Hali encarou Finley, apertando a bolsa com tanta força que os nós dos seus dedos ficaram brancos. O sol da manhã refletia com força na pintura preta polida do Maybach, ardendo em seus olhos cansados.
"Eu posso pegar o metrô", ela disse, embora sua voz soasse sem convicção.
Finley não parou de sorrir. "O porteiro está observando, Sra. Andrews. E acredito que os paparazzi costumam ficar de tocaia no café da esquina a esta hora da manhã, na esperança de vislumbrar o Sr. Gardner. Seria melhor entrar."
Hali olhou de volta para a entrada do prédio. O porteiro estava de fato observando, com as sobrancelhas levemente arqueadas ao ver a assistente júnior de Chanel parada ao lado do carro do CEO.
Ela rangeu os dentes e abriu a porta de trás, deslizando para o assento de couro. O interior tinha um leve cheiro do mesmo aroma de sândalo que estava impregnado em sua pele. Era sufocante.
Finley afastou-se do meio-fio sem esforço, entrando no trânsito caótico de Manhattan. A divisória entre a frente e a traseira estava abaixada. Hali olhava pela janela, observando o borrão de táxis amarelos e pedestres.
"Para onde?", Finley perguntou, seus olhos encontrando os dela no espelho retrovisor.
"Brooklyn", disse ela, dando-lhe seu endereço. Parecia errado dizer o nome da rua naquele carro. Era como misturar óleo e água.
Finley assentiu. "Brooklyn. Uma longa viagem."
O silêncio que se seguiu era pesado. Hali puxou um fio solto no assento — espere, não havia fios soltos em um Maybach. Ela juntou as mãos no colo para parar de se mexer inquieta.
"O Sr. Gardner raramente perde o controle", disse Finley de repente. Seu tom era casual, coloquial, como se estivesse comentando sobre o tempo. "Você deve ser... inesperada."
O calor subiu às bochechas de Hali, queimando, quente e rápido. Ela sentiu o sangue subir ao rosto. "Eu não sei do que você está falando. Foi o champanhe. Foi um erro."
Finley murmurou, um som evasivo. "Erros geralmente não envolvem um Chanel de arquivo."
Hali olhou para o terninho. O tecido era macio contra sua pele, um lembrete constante do homem que o havia dado a ela. Ela se lembrou do jeito que Ezra a olhou na noite anterior, no elevador. Havia uma fome em seus olhos que a aterrorizava. E ela havia puxado a gravata dele. Ela se lembrava disso agora. Ela o havia puxado para baixo, em sua direção.
Ela fechou os olhos, desejando que o chão a engolisse por inteiro.
Seu celular vibrou em sua mão. Ela deu um pulo, o coração falhando uma batida. Era uma mensagem de texto de Irving.
"Oi, querida. Desculpe por não ter atendido suas ligações. Apaguei cedo ontem à noite. Semana louca. Um café pela manhã?"
Hali encarou a tela. Apagou cedo.
Ela olhou o horário de sua última ligação para ele: 23:45. Irving era uma coruja. Ele nunca dormia antes das 2 da manhã.
Um nó de desconforto apertou-se em seu estômago. Ele estava mentindo. Mas por quê?
Então, um pensamento mais sombrio e frio tomou o lugar da suspeita. A data. Ela fez as contas de cabeça rapidamente, contando os dias em seu calendário interno.
Ela sentiu o sangue sumir de seu rosto.
"Pare o carro", ela disse. Sua voz era ríspida, urgente.
Finley franziu a testa, olhando pelo espelho. "Sra. Andrews? Nós estamos no meio do..."
"Por favor, pare. Tem uma CVS bem ali. Eu preciso... eu preciso de uma coisa."
Os olhos de Finley se estreitaram um pouco, avaliando seu rosto pálido. Ele entendeu. Não disse uma palavra, apenas deu seta e encostou o carro imenso no meio-fio em frente à farmácia.
Hali não esperou que ele abrisse a porta. Ela saiu apressadamente, quase tropeçando nos saltos emprestados.
