Capítulo 1

POV: Holly Erickson

Eles me chamavam de K.B. Barry, uma gênio reclusa. Eles não sabiam que eu era apenas Holly, uma garota que queria que alguém a visse, e não os milhões de palavras que ela havia escrito. A fama era uma gaiola, dourada e reluzente, mas ainda assim uma gaiola. Cada prêmio, cada bestseller, cada pedido de entrevista — eram todas barras me impedindo de ter a vida que eu desejava desesperadamente. Uma vida normal. Uma conexão real.

Eu desapareci. Não literalmente, é claro, mas me misturei ao fundo. Troquei jatos particulares por ônibus públicos, roupas de grife por suéteres largos e o brilho constante dos holofotes pelo anonimato de um campus universitário movimentado. Meu disfarce era simples: óculos de armação grossa que escondiam meus olhos, cabelo preso firmemente para trás e roupas que engoliam minha silhueta. Eu parecia estudiosa, comum. Invisível. E era exatamente o que eu queria.

Por semanas, eu flutuei pela vida no campus, um fantasma na máquina. Ninguém sabia que eu era a aclamada K.B. Barry, a sensação literária. Ninguém me lançava um segundo olhar. Era glorioso. Eu me deliciava no silêncio, na liberdade de apenas ser. Eu podia ficar sentada na biblioteca por horas, observando, aprendendo, sem uma única pessoa me interrompendo para perguntar sobre simbolismo ou reviravoltas na trama. Era como respirar novamente.

Então aconteceu o incidente no centro estudantil. Era um evento social de sexta à noite, barulhento e caótico, o tipo de lugar que eu geralmente evitava. Mas uma amiga, uma amiga de verdade que fiz na minha aula de estatística, tinha me arrastado para lá. Eu estava tomando um refrigerante morno lentamente, tentando parecer absorta no meu celular, quando os gritos começaram. Um grupo de caras, todos de ombros largos e rostos zombeteiros, havia encurralado um estudante menor e tímido. Eles estavam rindo, empurrando-o, exigindo sua carteira. Meu estômago se revirou. Velhos instintos, instintos que eu havia enterrado fundo sob camadas de autopreservação, começaram a se agitar.

"Deixem ele em paz!" ouvi a mim mesma dizer, as palavras finas e fracas, completamente diferentes da voz afiada e confiante que eu usava na minha cabeça.

Todos os olhos se viraram para mim. O líder, uma figura enorme de cabeça raspada e um sorriso cruel, aproximou-se com arrogância. "Ora, ora, o que temos aqui? A senhorita bibliotecária bancando a heroína?" Ele se inclinou sobre mim, seu hálito fedendo a cerveja barata. "Você tem algum problema com a gente, quatro-olhos?"

Meu coração martelava contra minhas costelas. Eu sabia exatamente o que dizer para desmontá-lo, para expor suas inseguranças, para fazê-lo recuar. Eu poderia destruí-lo com palavras. Eu poderia até me defender fisicamente, anos de treinamento inesperado de autodefesa da minha vida de "celebridade" passando pela minha mente. Mas se eu fizesse isso, chamaria atenção. Desvendaria tudo. Meu disfarce, meu precioso anonimato — tudo isso desapareceria. Eu fiquei paralisada, dividida entre minha bússola moral e minha necessidade desesperada por uma vida normal.

No momento em que a mão do valentão se estendeu, provavelmente para me empurrar, um novo aroma cortou o ar viciado do centro estudantil. Era forte, sofisticado, como sândalo e algo sutilmente metálico. Minha cabeça se ergueu de repente, meus olhos procurando.

Ele emergiu da multidão, um fantasma de confiança fria. Kade Livingston. O "rei" do campus. Filho do Senador Livingston, herdeiro de uma dinastia política e, sem esforço, deslumbrantemente bonito. Seu cabelo escuro caía perfeitamente, sua camisa feita sob medida parecia deslocada no ambiente casual, e seus olhos, de um tom surpreendente de verde, continham um desdém casual por tudo ao seu redor. Ele se movia com uma graça inata, um predador deslizando por seu domínio.

Minha respiração falhou. Sua presença era uma força palpável, silenciando a sala antes mesmo de ele falar. O valentão, que estava a segundos de colocar as mãos em mim, congelou no meio do movimento, sua arrogância evaporando. Kade não olhou para mim, não de verdade. Seu olhar varreu a cena como um monarca entediado.

"Há algum problema aqui, Blake?" A voz de Kade era baixa, suave, carregada de uma autoridade que não deixava espaço para discussão. Ele não levantou a voz, mas as palavras cortaram o zumbido restante na sala como vidro.

