Na manhã do dia após decidir partir, Nina estava empacotando os últimos livros que possuía.
Então, seu telefone vibrou de repente. Era o assistente ligando. "Doutora Avery, o senhor Blackwell foi ferido em um tiroteio ontem à noite. Ele levou um tiro no ombro esquerdo e perdeu bastante sangue. Já estamos trazendo ele de volta ao seu quarto."
Seus dedos congelaram. Por dez anos, não importava quão tarde fosse, quão exausta ela estivesse ou quão perigosa fosse a situação, no momento em que ele se machucava, ela pegava sua maleta de primeiros socorros e corria até ele. Era tanto contrato quanto instinto.
Sem hesitação, ela pegou a maleta de primeiros socorros e se dirigiu à ala leste do edifício principal, o quarto privativo de Julian. No mesmo quarto em que já havia entrado e saído centenas de vezes.
Mas quando chegou à porta, parou.
A porta estava entreaberta, deixando uma fresta estreita.
De dentro vinha a risada clara de Aria. "Julian, não se mexa! Vai arder quando eu desinfetar."
Então a voz profunda de Julian seguiu, com um tom divertido. "Vai devagar... merda, isso dói!"
Nina sentiu como se tivesse sido atingida por um raio.
Ele reclamou que estava doendo? Quantas feridas ela havia tratado nele nos últimos dez anos? Quando balas se alojavam em sua carne, ele mordia uma toalha sem emitir um som.
Quando uma lâmina cortava tão profundamente que o osso ficava visível, ele ainda conseguia sorrir e perguntar a ela: "Dia longo hoje?"
Mesmo com uma febre de 40 graus, ele uma vez segurou sua mão e disse: "Fique tranquila, eu não vou morrer dessa vez."
Ele nunca havia mostrado fraqueza diante dela. Mas agora, frente a Aria, um simples "isso dói" parecia quase uma queixa infantil.
Através da fresta na porta, Nina viu Aria sentada na beira da cama, vestida com um robe de seda, seus longos cabelos caindo soltos sobre os ombros enquanto ela aplicava iodo na ferida de tiro no ombro de Julian com um cotonete.
Julian se apoiava na cabeceira, olhando para ela com olhos gentis. Ele até levantou uma mão para afastar uma mecha solta de cabelo do rosto dela.
"Aria", ele disse suavemente, quase como um suspiro. "Você finalmente voltou."
Os olhos de Aria ficaram ligeiramente vermelhos. "Desculpe por te fazer esperar por tanto tempo."
"Mas valeu a pena." Ele segurou a mão dela e pressionou contra seu peito. "Desde que você voltou, tudo valeu a pena... cada segundo."
Parada fora da porta, Nina cravou as unhas profundamente na palma para não fazer nenhum som.
Então era assim que ele olhava para alguém que realmente amava, com uma ternura no olhar tão intensa que parecia capaz de envolver a outra pessoa completamente.
Ela sabia que deveria ir embora imediatamente, mas permaneceu imóvel, incapaz de desviar o olhar.
De repente, como se sentindo algo, Aria se virou bruscamente em direção à porta.
Seus olhares se encontraram. Um lampejo de triunfo passou pelo olhar de Aria. Então ela deliberadamente inclinou-se para frente e pressionou um beijo suave nos lábios de Julian.
"Não se mexa", ela disse, brincando. "Você vai reabrir o ferimento."
Julian não a evitou. Em vez disso, ele riu e envolveu um braço em torno da cintura dela. "Está bem. Vou ouvir você."
Nina não conseguiu mais ficar ali. Ela se virou e saiu apressadamente.
Lágrimas escorriam por seu rosto silenciosamente, mas ela as enxugou com força.
De volta ao seu quarto, ela jogou a maleta de primeiros socorros pesadamente sobre a mesa. Os instrumentos de metal fizeram um barulho alto.
Ela se lembrou de uma noite de inverno três anos atrás, quando Julian estava com febre e caiu inconsciente. Ela ficou ao lado dele por três dias e noites.
Quando ele acordou, tudo o que disse foi um suave "Obrigado pelo ótimo trabalho, doutora Avery."
E ainda hoje, ele havia mostrado tal vulnerabilidade diante de Aria.
Naquele momento, no quarto da ala leste, Julian se apoiava na cabeceira, seu ferimento no ombro já tratado por Aria.
Um guarda-costas estava na porta e relatou em voz baixa. "Senhor Blackwell, a doutora Avery passou aqui esta manhã."
Julian fez uma pausa enquanto segurava seu copo de água. "Ela veio aqui? Cadê ela?"
"Ela ficou na porta por um tempo, mas não bateu... então foi embora." O guarda-costas hesitou. "Ela parecia... bastante chateada."
Julian abaixou o olhar, seus dedos traçando o contorno do copo. "Ela sempre foi muito sensível. Com Aria de volta, é normal que ela se sinta inquieta."
"Mas ela está fazendo as malas", disse o guarda-costas, hesitante. "Ouvi dizer que ela até reservou uma corrida para o aeroporto. Ela realmente vai embora?"
