A lancha atracou no píer da ilha particular em Angra dos Reis.
Me esforcei para me levantar, as pernas vacilantes e o estômago revirado pelo enjoo do mar, e caminhei até a pequena loja da ilha, onde comprei um buquê de lírios brancos e alguns bastões de incenso. Hoje completava um ano desde a morte do meu segundo filho, outro bebê que nunca pude carregar nos braços.
O carro preto e sofisticado de Cadu já aguardava. Quando estendi a mão para abrir a porta do passageiro, outra mão interceptou a minha — era Camila, que já havia tomado posse daquele lugar.
Seu rosto permanecia sereno, a voz controlada ao dizer: "Não estou me sentindo bem. O banco de trás balança demais."
Ela falou isso como se fosse a coisa mais natural, como se não estivesse, de propósito, me privando do meu espaço justamente neste dia.
"Realmente não quero impedir o Cadu de te consolar na subida da colina", ela acrescentou, com um sorriso leve, quase zombeteiro, sugerindo que ele não tinha essa intenção de qualquer maneira.
Me virei para Cadu, que permanecia ao volante, os olhos ocultos por óculos escuros. Procurei algum gesto de apoio, um sinal de que ele me defenderia. Mas ele apenas deu de ombros, cedendo, em silêncio, aos caprichos dela. "Apenas sente-se no banco de trás, Joice."
Meu coração, já frágil e ferido, foi atingido por uma dor renovada, uma dor surda, conhecida demais. Eu não significava nada, e meu luto não significava nada.
Sem dizer palavra, me acomodei no banco de trás. O carro iniciou a subida pela estrada íngreme e enlameada até o pequeno cemitério particular da família de Cadu. Ao olhar para frente, vi quando ele ajustou a temperatura para Camila e lhe entregou uma garrafa de água. Virei o rosto para a janela, deixando que uma dormência pesada se apoderasse de mim. Eu não interferiria mais, não brigaria por espaço, afinal, não havia um espaço que fosse meu.
Chegamos ao topo da colina.
Quando desci, segurando os lírios, Camila interceptou meu caminho e estendeu a mão para o buquê. "Me deixe te ajudar com isso."
"Não, obrigada, posso fazer isso sozinha", respondi em tom neutro.
Ela ignorou minhas palavras, apertando as flores com firmeza, tentando arrancá-las de mim enquanto dizia: "Não seja tão teimosa. Só quero ser gentil."
"Eu já disse que não!" Aquelas flores eram para o meu filho, um filho cuja morte tinha as digitais dela. Eu não permitiria que ela as tocasse, nem por um instante.
"Você está armando um espetáculo", ela sibilou, os olhos faiscando. "Sempre precisa ser tão difícil. Cadu, diga alguma coisa!"
Ela era quem havia iniciado aquilo, mas inverteu os papéis para me transformar na vilã. O chão, escorregadio pela chuva recente, não ajudava — enquanto ela puxava, seus saltos elegantes, mas impróprios, deslizaram sobre a pedra molhada.
"Cuidado!", alertei, estendendo a mão instintivamente para ampará-la.
Ela interpretou equivocadamente meu gesto, pensando que iria empurrá-la, e gritou: "Não encoste em mim!"
Seu próprio desequilíbrio, somado ao impulso dos sapatos, a fez cair para trás. Os lírios escaparam de suas mãos no movimento brusco.
Cadu saiu do carro imediatamente, mas não veio até mim. Ele correu direto até ela, a erguendo nos braços, o rosto tomado de preocupação febril ao perguntar: "Cami, você está bem? Se machucou?"
Em seguida, ele se virou na minha direção, a voz impregnada de veneno: "Joice, o que deu em você? Por que a empurrou?"
Camila, aninhada em seus braços, começou a soluçar enquanto murmurava: "Eu só queria ajudar a carregar as flores... mas ela disse que eu não era digna."
Ela era realmente uma atriz extraordinária. Se afastando dos braços de Cadu, ela disse, sua voz uma mistura perfeita de coragem e fragilidade: "Me solte, estou bem."
Cadu a segurou com ainda mais firmeza, acariciando os cabelos dela. "Shh, não se preocupe. Estou aqui."
Então, voltou seu olhar irado para mim. "Ela só tentou ser prestativa, e você age como se fosse um crime imperdoável. Eram apenas flores, Joice! Por que precisa ser tão mesquinha?"
Para ele, era apenas sobre flores — ele não compreendia que se se tratava do meu filho, do meu luto, da última migalha de dignidade que me restava.
"Peça desculpas a ela", ele ordenou, com voz intransigente.
Olhei-o, dividida entre a incredulidade e a fúria. "Não tenho nada pelo que me desculpar."
A mandíbula dele contraiu ao exigir: "Peça desculpas, ou juro que a deixo aqui. Você voltará sozinha para casa e nunca mais verá este lugar. Farei os arranjos para que o túmulo dele sejam retirados daqui."
Ele estava usando os restos mortais do meu filho para me ameaçar.
A ameaça pairava no ar, fria e afiada, como uma lâmina prestes a cortar, e eu sabia que ele tiraria meu filho de mim, mesmo na morte. Meu corpo inteiro tremeu enquanto a resistência se desfazia, deixando apenas um vazio oco onde antes havia força.
