Ponto de Vista de Alina Campos:
A primeira vez que Katarina sabotou nosso casamento, não foi apenas um telefonema. Foi um acidente de carro encenado, o carro dela enrolado em um poste, a poucas quadras da igreja.
Ela foi retirada, sangrando, gritando o nome de Arthur. Os paramédicos estavam lá, as luzes piscando, o caos.
Arthur, pálido e frenético, arrancou a gravata e correu. Ele me deixou em meu vestido branco imaculado, tremendo no altar, o silêncio da igreja abandonada mais pesado que qualquer barulho.
Meu colar de diamantes cuidadosamente escolhido, nosso "símbolo de amor eterno", jazia esquecido na penteadeira, uma mentira fria e brilhante.
Na segunda vez, foi um escândalo fabricado envolvendo a empresa de Arthur, uma falsa alegação de espionagem corporativa que ameaçava arruinar sua reputação. Katarina convenientemente a "descobriu", e então ameaçou expô-lo se ele não viesse em seu auxílio.
Arthur, acreditando que seu império estava em jogo, gritava ordens em seu telefone, depois se virou para mim: "Eu tenho que consertar isso, Alina. É para o nosso futuro." Ele me deixou, novamente, com a mídia cercando suas propriedades, me transformando em um espetáculo público.
Jornalistas sussurravam sobre a "noiva instável" de Arthur que trazia drama constante. A humilhação ardia, profunda e crua. Minha reputação, antes impecável, agora parecia manchada.
Após cada desastre, eu considerava ir embora.
O pensamento piscava, uma pequena chama rebelde na escuridão. Mas então Arthur voltava, seus olhos úmidos, sua voz rouca com desespero fabricado. "Alina, por favor. Não me deixe. Você é tudo que eu tenho. Eu sei que errei, mas eu prometo..."
Ele implorava, ele suplicava, ele chorava, e eu, quebrada e exausta, sempre cedia.
Era uma fraqueza enraizada no meu passado.
Na faculdade, eu fui alvo de bullying implacável, acusada de uma fraude que quase arruinou minha carreira acadêmica.
Eu entrei em parafuso, sentindo-me completamente sozinha, invisível. Eu estava na beira de uma ponte, o vento chicoteando meu cabelo, contemplando um fim para a dor. Arthur, então apenas um conhecido casual, me encontrou. Ele me convenceu a descer, sua voz calma, seus olhos cheios de uma estranha e poderosa convicção de que eu valia a pena ser salva.
Ele não apenas me salvou naquele dia.
Ele se tornou meu protetor.
Ele acreditou em mim incondicionalmente quando ninguém mais acreditou. Ele moveu céus e terras, contratou advogados, usou a influência de sua família para limpar meu nome.
Ele me envolveu em um casulo de cuidado, me cobrindo de presentes, atenção e uma lealdade feroz e inabalável.
Ele nutriu meu talento, incentivou minhas buscas científicas, tornando-se o chão firme sob meus pés. Eu devia tudo a ele.
Eu o amava, acreditava verdadeiramente que ele era minha alma gêmea, meu salvador. Essa devoção cega, essa gratidão profunda, me fez perdoá-lo, de novo e de novo. Cada casamento fracassado, cada desprezo público, cada promessa quebrada, eu engolia, acreditando que seu amor era real, que ele eventualmente me escolheria.
Até esta noite.
O ar no corredor estava impregnado com o cheiro do perfume caro de Arthur, misturado com algo enjoativamente doce - o perfume de Katarina. Pressionei meu ouvido mais perto da porta do escritório, meu coração batendo um ritmo frenético contra minhas costelas.
"Arthur", Katarina ronronou, sua voz pingando possessividade, "você realmente ama aquela mulher? Ou foi tudo apenas uma farsa para mim?"
Minha respiração engatou. Era isso. A verdadeira questão. A verdade, finalmente, exposta.
Arthur hesitou, um silêncio longo e agonizante. "Katarina, você sabe... ela foi útil. A família dela... eles tinham contatos. Recursos."
O "acidente" do meu pai. Minha mente girou. Não era apenas o fígado do meu pai. Era seu legado, sua influência que Arthur precisava. Um nó frio e duro se formou no meu estômago.
