Capítulo 2

***

Kassia podia sentir os olhares perscrutadores cravados em sua nuca e nem precisava olhar pra traz pra confirmar. Sabia por instinto que havia entrado em terreno perigoso quando aceitou seguir com o grupo de Janete e Carlos ao suposto acampamento de fim de semana. O tal Carlos, que por si só, já lhe era bem pouco confiável tinha convidado outros rapazes, e ao que estava lhe parecendo, os seus 'amigos' também seguiam uma mesma linha de raciocínio e eram igualmente sinistros...

Pela enésima vez ela se perguntou o que estava fazendo ali com eles. Bem, não que houvesse muita escolha, afinal.

***

Janete e Lilian eram as mais antigas no setor, e eram tão intimidantes quanto os demais do grupo. Já ela, era só uma enfermeira substituta que teve o azar de cair nas graças de Edmundo, o chefe do setor de traumatologia ao qual foi designada e já na primeira semana ela sentiu o peso de ser eleita a 'preferida do chefe' pelos demais, à qual ele deliberada- mente escolheu entre às demais para se aproximar no refeitório, à que fora acidentalmente flagrada em seus braços, justamente por fugir dele, e em optar pela escada de acesso restrito à funcionários...

Tudo bem, não foi ele quem tropeçou nos malditos sapatos novos e apertados. Mas quem estava à dois degraus abaixo?...

Ei! Um pouquinho de otimismo, pelo amor de Deus! Pelo menos os malditos sapatos, estavam no fundo do armário, dentro do micro quarto de estudante, que com muito orgulho de sua parte, era alugado com suas parcas economias. Ela agora estava de tênis e estes eram confortáveis.

O que não estava nada confortável, era a sensação borbulhante em seu estômago, alertando-a de que algo estava errado.

Muito errado meeesmo!

Ela esbravejou por dentro ao tropicar de novo, ela queria mesmo começar com o pé direito dessa vez! E olhe só no que deu...

Sua irmã, 10 anos mais velha e extremamente protetora estava no seu encalço e um único motivo, um único motivo que fosse, seria o sufi-

ciente para que ela revogasse à sua 'suposta' liberdade condicional e...

Kassia nem queria imaginar o que sua irmã faria, se viesse a descobrir que ela havia caído na lista negra de seus 'supostos' colegas de trabalho. Os mesmos ‘colegas’ que já nos primeiros dias à apelidara de peixinho do diretor, à nova preferida..., entre outros apelidos mais sugestivos que ela não queria nem lembrar...

Ah, mas orgulhava-se de si, por ter sido tão corajosa!

Na primeira oportunidade que teve ela venceu a sua irritante timidez e se aproximou das duas no vestiário feminino do hospital.

Com educação tinha abordado a ambas e dito que na verdade não havia nada entre ela e o diretor e... Grande...

Janete sorriu toda duvidosa, mas ela insistiu que o que ela viu tinha sido um infeliz acidente, e que era justo por estar ‘fugindo’ do radar do chefe, que tinha optado pelas escadas e acabou tropeçando e...

A ‘Intratável’ soltou uma grasnante gargalhada e chegou até a soltar um 'mas é claaaro' cheia de escarnio na sequência, e ainda perguntou se achava que ela acreditava em Papai Noel e coelhinhos da Páscoa também...

Droga, Janete era mesmo um ser urgh, mas era a sua 'liberdade condicional' que estava em jogo ali, então Kassia se despediu, mas se manteve firme no que disse à ela e a Lilian e já perto de terminar o seu sofrido e abnegado turno foi abordada pelo ser urgh, Carlos e mais dois de seus 'amiguinhos’ na portaria do hospital.

A ‘Intratável’ tomou à frente e falou da travessia e acampamento que eles iam fazer nas montanhas entre os municípios e convidou-a à ir com eles. Bacana não?...

