Capa do Romance Entre o Amor e a Dor

Entre o Amor e a Dor

8.7 / 10.0
Melissa jurou nunca mais amar após um trauma devastador, mas o surgimento do envolvente Gustavo começa a curar suas feridas e desafiar suas certezas. No entanto, a paz é ameaçada pelo retorno de Pedro Calixto. Agora perigoso e carregado de segredos sombrios, ele planeja sabotar a nova vida dela. Dividida entre a esperança de um recomeço e o abismo do passado, Melissa precisará decidir se confia em seus olhos ou em sua intuição para sobreviver a esse jogo de sedução.

Entre o Amor e a Dor Capítulo 1

Sai do quarto apressada, peguei minha bolsa e dentro dela estava o meu romance favorito.

Era manhã de uma segunda-feira e eu tinha que ir trabalhar. Acordei bastante cedo, porque não estava disposta a ouvir o meu chefe reclamar que cheguei atrasada novamente.

Não queria dirigir. Então tudo que fiz foi pegar o ônibus, colocar meu fone de ouvidos, ouvir músicas que me acalmavam… e comecei a ler.

Estranhamente, naquela manhã eu estava calma. E eu estava acreditando que tudo seguiria assim.

Afinal: alguma coisa acontecia dentro de minha velha e entediante rotina constante?

O ônibus parou em um ponto antes da empresa que eu trabalhava, e eu segui em passos rápidos até lá.

Quando as portas do elevador se abriram, eu olhei o espaçoso coração da empresa. As paredes eram de um marrom-madeira, três mesas presentes para mim e outras duas para minhas colegas de trabalho.

Nenhuma havia chegado ainda. E eu agradeci.

Não era que eu fosse solitária, nem mal-humorada. Eu só não gostava de conversar tanto com pessoas diferentes de mim. Se bem que todos eram diferentes de mim…

Eu era uma mulher de vinte e dois anos, no entanto, eu não vivia como uma. Paloma, minha amiga, insistia em me lembrar disso.

Mas ela não poderia me culpar. Eu gostava da calmaria, gostava da paz e do meu cotidiano. Por que atrapalharia isso?

Eu já chorei demais um dia. Já tive sonhos demais um dia. E esses "demais" já alcançaram sua meta.

Eu estava perdida em pensamentos e nem notei quando Letícia e Josi se acomodaram em suas mesas ao meu lado. Josi sorriu de leve para mim. Letícia, não. Ela nunca foi com minha cara e, bem, eu nunca me incomodei com isso.

Dei uma pausa ao que estava olhando em frente ao computador e segui até o escritório do meu chefe pra lhe entregar os relatórios pendentes que eu fiquei de terminar em casa.

— Licença — eu falei ao entrar na sua sala cheia de pilhas de papéis no meu braço.

— Precisa de ajuda? — a voz dele estava animada.

O ignorei.

— Vim entregar os relatórios que ontem o senhor me pediu. — Levei até sua mesa.

— Obrigado, Melissa. — Ele lançou o olhar verde para as folhas em sua frente.

— De nada. Licença, seu Marcelo.

Eu já estava de retirada quando sua voz me chamou de volta.

— O horário hoje será um pouco mais curto. Vou precisar usar a empresa para fazer um trabalho, então não precisaremos de alguns funcionários.

Não pude evitar o arquear de sobrancelha e a excitação em minha voz ao saber que eu poderia voltar pra casa e dormir.

— Depois do horário do almoço? — perguntei.

— Sim. — Ele levou a mão até o castanho claro dos cabelos. — Pode avisar suas colegas de trabalho.

Assenti.

— Precisa de mais alguma coisa?

— Não. Obrigado. — Ele cruzou as mãos sobre a mesa. — Às doze, poderá seguir.

— Ok. – Saí da sua sala e contei cada instante até sair daquela empresa.

***

Cheguei no meu apartamento às doze e meia da tarde. Joguei minha bolsa sobre o sofá e, enquanto o meu congelado estava no microondas, eu fui procurar alguma coisa pra vestir na bagunça do meu quarto.

Eu voltara pra sala quando notei o vibrar de meu celular em cima da bancada da cozinha.

Era Paloma.

— Melissa? — A voz de minha amiga estava animada.

— Que foi? — sentei-me em frente à mesa e comecei a comer.

— Acabei de ver seu chefe passar e pensei que você teria saído cedo.

— Tô em casa. Por quê? — não deixei de transparecer a desconfiança em minha voz. Quando se tem uma amiga como a Paloma, você tem que esperar de tudo.

— Eu e o Matheus estávamos pensando em ir à praia, e como você está livre, quero que vá conosco. — Em nenhum momento foi uma pergunta.

— Que horas? — soltei um longo suspiro.

— Hoje às três e olha… — ela fez uma pausa. — Chamei o Gustavo pra ir com a gente.

O tom de sua voz me fez semicerrar os olhos, mesmo que ela não pudesse ver.

Eu sabia que tudo isso não passava de mais um arranjo pra ela tentar me tirar do meu "passado obscuro depressivo" — como ela julgara. Mas ela sabia que isso nunca daria certo. Já se passaram quase cinco anos desde que ninguém atravessava as barreiras do meu coração. Por que seria logo agora, naquela tediosa segunda-feira que cada passo meu se dava como um robô, que isso iria acontecer?

— Quem é Gustavo? — minha voz estava severa ao perguntar estridentes.

Paloma não percebeu nada — ou não me deu bola. Simplesmente, com a animação que ela tinha, começou a falar:

— Um amigo nosso. Ele é muito bonito, Melissa, e muito gente boa. Se você gostar dele até…

— Sério, Paloma? — interrompi. — Já falei que não quero conhecer ninguém, e estou muito bem sozinha. — Repeti meu mantra de sempre.