Blake, o valentão, engoliu em seco visivelmente. "Não, Kade. Apenas... um pequeno mal-entendido." Ele gesticulou vagamente para mim, depois para o estudante encolhido.

Kade finalmente virou os olhos para mim. Eram intensos, analíticos, e por um segundo fugaz, eu me senti completamente exposta. Ele viu mais do que os óculos e as roupas largas. Ele me viu. Ou, pelo menos, viu alguma coisa. Um lampejo de curiosidade, talvez?

"Você está bem?" ele perguntou, sua voz dirigida a mim agora, uma estranha intimidade no ambiente público.

Eu assenti, minha garganta subitamente seca. "Sim. Obrigada." Minha voz soou ainda mais fraca do que antes.

Ele arqueou uma sobrancelha, um movimento minúsculo, quase imperceptível, que mesmo assim me causou um arrepio na espinha. "Você parece... quieta," ele murmurou, seu olhar demorando no meu rosto por um momento a mais do que o necessário. "Qual é o seu nome?"

"Holly," consegui dizer, soando como um rato.

Ele ofereceu um sorriso fraco, quase imperceptível. "Holly. Certo." Ele então se virou de volta para Blake, sua expressão endurecendo. "Blake, pegue seus neandertais e deem o fora daqui. Agora."

Blake, claramente apavorado, não precisou ouvir duas vezes. Ele reuniu sua turma, murmurando desculpas e promessas de se comportar, e desapareceu na noite. Foi simples assim. Kade nem sequer suou. Seu poder era absoluto.

Mais tarde, eu soube mais sobre Kade Livingston. Todos no campus sabiam. Ele era o garoto de ouro, a estrela inalcançável. Seu pai era o senador em exercício, sua mãe uma filantropa renomada. O nome deles abria todas as portas, encerrava todas as discussões. O próprio Kade era notoriamente brilhante, passando por suas aulas avançadas de ciências políticas com uma facilidade quase arrogante. Ele não precisava estar aqui, na verdade. Ele estava cultivando uma imagem, talvez, ou simplesmente esperando o momento certo para assumir seu papel predestinado no mundo. Ele tratava a universidade como seu playground particular, frequentando as aulas quando lhe dava na telha, comandando lealdade e adoração de quase todos. E ah, a adoração. As garotas se reuniam ao seu redor como mariposas em volta de uma chama, com os olhos arregalados de desejo. Ele raramente as notava, um rei ocupado demais para seus súditos.

Mas por algum motivo, ele havia olhado para mim.

Naquela noite, sozinha no meu quarto do dormitório, eu ficava repassando seus olhos verdes, o sorriso fraco, o jeito como ele disse meu nome. Um calor ridículo e desconhecido floresceu em meu peito. Eu, Holly Erickson, a invisível K.B. Barry, estava me apaixonando por Kade Livingston. Era absurdo, destinado a um coração partido, um desvio completo do meu plano cuidadosamente construído.

Mas eu não conseguia impedir.

Comecei com pouco. Deixando um café em sua mesa na biblioteca, com um bilhete discreto anexado com uma citação de um livro que eu sabia que ele havia estudado. Enviando anonimamente um guia de estudos para uma aula que ambos compartilhávamos, sabendo que ele apreciaria o detalhe meticuloso. Eu o vi pegar o café uma vez, olhar para o bilhete, um lampejo de algo em seus olhos — divertimento? Curiosidade? — antes de tomar um gole. Meu coração disparou.

Numa tarde chuvosa, encontrei uma maçã pela metade e um livro esquecido em um banco do lado de fora do prédio de filosofia. Comprei uma pequena maçã de madeira entalhada, uma peça delicada que encontrei em uma butique do campus, e a deixei em sua mesa habitual na biblioteca, ao lado de seu livro abandonado, junto com uma maçã nova. Um gesto bobo e sentimental. Observei à distância enquanto ele a encontrava. Ele pegou a maçã de madeira, virou-a nos dedos, com uma expressão pensativa no rosto. Então ele olhou ao redor, procurando. Minha respiração falhou. Ele estava me procurando. Eu me escondi atrás de uma pilha de prateleiras, meu coração batendo como um tambor.

Eu desejei com cada fibra do meu ser que ele me visse, me visse de verdade. Não a garota comum, não a autora famosa, apenas Holly. Aquela que lhe trazia café, que notava os pequenos detalhes, que nutria essa paixão avassaladora e embaraçosa.