Como ela havia explicado, seria uma caminhada de aproximadas 8 horas, eles acampariam no local por um dia e uma noite e ainda retorna- riam um dia antes de voltarem às suas respectivas funções no hospital.

Ela até havia pensado em se esquivar dessa, mas Carlos comentou com um brilho de maldade no olhar que ela talvez tivesse outros planos para o feriado, já que, como trabalhava no setor administrativo, ele ouviu o chefe comentar com sua secretária que pensava em perguntar se ela aceitaria trabalhar com 'ele' no feriado, e até mencionou que ela era a 'candidata ideal'... Que raios! Nada se passava despercebido em uma cidade pequena?!

Kassia ainda pensou que passar o feriado trabalhando no hospital não seria uma ideia tão ruim, sendo nova no setor e ainda em período de experiência..., mas Edmundo deixou claro que não seria ‘no’ hospital e o filho da mãe até sugeriu todo sério que ela não dissesse aos outros que ia trabalhar pra ele já que seria particular, então claro e evidentemente que ela se esquivou, nem mesmo esperou pra saber se seria uma tia velhinha ou um pai moribundo, pensou rápido e com expressão de pesar, alegou que já havia se programado pra descer a serra e passar o feriado com a irmã no litoral...

Que droga!

Não era mesmo o que pretendia fazer do seu feriado! Sua intenção inicial era curtir os três romances que pegou emprestado na biblioteca local enfiada no seu quartinho de estudante, comendo todo o tipo de porcaria gordurosa e tomando refrigerante num protesto silencioso à vida saudável que lhe foi imposta pela irmã desde que foi entregue à ela, quando aos nove anos os seus pais morreram e Kori havia assumido a sua tutela... Sendo justa, Kori não era uma pessoa ruim, só assim um tanto sufocante e super-mega-protetora...

Mas se fosse pra fugir de passar o feriado com a irmã sem parecer que estaria fazendo ‘aquele tipo de serão' com o chefe bem esquisito. Era melhor estar sob os olhos da panelinha, que possivelmente, fariam da sua vida um verdadeiro ‘inferno’ no serviço temporário, se viessem à ter material pra certas 'suposições maliciosas’.

Daí sim ela estaria bem enrascada! Kori podia facilmente revogar a sua tão desejada liberdade e suas experiências se resumiriam á...

Bem, nada!

E justo agora que estava começando à conquistar sua independência e até já tinha convencido a irmã à deixar que estreasse a habilitação que há quatro longos anos havia tirado!

Tudo bem que a foto ficou uma porcaria, como era praxe, mas o mais ‘urg’ da situação, era que só servia pra enfeitar sua carteira recheada de cartões ilimitados, porque sua super-mega-protetora irmãe tinha Ricco! Um segurança de pele negra com quase dois metros de altura, que era também motorista e, diga-se de passagem, o cara também era um ótimo cozinheiro e estava sempre, e irritantemente à disposição!

Ricco foi praticamente o seu babá desde o acidente que quase morreu há pouco mais de dois anos... E Kori nem sabia de tudo, se soubesse, Kassia desconfiava que nunca mais conseguisse sair de casa sozinha, faculdade então...

***

Capítulo 3

***

Seu celular já não tinha mais sinal e ela o desligou pra economizar a bateria, ela havia tirado a mochila das costas com o intuito de guardar o aparelho e um dos 'amigos' pra lá de estranhos de Carlos tirou da sua mão no momento em que ia colocar novamente nas costas.

Ela tinha dito que nem mesmo estava pesado e o sorriso do sujeito lhe provocou um arrepio de alerta na espinha. Ele disse que preferia que ela não se cansasse tão cedo ou por tão pouco e deslizou os dedos no seu ombro. Ela prendeu o ar e gelou com o contato atrevido, ele arqueou às grossas sobrancelhas estudando-a, e ela abaixou a cabeça, seus olhos se fixaram no chão. Merda...

