Capa do Romance A SERENIDADE DO AMOR REAL

A SERENIDADE DO AMOR REAL

8.3 / 10.0
Lysley superou um casamento abusivo de dez anos para se tornar uma mulher independente e focada em seu filho, Emanuel. Aos 30 anos, após sofrer traições e violência, ela blindou seu coração contra o amor. No entanto, o destino promove um encontro inesperado com Nick, um homem cético que evita compromissos e vê as mulheres apenas como diversão passageira. Enquanto novos personagens surgem para abalar suas convicções, esses dois opostos precisam lidar com uma conexão irresistível.

A SERENIDADE DO AMOR REAL Capítulo 1

Lisley Coby

Dois anos atrás

Estava casada há 10 anos, tinha um filho que amava, mas o relacionamento era doente, eu estava doente, mas não enxergava isso, vivia procurando justificativas para as grosserias do meu marido, para os desrespeitos dele, era um fantoche para ele e para a família dele, e o pior que eles me faziam mal, e eu que me sentia culpada.

Peguei algumas traições dele ao longo dos anos, mas ele sempre dava uma justificativa, e ainda me colocava como errada na equação, eu me sentia mal, e comprava aquelas desculpas esfarrapadas, isso foi minando meu brilho.

Fui uma adolescente cheia de vida, de energia, sempre amei me divertir, dar risada, cantar, dançar, nem sei mais o que é isso, minha vida sintetizou em uma bolha, onde trabalho, cuido de casa, do meu filho, minhas aspirações profissionais paralisaram, não me cuido, não sobra tempo nem dinheiro para tal, meu marido diz que é desnecessário ir em um cabelereiro ou em uma manicure.

Quanta ironia da vida, era demasiado desnecessário eu me cuidar, mas ele achava interessante admirar as mulheres que estavam arrumadas e bonitas, elogiá-las, aff, como nos sujeitamos a situações degradantes, por não aprendermos a nos valorizar e nos colocar em prioridade, e isso não vai nos tornar menos mulher, ou menos mãe, ou menos esposa, se houver um marido de verdade ao lado, ele iria valorizar e reconhecer a

mulher que tem.

Descobri, aliás mais uma vez peguei fatos, provas da traição dele, eu trabalhando dando um duro, para construir nossas idealizações, deixava de me cuidar, de me permitir comer algo que queria, de fazer algo por mim ou pelo meu filho, para comprar nossa casa, enquanto isso, ele gastava em restaurante caro com outra mulher, e sabe o que mais me machucou nisso tudo, não que o fato da traição, tenha machucado menos, mas ver ele e a família fazendo chacota com minha cara, achando bonito o fato de ele estar me enganando, e olhe só, depois de ter visto tudo isso, ele mais uma vez tentou dar uma desculpa como sempre, tentou virar a mesa, se fazer de vítima e me colocar como a errada, a louca, sim fiquei extremamente chateada, e dei um chilique, chorei, gritei, esbravejei, eu que nos últimos anos, só ficava calada quando começava uma discussão, ele gritava, apontava o dedo e eu simplesmente abaixava a cabeça e ouvia calada, para evitar discussões, e brigas maiores, não era aquele ambiente que queria que meu filho crescesse assistindo, mas ele nem se importava.

Mas depois de 10 anos, vivendo para empurrar os dias e uma relação com a barriga, e para fazer de conta para os outros que estava tudo bem, sendo que não estava nada bem, e depois de aguentar tantos desaforos, tantas humilhações, eu já estava cansada, cansada de chorar, cansada de sufocar minhas tristezas, minhas dores, cansada de ser feita de boba, de fingir que não via enquanto estava sendo sumariamente desrespeitada, mas precisei cair, cair num poço escuro e bem fundo, que me machucou bastante, doeu, doeu tanto que pensei que iria morrer, aliás, eu quis morrer, porque parecia ser a única solução para suportar tudo aquilo.

Dessa vez, eu senti o soco de uma forma diferente, já havia sido agredida algumas vezes, mas eu nunca contei para ninguém, porque parecia que eu quem havia feito algo errado, me sentia envergonhada, culpada, me sentia um lixo por aquilo, e não falava para ninguém, pelo contrário, fingia que vivia em um relacionamento "perfeito", pintava ele como o marido perfeito, mesmo quando algumas pessoas viam o contrário, eu o justificava, pior erro que cometemos, defender e justificar alguém que nos machuca, que nos magoa, mas tudo bem, a vida tem fatos que nos fere, mas também há aqueles que nos cura, ou pelo menos nos proporciona alívio, e nos ensina a sermos mais fortes e resilientes.