Minha próxima tentativa foi um marcador de livro feito à mão, com uma flor prensada que encontrei no campus, colocado dentro de uma cópia nova de um romance clássico que ele havia mencionado que queria ler. Era tolo, infantil e completamente diferente da pessoa calculista e reservada que eu geralmente era. Eu estava arriscando tudo por uma conexão, por uma chance.

Eu estava no meio do embrulho meticuloso deste pequeno livro, com o marcador dentro, quando a porta do meu quarto do dormitório se abriu com um estrondo. Minha colega de quarto, Sarah, e sua amiga, Chloe, estavam paradas ali, rindo.

"Holly! O que você está fazendo?" Sarah gritou, apontando para o livro cuidadosamente embrulhado. "Isso é... um presente? Para o Kade Livingston?"

Meu rosto ardeu. "Não! É, uh, para a minha avó," gaguejei, apertando o pacote contra o peito.

Chloe, sempre mais direta, se aproximou. "Não minta, Holly. Nós vimos você praticamente o perseguindo com aqueles cafés. E os guias de estudo? Qual é. Todo mundo sabe da sua quedinha por ele." Ela arrancou o pacote das minhas mãos, seus olhos se arregalando ao ver o embrulho elegante. "Uau, você realmente caprichou neste, hein? O que é? Uma carta de amor escrita com sangue?"

"Devolva!" Eu me lancei para pegá-lo, mas ela o manteve fora do meu alcance.

Sarah riu. "Você sabe que o Kade não gosta do tipo quietinha e intelectual, Holly. Ele gosta de... brilho. Como eu!" Ela se gabou. "Ou pelo menos, ele gosta de garotas que não têm medo de se expor."

Chloe desembrulhou o livro, tirando o marcador. "Uma flor prensada? Sério? Holly, isso é fofo, mas o Kade provavelmente recebe cestas de presentes profissionalmente montadas todos os dias." Ela suspirou dramaticamente. "Ele me disse uma vez que gosta de garotas que são imprevisíveis. Que o desafiam."

Minhas bochechas queimaram. Eu queria desaparecer. Era exatamente isso que eu temia: exposição, ridicularização, tudo por uma paixão boba.

Então, uma voz. Grave, divertida, bem atrás de Chloe. "Imprevisíveis, você diz?"

Meu sangue gelou. Kade.

Ele estava parado na minha porta, encostado no batente, seus olhos verdes brilhando com um divertimento familiar e perturbador. Há quanto tempo ele estava ali? Ele tinha ouvido tudo?

Chloe gritou, deixando o livro cair. "K-Kade! Ai meu Deus, eu não vi você aí!" Seu rosto estava vermelho vivo.

Ele a ignorou, passando por seus amigos bajuladores, com o olhar fixo em mim. Ele pegou o livro, e o marcador de flor prensada caiu no chão. Ele o pegou também, examinando-o entre os dedos.

"Um romance? E uma flor?" Ele olhou para mim, com um toque de algo indecifrável em seus olhos. "Você é cheia de surpresas, Holly Erickson."

Meu coração batia tão forte que pensei que ia explodir. Vergonha, constrangimento e uma terrível lasca de esperança guerreavam dentro de mim. Eu queria correr, me esconder, gritar. Mas não conseguia me mover.

Ele jogou o livro de volta na minha cama. Então, com um movimento casual do pulso, ele guardou a pequena flor prensada cuidadosamente no bolso de seu blazer feito sob medida. "Continue mandando, Holly," ele murmurou, sua voz um zumbido baixo que vibrou através dos meus ossos. Ele me deu aquele pequeno quase-sorriso de novo, aquele que fazia meu estômago revirar, antes de se virar e sair, com seus amigos se apressando para alcançá-lo.

Eu fiquei ali, parada no mesmo lugar, prendendo a respiração. Ele pegou. Ele pegou a flor. Uma esperança frágil e tola floresceu em meu peito. Ele me notou. Ele aceitou algo de mim. Talvez, apenas talvez, isso não terminaria com o coração partido. Talvez ele tenha visto algo na simples e comum Holly. Talvez ele tenha me visto.

Meu coração acelerou, um pássaro frenético preso em minhas costelas. Será que era isso? Será que eu, Holly Erickson, a secretamente mundialmente famosa K.B. Barry, poderia finalmente encontrar a conexão genuína que eu tanto desejava, mesmo com o rei inalcançável da universidade? O pensamento era aterrorizante e emocionante ao mesmo tempo.