Não conhecer ninguém.

Bem sozinha.

Sem ninguém…

Sem lágrimas e decepções.

Tudo estava dando certo.

— Não tá não. — a voz de minha amiga ecoou sobre meus pensamentos. — Você tem que conhecer alguém, Melissa. Alguém de verdade. Não só esse dos livros. Ser feliz e esquecer o seu maldito passado obscuro depressivo.

Soltei um longo suspiro e consegui sorrir de leve. Não valeria a pena levar aquela discussão adiante. Não valeria a pena falar aquilo com a Paloma. Ela sempre sairia com razão — ao menos era isso em que ela acreditava.

— Tá bom, Paloma. — Me rendi. — Eu vou. Até mais.

Quando meu despertador tocou às duas horas, eu pensei seriamente em não ir.

Não queria ter que conhecer mais ninguém.

Não quero ouvir um "e aí, gata, vai rolar?"

Quase vomitei com meu próprio pensamento.

Eu havia acabado de sair do banho e já estava quase pronta ao me olhar no espelho. Vestia um short jeans e uma blusa branca um pouco folgada por cima do biquíni preto. Ao observar minha imagem no espelho, os grandes olhos azuis em contraste com a pele pálida me fizeram relembrar que, de fato, eu precisaria pegar uma cor.

Fui até minha cômoda, peguei minha maquiagem. Passei base que também servia como protetor solar, rímel e um batom rosa claro. Fiz um rabo de cavalo no cabelo dessa vez e segui até a casa de Paloma.

A tarde estava muito bonita. Andei três quadras até chegar na casa da minha amiga.

Toquei a campainha. E não foi ela, nem o Matheus quem atendeu.

Foi um cara alto. Cabelos castanhos claros, olhos verdes… e muito bonito.

Pensei que poderia ser o tal Gustavo que minha amiga falou, e eu esperei o momento que ele me chamaria de "gata".

Mas, ao contrário disso, ele permaneceu olhando pra mim, com a testa franzida e os lábios entreabertos — como se me conhecesse de algum lugar.

De forma confusa, eu também lhe observei. Eu queria guardar sua imagem pra encher de defeitos, caso meu coração me traísse do jeito que ele batia fortemente agora.

Mas eu não encontrei nenhum defeito.

Droga. Isso sempre funcionava.

— Oi — ele finalmente falou.

Meus lábios se abriram de leve ao ouvir sua voz. Era um sussurrar suave. Um sussurrar que fez os pelos do meu corpo se arrepiarem.

Ele estava sorrindo. Um sorriso bonito e cheio de dentes.

Não. Não…

— Oi, a Paloma está? — me livrei dos pensamentos e fiz uma força enorme pra que ele não notasse a maneira desconcertante que sua voz e sorriso me abalaram.

Antes que ele respondesse minha pergunta, a minha amiga apareceu e gritou:

— Melissa, entra!

O cara que estava entre a porta — que eu ainda não sabia o nome — se afastou, e eu entrei.

Corri e fui abraçar minha amiga. Eu sentia falta dela. Eu trabalhava oito horas por dia, e às vezes quando chegava ainda tinha que preparar os relatórios do dia seguinte, e isso fazia com que raramente a visse.

Ela era a única pessoa próxima de mim. Há de anos atrás e que ainda permanecia. Afinal, amizade era isso: permanecer nos tempos difíceis e de tempestade. Porque digamos que nós atravessamos inúmeros vendavais.

— Olha… — ela começou assim que me soltou. — Esse é o Gustavo. — Ela olhou para o cara que atendeu a porta e voltou a visão para mim.

É. Era ele.

Mas eu não me vi querendo vencer uma luta ao olhar o brilho verde em seus olhos.

Eu me vi sorrindo pra ele.

Eu só me vi focando no agora.

E ele também sorriu para mim.

Paloma deu um sorriso malicioso que eu já sabia o que significava.

Eu ignorei.

— Prazer — ele falou estendendo sua mão até a minha.

Apertei sua mão e, de uma forma estranha, aquele toque me causou arrepios pela coluna. Pareceu enviar choques por todo o meu corpo.

Que sensação estranha.

— Prazer também, Gustavo. — Sorri e soltei sua mão rapidamente, tentando me livrar de tamanhas sensações.

— Cadê o Matheus? — perguntei a Paloma, tentando desviar meus pensamentos.

— A maravilha em pessoa. — Matheus apareceu com seu jeito único e totalmente espontâneo que eu jamais seria.

De repente, um silêncio se instalou. E percebi que Matheus e Paloma estavam inquietos.

Eu e o Gustavo percebemos. Olhamos um para o outro e depois para Matheus e Paloma, que agora estavam lado a lado.

— O que foi? — perguntei, quebrando o silêncio.

— É que… — Paloma começou indecisa e mexeu nas mãos. — Eu e o Matheus já marcamos a data do casamento.

Uma felicidade nova.

Isso. Tudo o que eu precisava.

— Ai, Paloma. — Corri e abracei minha amiga.

Sim, ela estava noiva há dois anos. O caso de amor dela e Matheus era antigo, mas a chama ainda estava presente nos dois.

A esperança em um amor… era o que eu invejava nela.

— Você não imagina o quanto estou feliz por vocês. — Eu disse ao soltá-la.

Percebi que o Gustavo se aproximou do Matheus e, em um aperto de mão e um abraço distante, ele falou:

— Felicidades, seu idiota.

Paloma e Matheus olharam um para o outro e sorriram. Depois de um respirar fundo, ela pegou sua bolsa no sofá.

— Vamos? — disse ela.

E seguimos.

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