Capítulo 2

A cobertura estava silenciosa demais.

Derick empurrou a pesada porta de carvalho, o gosto rançoso de uísque cobrindo sua língua. Ele tirou o paletó e o jogou na direção do mordomo, errando as mãos estendidas do homem por uns trinta centímetros. Ele não se deu ao trabalho de pedir desculpas. Um sorriso pairava em seus lábios — o resquício da gala da noite anterior, o flash das câmeras, o jeito que Kamryn o olhara.

Ele enfiou a mão no bolso e tirou um cacho de balões prateados metálicos, os que ele havia pegado da festa pós-evento. Eles batiam no teto enquanto ele caminhava pelo corredor.

"Cece?", ele chamou, com a voz leve. "O papai chegou. Trouxe uma coisa para você."

Ele parou do lado de fora da porta do quarto dela. Estava fechada. Incomum. Cece sempre a deixava aberta, o som de seus desenhos animados ecoando pelo corredor.

Ele a empurrou para abrir.

A cama estava feita. Impecável. Os lençóis estavam bem esticados, os travesseiros afofados. O equipamento médico — o tanque de oxigênio, o oxímetro de pulso — havia sumido. O quarto cheirava a antisséptico e a vazio.

O sorriso de Derick vacilou. Os balões desceram, roçando em seu ombro. Ele se virou e caminhou em direção à sala de estar.

Elinor estava sentada no sofá. Ela ainda usava as mesmas roupas de ontem, uma blusa amassada e calças escuras. Suas mãos estavam juntas no colo, os dedos entrelaçados em volta de um medalhão de prata. Ela ergueu o olhar quando ele entrou.

Não havia expressão em seu rosto. Seus olhos estavam vazios, vítreos, como a superfície de um lago morto.

"Onde ela está?", Derick perguntou. Ele tentou manter o tom casual, mas um fio de inquietação se enroscou em seu peito. "Onde está a Cece?"

Elinor o encarou. Ela o olhou como se ele fosse um estranho que tivesse entrado no apartamento errado.

"A Cece está morta", disse ela.

As palavras pairaram no ar, afiadas e brutais.

Derick congelou. Seus dedos se afrouxaram. Um dos balões escapou de sua mão, flutuou em direção a uma mesa de canto e bateu em um abajur de latão. A ponta de metal afiada da fita do balão prendeu na superfície.

Pop.

O som foi ensurdecedor no silêncio. Derick se encolheu. Os balões restantes penderam em sua mão.

"O que você disse?", ele perguntou, sua voz baixando para um tom perigosamente grave.

"Você me ouviu", disse Elinor. Sua voz era monótona, desprovida da histeria que ele esperava.

A mente de Derick rejeitou as palavras. Eram impossíveis. Absurdas. Aquilo era Elinor jogando um de seus joguinhos, punindo-o por ter ficado fora, por ter levado Kamryn à gala.

"Você está mentindo", ele rosnou, dando um passo em direção a ela. "Está fazendo joguinhos de novo? Assim como fez cinco anos atrás no evento de arrecadação de fundos? Você faz qualquer coisa por atenção, não é? Está sendo ridícula porque eu não atendi suas ligações."

"Não estou mentindo", disse Elinor. Um fantasma de sorriso tocou seus lábios, uma coisa terrível e vazia. "Ela morreu esperando o papai levá-la para ver o Mickey."

Derick avançou. Ele atravessou a sala em duas passadas largas e agarrou Elinor pelos ombros, seus dedos cravando nas clavículas dela. Ele a sacudiu uma vez, com força.

"Pare com isso!", ele gritou. "Isso é doentio, Elinor. Até para você. Onde ela está? Você a mandou para a casa da sua mãe?"

Elinor não lutou contra ele. Não gritou. Apenas deixou que ele a segurasse, seu corpo mole em seu aperto.

"Eu quero vê-la!" Derick a soltou com uma mão, procurando desajeitadamente pelo celular. Ele rolou a tela até o número do Dr. Cole.

"Você não pode", disse Elinor. "Ela foi cremada."

Derick parou. Ele a encarou, o celular esquecido em sua mão. "O quê?"

"As cinzas estão bem aqui." Elinor ergueu o medalhão. Ele balançou em sua corrente, capturando a luz da manhã.