Capítulo 2

Ponto de Vista de Holly Erickson:

O baile de gala anual do Dia dos Namorados era um borrão de vestidos caros e sorrisos forçados. Eu estava lá porque Sarah, minha colega de quarto, insistiu. "É romântico, Holly! Você precisa se expor!" Ela não sabia que eu já tinha me exposto. Meu coração palpitava com uma mistura de medo e expectativa. Hoje era a noite. Eu tinha decidido. Eu diria a Kade como me sentia.

Eu sabia que provavelmente era um erro. Kade Livingston, o centro magnético da universidade, um homem que sem esforço comandava atenção e adoração, não dedicaria um segundo olhar a alguém como eu. Eu era a garota quieta com roupas largas, mal uma nota de rodapé na vibrante tapeçaria da vida no campus. Ele era perseguido pelas garotas mais deslumbrantes e populares, todas competindo por sua atenção. Ele nunca ficava com nenhuma delas por muito tempo, dispensando-as com um encolher de ombros casual e um sorriso educado. Imaginei que minha confissão seria recebida com a mesma rejeição educada e indiferente. Um "não" baixo e gentil que estilhaçaria minha frágil esperança.

Mas, parada ali, observando-o do outro lado do salão lotado, cercado por sua comitiva habitual, eu sabia que tinha que tentar. Eu não conseguiria viver com o "e se". Então, respirei fundo, agarrando o pequeno bilhete cuidadosamente dobrado em minha mão. Não era eloquente, não como as palavras que eu escrevia para K.B. Barry. Era apenas uma confissão simples e honesta dos meus sentimentos.

Naveguei por entre as multidões de casais dançantes, com as palmas das mãos suando, meu coração ameaçando sair pela boca. Ele estava conversando com um grupo de amigos, a cabeça jogada para trás em uma gargalhada, parecendo impossivelmente charmoso. Hesitei, então abri caminho pelos últimos corpos, preparando-me.

"Kade?" Minha voz era quase um sussurro, engolida pela música.

Ele se virou, aqueles olhos verdes penetrantes caindo sobre mim. Sua expressão era indecifrável. "Holly? O que você quer?" Ele parecia... entediado. Meu coração afundou. Era isso.

"Eu... eu queria te dizer uma coisa," comecei, minha voz tremendo. Estendi o bilhete.

Ele o pegou, seus dedos roçando nos meus, enviando um choque pelo meu braço. Ele o desdobrou lentamente, seu olhar percorrendo minhas palavras rabiscadas às pressas. Um longo momento de silêncio se estendeu entre nós, a música alta de repente parecendo distante. Observei seu rosto, procurando por qualquer sinal de emoção. Nada. Apenas aquela mesma máscara indecifrável.

Então, ele ergueu o olhar, aqueles olhos verdes se fixando nos meus. "Você realmente quer dizer isso, não é?"

Eu assenti, incapaz de falar.

Ele soltou um suspiro suave, quase imperceptível. Então, um fantasma de sorriso tocou seus lábios. "Tudo bem," ele disse, sua voz baixa e rica. "Eu vou namorar com você."

Meu queixo quase caiu. Eu o encarei, perplexa. "Você... o quê?"

"Eu disse que vou namorar com você, Holly," ele repetiu, seu sorriso se alargando um pouco. Mas então, sua expressão mudou, tornando-se estranhamente séria. Seus olhos cravaram-se nos meus, contendo um aviso enigmático. "Mas você precisa ter cuidado. Não vai ser fácil. Na verdade, vai ser perigoso. Você está pronta para isso?"

Minha mente girou. Perigoso? O que poderia ser perigoso em namorar o cara mais popular do campus? Eu ignorei, atribuindo isso ao seu talento dramático, ou talvez um teste à minha sinceridade. "Sim," eu disse, sem um momento de hesitação. "Sim, estou pronta."

Um arrepio percorreu meu corpo, tão potente que quase me deixou de joelhos. Ele tinha dito sim. Ele tinha dito sim! Eu estava flutuando, alheia à sutil mudança em seus olhos, ao brilho quase imperceptível de algo calculista escondido sob o charme. Eu estava ocupada demais, dominada por uma alegria pura e genuína. Ele me viu! Ele me escolheu! Cada insulto, cada olhar frio, cada noite solitária — tudo pareceu valer a pena naquele único e glorioso momento.

O aviso, suas palavras estranhas, quase arrepiantes, desapareceram no fundo, abafadas pela sinfonia do meu próprio coração em êxtase. Convenci a mim mesma de que era um teste ao meu amor, uma maneira de ver se eu realmente me importava, se eu era forte o suficiente para ele. E eu era. Eu seria.