As luzes fluorescentes da farmácia eram fortes. Ela caminhou direto para o corredor de planejamento familiar, seu coração martelando em seus ouvidos. Sentia como se todos estivessem olhando para ela. A mulher no corredor de produtos para cabelo. O adolescente comprando refrigerante. Todos eles sabiam.
Ela pegou a pequena caixa de Plan B. Uma pílula. Cinquenta dólares. Um preço baixo a pagar para apagar um erro que mudaria sua vida, mesmo que as letras miúdas no verso alertassem sobre sua janela de eficácia decrescente.
Ela levou ao balcão. A caixa, uma mulher de meia-idade com olhos cansados, escaneou a caixa. Ela olhou para o terninho caro de Hali, depois para seu cabelo bagunçado, e então para a caixa. Não disse nada, mas sua expressão gritava julgamento.
Hali pagou em dinheiro. Não queria deixar registro. Ela enfiou a caixa na bolsa e saiu, mantendo a cabeça baixa.
Quando voltou para o carro, Finley não perguntou o que ela havia comprado. Ele simplesmente voltou para o trânsito. Mas o ar no carro havia mudado. Parecia mais pesado.
"Ele suspeita", Hali pensou. "E se ele suspeita, vai contar para o Ezra."
Ela ficou em silêncio pelo resto da viagem, agarrando a bolsa contra o peito como um escudo. Quando o carro finalmente parou em frente ao seu prédio de apartamentos desgastado no Brooklyn, o contraste era gritante. A tinta descascada da entrada parecia patética ao lado do metal preto reluzente do carro.
"Obrigada", Hali murmurou, abrindo a porta.
"Sra. Andrews", disse Finley.
Ela parou, olhando para trás.
"Ezra é um homem que cuida de seus ativos", disse Finley. Sua voz estava desprovida de zombaria agora. Era um aviso. Ou talvez uma promessa.
Hali bateu a porta com força e subiu correndo os degraus para seu prédio.
Ela se atrapalhou com as chaves, suas mãos tremendo tanto que as deixou cair duas vezes. Finalmente, conseguiu abrir a porta e entrou tropeçando em seu apartamento. Trancou a fechadura, passou a corrente e encostou-se na madeira, deslizando para baixo até sentar no chão.
Estava quieto. Seguro.
Ela tirou a caixa da bolsa. Suas mãos tremiam enquanto rasgava a embalagem de alumínio. A pequena pílula branca parecia inócua.
Ela foi até a cozinha, encheu um copo com água da torneira e engoliu a pílula. Ela arranhou sua garganta seca.
Quase imediatamente, uma onda de náusea a atingiu. Era psicossomático, ela sabia, mas ainda assim teve ânsia de vômito, agarrando a beirada da pia.
Ela precisava tirar aquele cheiro dela. Precisava tirar Ezra de sua pele.
Ela foi ao banheiro e se despiu do terninho Chanel. Olhou para si mesma no espelho. Os hematomas em seu pescoço estavam escurecendo. Um chupão bem em cima do ponto onde seu pulso latejava.
Ela ligou o chuveiro na temperatura mais quente que conseguia aguentar. Esfregou a pele até ficar em carne viva e vermelha, tentando apagar o fantasma do toque dele.
Quando finalmente saiu, enrolada em seu roupão velho e puído, sentia-se oca por dentro. Ela enfiou o terninho Chanel e a lingerie em um saco plástico e o empurrou para o fundo do armário, atrás de seus casacos de inverno. Nunca mais queria vê-lo.
Seu celular vibrou novamente. Era Lia, sua melhor amiga e designer júnior na empresa.
"Você viu o Irving ontem à noite? Juro que o vi no The Box por volta da 1 da manhã."
Hali encarou a mensagem. The Box. Uma boate.
Irving tinha mandado uma mensagem dizendo que estava dormindo.
O nó em seu estômago se apertou ainda mais. Ele mentiu.
Por que ele mentiria sobre estar em uma boate? A menos que não estivesse sozinho.
No banco da frente do Maybach, a quarteirões de distância, Finley digitava uma mensagem em seu celular criptografado.