Ela não devia estar ali, o seu instinto não dizia, gritava! Lilian tinha ligado na ultima hora dizendo que não ia. Ela e a Jane discutiram ‘feio’ pelo telefone e Jane a havia acusado de tratante e feito ameaças do tipo; 'vai se arrepender se der com a língua nos dentes' e, 'se souber que foi com ele, tá fodida' e isso, dito em alto e bom tom!

Nem dava pra não ouvir!

Elas discutiram mais um pouco e Kassia desconfiava que o 'ele' da discussão acalorada fosse Edmundo, mas também poderia ser qualquer outro cara, até mesmo um do grupo sinistro e ao que lhe pareceu não lhe dizia respeito e ela não seria atrevida em perguntar...

Já se sentia mal o suficiente por ter sido obrigada à ouvir a conversa e chegou até a sentir uma pontinha de inveja da Lilian...

Foi nessa que a intratável Jane desligou o celular com violência e pegou no seu braço conduzindo-a a vã do grupo.

Um dos ‘não’ apresentados se dirigiu a ela com cara de aborrecido e perguntou, 'e agora' e Jane deu de ombros e disse 'vamos improvisar, eu tenho algumas coisas que pode substituir' para ela, já enfiada dentro da vã, Jane fechou os olhos e balançou a cabeça em desaprovação dizendo;

'Não esquenta com aquela vaca, ela não vai fazer falta e vamos nos divertir mais ainda sem ela'.

Kassia balançou a cabeça assentindo, mas a sua maldita timidez fez travar a sua língua. Tudo o que ela queria era inventar uma menstruação que havia chegado de surpresa, uma dor de cabeça ou qualquer outra coisa que a livrasse do que já imaginava ter sido uma péssima ideia.

Eles que pensassem o que quisessem dela, ela... ‘Teria’ saído da vã...

Se outro dos 'amigos' não devidamente apresentados à ela não tivesse sentado ao seu lado e um tanto abusado passado o braço no encosto do assento por traz da sua cabeça a conversar com Jane que se postou do outro lado consolando-a.

E isso, como se Kassia nem estivesse entre eles...

O sol ainda não havia raiado quando a vã arrancou e saiu pela intermunicipal. O destino mencionado ficava nos arredores das montanhas localizadas entre os municípios serranos e o grupo conversava entre si com animação, só Jane estava carrancuda, mas ainda assim, sorriu uma ou duas vezes para tentar amenizar o clima pelo furo da Lilian.

Quando chegaram ao pé da montanha, Kassia observou à tudo com encantamento, pensando que talvez não fosse tão ruim, afinal... Ao menos até sentir os olhares estranhos dos quatro homens do grupo sobre si, avaliando-a como se fosse ela um animal exótico ou/e em extinção e como sempre acabava fazendo em situações assim, o que fez? Fugiu, claro! Ela fugiu dos olhares em vestir a mochila e olhar em torno como se examinasse o lugar. Era realmente impressionante e nem foi preciso fingir o seu deslumbramento, mas se lembra de ter contido a vontade de se esticar toda e rodar sobre si mesma com os braços abertos perante à tamanha beleza. Já estava sendo estudada sem fazer nada e seu instinto implorava que se mantivesse o mais transparente possível...

Janete estava um pouco mais distante e novamente com o celular no ouvido e pouco tempo depois ela voltou toda animada com um sorriso nos lábios, que Kassia desconfiava ser resultado de Botox, mas não ia ser maliciosa, ou pelo menos não queria ser, então...

Mochilas nas costas, carro trancado e pé na trilha que um dos homens disse, ‘rumo ao paraíso’...

Que paraíso!...

Já caminhavam à cerca de cinco ou seis horas, ela desconfiava, mas não saberia dizer ao certo. Porque simplesmente não estava de posse da própria mochila e seu celular estava lá dentro!

Seu desconforto e suposições já à estavam deixando paranoica e ela decidiu se dar um tempo, então se pôs a admirar a paisagem verde que os cercava por todos os lados... Jane seguia mais à frente e assentia pra tudo que Carlos e um dos seus amigos diziam como uma aluna bastante interessada e parecia estar se divertindo.

