— Creio que quando o conhecer melhor, verá que Alex está sendo ele mesmo.
O jovem parecia um pouco confuso pela resposta vaga.
— Acho que não entendeu. Ele mal pode ficar de pé e está... — o rapaz loiro fez uma pausa e olhou por sobre o ombro — ... chorando.
Para Christos ficou claro que aos olhos do jovem inglês aquelas lágrimas masculinas eram o detalhe mais embaraçoso da situação.
— E porque eu deveria me preocupar...?
A expressão do outro homem era um misto de cho¬que e revolta.
— Então, não vai ajudar?
— Não.
— Quando Alex me disse que você era um sujeito frio e mau-caráter, eu duvidei!
Christos sorriu, revelando uma fileira de dentes brancos e pouca cordialidade.
— Problema seu — observou num tom suave. — Se me permite dar um conselho, eu mergulharia a ca¬beça dele em um balde de água gelada e encheria uma xícara com café forte e empurraria pela goela dele abaixo. Não se preocupe tanto. Ele dispõe de um bom plano hospitalar. Agora, se me dá licença, estou espe¬rando alguém. — Com uma leve inclinação de cabe¬ça, dispensou o jovem.
— Tio Carl tem razão. A família Carides pensa que está acima de todos. Mas na verdade, você não passa de um pirata maldito, sem moral, sem escrúpu¬los e sem modos.
O rapaz percebeu que Christos, em vez de ficar ofendido pelo desabafo insultante, sorriu.
Peter não era um jovem muito forte, mas o escár¬nio que vislumbrou nos olhos escuros do grego des¬pertou-lhe um desejo sem precedentes de recorrer à violência física. Mas não o fez, é claro. Estava furio¬so, não insano! E tampouco falava com um homem de negócios sedentário. Christos Carides mal tinha entrado na casa dos trinta e parecia gozar de pleno vi¬gor físico.
O padrinho se deu conta de que os convidados fita¬vam-no curiosos e procurou se acalmar. E, muito mais incomodado com esse fato do que o seu adver¬sário, rangeu os dentes e partiu com tanta dignidade quanto pôde reunir.
Por certo, se sentiria melhor se soubesse que havia alguém por perto que teria aplaudido suas observa¬ções sobre o caráter dos Carides e ainda acrescentaria outras tantas!
Becca Summer, misturada aos convidados, chega¬va próximo ao cordão de segurança. Naquele mo¬mento, sua garganta estava tão seca que por certo não poderia formar mais que duas palavras e não seria capaz de ouvir o que disse, devido às batidas aceleradas de seu coração.
Seis semanas atrás estava atipicamente falante!
— Pessoas como os Carides me deixam enojada! — declarou furiosa, rosnando o nome com desdém.
— Pensam que só porque têm dinheiro e poder po¬dem fazer tudo que bem entendem. — Olhou para a irmã, Erica, e engoliu em seco. — A despeito de quem possam prejudicar.
— Becca, não adianta ficar zangada — retrucou Erica num tom de derrota.
— Quer dizer não se zangue, se vingue? — isto nunca fizera tanto sentido como naquele momento.
— Vingança? — exclamou Erica com um sorriso.
— Isso é sério? Estamos falando dos Carides.
— Então, você pensa que pessoas como os Carides acham que podem fazer tudo que querem? — esbra¬vejou Becca.
— Eu sei que podem, mana.
A réplica desanimada marejou-lhe os olhos de lá¬grimas, que ela lutou para conter e declarou num tom ameaçador:
— Um dia vou ensiná-los que não podem passar por cima das pessoas e escapar ilesos! Você vai ver.
Aquilo fora dito no calor do momento e por certo Becca não acreditara que tal oportunidade pudesse surgir, mas ali estava ela, prestes a fazer um pequeno ajuste na balança da justiça.
E já lamentava o fato de ter sido bem-sucedida!
Naquele instante, pegou um dos transeuntes olhando para sua cabeça e depressa retirou o chapéu de tricô, era o tipo de adorno que as pessoas não cos¬tumavam usar para ir a casamentos elegantes. Passando a mão sobre os cachos pré-rafaelitas, jogou-os para trás, deixando-os cair como uma cascata sobre o tecido escuro do seu casaco.
Não desista da tarefa do dia, Becca. Trabalhar sob disfarce definitivamente não é para você, disse a si mesma, reprimindo um sorriso preocupado.
Parte do problema era que não estava apenas apreensiva, mas também exausta. Não era de admi¬rar, considerando que no dia anterior entrara em seu velho fusca e dirigira a noite toda até chegar ali.
Durante o trajeto descobriu que a adrenalina, a afronta e o artigo de jornal noticiando o casamento do ano podiam fazer uma irmã mais velha protetora ir muito longe.
Por outro lado, carros precisavam de gasolina, o que a fez caminhar quase cinco quilômetros ao longo de uma estrada deserta até o posto mais próximo, às três da manhã.
Depois que tudo aquilo terminasse seria um alívio voltar ao seu estado normal, sensata, consciente e cautelosa. Não costumava agir daquela forma. Não era de sua natureza lançar a precaução ao vento. Na realidade, a inabilidade para ser espontânea fora uma das razões às quais Roger atribuíra o fracasso do re¬lacionamento deles.
A família e os amigos a incentivaram e apoiaram, quando o anúncio do compromisso de Roger com uma loira deslumbrante aparecera no jornal local, na semana seguinte ao rompimento deles. Becca, saben¬do que na condição de noiva abandonada deveria es¬tar se sentindo mais traumatizada, recebera as condo¬lências com um certo grau de culpa.
Depois de algumas semanas o papel de vítima pa¬tética começou a incomodá-la.
Quando contara o ocorrido à irmã, Erica lhe dis¬sera:
— Não se preocupe. Daqui a algumas semanas eles terão um novo escândalo para se deliciarem.
Na ocasião, nenhuma das duas podia suspeitar que seria Erica a protagonista do novo escândalo!
A irmã contara à família sobre sua gravidez não planejada no mesmo dia em que a ambulância fora chamada ao asseado trailer Edwardian onde Becca e Erica haviam crescido.
Mas fora muito tarde para salvar o bebê.
Depois, em casa, com a promessa de que tudo fica¬ria bem e que a filha mais nova teria alta no dia se¬guinte, a família Summer sentara na sala, encarando-se mutuamente.
Reconhecendo que os pais idosos ainda estavam muito chocados com a notícia, Becca fizera a única coisa que lhe ocorreu no momento: um chá.