Capítulo 2

Marcos olhou de mim para Isabela, um lampejo de confusão em seus olhos.

"Então, como fica o investimento da galeria?", ele perguntou.

Isabela acenou com a mão, displicente.

"Depois, Marcos. Está quase na hora do meu voo para Bariloche, lembra? Você prometeu me levar ao aeroporto."

A atenção dele voltou-se para ela. Instantaneamente.

"Certo, claro. Bariloche."

Ele me olhou, um olhar rápido, quase indiferente.

"Você está bem, Lena? Parece pálida."

Eu apenas assenti.

Palavras pareciam inúteis.

Ele não esperou por uma resposta. Já estava guiando Isabela em direção ao elevador, a mão em seu braço.

As portas se fecharam, me deixando sozinha em seu escritório opulento.

O silêncio foi um alívio.

Saí, os papéis do divórcio assinados um peso sólido na minha bolsa.

Naquela noite, Marcos chegou tarde em casa.

Ele me encontrou na sala de estar, olhando para as luzes da cidade.

Ele veio por trás de mim, colocou as mãos nos meus ombros.

Um gesto familiar. Costumava me fazer sentir segura.

Agora, parecia uma jaula.

"Desculpe o atraso", ele disse, a voz suave. Tentando ser gentil. "O voo da Bela atrasou."

Claro que atrasou.

"Você ainda está chateada com ontem à noite?", ele perguntou.

Chateada? Por ter sido abandonada em uma estrada escura, doente e com dor, por causa da ex-namorada dele?

"Por que eu estaria chateada, Marcos?", perguntei, minha voz sem emoção.

Ele suspirou, um som de paciência ensaiada.

"Olha, a Bela estava genuinamente assustada. O carro dela realmente quebrou. O que eu deveria fazer?"

"O que, de fato", eu disse, virando-me para encará-lo.

Senti o leve cheiro do perfume de Isabela em sua camisa. Chanel nº 5. A marca dela.

"Esta é a última vez, Marcos", eu disse.

Ele franziu a testa. "Última vez para quê? Eu ajudar a Bela? Ela é minha amiga mais antiga, Lena. Você sabe disso."

"Não", eu disse. "A última vez para nós."

Tirei os papéis do divórcio assinados da minha bolsa e entreguei a ele.

Ele olhou para eles, depois para mim.

Incredulidade. Depois raiva.

"Que porra é essa? Você não pode estar falando sério."

Ele sempre dava desculpas para Isabela.

Ela era frágil. Ela estava sozinha. Ela teve uma vida difícil, apesar dos milhões de sua família.

Minha dor, minhas necessidades, eram sempre secundárias.

Ou invisíveis.

Ele costumava me trazer café pela manhã. Puro, com duas colheres de açúcar.

Na manhã seguinte, ele não trouxe.

Ele dormiu no quarto de hóspedes.

Eu fiz uma pequena mala.

Apenas o essencial.

Olhei ao redor do nosso quarto. O lado dele do armário estava arrumado, organizado.

Mas em sua mesa de cabeceira, ao lado de seu relógio e carteira, havia uma pequena foto emoldurada.

Não era minha. Era dele e de Isabela, anos atrás, rindo, com as cabeças juntas.

Quando aquilo apareceu?

Eu nunca tinha notado antes. Ou talvez eu não quisesse notar.

"A Bela deve ter deixado quando estava me ajudando a redecorar no mês passado", ele disse uma vez quando encontrei um de seus lenços jogado sobre uma cadeira.

Ele nem tentava esconder.

Peguei meu suéter de caxemira favorito, aquele que ele dizia que fazia meus olhos parecerem mais verdes.

Eu o dobrei, depois desdobrei.

Coloquei-o de volta na gaveta.

Parecia contaminado.

Tudo neste apartamento parecia contaminado por suas escolhas, pela presença de Isabela.

Andei pelos cômodos.

Meus projetos de design estavam presos em um quadro no pequeno escritório que eu usava. Plantas para um novo hotel boutique no centro. Um painel de inspiração para a reforma de uma cobertura.

Meu trabalho. A única coisa que era verdadeiramente minha.

Retirei os projetos da Torres Empreendimentos. Os ligados à família dele. Aqueles onde eu sempre me senti como um detalhe secundário.

Meus clientes independentes, seus arquivos pareciam limpos.

Eu deveria ir a um baile de caridade naquela noite. O Fundo de Alfabetização Infantil.

Marcos era um patrocinador. Torres Empreendimentos.

Eu sabia que Isabela estaria lá. Na frente e no centro.

Eu não ia.

Mas então pensei, por que não?

Uma última olhada no mundo que eu estava deixando.

O salão de festas estava reluzente. Lustres, champanhe, vestidos de grife.

Isabela estava no centro das atenções perto das mesas do leilão silencioso.

Ela falava animadamente com um grupo de mulheres, sua voz se destacando.

"...e o Marcos foi simplesmente um herói. Ele dirigiu até a Bandeirantes naquela tempestade horrível para me resgatar. Meu carro estava completamente morto. Ele até garantiu que meu motorista o rebocasse no dia seguinte."

Uma das mulheres, uma colunista social que eu conhecia vagamente, se derreteu: "Ele é tão devotado a você, Bela! Sempre foi."

Isabela sorriu, uma imagem de modesta gratidão.

Ela me viu então. Seu sorriso se alargou, mas não alcançou seus olhos.

Ela se desculpou e deslizou em minha direção.

"Lena! Você veio! Que bom. O Marcos estava preocupado que você ainda estivesse chateada."

