Capítulo 2

O bloco de leilão. Era um pesadelo que assombrava meu sono há três anos, uma repetição vívida da noite em que minha vida se estilhaçou. Começou com Bárbara, sempre Bárbara, sua fachada doce e inocente escondendo a astúcia de uma víbora. Ela se fez de vítima, tecendo uma história sobre meu uso imprudente de drogas e comportamento escandaloso. Caio, meu noivo, meu guardião, engoliu cada mentira. Ele acreditou nela. Ele sempre acreditava.

Ele não acreditou em mim quando jurei que era inocente, quando implorei para que ele visse através da farsa dela. Ele apenas me olhou com aqueles olhos frios e julgadores, um estranho no rosto do homem que eu amava.

Aquela noite, meu vigésimo primeiro aniversário, deveria ser nossa festa de noivado. Em vez disso, tornou-se minha execução pública. Ele me levou ao bloco de leilão, meu corpo cambaleando pelas drogas que Bárbara havia colocado no meu champanhe. Eu vi Bárbara então, aninhada ao lado de Caio, um sorriso presunçoso no rosto. Seus olhos, triunfantes e cruéis, encontraram os meus. Ela havia vencido. Ela havia roubado tudo.

A sala era um borrão de rostos lascivos, um mar de olhos gananciosos me despindo. Minha pele se arrepiou. A voz do leiloeiro ecoou, gelando-me até os ossos. "A primeira noite dela, cavalheiros! Quem será o felizardo?"

Meu coração martelava contra minhas costelas, um pássaro preso desesperado para escapar. Encontrei o olhar de Caio, um apelo silencioso em meus olhos. Por favor. Me ajude.

Ele apenas olhou de volta, sua expressão fria, desprovida de emoção. "Você trouxe isso para si mesma, Clara", ele articulou sem som. "Esta é a sua punição."

Os lances dispararam. Minha dignidade, minha inocência, meu próprio ser, despojados, mercantilizados, vendidos ao maior lance. A vergonha era um peso físico, me esmagando, me sufocando. Eu gritei, um som cru e primitivo que foi abafado pelo rugido da multidão.

Quando acabou, quando o último lance foi dado, algo dentro de mim quebrou. Um fogo se acendeu, não de paixão, mas de uma raiva fria e destrutiva. Vi os rostos dos meus algozes, seus sorrisos triunfantes, e perdi o controle. Peguei uma tocha, alimentada por álcool e fúria, e incendiei o lugar. Eu queria que eles queimassem. Eu queria queimar tudo que me tocou, que me sujou.

As sirenes soaram, uma sinfonia aterrorizante de julgamento. A polícia me prendeu, acusando-me de incêndio criminoso e tentativa de homicídio. Caio, sempre o guardião zeloso, testemunhou contra mim. Ele jurou que eu tentei matar Bárbara, queimá-la viva. A mídia se deliciou com o escândalo, me pintando como uma herdeira desequilibrada, um perigo para a sociedade.

Fui condenada a três anos de prisão. Três anos em uma jaula de concreto, onde aprendi a lutar, a sobreviver, a me tornar tão dura e inflexível quanto as paredes que me confinavam. Minha única tábua de salvação, minha única esperança, era o casarão. A casa dos meus pais. Jurei que o recuperaria. Era a última parte deles que me restava.

Após minha libertação, me encontrei no mundo sujo e implacável do MMA clandestino. Era uma existência brutal, uma luta constante pela sobrevivência. Cada soco, cada chute, cada gota de sangue era pelo casarão. Eu precisava do dinheiro. Precisava comprá-lo de volta antes que fosse perdido para sempre.

Agora, deitada em uma cama de hospital, meu corpo doendo, minha mente um turbilhão de dor e traição, as primeiras palavras que saíram da minha boca foram pelo dinheiro. "O pagamento está garantido? É o suficiente?"

O gerente da luta, um homem corpulento de olhos gentis, se mexeu desconfortavelmente. Ele desviou o olhar, seu silêncio um soco no estômago. Meu coração afundou. Não era o suficiente. Nunca era o suficiente.

Uma risada amarga escapou dos meus lábios. Eu era uma tola. Uma tola ingênua e desesperada. Eu teria que lutar de novo. Mais forte. Mais rápido. Mais brutalmente.

"Me tire daqui", eu disse, tentando me levantar. "Eu tenho que lutar de novo. Eu tenho que ganhar-"

"Clara, pare." A voz do gerente era gentil, mas firme. "Você não pode mais lutar. Você está... você está banida."

Meu cérebro lutou para processar as palavras. "Banida? Do que você está falando?"

Ele suspirou, passando a mão pelos cabelos ralos. "Caio Costa. Ele mexeu os pauzinhos. Disse que se alguém te deixar lutar, eles perderão tudo. Seu nome é veneno agora, garota. Ninguém vai te tocar."

Meu mundo girou. Caio. Era sempre o Caio. Ele não estava apenas tentando me envergonhar; ele estava tentando me quebrar. Me enterrar viva.