O "perigo" do qual ele falou não demorou a se manifestar, embora não da maneira que eu imaginara. Não eram ameaças físicas, não no início. Eram os sussurros, os sorrisos de escárnio, a hostilidade declarada da legião de admiradoras de Kade. Bilhetes apareciam no meu armário, mensagens cruéis rabiscadas nas portas dos banheiros, meus livros "acidentalmente" derrubados no chão. Contas anônimas em redes sociais postavam fotos pouco lisonjeiras minhas, dissecando cada falha minha, comparando-me às garotas "lindas" que Kade costumava namorar. Fui chamada de interesseira, uma zé-ninguém grudenta, um sapo feio que de alguma forma enganou seu príncipe.

Eu suportei tudo, mordendo o lábio, lembrando a mim mesma do aviso de Kade. *Vai ser perigoso. Não vai ser fácil.* Era isso, eu dizia a mim mesma. Este era o teste. Se eu pudesse aguentar essa tempestade, se eu pudesse provar minha lealdade e força, então nosso amor seria verdadeiramente conquistado.

Então as ameaças escalaram. Meus pneus foram rasgados. Meu quarto no dormitório foi vandalizado, minhas roupas cortadas, meus pertences jogados por toda parte. Uma noite aterrorizante, voltando da biblioteca, fui agarrada por trás, uma mão tapando minha boca. Lutei, meu treinamento de autodefesa entrando em ação, mas eram muitos. Fui empurrada para dentro de uma van, um saco escuro puxado sobre minha cabeça. O pânico arranhou minha garganta. Isso não era mais apenas bullying. Isso era perigo real.

Não sei quanto tempo fiquei naquela van, ou para onde me levaram. Era uma escuridão aterrorizante e sufocante. Mas então, tão rápido quanto começou, terminou. A van freou bruscamente, a porta foi aberta com violência e fui despejada sem cerimônia no chão. O saco foi arrancado, e os faróis ofuscantes do familiar SUV preto de Kade iluminaram a noite.

Ele estava lá. Seu rosto era uma máscara de preocupação furiosa, seus olhos verdes ardendo. Ele se ajoelhou ao meu lado, puxando-me para um abraço ferozmente protetor. "Holly," ele sussurrou, sua voz rouca de emoção. "Você está machucada? Você está bem?"

"Kade," solucei, agarrando-me a ele. "Eles... eles me levaram."

Ele me segurou com força, acariciando meu cabelo. "Acabou agora. Você está segura." Ele ligou para a polícia, sua voz nítida e imponente, descrevendo a van, a localização geral. Ele ficou comigo a noite toda, confortando-me, segurando minha mão. Sua presença, sua preocupação genuína, apagou todo o medo, toda a dor. Provou para mim que minha resistência, minha fé, haviam sido justificadas. Isso era amor de verdade. E eu estava pronta para qualquer perigo que ele trouxesse.

Algumas semanas depois, a universidade organizou um concerto de caridade. Danielle "Dani" Rivera, a meia-irmã mais nova de Kade, estava se apresentando. Dani era uma musicista talentosa, um prodígio do piano, mas também era dolorosamente frágil — ou assim todos diziam. Ela sofria de ansiedade severa e ataques de pânico, o que a tornava um alvo vulnerável. Kade me disse uma vez, com a voz carregada de preocupação, que Dani era filha de sua mãe de um casamento anterior, e eles a mantinham fora dos holofotes políticos para protegê-la. Kade era ferozmente, quase obsessivamente, protetor de Dani.

Durante a apresentação de Dani, uma luz do palco deu defeito, caindo perto do piano. Não estava mirando em Dani, mas o barulho repentino, o vidro se estilhaçando, a levou a um ataque de pânico total. Ela desabou no chão, tremendo, hiperventilando. A música parou. O caos se instalou.

A multidão avançou. Vi Kade reagir instantaneamente, saltando para o palco, abrindo caminho pela segurança para chegar à sua meia-irmã. Ele pegou Dani em seus braços, seu rosto marcado por puro terror e uma proteção feroz. Ele segurou Dani com força, murmurando palavras tranquilizadoras, tentando protegê-la dos flashes das câmeras e da multidão curiosa.

Mas então, eu a vi. A irmã de Kahlil Carpenter, Amelia. Ela era uma estudante proeminente, conhecida por sua língua afiada e aparência ainda mais afiada. Ela tinha levado um fora de Kade alguns meses atrás e, segundo os rumores, não tinha aceitado bem. Agora, ela estava lá, com um brilho malicioso em seus olhos, apontando e rindo de Dani. "Olhem para a princesinha frágil do senador! Não consegue nem lidar com uma luz quebrada!", ela zombou, sua voz ecoando pelo salão silencioso.