Eu estava doente, sim doente de alma, de espírito, e isso estava refletindo em meu corpo, descontava tudo em comida, cabelo caindo, ganho de peso, queria me isolar de tudo e de todos, ficar deitada,, mas meu filho me dava motivação nesse processo, me levantava da cama por ele, saia à luta porque sabia que não poderia desmoronar lá dentro daquele poço, ele necessitava de mim, era só uma criança estava com seus 4 aninhos, um menino incrível.

Descobrir a traição só agravou meu quadro, eu que já vinha suprimindo aquele meu estado de saúde, não consegui me conter, dormia chorando e acordava, chorando mais ainda, parecia que a dor no coração iria me estraçalhar, a dor de uma traição ela não é apenas "coisa da mente" como alguns deduzem, ela dói no físico também, e como doeu, a dor do parto não me causou a dor que eu tive ao constatar aquela traição, e conforme ia pensando e refletindo sobre o que vi e ouvi, a ficha ia caindo sobre tudo.

Comecei a me afogar naquele poço que caí, estava lutando para não me afogar, porque mesmo querendo simplesmente abandonar tudo, o amor maior pulsava em mim, que era o meu filho, então eu sabia que precisava luta e reagir por ele. Mas como fazer isso, quando você se encontra perdida, ferida, ali você esquece que tem identidade. É, descobri isso, relacionamento tóxico, faz com que a pessoa perca a sua identidade, perca sua autonomia de Ser. Trabalhava, era independente, mas só mesmo tempo, me sentia dependente das migalhas que me era ofertada, fui sendo moldada para aceitar aquilo, e que se eu não o fizesse, quem perderia seria eu.

Não gostava do que via no espelho, não conseguia sorrir, não conseguia me ver como uma mulher, pelo contrário, me via mal, e confesso que cheguei a tentar justificar os atos dele pela minha figura, destratada.

Mas depois de tanta coisa, decidi que precisava pontuar algumas coisas em minha vida, ou então eu morreria afogada ali naquele poço, foi então que decidi refletir meus últimos dez anos, e acrescentar nessa equação a Lisley que eu era antes dessa relação com essa mulher tristonha e doente que me transformei ao longo desses anos nesse relacionamento.

Nesse processo, levantei algumas pautas, e eu decidi que precisava ser sincera comigo mesmo e responder para mim com franqueza, primeiro, eu estava feliz? O que me deixava triste? O que me fazia feliz? O que aquela pessoa que se dizia meu marido fazia por mim? O que eu fazia por ele? Eu estava sendo eu mesma? O que eu estava fazendo por mim? E conforme eu ia me respondendo essas questões, ia ficando mais claro para mim a luz no poço, comecei a enxergar as coisas não como eu idealizava que fossem, mas como eram de fato.

E nisso fui vendo que eu vivia às margens do que eu idealizava como casamento perfeito, com o marido perfeito, eu queria que ele fosse bom, gentil, carinhoso, que me cuidasse, mas o que eu estava recebendo na prática não era isso, e por eu entrar naquela bolha da manipulação de uma relação tóxica eu não conseguia me dar conta disso.

E ali de repente a luz foi ficando mais forte, e eu comecei a sentir o ar melhorar, decidi que precisava colocar um basta naquilo que me fazia mal, precisava cuidar do meu filho, mas antes de tudo, precisava cuidar de mim, porque se eu não estivesse bem comigo, eu não ia ficar bem para ele, e para nada.

Meu "ex" marido jamais imaginou que eu fosse ter coragem de fazer isso, tomar tal decisão, ele tinha como tão certo que eu suportaria tudo calada pelo resto da vida, enxerguei isso pelas ações e palavras dele quando fiz meu anúncio, chamei ele para conversar, ele todo arrogante, mal imaginava o teor da conversa, porque até então eu havia descoberto a traição, ele deu as desculpas, eu me chateei, dessa vez havia sido um pouco diferente, depois entrei em um silêncio, ele pediu perdão, disse que iria mudar, mas conforme foram passando os dias, semanas, meses eu vi que não mudaria, tudo iria voltar a ser como era, mas dessa vez ele quebrou algo em mim que não era possível remontar mais, eu fiquei em silêncio, mas estava com o coração sangrando, lutando para reagir e sair daquele poço que havia me enclausurado seis meses antes.