"Ela foi à farmácia. Parece doente. Urgente."
Do outro lado da cidade, na suíte da cobertura, Ezra Gardner olhou para a mensagem. O celular em sua mão rangeu sob a pressão de seu aperto.
Ele encarou as palavras, seu maxilar se contraindo até um músculo saltar em sua bochecha. Ele fechou os olhos, exalando uma respiração lenta e controlada. Então, com um movimento súbito e violento, ele partiu ao meio a caneta-tinteiro que estava segurando. A tinta escorreu por seus dedos, preta como óleo.
A manhã de segunda-feira chegou com a sutileza de uma marreta. Hali estava parada em frente ao espelho, ajustando a gola de seu suéter de caxemira mais grosso e de gola mais alta. Era cinza-carvão e sufocantemente quente para setembro, mas era a única coisa que escondia eficazmente os hematomas em seu pescoço.
Ela aplicou uma camada extra de corretivo sob os olhos, tentando mascarar as sombras deixadas por um fim de semana sem dormir. A náusea do Plan B havia se transformado em uma dor surda e constante em seu baixo-ventre.
Ela checou o celular. Nenhuma mensagem nova de Irving desde seu SMS de domingo à noite dizendo "espero que tenha tido um bom fim de semana". Ela não havia respondido.
Na viagem de metrô para Midtown, Hali atualizava obsessivamente o Instagram de Irving. Nada. As fotos em que ele estava marcado estavam limpas. Mas a dúvida plantada pela mensagem de Lia havia criado raízes e estava crescendo rápido.
Ela passou o crachá nas catracas da Gardner Holdings, o bipe soando como uma acusação. O saguão era uma colmeia de atividade, saltos estalando no mármore, o zumbido de ambição e cafeína preenchendo o ar.
Hali manteve a cabeça baixa, agarrando seu copo de café como uma tábua de salvação. Ela conseguiu chegar ao departamento de design sem esbarrar em ninguém importante.
Sua baia estava exatamente como ela a havia deixado: entulhada com amostras de tecido, esboços e painéis de inspiração inacabados. Parecia uma vida diferente.
Yara, a fofoqueira do departamento e amiga de trabalho de Hali, rolou sua cadeira até lá no momento em que Hali se sentou.
— Meu Deus, você está com uma cara de morte — sussurrou Yara, com os olhos arregalados. — Mas escuta. A rádio-corredor está pegando fogo.
O coração de Hali deu um pulo. Ela forçou um sorriso, ligando o computador. — Qual a novidade?
— Não, isso é sério. Alguém da equipe de limpeza disse que encontrou um vestido de mulher na suíte da cobertura de Ezra no sábado de manhã. Rasgado.
A mão de Hali deu um solavanco, derramando café quente em seu pulso. Ela sibilou, pegando um lenço de papel.
Yara se inclinou para mais perto. — Dizem que ele levou alguém para casa depois da gala. Todo mundo está tentando adivinhar quem. Alguns dizem que foi aquela modelo, Kaia. Outros acham que pode ser uma socialite.
Hali limpou o pulso, o coração batendo forte contra as costelas. *"Ou talvez uma assistente júnior que queira morrer"*, pensou ela.
— Provavelmente uma modelo — disse Hali, sua voz soando fraca para seus próprios ouvidos.
Nesse momento, Nolan Hayes, o Diretor de Design, passou rapidamente pelos corredores. Ele parou na mesa de Hali, pegando um esboço que ela havia deixado à mostra — um desenho rústico a carvão de um corpete estruturado.
— Linhas interessantes, Andrews — murmurou Nolan, ajustando os óculos. — Muito agressivas. Tem uma certa qualidade... disruptiva. Me lembra o movimento de vanguarda em Berlin.
Hali congelou. O sangue sumiu de seu rosto. — Ah, eu... eu estava só rabiscando. Não é nada.
Nolan murmurou um som de aprovação, largando o esboço de volta na mesa. — Não seja tão modesta. Preciso de você na reunião de conceito esta tarde. Para fazer anotações. Às 14h.