A cabeça de Kade se ergueu bruscamente. Seus olhos, já ardendo de preocupação por Dani, agora continham uma fúria fria e aterrorizante que eu não tinha visto antes. Ele olhou para Amelia, e então, seu olhar varreu a multidão, pousando em mim. Havia algo em seus olhos — um desespero, um cálculo frio — que revirou meu estômago. Mas antes que eu pudesse decifrar, ele já havia se virado, sua atenção consumida por sua meia-irmã.

Ele embalou Dani, sussurrando para ela. E foi então que eu vi. Enquanto Kade a segurava perto, pressionando o rosto dela contra seu peito para escondê-la do mundo, Dani virou a cabeça ligeiramente. Através da cortina de seu cabelo, seus olhos cheios de lágrimas se fixaram nos meus. Mas não havia medo neles. Havia um sorriso de canto. Um sorriso de canto arrepiante e possessivo que dizia: *Ele é meu*.

Depois de alguns minutos, Kade carregou Dani para fora do palco, seu rosto sombrio, deixando sua equipe de segurança para lidar com as consequências. Ele nem sequer olhou para trás para mim. Ele apenas se afastou, sua prioridade clara.

Eu fiquei ali, sentindo um pavor frio se infiltrar em meu coração. Tentei segui-los, querendo oferecer conforto, mas os amigos de Kade, sempre rápidos em antecipar suas necessidades, bloquearam meu caminho. "Ele precisa ficar com a irmã dele agora, Holly," disse Sarah, com uma estranha pena nos olhos. "Dê um espaço a ele."

Espaço. Parecia que um oceano havia se aberto entre nós. Fiquei, sozinha, observando o palco sendo limpo, os sussurros abafados da multidão, as câmeras piscando. Ele não tinha olhado para mim. Nenhuma vez. Não depois daquele olhar inicial e perturbador.

Minha mente repetiu seu aviso anterior: *Vai ser perigoso*.

Era isso que ele queria dizer? O perigo não era apenas para mim. Era para eles. E eu era... o quê? Uma ideia tardia? Uma distração?

O pensamento deixou um gosto amargo na minha boca. Tentei ignorá-lo, dizer a mim mesma que ele estava apenas preocupado com a irmã. Mas a imagem do sorriso de canto de Dani, aquele brilho possessivo em seus olhos enquanto estava envolta nos braços do irmão, se recusava a me deixar.

Caminhei para casa, as luzes vibrantes do baile se transformando em rastros de desespero. Senti um mal-estar crescente, uma suspeita corrosiva de que algo estava fundamentalmente errado com aquela cena. Algo distorcido que eu não conseguia enxergar direito.

Capítulo 3

Ponto de Vista de Holly Erickson:

No dia seguinte, Kade ainda estava inacessível. O celular dele caía direto na caixa postal, e suas mensagens não eram respondidas. Eu dizia a mim mesma que ele estava ocupado, cuidando de Dani, que precisava de tempo. Mas o pavor gélido em meu estômago só se intensificava.

Encontrei Chloe, a amiga de Sarah, do lado de fora da biblioteca. Ela me lançou um olhar compreensivo, mas estranhamente conhecedor. "Ele está com a Dani, sabe", disse ela, com a voz escorrendo uma doçura artificial. "Dani teve outro de seus 'episódios'. Coitadinha. Kade está sempre lá por ela. Eles são... incrivelmente próximos."

"Eu sei", eu disse, com a voz tensa. "Eu estava lá."

Chloe apenas deu de ombros. "Ah, é mesmo. Mas sabe, Kade está realmente ocupado com a Dani. Ele não pode estar em todos os lugares ao mesmo tempo." Ela se inclinou, em tom de conspiração. "Ele ficou muito chateado com toda aquela história da Amelia Carpenter. Ela simplesmente não o deixa em paz. E a Dani... bem, a Dani odeia qualquer um que tire a atenção do Kade."

Amelia. A irmã de Kahlil Carpenter. A mulher com quem Kade havia saído e depois dispensado sem cerimônia, o que levou ao seu suposto colapso nervoso. A mesma Amelia que havia zombado de Dani. As peças começaram a se encaixar, formando uma imagem que eu não queria ver.

Mais tarde naquela noite, finalmente consegui falar com um dos confidentes próximos de Kade, Mark. Ele geralmente era jovial, mas sua voz estava tensa. "Olha, Holly, Kade está com muitos problemas. A Dani não está bem. A família... eles estão sob muita pressão agora com a reeleição do senador se aproximando. Qualquer instabilidade, especialmente envolvendo a Dani e... assuntos pessoais, poderia ser desastrosa."

