Capa do Romance Digitais que Queimam

Digitais que Queimam

8.9 / 10.0
Luiza vive uma rotina exaustiva entre dois empregos para sustentar sua casa e custear o tratamento de câncer da mãe. Sua vida colide com a de Thiago, um rico dono de universidade, após um beijo impulsivo em um bar. O que era para ser apenas um desafio entre amigos ganha contornos inesperados quando o destino os reaproxima no escritório dele. Diante de realidades sociais opostas e grandes obstáculos, eles precisarão descobrir se a paixão despertada é forte o suficiente para vencer os desafios.

Digitais que Queimam Capítulo 1

"Talvez gostemos da dor, porque sem ela, eu não sei... talvez nós simplesmente não nos sentíssemos reais."

                                                                                      - Grey's Anatomy

A vida nunca tinha sido fácil. Desde criança, a primeira memória de Luísa era uma discussão dos pais. Ela chorava, abraçada a um travesseiro, enquanto ouvia o pai dizer que ia embora e que seria melhor assim. Talvez, se naquele dia, ele tivesse ido embora mesmo, as coisas teriam sido realmente melhores.

O relacionamento de seus pais não era nada bom. O pai era instável, sem base familiar, não sabia ser uma figura paterna a quem Luisa poderia se espelhar, desde que ela era criança cobrando a filha de coisas que ele próprio não tinha conseguido conquistar... o abuso psicológico era tanto, que muitas vezes na adolescência, Luísa entrava no banheiro e pedia para que quem regesse o universo a levasse daquele lugar. Muitas e muitas vezes pensou em parar de viver, sem forças para continuar.

Os pais brigavam mais do que ficavam em paz, com o tempo Luisa começou a se acostumar com as brigas, com as discussões altas, tentando de todo jeito que a irmã mais nova não ficasse sabendo de nada do que acontecia. Quando Luísa fez 13 anos, o pai começou a encrencar que sua esposa tinha um amante, e tentava de todo jeito convencer Luísa também, dizendo que tinha provas - as quais a própria Luísa nunca chegou a ver. E mesmo assim,mesmo com as palavras que machucavam, com os socos que levava, a mãe de Luisa nunca se separou.

E além de ter que lidar com os problemas familiares, Luísa também tinha sua própria carga para carregar. Cresceu se sentindo estranha, como se não se encaixasse em lugar nenhum. Teve que amadurecer muito cedo pra lidar com os pais, por isso, as conversas da sua idade não a interessavam, e era taxada como o chata, a careta. Foi quando o bullying começou, junto com as mudanças de escola - 11 vezes pra ser mais exato. Como o pai era autônomo, eles nunca tinham residencia fixa, vivendo de aluguel e se mudando constantemente. Pelo menos Luisa cresceu sem se apegar a nada, seja casa ou bens materiais.

Claro que ela sonhava com um dia em que não ia ser expulsa de onde morava pela falta do pagamento do aluguel, ou de que na janta teria mais do que um sache de ketchup velho com um pedaço seco de pão. 

Por muitas vezes, deitada a noite em sua cama, pensando em tudo, ela desejava ter nascido em outra família. Ela via a vida dos outros amigos, não era ingênua de pensar que não tinham problemas, porque afinal, todos tem, mas sabia que eles tinham casa própria, os pais empregos fixos, e um relacionamento que talvez pudesse se espelhar. 

Ela desejava, mas então chorava, com peso no coração por pensar em trocar de família, porque, apesar de tudo, era sua família, e ela a amava com toda a força de seu ser.

Não demorou muito para Luisa começar a trabalhar, e então os pais se acomodarem em suas costas. Ela fazia o ensino médio de manha, e a tarde trabalhava em um supermercado. A única com salario fixo em casa, então por isso ela assumiu o aluguel.

"Pelo menos um mês eu vou ter paz sabendo que tenho um teto sob minha cabeça."

Começou a se dedicar mais aos estudos nas horas vagas, que eram das 23 da noite ate as 6 da manha. Queria prestar vestibular, entrar em uma faculdade boa, ter um futuro diferente, poder dar uma vida melhor a sua família.

Foi quando seu pai sumiu da face da terra. Até os dias de hoje ela ainda não sabe onde ele esta. Se vivo ou morto, rico ou pobre, no pais ou em outro. Um dia ele estava lá, reclamando de tudo, no outro não estava mais.

Acabou não passando de primeira no vestibular, e com o passar dos anos acabou se acomodando. Mas então, quando ela achou que finalmente teria paz, depois que o pai tinha ido embora, a noticia de que sua mãe estava com câncer abalou ela completamente.

Ela tinha 21 anos, sem expectativa de futuro, trabalhando em um supermercado em período integral, com uma irmã de 14, uma mãe com câncer que ia começar um tratamento intenso e não tinha ninguém pra cuidar...

Ela não podia virar as costas agora... não quando sua mãe precisava tanto del...

Ela conseguiu tratamento pelo governo, pelo menos o começo. O primeiro ano regido a quimo terapias, remédios e idas e vindas ao hospital. Luisa acabou perdendo o emprego no supermercado pelas faltas para acompanhar a mãe no médico.