O gerente colocou um maço grosso de dinheiro na mesa de cabeceira. "Isso é do Sr. Costa. Para suas... despesas médicas." Ele não encontrou meus olhos. Ele se virou e foi embora, me deixando sozinha na sala silenciosa e estéril.

O ar parecia denso, sufocante. Minha garganta queimava. Cada esperança a que eu me agarrei, cada sonho de recuperar meu passado, se estilhaçou em um milhão de pedaços. O casarão. Tinha se ido.

Saí cambaleando do hospital, o ar fresco da noite cortando minha pele exposta. A chuva caía, fria e implacável, espelhando a tempestade que se formava dentro de mim. Andei sem rumo, as luzes da cidade se confundindo através das minhas lágrimas, até que me encontrei parada em frente a ele.

O casarão. Minha casa. Um farol de calor e amor em um mundo de crueldade fria.

Então, as luzes piscando. A multidão de repórteres. Caio, de pé, alto e imponente, um sorriso predatório no rosto. E ao seu lado, Bárbara, radiante de branco, o braço entrelaçado no dele.

"Tenho o prazer de anunciar", a voz de Caio ecoou, amplificada pelos microfones, "que o histórico casarão da família Guedes foi oficialmente transferido para a Fundação Filantrópica Bárbara Ricci. Bárbara, minha noiva, é a legítima proprietária deste legado. Ela, não Clara, é a verdadeira filha desta família."

As palavras me cortaram, cada uma uma nova facada no coração. Meu legado. Meu nome. Minha casa. Tudo roubado. Tudo transformado em uma zombaria grotesca. Minha visão nadou. Agarrei meu peito, um soluço ofegante rasgando através de mim. O mundo ficou preto.

Ao cair, minha mão instintivamente alcançou meu celular. Um nome brilhou diante dos meus olhos, um amigo esquecido, uma memória distante de bondade. Bruno Rosa.

"Bruno", sussurrei, a palavra um apelo desesperado, "me leve embora. Por favor. Para qualquer lugar, menos aqui."

Capítulo 3

"Oh, Clara, querida, você está bem?" A voz de Bárbara escorria uma preocupação açucarada, mas seus olhos brilhavam com um prazer malicioso. Ela estava ao lado de Caio, a imagem da inocência perfeita e preocupada.

Caio, com o rosto uma máscara de fria indiferença, interrompeu antes que eu pudesse formular uma resposta. "Ela não faz mais parte desta família, Bárbara. Suas ações deixaram isso claro."

As palavras pareceram um golpe físico, embora eu soubesse que estavam vindo. O anúncio formal, a denúncia pública. Ele descreveu meus supostos crimes, as mentiras em que ele tão prontamente acreditou, me pintando como uma pária, uma desgraça.

O mundo inclinou. Os rostos familiares dos repórteres, os flashes das câmeras, os sussurros que me seguiam por toda parte. Senti uma onda de raiva branca e quente, me impulsionando para frente. Abri caminho pela multidão, meu corpo machucado gritando em protesto, até ficar diante deles, uma ferida aberta exposta ao mundo.

"Caio!" Minha voz falhou, crua de emoção. "Como você ousa?!"

Uma onda de murmúrios percorreu a multidão. Seus olhos, cheios de julgamento e desprezo, me percorreram. Os sussurros ficaram mais altos, mais afiados, cortando o fino véu da minha compostura. "Olha ela aí", uma mulher sibilou. "A herdeira do escândalo. Tão patética."

Eu congelei, o peso do julgamento deles me esmagando. A vergonha era uma companheira familiar, mas a crueldade pura dela, naquele momento, era quase insuportável.

De repente, uma mão agarrou meu braço, me puxando bruscamente para debaixo de um guarda-chuva. Caio. Seu toque, antes um conforto, agora parecia uma marca de ferro. "Pare de fazer cena, Clara", ele sibilou, sua voz baixa e perigosa. "Você só está piorando as coisas."

Puxei meu braço, a dor atravessando meu ombro, mas não me importei. Eu não o deixaria me controlar novamente. Eu não o deixaria me silenciar.

"Piorando?", cuspi, minha voz se elevando. "Pior do que vender o legado da minha família para ela?" Apontei um dedo trêmulo para Bárbara, que recuou com um suspiro teatral. "Esta era a minha casa, Caio! A casa dos meus pais! Eu sou Clara Guedes, a única filha deles! Ela não é nada além de uma... uma parasita adotada!"

PLAF!

O som ecoou pelo silêncio atordoado. Minha cabeça virou para o lado, uma dor ardente florescendo em minha bochecha. Minha visão embaçou, lágrimas ardendo em meus olhos, mas me recusei a deixá-las cair.

Caio estava diante de mim, a mão ainda levantada, os olhos ardendo de fúria. Ele puxou Bárbara para mais perto, protegendo-a com seu corpo, como se ela fosse a vítima, não a arquiteta da minha destruição.