"Útil?" Katarina zombou, uma risada cruel escapando de seus lábios. "E o fígado perfeito do pai dela, compatível com o meu? Isso também foi apenas 'útil', Arthur? Seu grande plano para me salvar, para garantir meu futuro? Ela alguma vez suspeitou?"
O mundo do lado de fora da porta desmoronou. Meu pai. Meu doce e brilhante pai. Sua morte não foi um acidente. Foi um assassinato calculado. Arthur, o homem que me abraçou quando chorei em seu funeral, havia orquestrado tudo. Tudo por Katarina. A traição foi tão profunda que roubou minha capacidade de sentir.
"Ela é ingênua demais, cega demais pelo seu amor patético por mim", disse Arthur, sua voz desprovida de emoção, uma crueldade casual que me perfurou mais fundo que qualquer faca. "Ela acha que eu salvei a vida dela quando ela tentou pular daquela ponte. Ela acha que eu sou o herói dela."
Uma onda de náusea me invadiu. Ele havia usado meu trauma mais profundo, meu momento de desespero absoluto, para tecer sua teia. Meu salvador era meu algoz.
"E todos esses casamentos fracassados?" Katarina perguntou, sua voz se tornando brincalhona. "Meus pequenos atos de caos? Você secretamente gostava de vê-la se contorcer, sabendo que ela era apenas um peão?"
Arthur riu, um som baixo e perturbador. "Ela sempre voltava. Sempre me perdoava. Era... conveniente."
Minha mão voou para a minha boca, abafando um soluço. Conveniente. Meu amor, minha dor, minha humilhação. Conveniente.
"Sabe, Arthur", Katarina continuou, sua voz sedutoramente baixa, "ela é tão desesperada pelo seu afeto que provavelmente nem percebe que vocês dois mal têm intimidade. Ela apenas se apega à ideia de 'nós', não é?"
Outro longo silêncio. Arthur não negou. O silêncio foi mais alto que qualquer confissão. Confirmou a realidade fria e estéril do nosso relacionamento. Não havia intimidade real, apenas uma performance.
"Talvez eu devesse me casar com outra pessoa", Katarina ponderou, sua voz deliberadamente provocadora. "Um velho amigo da família, um CEO na Europa. Ele está atrás de mim há anos. Isso solidificaria a posição da nossa família, e você sabe... eu preciso seguir em frente com esse drama."
O corpo de Arthur enrijeceu.
Ouvi uma súbita e aguda inspiração. "Não!" Sua voz era áspera, tingida com uma possessividade súbita e feroz. "Você não vai a lugar nenhum. Você é minha, Katarina."
As palavras eram um punho de ferro se fechando, reivindicando.
Ele não disse "eu te amo". Ele disse: "Você é minha". E a diferença era tudo.
Ponto de Vista de Alina Campos:
"Você é minha, Katarina."
As palavras pairaram no ar.
Um eco arrepiante que ressoou fundo nos meus ossos.
Katarina, com a voz tingida de falsa inocência, o pressionou ainda mais.
"Ah, é mesmo, Arthur?"
"Você ao menos sabe o que é amor?"
"Ou é apenas posse para você?"
Então, um som áspero e inegável.
Um gemido abafado, seguido pelo baque inconfundível de um corpo contra a parede.
O beijo fervoroso e desesperado de Arthur.
E então, os sons de intimidade, a prova inegável de sua conexão doentia, de sua profunda traição.
Meu mundo se estilhaçou em um milhão de pedaços irreparáveis.
Meu pai.
Meu heróico e gentil pai.
Assassinado.
Orquestrado pelo homem que eu amava, para salvar a mulher que ele realmente amava.
A ironia era um gosto amargo na minha boca, queimando minha garganta.
Cada momento terno, cada olhar amoroso, cada promessa sussurrada de Arthur era agora um dardo venenoso, perfurando meu coração.
As memórias que antes me traziam conforto agora se torciam em imagens grotescas de manipulação e engano.
Eu cambaleei para trás.
Minhas mãos voaram para a minha boca, abafando o soluço estrangulado que ameaçava escapar.
Lágrimas escorriam pelo meu rosto.
Quentes e furiosas.
Embaçando minha visão.
Meu peito doía.
Não de traição, mas de um vazio profundo e aterrorizante.
Arthur.
Este monstro era Arthur.
Recuei entorpecida para o meu quarto, os sons do escritório um latejar surdo na minha cabeça.
Meu reflexo no espelho mostrava uma estranha.
