiu da cama ao mesmo tempo.

- Só comecei o dia com o pé esquerdo - ironizei, largando a caneca na pia. - E até o café resolveu me trair hoje. Isso aqui tá mais amargo que minha infância no internato.

Inácia riu baixo, já abrindo a geladeira como se procurasse uma solução mágica para o meu mau humor.

- Bom... então acho que não vai gostar da notícia que eu tenho.

Meu olhar foi direto para ela. A expressão se fechou ainda mais.

- Por favor, não me diz que você queimou os croissants. Qualquer coisa, menos...

- Sua avó - ela interrompeu, sem perder a calma. - Ligou ontem à noite. Chegou em Nova Iorque e quer te ver hoje.

Fechei os olhos e joguei a cabeça pra trás, como se estivesse tomando um soco imaginário.

- Droga...

- Eu sabia - disse ela, rindo e apoiando as mãos na cintura. - Você faz essa cara toda vez que ela aparece sem avisar.

- O que ela quer agora? Medir meu nível de responsabilidade com fita métrica?

Inácia deu de ombros, como quem já viu esse filme antes.

- Só disse que precisa falar com você. E que é urgente.

- Claro que é. Sempre é.

- E o que eu digo quando ela ligar de novo? - ela cruzou os braços. - Porque vai ligar. Ou pior, vai aparecer aqui de surpresa.

- Diz que eu passei a noite fora - respondi sem pensar, pegando as chaves do carro em cima da bancada. - Diz que fui... sei lá... jantar com um ministro em Paris. Qualquer coisa. Amanhã eu resolvo.

Ela arqueou uma sobrancelha.

- Vai fugir da própria avó, London?

- Não estou fugindo - retruquei, indo em direção à porta. - Estou... adiando o inevitável. E se você me ama, Inácia, não me entrega.

- Deus me livre. Mas que eu vou rir quando ela te pegar, ah, isso vou.

- Ria baixinho então - respondi, já atravessando o corredor.

Desci até a garagem como quem caminha para a cova. Cada passo ecoava nas paredes silenciosas da casa, e tudo parecia compactar meu humor ainda mais.

Destranquei o carro, joguei a pasta no banco do passageiro e me afundei no banco como quem vai para a guerra.

Mal girei a chave na ignição, o telefone vibrou no console. Olhei de relance: mensagens acumuladas do escritório.

Ignorei. Já estava atrasado.

A H. Turner Corp. me esperava com relatórios, rostos carrancudos e reuniões que pareciam interrogatórios. E, como se não bastasse... agora tinha que lidar com minha avó também.

Apertei os olhos e suspirei, engatando a marcha.

- Que venha o inferno. Já estou vestido para isso mesmo.

Capítulo 3

O sinal ainda estava vermelho, e meu carro parado no meio da avenida parecia o reflexo perfeito da minha paciência naquela manhã: esgotada.

A reunião mais importante da semana começaria em menos de trinta minutos, eu já estava atrasado, e minha cabeça ainda martelava os resquícios da noite mal dormida.

Levei as mãos à nuca e fechei os olhos por um instante.

Foi aí que veio a pancada.

Um som seco, metálico, preciso, como um aviso, ou uma maldição.

O SUV tremeu com o impacto na traseira, e o primeiro pensamento que tive foi: "Sério? Agora?"

Fechei os olhos com força. Respirei fundo. Desci do carro com a expressão dura e o maxilar travado, preparado para despejar um sermão no primeiro sinal de imprudência.

Mas então... eu a vi.

Uma mulher correndo em minha direção, visivelmente apavorada. Tinha o cabelo preso de qualquer jeito, o rosto tenso, os olhos arregalados. Falava rápido. Muito rápido.

Eu não entendi metade das palavras. Só fragmentos.

Ela gesticulava demais, a voz falhava de vez em quando, e por um instante, eu só observei.

Não consegui focar no que ela dizia. Só na maneira como dizia, tinha algo nela que me pegou desprevenido, a maneira como olhava direto nos meus olhos mesmo tremendo, a forma como parecia mais preocupada com o carro dela do que com o meu.

Ela era o completo oposto do mundo em que eu vivia, e por algum motivo... isso me prendeu.

- Me dá seus dados - foi tudo o que consegui dizer, interrompendo o turbilhão de palavras que ela despejava no ar.

Foi para o seu carro e voltou com um pedaço de papel e me entregou como quem entrega um pedaço de si, peguei o papel, assenti com a cabeça e entrei de volta no carro.

Mas mesmo quando o motor voltou a roncar, mesmo quando o trânsito enfim andou... a imagem dela não saiu da minha mente, era só mais uma batida de trânsito, mas algo me dizia... que aquele encontro não terminaria ali.