Derick encarou a pequena joia. Uma onda de repulsa e incredulidade o inundou. Isso era ir longe demais. Mesmo para Elinor, era uma mentira perversa e manipuladora.

"Você a está escondendo", disse ele, a voz tremendo de raiva. "Está usando-a para se vingar de mim. Acha que isso tem graça?"

Antes que Elinor pudesse responder, o celular de Derick tocou. A tela se iluminou com uma foto de Kamryn, seu rosto radiante e sorridente.

Derick olhou para o celular, depois para Elinor. A expressão de Elinor não mudou. Ela apenas ficou sentada ali, segurando o medalhão, com aquele olhar vazio.

Ele atendeu a chamada. "Kamryn?"

"Derick", Kamryn soluçou do outro lado da linha. "Sinto muito por incomodá-lo, mas a Kiana está com uma febre terrível. Ela está queimando. Não sei o que fazer. Preciso de você."

Derick olhou para o balão em sua mão, depois para a mulher sentada no sofá. A escolha foi instantânea. A realidade de uma criança doente contra a mentira teatral de uma esposa amargurada.

"Se você vai continuar com essa piada doentia", disse Derick, enfiando o celular no bolso, "não tenho tempo para isso."

Ele virou nos calcanhares e caminhou a passos largos em direção à porta.

"Os papéis do divórcio serão enviados para o seu escritório", disse Elinor para as costas dele.

Derick parou, a mão na maçaneta. Ele não se virou. Abriu a porta com um puxão e a bateu atrás de si, o som reverberando pelo apartamento vazio.

Elinor ficou sentada, sozinha. O silêncio retornou, mais pesado do que antes. A dormência que a protegia se partiu, e a dor a atingiu como um maremoto. Ela se curvou, um soluço rasgando sua garganta, cru e feio.

Ela apertou o medalhão até as bordas de metal cortarem sua palma. Ela não iria desmoronar. Não podia se dar ao luxo de desmoronar. Ainda não.

Ela pegou o celular na mesa de centro. Suas mãos tremiam enquanto digitava na barra de pesquisa: Detetives particulares Nova York. Erro médico.

Capítulo 3

"Eu tenho o direito legal a esses registros."

Elinor se inclinou sobre o balcão do escritório da administração do hospital, os nós dos dedos brancos contra a superfície laminada.

A administradora, uma mulher de cabelos grisalhos e postura rígida, não piscou. "Sra. Grant, eu já expliquei isso. A Lei de Privacidade HIPAA nos proíbe de divulgar dados de alocação de pacientes a indivíduos não autorizados. Mesmo para familiares do falecido."

"Eu sou a mãe dela", disse Elinor, com a voz se elevando. "E um rim de doador foi desviado da minha filha. Eu quero saber quem autorizou isso."

A expressão da mulher permaneceu impassível. "Se você tem uma queixa legal, precisa enviar o formulário 104-B para o departamento de conformidade. Segurança!"

Dois homens grandes em uniformes escuros deram um passo à frente, posicionando-se atrás de Elinor. Um deles gesticulou para a porta. "Senhora, está na hora de ir."

Elinor queria gritar. Queria estender a mão sobre a mesa e arrancar a presunção do rosto da mulher. Mas ela sabia que era inútil. O sistema foi construído para manter pessoas como ela do lado de fora.

Ela se virou e saiu para o corredor, seus saltos estalando contra o linóleo. Sentiu o medalhão balançar contra o peito a cada passo, um lembrete frio do porquê estava ali.

Ela quase colidiu com o Dr. Evan Cole.

Ele andava rapidamente, de cabeça baixa, com um tablet apertado contra o peito. Ele ergueu o olhar, a viu e congelou.

"Dr. Cole", disse Elinor, entrando em seu caminho. "Por que a cirurgia da Cece foi cancelada?"

Os olhos de Cole dispararam para a esquerda e para a direita, procurando uma rota de fuga. "Sra. Grant, sinto muito pela sua perda. Mas não posso discutir o cuidado de pacientes no corredor."

"Foi o comitê de transplantes?", Elinor insistiu, aproximando-se. "Outra pessoa pegou o rim dela?"

O rosto de Cole perdeu a cor. Ele deu um passo para trás, quase tropeçando nos próprios pés. "O comitê toma decisões com base na urgência médica e na compatibilidade. É tudo o que posso dizer."