E naquele dia, mesmo se passando meses, que para ele estava como resolvido, para mim não, decidi verbalizar meus sentimentos, eu escrevi tudo que queria falar, porque não queria que a emoção suprimisse minhas palavras, que minha memória falhasse ao expor tudo o que senti e sentia, o quanto doeu todas as feridas que ele me causou ao longo daqueles anos, as físicas podiam até ter passado, mas ele deixou cicatrizes que só eu poderia ver e sentir o quanto ainda doíam.

Falei tudo que senti, tudo que guardei ao longo de todos aqueles anos, tivemos sim, momentos bons e felizes, mas quando parei pra analisar nossa trajetória juntos, só me vinham momentos de dor e tristeza, e foi assim depois de falar tudo, e mesmo ele tentando me interromper, dessa vez não permitir, não deixei com que ele me mandasse "calar a boca" como ele fez outras vezes, falei que eu iria dizer tudo o que eu tinha para dizer, e quando eu finalizasse, ele teria o direito dele de fala também.

Quando terminei de verbalizar, falei que queria o divórcio, pois não me via feliz, eu perdi minha essência naquela relação, logicamente ele se alterou, porque não esperava eu dizer isso, mas ele mais uma vez, tinha que me ferir para se justificar, ele disse que eu não conseguiria ninguém, que se ele quisesse ele pegaria mulher a qualquer hora, ele me desprezou como mulher para de sentir superior, disse que eu não arrumaria alguém como ele, como se eu tivesse terminando aquela relação para procurar homem, eu queria sim procurar alguém, mas esse alguém era eu mesma, aquela Lisley cheia de perspectivas de antes desse relacionamento, aquela menina que sorria com os olhos, que cantava com a alma, que irradiava alegria por onde passava.

Mas em resumo, ele me pontuou de desajeitada, que mesmo eu estando acima do peso ele ainda me "aceitava", e que não seria qualquer "bom homem" que queria isso não, ali eu senti como um tapa na cara, mesmo diante da minha decisão e vendo o quanto estava sendo intoxicada, as palavras dele ainda tiveram o poder de me machucar. Mas ali ele fez eu virar uma chave, eu iria cuidar de mim mesma, com mais determinação ainda.

Comecei a cuidar de minha saúde como não fazia há muito tempo, decidir e determinei que precisava me priorizar em tudo, e assim o fiz, tinha uma rotina puxada, criança de 4 anos para cuidar, mas ali me reorganizei, encaixava uma caminhada aliada com corrida logo cedo, e assim iria trabalhar mais disposta, mudei minha alimentação, mas sem sofrer, e nem fazendo dietas milagrosas ou mirabolantes, só decidir ir reduzindo nas quantidades, porque meu erro muita das vezes era no exagero, por descontar minhas frustrações na comida, acabava por comer em excesso, arrumei um horário e encaixei academia, e ali ia transformando minha mente cada dia mais, e a mudança no corpo foi uma consequência dessa mudança que fui construindo.

Mas engana-se quem pensa que foi um processo fácil, a superação do término depois que verbalizei tudo que tinha vontade foi até tranquila, o difícil foi lidar com os ataques, a máscara caindo e eu constatando a verdadeira pessoa com quem compartilhei minha vida nos últimos dez anos, e sabe o que descobri, que a nossa sociedade é demasiada hipócrita, podemos fazer tudo por algumas pessoas, mas no dia que você decidir não fazer mais, não estar mais a disposição delas, elas simplesmente vão te pintar como o pior ser humano do mundo, e assim foi, meu ex, fez um papel de coitado, e aqueles que outrora me conheciam, e conviviam mais comigo preferiram comprar a versão dele, só porque eu decidi me calar, eu encerrei meu ciclo com ele, falei tudo o que tinha que falar pra ele, mas não fiz mais nada, eu tinha provas, tinha tudo que comprovava quem era quem, mas sabe o que eu concluí, que eu não precisava me justificar para ninguém, se a pessoa me conheceu, e não sentiu a necessidade de vir conversar comigo antes de comprar a história do outro, então ela não merece fazer parte do meu círculo mais, e assim, fui fechando portas, janelas, e acabei fechando o meu coração também.

Houve muitos julgamentos, muitos "conselhos" que eu não deveria me separar em nome do "amor", eu estava definhando em vida, mas as pessoas queriam que eu me mantivesse naquela relação por pura dogma religioso, mas mantive firme minha decisão em mudar, não retornaria para aquele estágio novamente.

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