Capítulo 3

"Ele é um homem tão bom, não é?", Isabela continuou, sua voz escorrendo falsa simpatia.

As mulheres ao nosso redor assentiram, seus olhos alternando entre mim e Isabela.

Avaliando. Julgando.

"Sempre cuidando dos amigos", uma delas piou. "Especialmente de você, Bela. A devoção dele é lendária."

Isabela colocou a mão no peito, fingindo humildade.

"Ah, vocês sabem, nós nos conhecemos há muito tempo. Namoradinhos de infância, praticamente. Alguns laços, eles simplesmente não se quebram."

Ela olhou diretamente para mim.

"Na verdade, Lena, você deveria me agradecer. Fui eu quem disse ao Marcos para se casar com você."

O ar me faltou.

O salão de festas de repente pareceu quente demais, lotado demais.

"O quê?", consegui sussurrar.

O sorriso de Isabela era puro veneno agora, embora sua voz permanecesse doce.

"Ah, sim. Ele estava tão perdido depois que eu... bem, depois que eu precisei de um tempo. Ele estava deprimido, coitadinho. Eu disse a ele: 'Marcos, você precisa de alguém estável. Alguém... simples. Como a Lena. Ela vai te fazer bem. Ela não vai causar nenhum drama.'"

Minhas mãos tremiam.

Minha compostura cuidadosamente construída estava se quebrando.

Senti o sangue sumir do meu rosto.

Os rostos ao nosso redor se tornaram um borrão.

"Com licença", murmurei, me virando.

Eu precisava de ar.

Tropecei em direção ao terraço, meu coração batendo forte.

O ar frio da noite atingiu meu rosto, um pequeno alívio.

Apoiei-me na balaustrada de pedra, tentando respirar.

Então não era apenas que ele não me amava.

Meu casamento inteiro foi uma armação. Orquestrada por ela.

Para manter Marcos ocupado. Para mantê-lo estável até que ela o quisesse de volta.

E eu fui a tola que desempenhou meu papel perfeitamente.

Depois de alguns minutos, alguém gritou: "Vamos começar o Verdade ou Desafio! Bela, você é a primeira!"

Eu não queria voltar para dentro.

Mas não podia ficar aqui fora para sempre.

Voltei para o salão de festas, tentando parecer indiferente.

Isabela estava no centro de um círculo, um beicinho brincalhão no rosto.

"Verdade!", ela declarou.

Alguém gritou: "Conte-nos sobre o admirador mais devotado que você já teve, Bela! A coisa mais louca que ele já fez por você!"

Isabela bateu no queixo, fingindo pensar.

Então ela começou uma história.

"Bem, havia um garoto... absolutamente apaixonado. Desde o colégio. Ele faria qualquer coisa por mim. Uma vez, eu mencionei casualmente que amava uma orquídea rara em particular, encontrada apenas em alguma montanha remota. Ele voou para lá, fretou um helicóptero e a conseguiu para mim. Custou-lhe uma fortuna."

Risos e suspiros do grupo.

"Outra vez", Isabela continuou, aquecendo-se no tema, "eu estava chateada porque minha banda favorita não estava em turnê na nossa cidade. Ele de alguma forma os convenceu, pagou a taxa exorbitante ele mesmo, apenas para um show particular para mim e minhas amigas."

Mais aplausos.

"E depois teve a vez em que precisei de uma bolsa Chanel vintage específica para uma festa. Impossível de encontrar. Ele a rastreou através de uma dúzia de colecionadores, pagou cinco vezes o seu valor e a entregou em mãos horas antes do evento."

Meu sangue gelou.

Eu conhecia essas histórias.

Marcos me contou versões delas. Anedotas vagas sobre "um amigo" que ele ajudou, ou "uma loucura" que ele fez por alguém no passado.

A orquídea. Ele perdeu nosso primeiro jantar de Dia dos Namorados por essa "viagem de negócios".

O show particular. Ele esvaziou uma conta poupança conjunta que tínhamos, alegando uma "oportunidade de investimento repentina".

A bolsa Chanel. Ele vendeu um relógio que seu pai lhe deu, uma herança de família. Ele disse que o perdeu.

Era ele.

Sempre foi ele, fazendo essas coisas por Isabela.

Não por algum amigo anônimo. Por ela.

Todos esses anos. Todo aquele dinheiro. Toda aquela devoção.

Por Isabela.

Minha visão se afunilou. O salão parecia inclinar.

"Quem era esse cara incrível, Bela?", alguém perguntou. "Você tem que nos contar!"

Isabela sorriu misteriosamente. "Talvez eu os apresente um dia. Se ele não estiver muito ocupado."

Ela olhou em direção à entrada do salão.

E lá estava ele.

Marcos.

Entrando, procurando por ela. Seus olhos percorreram o salão, pousaram em Isabela, e um pequeno sorriso tocou seus lábios.

Ele nem me viu, parada a poucos metros de distância.

Ele foi direto para Isabela.

"Desculpe o atraso", ele disse a ela, a voz baixa. "A reunião se estendeu."

Uma mentira. Eu conhecia a agenda dele. Ele não tinha reuniões esta noite.

Ele estava esperando. Pela ligação dela. Pela convocação dela.

Ele finalmente me notou. Surpresa brilhou em seus olhos.

"Lena. Você veio."

Como se fosse uma anomalia inesperada.

"Eu já estava de saída", eu disse. Minha voz soava distante, até para mim.

"Ah. Precisa de uma carona?", ele perguntou, uma oferta superficial.

"Não, obrigada", eu disse. "Já chamei um."

Virei-me e fui embora, deixando-os juntos.

O casal perfeito.

Aquele que ele sempre quis.

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