Bochechas manchadas de lágrimas.
Olhos inchados.
Um vazio assombrado em sua profundidade.
Ao meu redor, como resquícios fantasmagóricos de uma vida que nunca seria, pendiam os vestidos de noiva.
Noventa e nove deles.
Cada um um testamento da minha esperança tola.
Minha fé cega.
Minha humilhação absoluta.
Passei a mão sobre a seda cintilante do último vestido.
Uma confecção ridícula de renda e pérolas.
Ele o comprou ontem, prometendo que este seria "o tal".
"É ainda mais perfeito que o último, Alina", ele disse.
Sua voz pingando afeto.
"Assim como o nosso amor."
As palavras eram uma zombaria vil agora.
Peguei o telefone, meus dedos ainda tremendo.
Liguei para Heitor Nogueira.
Ele era minha única esperança.
Após a ligação, após confirmar minha rota de fuga, deitei na cama, encarando o teto, o sono um estranho impossível.
Minha mente corria, repassando cada momento, cada mentira, cada suspiro roubado do meu passado.
A porta rangeu ao abrir.
Arthur entrou, um sorriso suave no rosto, seus olhos pesados e satisfeitos. Ele cheirava ao perfume enjoativamente doce de Katarina, misturado com o toque agudo de sua própria colônia.
Meu estômago se revirou. Ele se moveu em minha direção, seus braços se estendendo.
"Meu amor", ele murmurou, me puxando para um abraço terno.
Eu enrijeci, uma onda de repulsa me invadindo. Seu toque, antes um bálsamo, agora parecia uma serpente se enrolando. Instintivamente me afastei, meu corpo recuando do contato.
"O que há de errado, Alina?" Seu sorriso vacilou.
"Ainda chateada com a Katarina? Não seja boba. Você sabe que ela não é nada."
Sua voz era paternalista, desdenhosa. "Você está agindo como uma criança."
Meu sangue gelou.
Criança?
Ele tinha acabado de orquestrar a morte do meu pai, tido intimidade com outra mulher, e agora me chamava de criança.
A raiva ferveu, um inferno silencioso dentro de mim. Mas eu a engoli.
Sete dias. Eu só precisava de mais sete dias.
"Não é nada", forcei a saída, minha voz plana, desprovida de emoção.
"Só um pouco cansada."
Ele beijou minha testa, aparentemente apaziguado. "Não se preocupe, querida. Nosso casamento será perfeito. A 99ª vez é a que vale, certo?"
Ele riu, um som que me irritou os nervos.
"E este vestido? Você gostou?" Ele gesticulou para o último vestido.
"É... feio", eu disse, um lampejo de desafio na minha voz.
Sua testa franziu por um momento, depois se clareou.
Um largo sorriso se espalhou por seu rosto. "Feio? Sabe de uma coisa? Você está certa! Não é bom o suficiente para você, minha rainha. Sabe o que faremos, vamos... cancelar este também. Encontraremos algo verdadeiramente espetacular. Algo que grite 'Alina Campos'. Adiaremos o casamento de novo, querida. Apenas até encontrarmos o absolutamente perfeito."
Meu coração martelava no peito.
Ele estava cancelando o casamento.
De novo.
Mas desta vez... desta vez era a minha fuga.
Ele estava fazendo o trabalho sujo por mim. Meus lábios se curvaram em um sorriso frio e interior.
Ele não fazia ideia.
"Tudo bem, Arthur", eu disse, minha voz mal um sussurro. "O que você achar melhor."
Ele pareceu surpreso, depois satisfeito.
"Minha sensata Alina. Sempre tão compreensiva." Ele se inclinou para me beijar, mas eu virei a cabeça, fingindo sonolência.
"Sete dias", pensei, "e estarei livre."
Nesse momento, uma batida suave na porta.
A voz de Katarina, doce e infantil, flutuou para dentro.
"Arthur? Você está dormindo? Tive um pesadelo. Você pode vir me consolar?"
Arthur suspirou, uma exibição teatral de paciência.
"Claro, querida. Já vou." Ele me deu um beijo rápido na bochecha, "Durma bem, Alina. Volto logo."
Ele saiu, a porta se fechando atrás dele. Eu podia ouvir suas vozes abafadas, depois o rangido suave de outra porta.
Então, silêncio.
Um silêncio arrepiante.
Minha contagem regressiva havia começado.