Ele se afastou antes que ela pudesse protestar.
Hali exalou, afundando na cadeira. Ser notada era perigoso. Ela tinha que ser mais cuidadosa.
Um "ping" do seu computador chamou sua atenção. Uma pequena caixa de notificação apareceu no canto inferior direito da tela. Era do sistema de mensagens interno da empresa, o Slack.
Nova Solicitação de Amizade.
Hali franziu a testa. Quem adicionava pessoas como amigos no Slack? Geralmente era automático.
Ela clicou na notificação.
Usuário: E.G.
Cargo: CEO
Hali encarou a tela. O avatar era um quadrado preto.
Ezra.
Sua respiração falhou. Ele estava adicionando-a. No servidor da empresa. Onde o TI podia ver. Onde qualquer um olhando por cima de seu ombro podia ver.
Seu mouse pairou sobre o botão Aceitar. Seu dedo tremia. Isso era uma jogada de poder. Ele estava invadindo seu espaço de trabalho, lembrando-a de que ele estava em toda parte, afirmando sua dominância mesmo através de uma tela digital.
Ela rangeu os dentes. Não. Ela não ia jogar este jogo. Ela não era sua noiva. Ela era sua funcionária.
Ela moveu o cursor para o botão Recusar e clicou.
Solicitação Recusada.
Ela se recostou, o coração acelerado. Ela tinha acabado de rejeitar o CEO. Ela era louca. Ela seria demitida.
Cinco minutos se passaram. Hali tentou se concentrar em uma planilha, mas os números dançavam.
O telefone em sua mesa tocou. O som estridente a fez pular.
— Departamento de Design, Hali Andrews — ela atendeu, com a voz tensa.
— Sra. Andrews — a voz suave de Finley Butler soou na linha. — O Sr. Gardner gostaria de vê-la em seu escritório. Agora.
Hali fechou os olhos. Claro.
— Estou no meio da preparação para-
— Agora, Sra. Andrews.
A linha ficou muda.
Hali desligou o telefone lentamente. Yara a olhava com pena. — Foi chamada na sala do diretor? O que você fez?
— Nada — disse Hali, levantando-se. Suas pernas pareciam gelatina.
Ela caminhou até a área dos elevadores, agarrando seu caderno contra o peito. Ela apertou o botão para o andar da cobertura.
A subida foi agonizantemente rápida. As portas se abriram no 45º andar, um espaço de luxo discreto e silêncio aterrorizante.
Finley estava sentado em sua mesa do lado de fora das portas duplas de mogno. Ele ergueu o olhar, sua expressão neutra.
— Pode entrar.
Hali caminhou até a porta e bateu.
— Entre.
Ela empurrou a porta para abri-la. Ezra estava parado junto à janela que ia do chão ao teto, de costas para ela. Ele usava um terno que custava mais do que seu pai — se ela soubesse quem ele era — provavelmente ganhava em um ano.
Ele se virou lentamente. Segurava o celular na mão. A tela estava acesa.
Hali parou no meio da sala, mantendo uma distância segura.
— O senhor queria me ver, Sr. Gardner?
Ezra não respondeu imediatamente. Ele caminhou em direção a ela, seus passos lentos e deliberados. Ele parou a menos de um metro de distância, invadindo seu espaço pessoal.
Ele ergueu o celular. Na tela estava a notificação: Hali Andrews recusou sua solicitação.
Ele olhou para ela, seus olhos escuros cravados nos dela.
— É assim que você trata seu noivo? — ele perguntou, sua voz baixa e carregada de uma calma perigosa.
— Eu não sou sua noiva — sussurrou Hali, recuando até seus calcanhares baterem na madeira da porta atrás dela.
Ezra a seguiu, colocando uma mão no batente da porta acima da cabeça dela, encurralando-a. O cheiro de sândalo a envolveu novamente, desencadeando um flashback sensorial dos lençóis de seda e da pele quente dele.
— Estamos negociando — disse Ezra, inclinando-se até sua boca ficar a centímetros da orelha dela. — E recusar uma solicitação de amizade é uma péssima jogada de abertura, Hali.