"A Kamryn Turner pegou?", Elinor exigiu. "Ela usou as conexões dela para furar a fila?"

"Eu não sei do que você está falando", gaguejou Cole. Ele a contornou, começando a quase correr pelo corredor.

"Me diga!", Elinor correu atrás dele, mas ele desapareceu por um conjunto de portas restritas, a fechadura se trancando atrás dele.

Elinor ficou ali, respirando com dificuldade, os punhos cerrados ao lado do corpo. A raiva era uma coisa viva dentro dela, arranhando para sair. Ela se afastou das portas e caminhou em direção ao saguão principal.

Parou abruptamente.

O saguão estava claro, cheio com o sol da tarde que entrava pelas paredes de vidro. Na área de assentos central, Derick estava sentado em um sofá de pelúcia. Ele segurava a mão de uma garotinha — Kiana. Kamryn estava ao seu lado, o corpo inclinado em direção a ele, a mão dela repousando em sua coxa.

Kiana segurava um balão vermelho vivo. Ela estava rindo, as bochechas rosadas, os olhos brilhantes. Parecia saudável. Vibrante. Viva.

O estômago de Elinor revirou. O contraste foi uma agressão física. Cece em sua cama de hospital, azul e ofegante, contra esta criança, sentada onde Derick podia vê-la, tocá-la.

Kamryn ergueu o olhar. Seus olhos encontraram os de Elinor do outro lado da sala. Um sorriso lento e cruel se espalhou por seu rosto. Ela se inclinou para perto de Kiana, sua voz se projetando pelo saguão silencioso.

"Olha, querida", disse Kamryn, alto o suficiente para Elinor ouvir. "Aquela mulher louca está aqui de novo."

A cabeça de Derick se ergueu bruscamente. Seu olhar se fixou em Elinor. O calor em seus olhos de um momento atrás desapareceu, substituído por um olhar duro e de aviso.

Elinor caminhou em direção a eles. Suas pernas pareciam de chumbo, mas sua raiva a impulsionava para frente. Ela parou a alguns metros de distância, seus olhos queimando em Kamryn.

Kamryn se encolheu, pressionando-se contra o lado de Derick. "Derick, por favor. Ela está me assustando."

"Fique longe de nós, Elinor", disse Derick, sua voz baixa e perigosa. "Não faça uma cena."

"Você pegou?", perguntou Elinor, ignorando-o, seu foco totalmente em Kamryn. "Você roubou a chance da minha filha de viver?"

O rosto de Kamryn se contorceu em uma máscara de inocência ferida. "Eu não sei do que você está falando! Por que está fazendo isso?"

"Ela é sanguinária", rosnou Derick, levantando-se. Ele se posicionou entre Elinor e Kamryn, um escudo humano. "Você está atacando uma mulher inocente porque está amargurada."

"Inocente?", Elinor soltou uma risada áspera. "Ela não é sua família, Derick. Ela é uma mentirosa."

"Ela é mais família do que você jamais foi", Derick retrucou.

As palavras atingiram Elinor como um tapa. A frieza que se instalara em seu peito desde o crematório se espalhou, congelando suas veias.

Algumas enfermeiras e visitantes haviam parado, observando o confronto com curiosidade aberta. Sussurros se espalharam pelo saguão.

Kamryn espiou por cima do ombro de Derick. Ela olhou diretamente para Elinor e articulou duas palavras: Você perdeu.

A raiva explodiu. Elinor avançou, o braço se erguendo, um dedo apontando para o rosto de Kamryn. "Você roubou dela! Você a deixou morrer!"

Derick se moveu mais rápido do que ela esperava. Ele agarrou o pulso de Elinor antes que ela pudesse alcançar Kamryn, seus dedos se fechando ao redor do osso como uma morsa.

"Não toque nela", rosnou Derick.

A dor disparou pelo braço de Elinor. Seu aperto era forte, esmagador. Ela olhou para a mão dele com os nós dos dedos brancos, depois para o rosto dele. Não havia amor ali. Nenhuma preocupação. Apenas fúria e possessão.

Ela tentou puxar o braço de volta, mas ele o segurou com força, seus dedos cravando em sua pele, deixando marcas vermelhas e irritadas.

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