"Me desculpe", sussurrei, o gosto de veneno queimando na boca, as palavras lançadas ao chão lamacento porque eu não suportava erguer os olhos para encarar o triunfo estampado no rosto de Camila.
Ela fungou de leve, um som estudado, delicado e ferido, e sem olhar para mim, murmurou: "Está bem. Eu te perdoo."
Cadu me lançou um último olhar de desprezo antes de voltar toda a sua atenção para ela, conduzindo-a com cuidado de volta ao carro como se fosse frágil como vidro.
Fiquei sozinha no caminho encharcado, até que o celular vibrou em meu bolso alguns minutos depois — uma mensagem de Cadu: "O tornozelo da Cami está inchando. Vou levá-la ao médico. O motorista voltará para te buscar em uma hora."
Caí de joelhos, e as lágrimas que eu vinha sufocando finalmente transbordaram, se misturando à chuva que recomeçava a cair. Chorei pelo meu filho perdido, pelo amor transformado em arma contra mim, pela mulher que eu já não era. Então, tirei do bolso o pequeno frasco laranja, comprimidos tão diminutos e inofensivos na aparência, que engoli a seco como uma promessa feita a mim mesma, uma promessa de fim.
Recolhi os lírios espalhados e sujos de lama, limpando pétala por pétala com a barra do casaco, porque eram tudo o que me restava daquele dia — eram meu amor, minha dor, meu pedido de desculpas à criança que não consegui proteger.
Cadu não voltou naquela noite, nem na seguinte, e só no terceiro dia eu soube onde estava, pois um amigo me marcou em uma postagem: uma transmissão ao vivo de uma festa em um iate luxuoso.
Lá estava Cadu, rindo, uma taça de champanhe na mão, Camila ao seu lado, resplandecente em um vestido de lantejoulas, inclinando-se para o microfone de uma influenciadora que sorria entusiasmada.
"Cadu, todo mundo quer saber, quando você vai oficializar com a Camila?", a influenciadora perguntou.
Camila riu, se voltando para ele com olhos grandes e cheios de expectativa. "Sim, Cadu. Quando?"
Da multidão, alguém gritou: "Ele já é casado!"
Camila fez beicinho, encenando um sofrimento perfeito, dizendo em voz alta para que a câmera captasse: "Mas ele não a ama. Cadu, você precisa escolher."
Ele olhou direto para a câmera, o rosto sério, a voz firme e ressonante. "Camila... sempre amei você."
A multidão explodiu em aplausos, e ela o abraçou, escondendo o rosto em seu ombro, mas eu vi o sorriso de vitória que lançou à câmera, uma mensagem clara, um espetáculo montado para mim, uma execução pública do meu casamento.
Nesse instante, compreendi — não era mais sobre vingança contra a família dela, não era um jogo, ele a amava, e toda dor, toda humilhação que ele me fizera suportar eram reais.
Fechei o notebook, o quarto escuro iluminado apenas pelos postes da rua, o vento uivando contra as janelas, mas então uma dor aguda me atravessou a barriga, tão violenta que me dobrou ao meio, muito pior do que qualquer cólica que eu conhecia. A agonia dilacerante me fez tropeçar até o banheiro, tomada por um pavor gelado, e ali vi o sangue, tanto sangue.
Quando recobrei a consciência, estava no chão frio, a dor agora um eco surdo que latejava em ondas, e dentro de mim apenas um vazio, como se uma parte tivesse sido arrancada de forma definitiva.
Cadu estava ali, fisicamente, ajoelhado ao lado da cama de hospital, o rosto uma máscara ensaiada de preocupação.
"O médico disse que você perdeu o bebê, era cedo demais... uma gravidez química, acontece", ele falou com suavidade forçada. Essas palavras deixavam claro que ele estava descartando outra vida, outro filho.
Lembrei-me de quando começamos a tentar, quando ele se enchia de alegria, falando sobre nomes, sobre como seria nosso filho, me abraçando e prometendo um futuro de risos e pezinhos correndo pela casa. Mas aquele homem já não existia eo que estava diante de mim era um estranho.
E como uma lâmina, voltou a memória do iate — a declaração pública "sempre amei você", dita a Camila — e a dor em meu peito foi tão imensa que parecia uma morte física, porque eu havia perdido tudo — meus filhos, meu marido, a mim mesma.
Chorei, lágrimas quentes e incontroláveis, de luto, de fúria, de um amor completamente destruído.
De repente, a porta se abriu com violência, e Camila surgiu, de braços cruzados e expressão impaciente, vestida com impecável traje de tênis branco "Cadu, você vem? Você prometeu que jogaria uma partida comigo hoje", disse ela, a voz irritada e cortante, Ele largou minha mão de imediato, se levantando para se voltar inteiramente a ela. Enquanto se aproximava, ele sorriu de maneira brincalhona, perguntando: "Com ciúmes de eu passar tempo com minha esposa?"
Camila riu com desdém ao comentar: "Até parece. Você só está perdendo tempo"
"Talvez eu goste de perder tempo com ela", Cadu respondeu em provocação. "Talvez eu fique aqui o dia todo."
Era o jogo doentio e cruel deles, e minha cama de hospital servia de palco, meu luto transformado em espetáculo, meu sofrimento em diversão.