Capa do Romance A Esposa Moribunda e a Farsa

A Esposa Moribunda e a Farsa

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Com apenas 59 dias de vida devido a uma doença rara, Larissa enfrenta o desprezo de sua família. Influenciados pelas mentiras da prima Silvana, seu marido Tomás e até seu filho a acusam de egoísmo. Forçada a ceder seus bens, ela morre solitária após o divórcio e a rejeição cruel do próprio herdeiro. Contudo, a verdade emerge após o óbito, revelando a farsa de Silvana. Consumido por uma culpa devastadora, Tomás inicia uma caçada implacável por vingança contra quem os destruiu.

A Esposa Moribunda e a Farsa Capítulo 1

Larissa estava morrendo. Diagnosticada com uma doença rara, ela tinha apenas 59 dias de vida restantes.

No entanto, sua família - marido, pais e até o filho pequeno - não acreditava nela. Enganados por sua prima, Silvana, que fingia uma depressão profunda, todos a acusavam de ser egoísta e dramática.

Sob imensa pressão, Larissa foi forçada a transferir o controle de sua empresa, sua casa e todos os seus bens para Silvana.

Seu marido, Tomás, exigiu o divórcio para poder se dedicar integralmente à "recuperação" da prima.

A facada final veio de seu próprio filho, que gritou, feliz:

"A mamãe vai embora! Agora você pode ser minha mamãe, tia Silvana!"

Humilhada e com o coração partido, Larissa morreu sozinha, mas não sem antes deixar um último presente para sua amiga e advogada.

Foi só após sua morte, quando a família descobriu as mensagens cruéis de Silvana comemorando sua vitória, que a verdade veio à tona. Consumido por uma culpa avassaladora e um ódio que ele nunca sentiu, Tomás jurou vingança. A caçada havia apenas começado.

Capítulo 1

Larissa POV:

Eu engoli o comprimido amargo, o relógio no meu telefone marcava cinquenta e nove dias. Não era uma contagem regressiva para um evento feliz, mas para o fim da minha vida. A dor no meu peito era um companheiro constante, uma criatura faminta que roía minhas entranhas.

O analgésico forte começou a fazer efeito. Aquecia meu sangue e adormecia as bordas afiadas da realidade. Eu precisava disso para enfrentar o que viria.

Com as mãos trêmulas, abri a porta do escritório de meu pai. Lá estavam eles, a minha família.

Meu pai, Roque, estava sentado à cabeceira da mesa de mogno, a expressão severa como sempre. Minha mãe, Lourdes, ao seu lado, seus olhos fixos em mim com uma mistura de desapontamento e cansaço.

Tomás, meu marido, estava em pé perto da janela, o corpo tenso, evitando meu olhar. E Silvana, minha prima, sentada num canto, envolta num cobertor, parecendo frágil e etérea, como um fantasma.

O ar na sala era denso, carregado de expectativas silenciosas e uma frieza que parecia vir de dentro de mim, mas que eu sabia ser um reflexo deles.

Silvana tossiu levemente, um som delicado que parecia amplificado na quietude do ambiente. Ela me lançou um olhar rápido, um flash de algo que não era tristeza nem compaixão, mas um brilho de triunfo.

Um sorriso tênue brincou em seus lábios pálidos. "Larissa," ela disse, a voz fraca e rouca. "Você finalmente veio."

Eu não disse nada. Não havia mais energia para discussões, nem verdade para defender. Meus músculos estavam cansados, meus ossos doíam. Eu era uma concha, e eles estavam ali para pegar o que restava.

Meu pai pigarreou. "Larissa, precisamos conversar sobre o seu comportamento recente. Seu marido e sua mãe estão preocupados."

Meu marido. Ele não estava preocupado comigo. Ele estava preocupado com a paz superficial quebrado pela minha "egoísmo".

Olhei para o rosto de Tomás. Ele apertou os lábios, a testa franzida. "Larissa, você tem sido... difícil. Silvana precisa de todo o nosso apoio agora."

Um riso amargo ameaçou escapar, mas eu o reprimi. Difícil. Egoísta. Essas eram as palavras que eles usavam para me descrever, para me moldar à narrativa de Silvana.