"Não se atreva a falar da Bárbara assim!", ele rosnou, a voz tremendo de raiva. "Ela é mais família para mim do que você jamais foi! Ela é mais filha desta família do que você jamais poderia sonhar em ser!" Suas palavras eram veneno, torcendo a faca mais fundo no meu coração já sangrando. "Você, Clara, é uma desgraça. Uma mentirosa. Uma bruxa manipuladora que tentou queimar a própria irmã viva!"

A acusação me atingiu como um golpe físico. Era tão absurdamente ridículo, tão grotescamente injusto, que uma risada histérica borbulhou na minha garganta. Eu me lembrava. Lembrei-me de cada instância da crueldade calculada de Bárbara. A boneca de porcelana que ela "acidentalmente" quebrou, me culpando. As entradas de diário forjadas "confessando" seus tormentos imaginários. Os joelhos ralados e as acusações chorosas, sempre terminando comigo em apuros, sempre com Bárbara ao lado dele. Suas lágrimas eram suas armas, sua inocência fingida seu escudo.

E Caio. Ele sempre esteve lá, uma presença sólida e inabalável, sempre me defendendo, sempre acreditando em mim. Sempre. Até três anos atrás. Até a noite em que ele ficou parado e assistiu minha vida queimar.

Eu tinha sido tão ingênua, tão tolamente otimista. Eu acreditava em sua proteção, em seu amor. Eu acreditava que ele sempre seria meu porto seguro. Agora, olhando para seu rosto frio e furioso, eu via apenas um estranho. Um monstro.

"Estou decepcionado com você, Clara", ele disse, sua voz tingida de um desdém cortante. "Profundamente decepcionado."

Sua postura fria e calculista, suas palavras desdenhosas, sobrepuseram-se chocantemente a outra memória: ele de joelhos, uma caixa de veludo na mão, seus olhos brilhando de adoração. "Case-se comigo, Clara. Prometo protegê-la, valorizá-la, amá-la para sempre." A ilusão se estilhaçou, deixando para trás apenas cinzas amargas.

"Esta é sua última chance", ele continuou, sua voz fria como gelo. "Peça desculpas a Bárbara. Publicamente. E talvez... talvez possamos salvar alguma coisa."

Meu olhar caiu sobre suas mãos, entrelaçadas com as de Bárbara, um símbolo grotesco de sua aliança distorcida. Uma risada amarga e sem alegria escapou dos meus lábios.

"Não", eu disse, a palavra inabalável. "Não vou me desculpar por suas mentiras. E não vou implorar pelo que é meu por direito." Meus olhos, queimando com uma nova e feroz determinação, encontraram os dele. "Eu quero o dinheiro. O dinheiro que ganhei pelo casarão."

Seu rosto se contorceu de raiva. "Você é realmente incorrigível! Você quer dinheiro?! Ótimo! Pegue seu maldito dinheiro! Mas saiba disto, Clara Guedes, a partir deste momento, você e eu acabamos. Fim de papo. Entendeu?"

Um silêncio súbito e sufocante desceu sobre a multidão. O ar crepitava de tensão. Os olhos de Caio, escuros e ameaçadores, perfuraram os meus. "Você entendeu?!", ele rugiu, sua voz tremendo de fúria mal contida.

Encarei seu olhar, meus próprios olhos duros e desafiadores. Vi um lampejo de algo nos dele, um momento de confusão, de descrença desesperada. Ele não estava acostumado a eu revidar, não assim.

Nesse momento, Bárbara, sempre a manipuladora, entrou em ação. Ela se soltou do aperto de Caio, o rosto uma máscara de angústia chorosa, e se jogou aos meus pés. "Oh, Clara! Sinto muito! Eu nunca quis que nada disso acontecesse! É tudo culpa minha! Eu vou embora! Eu vou embora e você pode ter o Caio e o casarão de volta!"

Ela se lançou escada de mármore abaixo, uma descida dramática e lamuriosa. No meio do caminho, ela tropeçou, uma queda teatral e agonizante. Um grito agudo de dor. Então, silêncio.

Caio, o rosto contorcido de horror, correu para o lado dela. Ele se ajoelhou, as mãos tremendo enquanto embalava sua cabeça. Uma mancha carmesim crescente floresceu sob ela, encharcando o tecido branco imaculado de seu vestido.

"Bárbara! Bárbara! Meu Deus!" Sua voz era um suspiro engasgado, um grito desesperado. "Alguém! Chame um médico! AGORA!"

Seu olhar furioso se voltou para mim, ardendo com uma ira profana. "Você! Você fez isso! Você a empurrou! Você tentou matá-la e ao nosso bebê!"

"Prendam-na!", ele rugiu, a voz grossa de intenção assassina. "Prendam Clara Guedes! E que Deus te ajude, Clara, se a Bárbara e nosso filho não sobreviverem, eu juro, farei você pagar por isso pelo resto da sua vida miserável!"

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