Então o governo cortou o beneficio, a mãe começou a piorar sem os remédios. Luisa conseguiu um emprego de garçonete em um bar muito famoso da cidade, que até pagava bem, mais as gorjetas, e com isso, conseguiu colocar a mãe de volta ao tratamento...

Tinha dias em que ela saia do bar, trocando de roupa no pequeno vestiário do local, e ia andando e chorando de volta pra casa, sentindo o peso do mundo em suas costas. Ela suspirava e olhava para o céu, desejando ser qualquer outra pessoa da face da terra, até o mendigo que estava deitado embaixo do toldo de uma loja. 

Se sentia egoísta, então chorava mais, porque, se não fosse ela, quem seria? Quem iria aguentar passar por tudo que ela passava? Quem iria conseguir carregar o peso daquele mundo nas costas?

Apesar de tudo, Luisa era humana. Com pele e osso, que se machucavam, que se quebravam, que jorrava sangue, que tinha cicatrizes eternas cravadas. Ela não conseguia imaginar uma vida sem dor, talvez tivesse se acostumado a ela. Nenhum dos seus relacionamentos era normal. Sua amiga mais antiga - e única - era Beatriz, que conheceu quando tinha 13 anos, em uma das escolas que estudou.

Ela, que por tantas vezes dizia que Luiza precisava sair de casa e viver sua própria vida, dizia que Luiza se auto sabotava, não deixando ninguém se aproximar... e estava certo, por tudo que viveu - e vivia - Luiza se escondeu em volta de uma casca de auto proteção, e só entrava quem conseguia quebrar essa casca. Mas ninguém tinha paciência pra isso. Julgavam Luiza por fora, sem nem ao menos conhecer ou saber algo sobre a vida dela, o porque dela ser assim.

Ela sentia que não tinha mais esperanças pra ele. Aos 22 anos ela estava cansada. Cansada da vida, cansada de tudo.

Cansada e ao mesmo tempo com peso na consciência por estar assim.

- Preciso arranjar outro emprego durante o dia, só o de garçonete não ta dando pra pagar os remédios e ainda manter a casa -  ela disse a Beatriz em um dia em que estavam as duas sentadas em frente ao bar onde Yo

Luiza trabalhava após o expediente.

Beatriz fez uma careta - Olha... lá na faculdade onde eu trabalho estão precisando de faxineiros... mas não sei se você...

- Eu quero! - Luiza disse sem pestanejar, se virando para a amiga - eu preciso de algo Bia, qualquer coisa, não me importo de limpar chão.

- Não é só chão Lu, são pátios, salas, privadas... é um trabalho digno, porém tem que ter estomago, não que eu esteja dizendo que você não tem, só não consigo te ver assim...

- Eu não tenho escolha...

- Falta muito pro tratamento da sua mãe acabar?

- Eu não sei... ela não mostrou nenhuma melhora... o retorno no médico é só daqui dois meses...

Beatriz suspirou - Não vejo a hora dela ficar boa logo pra você poder viver um pouco sua vida. Me machuca você se auto negar, nem sai, nem vai ver gente em algum lugar, não arranja ninguém pra... sei lá... pelo menos dar uns beijos, umas pegadas, passar a noite...

- Lá vem você com essa historia de novo - ela disse rindo.

- É porque né... você precisa... perder o cabaço.

Y

Luíza empurrou o amigo pelo ombro - Vai acontecer Bia, e quando acontecer você vai ser a primeira a saber.

- Mas vai acontecer quando? Você vive e respira trabalho e família. Eu tenho medo de você ficar doente...

- Não vou, estou saudavel.

- Não to falando do seu eu de fora ô tapada, to falando do seu psicológico...

Luiza suspirou - Eu to bem Bia, não precisa se preocupar.

Foi a vez de Beatriz suspirar - Ok, vai querer mesmo a vaga de faxineira?

- Vou. - Luiza disse firme.

- Certo, amanhã faço seu ligamento pelo RH - Beatriz era a coordenadora do setor na faculdade, ao contrario de Luíza, vinha de uma família bem estruturada, que a permitiu fazer a faculdade de psicologia que tanto queria. Ela tinha começado como estagiária, agora já era quase a que comandava o setor inteiro, coisa que ficaria oficial depois de sua formatura dali 6 meses.

- Obrigada Bia.

- Fazer o que né? Agora vem - disse se levantando do meio fio onde estavam sentados - Vamos achar uma cerveja pra você beber, to convidando, ou seja, eu pago, e não aceito não como resposta.

Luiza riu, se deixando ser puxada por Beatriz, andando na rua com um sentimento estranho no peito. Ela estava mais ferrada que nunca, ia ter que trabalhar em dois empregos e dar conta de tudo. Trabalho braçal, que iria exigir muito de si.

Mas ela precisava, sua família precisava...

Mas ela também não conseguia controlar o pequeno fio de fogo que acendia em seu coração cada vez que pensava em viver sua vida, encontrar alguém, ter suas primeiras experiencias.

Ela só tinha uma certeza: estava muito longe de acontecer...

Ou não.

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