"Mas o que isso tem a ver comigo?", perguntei, com a voz pouco acima de um sussurro.

Mark hesitou. "Olha, Kade... ele precisa de um escudo. Algo para desviar a atenção. Alguém que não seja... sabe, a Amelia. Alguém para manter os rumores longe da Dani."

A palavra "escudo" me atingiu como um golpe físico. Minha respiração falhou. Por algum motivo, eu soube instantaneamente o que ele queria dizer. O bullying, as ameaças, até mesmo o sequestro — tudo voltou à tona, mas agora com uma clareza nauseante. O "perigo" não era para nós. Era para ele e sua família. E eu era o alvo conveniente e discreto. Aquela que poderia absorver os golpes sem levantar muitas questões, distraindo todos do estranho e intenso laço entre Kade e sua meia-irmã.

Meu sangue gelou. *Vai ser perigoso*. Lembrei-me de seu aviso, do brilho gélido em seus olhos. Ele não estava me avisando por minha causa. Ele estava me avisando que eu estava prestes a me tornar um dano colateral. Minha cabeça girou. Senti uma onda de náusea.

Tentei ligar para Kade novamente. Desta vez, ele atendeu. Sua voz estava cansada, monótona. "Holly, olha, não posso falar agora. A Dani precisa de mim."

"Kade", consegui dizer, com a voz trêmula. "Eu sou um escudo?"

Silêncio. Um silêncio longo e agonizante do outro lado da linha. Então, um suspiro. "Holly, é complicado. Você não entenderia."

"Tente", eu disse, minha voz ganhando força, tingida de uma amargura que eu não sabia que possuía. "Você me usou? Você deixou que me machucassem para proteger a Dani? Para proteger a imagem da sua família? Para esconder a obsessão dela por você?"

Outro silêncio. Então, sua voz, desprovida de emoção, uma verdade fria e dura. "A Dani é vulnerável. Os Carpenters são impiedosos. Eles usariam qualquer coisa contra nós — especialmente rumores sobre nossa dinâmica familiar. Eles já causaram danos suficientes com a Amelia. Eu tinha que protegê-la. Eu tinha que fazer isso."

As palavras me cortaram, mais frias que qualquer vento de inverno. Ele não negou. Ele admitiu. O homem por quem eu havia me apaixonado, o homem por quem eu havia suportado tanto, me colocou deliberadamente em perigo. Ele me viu sofrer, acreditando que era um sacrifício necessário para manter sua meia-irmã feliz e o segredo de sua família a salvo.

"Você alguma vez... você alguma vez se importou comigo?" A pergunta era um apelo desesperado, uma tentativa de salvar qualquer resquício de dignidade, qualquer pedaço da bela mentira sobre a qual eu havia construído nosso relacionamento.

"Holly, você é uma boa pessoa", disse ele, com a voz mais suave agora, quase uma forma de apaziguamento. "Mas isso... isso é maior do que nós. É sobre família. É sobre sobrevivência."

Sobrevivência. A sobrevivência dele. A sobrevivência de Dani. E eu era apenas um peão descartável em seu jogo de altas apostas. Meu peito doía com uma dor tão profunda que parecia física. Como um caco de vidro irregular se revirando dentro de mim. Minhas lágrimas não vinham. Havia apenas um vazio oco e retumbante.

Eu encerrei a chamada. Meu apartamento parecia sufocante. Andei tropeçando, entorpecida, até que meu celular vibrou novamente. Era minha agente, ligando de New York.

"Holly! Finalmente! Estou tentando falar com você o dia todo!" A voz dela era animada, enérgica, alheia ao abismo que acabara de se abrir em minha vida. "O novo manuscrito de K.B. Barry? É uma obra-prima! A editora vai dar uma festa de lançamento, eles querem que você venha para cá na próxima semana. E os direitos do filme? Estão bombando!"

K.B. Barry. O nome parecia estranho, desconectado da casca vazia em que eu havia me tornado. O romancista mundialmente famoso, o gênio literário. Eu havia buscado o anonimato para escapar da pressão, mas também para encontrar algo real. Para encontrar o amor, uma conexão genuína, uma pessoa que me visse por quem eu era, não pelo meu sucesso.

"Holly? Você está aí? Você parece... distante." A voz da minha agente agora estava tingida de preocupação. "Está tudo bem? Você tem estado tão quieta desde que começou a universidade. Essa história toda de 'estudante normal', eu sabia que era uma fase."

Uma fase. Um disfarce. Um anseio por algo que eu não havia encontrado.

"Estou bem, Sarah", menti, com a voz monótona. "Só estou cansada."