O sol já castigava alto e inclemente no céu do mais puro azul e o seu esgotamento físico e mental já tinha chegado ao ápice à horas atrás, mas estava até temerosa de pedir por uma pausa, sentia estar sendo testada e podia até ser um tanto introvertida, mas ainda tinha o seu orgulho... Não era só o seu celular que estava dentro da sua mochila, suas garrafas de água e os suplementos energéticos que a sua irmã insistia que usasse também e todos com exceção dela já haviam bebido no caminho, mas se estavam esperando que ela ia pedir pelo óbvio...

O abusado que praticamente sequestrou a sua mochila ofereceu pra Srta. Oferecida Janete dos Quintos dos Infernos à sua porcaria de água!

Kassia engole a frustração e finge não estar vendo quando o ser urg olha de relance pra trás. A sua camiseta estava ensopada e grudada no corpo e o seu jeans surrado estava sujo e rasgado de uns dois ou três tombos que levou ao longo do caminho, o que para seu alívio ninguém tentou ajuda-la à levantar, pois já imaginava que se algum deles tocasse nela de novo, acabaria passando pela vergonha de vomitar o pouco que tinha, se é que ainda tinha algo pra vomitar em seus pés.

Kassia já pensava seriamente em virar nos calcanhares e voltar pelo mesmo caminho de onde vieram quando eles, finalmente, resolveram parar pra descansar! Montanhas exuberantes os cercavam por todos os lados e perto de onde estavam havia uma cachoeira que imaginou ser a única à considerar fascinante.

Dava até pra ver peixinhos multicoloridos no fundo do lago de tão claras e cristalinas que eram as suas águas.

E foi ali, no largo banco de areia que rodeava piscina de água natural que Kassia foi devidamente apresentada ao resto do grupo...

Renato, Lucas e Sergio eram os que não haviam sido apresentados antes e Sergio, gelou ao reconhecer, foi o abusado que tirou a mochila das suas costas. Ele sorri de maneira sombria logo que é apresentado e à certa distancia retira às mãos dos bolsos da calça cargo, com a canhota ele oferece uma maçã e com a destra ele lhe aponta e move o indicador em chama-la. Ela calcula malcriada que a distancia é a mesma entre eles, mas treme por dentro em perceber que está cercada pelos demais e que todos à observavam com expectativa e estão seriamente calados.

Sergio fecha a expressão com ar de desagrado, volta a enfiar a maçã no bolso e é explicitamente direto;

– Vamos às regras, e é bem simples. Você obedece, é recompensada e todos nós iremos nos divertir. Desobedece e será devidamente punida, e ‘nós’ nos divertiremos de qualquer forma. – ela chegou a abrir a boca, mas ele continuou sério e com tom autoritário;

– Agora, faça o que mandei pequena, e venha até aqui.

Ah merda. Ele não estava de brincadeira e ela moveu lentamente a cabeça em negativa engolindo em seco.

Queria argumentar ou perguntar o que estava acontecendo, mas sua garganta escolheu uma péssima hora pra travar. Uma dor ardente varou por suas costas e a fez arquejar e no mesmo instante foi puxada pelos cabelos e forçada à ajoelhar na areia úmida. Outra varada a fez gemer alto de dor e seu agressor ordenou que ficasse quieta apertando ainda mais a pressão com que a continha pelos cabelos. O pânico a assaltou de imediato, mas ela permaneceu de boca fechada. O mesmo que a agrediu se inclinou e beijou na sua fronte elogiando-a.

– Boa menina... Aprende rápido.

Kassia lançou em Jane um olhar indignado e acusador, mas ela move os ombros como se não fosse nada e rebate;

– É quatro vezes mais do que Ed poderia te dar... e há de concordar que é uma barganha até razoável para te satisfazer e deixar meu dono em paz.

***

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