Minha mãe balançou a cabeça. "Não entendo por que você está agindo assim, filha. Logo agora, quando Silvana mais precisa."

Silvana, a eterna vítima, a que sempre precisava. E eu, a culpada, a impiedosa, a que não entendia.

Eu não iria me explicar. Já havia tentado antes. Tinha mostrado laudos médicos, falado da minha doença rara e degenerativa. Eles me acusaram de dramatizar, de querer atenção, de inventar doenças para não ajudar Silvana.

O veneno lento em minhas veias era o meu segredo, a única prova que eles não podiam ver.

"Pai," eu disse, minha voz soando estranhamente calma, até para mim mesma. "Eu decidi transferir o controle da minha empresa."

A sala ficou em silêncio. Era o tipo de silêncio que precede uma tempestade ou o choque de uma revelação inesperada.

Os olhos de Roque se arregalaram ligeiramente. Lourdes soltou um pequeno suspiro. Tomás, que estava de costas, virou-se abruptamente.

E Silvana. Silvana, por um instante, perdeu a pose. Seus olhos, antes lacrimejantes, cravaram-se em mim com uma intensidade voraz.

"Para quem?" Tomás perguntou, a voz rouca, quase um sussurro.

Eu olhei para Silvana, que agora me encarava descaradamente, a máscara da fragilidade por um segundo esquecida.

"Para Silvana," eu respondi, a frase pendurada no ar como uma condenação.

Silvana se recompôs rapidamente, um sorriso sutil, quase imperceptível, cruzando seu rosto pálido.

Meu pai franziu a testa, os olhos estreitos. "Larissa, o que você está dizendo? É uma fortuna. Você sempre foi tão apegada a ela."

Ele não estava completamente errado. Eu havia lutado com unhas e dentes para construir a MedeirosTech. Tinha sacrificado noites, fins de semana, a própria vida, para vê-la prosperar. E, sim, tinha havido discussões acaloradas quando ele e minha mãe sugeriram que eu "desse uma parte" para Silvana, para que ela tivesse "segurança" e "propósito". Eles diziam que eu era egoísta.

Eu me lembrei de uma discussão meses atrás, quando minha doença já dava os primeiros sinais. Eu estava exausta, a dor latejando, e eles insistiram que Silvana deveria ser minha sócia. "Ela precisa de algo para se reerguer, Larissa! Você é tão bem-sucedida, custa dividir um pouco?"

Eu havia recusado, firmemente. Disse que era meu legado, o futuro do meu filho. Eles me chamaram de insensível. Roque bateu na mesa, os olhos faiscando. "Você se esqueceu de quem a criou, Larissa? De quem sempre cuidou de Silvana como se fosse nossa própria filha?"

Naquela época, eu ainda tinha forças para lutar. Agora, eu só tinha a contagem regressiva.

Os olhos de Roque e Lourdes agora brilhavam com uma luz diferente. Não era mais desapontamento ou cansaço. Era... alívio. E algo mais, algo que se parecia muito com satisfação.

Minha mãe se levantou e veio até mim, as mãos estendidas. "Larissa, minha filha! Eu sabia que você tinha um bom coração. Eu sabia que, no fundo, você se importava com sua prima!"

Ela me abraçou, um abraço que parei de receber há muito tempo, um abraço que agora me parecia estranho e vazio.

Não era um abraço de amor. Era um abraço de recompensa.

Ela se afastou, seus olhos marejados de uma alegria forçada. "Oh, Silvana vai ficar tão feliz! Isso vai tirá-la da depressão! Isso é exatamente o que ela precisa!"

A tristeza que eu sentia era tão profunda que mal conseguia respirar. Eles estavam me elogiando por assinar minha própria sentença de morte, por entregar meu legado à mulher que me envenenava.

Era um amor condicional, e o preço desse amor era tudo o que eu tinha. Eu não tinha mais nada a oferecer. Exceto a verdade. E essa, eles só descobririam quando fosse tarde demais.

Quando eu já não estivesse mais aqui.

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