"Bem, descanse um pouco! Temos muito trabalho a fazer. Este livro será o seu maior sucesso até agora. É verdadeiramente cru, emocional... quero dizer, a forma como você capturou aquela dinâmica mãe-filha, o luto, a traição... é simplesmente incrível. Vai ser um divisor de águas na sua carreira."

Luto. Traição. As palavras ecoaram em meus ouvidos, descrevendo perfeitamente a ferida aberta em meu peito. Meu trabalho mais pessoal, aquele em que derramei minha alma após a morte de minha mãe, aquele que explorou as profundezas agonizantes da perda e o peso esmagador de verdades ocultas. Era uma história que eu havia escrito para mim mesma, uma forma de processar o trauma do meu passado.

Minha mãe, uma jornalista brilhante, mas controversa, havia sido implacavelmente perseguida por famílias políticas poderosas por expor sua corrupção. Ela tinha um perfil muito alto, era muito barulhenta, muito visível. E então, ela se foi. Um "acidente", disseram eles. Mas eu sabia. Eu estava lá. Eu tinha visto as ameaças, sentido o medo. Eu carregava a culpa de seu brilhantismo, sua recusa em permanecer escondida, seu eventual e trágico fim. Eu acreditava que sua visibilidade a havia matado. Então, escolhi a invisibilidade para mim. Tornei-me K.B. Barry, o elusivo autor masculino, evitando os holofotes a todo custo. Escolhi o anonimato para sobreviver, para me proteger do tipo de poder que esmagou minha mãe. Tornei-me uma estudante de fotografia, um mundo muito distante do mundo implacável da política e da literatura, na esperança de encontrar consolo em capturar a beleza, não em criar controvérsia.

Eu pensei que Kade via algo diferente em mim, algo que valia a pena proteger por mim mesma. Mas ele não via. Ele havia visto uma garota convenientemente simples e discreta, um alvo perfeito. Um escudo.

Exatamente quando minha agente estava me dando um resumo da turnê de imprensa, a porta do meu quarto no dormitório se abriu rangendo. Kade estava parado ali, sua silhueta contra a luz do corredor. Ele segurava um pequeno e delicado vaso de lírios brancos, meus favoritos. Seus olhos estavam avermelhados, seu rosto pálido e abatido. Ele parecia exausto, vulnerável.

"Holly", ele sussurrou, com a voz rouca. "Preciso falar com você."

Ele não tinha ouvido minha conversa com minha agente, eu tinha certeza. Mas ele tinha visto a dor em meus olhos, a acusação silenciosa.

"Sinto muito", disse ele, com a voz embargada. "Por tudo. A Dani... ela tem passado por um momento muito difícil. A pressão, as ameaças... Eu só... eu tive que fazer." Ele parecia tão genuinamente magoado, tão quebrado, que por um segundo fugaz, minha determinação vacilou.

Então, ele estendeu a mão, tocando suavemente meu rosto. "Por favor, Holly. Não me deixe. Nós precisamos de você. Eu preciso de você."

Suas palavras eram como um pano quente em uma ferida congelante, mas o calor era enganoso. Era um conforto nascido da manipulação, um apelo pela continuação do serviço, não por amor genuíno.

"Nós precisamos de você." A frase ecoou em minha mente, um lembrete arrepiante de minha descartabilidade. Olhei para ele, olhei de verdade para ele, e não vi o rei encantador, mas um homem desesperado disposto a sacrificar qualquer um por sua meia-irmã.

Ele viu a compreensão surgir em meus olhos, a última centelha de esperança morrendo. Sua mão caiu do meu rosto.

"Não se preocupe, Kade", eu disse, com a voz oca, sem emoção. "Eu entendo. A Dani precisa mais de você."

Ele me encarou, seus olhos verdes arregalados com um horror crescente. Ele finalmente entendeu.

"Não, Holly, espere—" ele começou, mas eu o interrompi.

"Você me ama, Kade?", perguntei, as palavras quase inaudíveis, uma última e desesperada tentativa de encontrar um pulso em nossa conexão despedaçada. Eu precisava ouvir dele, uma última vez. Eu precisava da mentira, ou da verdade, para me libertar.

Ele hesitou. Seu olhar desviou, depois voltou para mim. Seu maxilar se contraiu. Ele desviou o olhar novamente, seu silêncio gritando a resposta que eu já sabia. Meu coração, já em pedaços, se estilhaçou em um milhão de pequenos fragmentos. Senti um peso frio e esmagador descer sobre mim, mais pesado que qualquer fama, mais sufocante que qualquer disfarce.

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