***

A imagem dela ainda estava na minha cabeça.

A mulher do carro amassado, cabelo preso de qualquer jeito, olhos grandes e mãos tremendo enquanto tentava juntar frases. Bonnie Dawson.

Não era o tipo de pessoa que normalmente me chamaria atenção. E mesmo assim, ali estava eu, parado no sinal, com a mente rodando nela, como se aquele acidente tivesse sacudido mais do que o para-choque do meu carro.

Cheguei à sede da H. Turner Corp. feito um furacão, as portas de vidro se abriram com o sussurro automático, e a recepcionista imediatamente abaixou os olhos para o monitor. Um funcionário do financeiro se desviou discretamente no corredor. O pessoal do marketing fingiu estar mais ocupado do que de fato estava.

Eles me chamavam de Carrasco, embora nunca dissessem em voz alta.

E eu preferia assim.

Meus passos ecoavam no mármore do saguão. O barulho do meu sapato contra o chão era quase coreografado. A tensão no ar era familiar. Contagiante.

Subi direto até o andar da presidência. Adam veio atrás de mim logo que saí do elevador, com uma pasta de relatórios embaixo do braço e aquele sorriso debochado que só ele conseguia manter diante do meu humor matinal.

- Você tá mais azedo do que de costume - provocou, erguendo uma sobrancelha enquanto me acompanhava pelo corredor.

- A vida colabora - respondi seco, empurrando a porta do meu escritório.

Entrei e joguei o paletó com força sobre a poltrona de couro, afrouxando a gravata com um puxão rápido, como se isso pudesse aliviar a pressão no peito.

Adam me seguiu e parou na porta, curioso.

- O que aconteceu? - perguntou. - Perdeu alguma ação ou pisaram no seu ego?

- Fui batido - soltei, sem rodeios, me sentando com força na cadeira.

- Batido? - ele arregalou os olhos. - Tipo... em um carro? No seu carro novo?

- Exatamente. Uma batida bem dada, para deixar claro que meu dia ainda tinha espaço para piorar.

Adam riu com gosto, apoiando-se na lateral da estante.

- E quem foi o infeliz?

- Uma mulher - murmurei, esfregando o rosto com as duas mãos. - Cabelo bagunçado. Voz trêmula. Com cara de quem tá tentando salvar o mundo vendendo café com leite e sonhos amassados.

- Então você foi atropelado por uma cafeteria? - ele zombou.

- Uma cafeteria ambulante - rebati, tirando o papel dobrado do bolso do paletó e jogando sobre a mesa. - Bonnie Dawson. Peguei os dados. Pedi para o jurídico calcular o conserto.

- E... vai cobrar?

- Não. Quero que transfiram o valor direto pra ela. Só resolve isso - respondi, abrindo o notebook e evitando o olhar dele.

Adam, no entanto, não era do tipo que deixava passar.

Ele estreitou os olhos, cruzou os braços e se aproximou devagar, como se analisasse uma peça rara.

- Tá me dizendo que o inflexível, o implacável CEO da H. Turner Corp., tá distribuindo cheques agora? Assim? Por empatia?

- Não é empatia - rebati, sem convicção.

- Então é o quê?

Suspirei e passei as mãos pelas têmporas, tentando tirar a imagem dela da cabeça. Mas ela não saía.

- Ela parecia que não dormia a dias... abatida ou cansada... - disse, mais pra mim do que para ele. - Mas de pé, como alguém que já deveria ter desabado, mas insiste em continuar. Me irritou... e me prendeu ao mesmo tempo.

Adam soltou uma risada baixa, balançando a cabeça.

- Isso vindo da sua boca... soa perigoso.

- Talvez seja.

Mas não falei mais nada, porque, pela primeira vez em muito tempo, eu não fazia ideia do que vinha a seguir.

E isso vindo de mim era o mais perigoso de tudo, antes que eu pudesse retrucar, Sophie surgiu na porta, com a pasta na mão e a testa franzida.

- Senhor Turner - ela disse, cautelosa, - sua avó está na sala de reuniões.

- O quê? - levantei os olhos de imediato.

- Chegou há vinte minutos, está te esperando. Disse que é urgente.

Meu estômago deu um giro seco.

Quando Eleonor Turner aparece sem marcar horário, não é por saudade. É por bomba.

Ela estava sentada à cabeceira da mesa de reuniões como uma imperatriz que nunca abdicou do trono. A bolsa de couro perfeitamente alinhada no colo, os dedos entrelaçados sobre ela, o rosto sem uma ruga fora do lugar. Imóvel. Intimidadora.

E completamente no controle.

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