Julian riu suavemente, embora seus olhos tenham ficado mais frios. "Impossível. Ela me ama há dez anos. Ela escolheu ficar ao meu lado." Além disso..."
Ele colocou o copo sobre a mesa, seu tom firme. "Se Aria engravidar no futuro, o bebê deve ser entregue por alguém em quem confiamos completamente. Nina é uma excelente médica. Não confiaria em ninguém mais para trazer o filho de Aria ao mundo."
O guarda-costas parecia querer dizer algo, mas no final apenas acenou com a cabeça e se retirou.
Julian olhou pela janela. O sol brilhava com um calor acolhedor.
Ele acreditava que Nina permaneceria ao seu lado como sempre.
Ele nunca imaginou que até mesmo uma sombra poderia se cansar de viver na escuridão.
Naquela noite, o mordomo apareceu fora do quarto de Nina e lhe entregou um convite dourado. "Senhora Avery, amanhã é a Festa de Primavera da família Blackwell. O senhor Edmund Blackwell solicitou especificamente sua presença. Por favor, certifique-se de comparecer."
Nina pegou o convite. A ponta dos dedos estava fria.
Nina não queria comparecer ao Banquete de Primavera dos Blackwell. Se fosse, significaria que concordava com o relacionamento de Aria e Julian.
Seria como uma punhalada no coração.
Entretanto, o convite havia sido escrito pessoalmente por Edmund. "Nina, os dez anos estão quase acabando. Este será o último banquete da nossa família. Você tem que comparecer."
Ela entendeu imediatamente. Era tanto uma despedida digna quanto um último aviso. Quando fosse embora, não deveria quebrar as regras da família.
O banquete foi realizado no Salão Rose Centenário, na Mansão Blackwell. Líderes das famílias tradicionais de toda a Costa de Leste lotavam a sala, em vestidos e ternos sob medida, com suas joias reluzentes. Por trás dos sorrisos polidos e risadas, no entanto, cada palavra tinha um tom cortante.
No momento em que Nina entrou no salão, seu olhar fixou-se na mesa principal. Julian estava lá, usando um terno preto de alfaiataria, seus olhos por trás dos óculos de armação dourada tão calmos e profundos quanto o oceano.
Ao lado dele, Aria se inclinava próxima, vestindo um vestido vermelho-vinho estilo sereia que a tornava deslumbrantemente bela. Ela sorria enquanto ajustava a gravata dele.
De repente, Julian ergueu sua taça. Sua voz era baixa, mas soou claramente por todo o salão. "Hoje, apresento formalmente Aria Monroe a todos vocês. Ela é minha noiva e a única mulher que amarei em toda a minha vida."
A única mulher que ele amaria em toda a sua vida. Nina cravou as unhas na palma da mão com tanta força que a dor aguda foi a única coisa que a impediu de perder o controle.
Por um momento, o salão ficou em silêncio.
Então, aplausos estrondosos irromperam.
Porém, Nina percebeu claramente que vários líderes das famílias tradicionais trocaram olhares sutis. Suas expressões eram complicadas.
Todos sabiam. Sabiam que, dez anos atrás, Julian não passava de um filho bastardo reprimido pelo tio, e que foi Nina quem ficou ao lado dele durante três tentativas de assassinato e dois tiroteios violentos.
Sabiam que, no ano passado, a máfia tentou atraí-lo com uma cilada sedutora, e que aquela mulher acabou com os membros decepados e jogada no porto na mesma noite.
Também sabiam que Julian nunca havia permitido que nenhuma mulher se aproximasse dele, exceto Nina.
Um dia, Nina havia sido a única exceção de Julian. Agora, Aria era quem podia ficar ao lado dele abertamente e legitimamente.
Nina ergueu sua taça de champanhe para esconder a dor em seu interior, mas o tremor em seus dedos a traiu.
Então, dez anos de vida e morte ao lado dele significavam menos do que uma única frase — a única mulher que ele amaria em toda a sua vida.
Aria de repente se aproximou, seu sorriso doce. "Que surpresa! Você veio também, Nina? Achei que não teria coragem de encarar isso."
Nina nem sequer olhou para ela. Deu um pequeno gole no champanhe. "Encarar o quê? A fortuna pela qual você voltou depois de tanto tempo?"
A expressão de Aria endureceu. "O que quer dizer com isso?"
"Exatamente o que está parecendo." Nina finalmente levantou os olhos, seu olhar carregado de desprezo. "Dez anos atrás, quando Julian estava sendo caçado pela cidade e se escondendo em um armazém à beira do cais comendo pão duro, onde você estava? Experimentando vestidos de noiva no exterior com outro homem?"
Sua voz não era alta, mas cada palavra era clara. "Agora que está firmemente no topo do Grupo Blackwell e controla metade da Costa de Leste, de repente você voltou. Senhorita Monroe, você ama Julian ou o herdeiro do Grupo Blackwell?"
O rosto de Aria ficou pálido como cinzas. "Isso é um absurdo! Minha família me forçou a ir embora!"
"Sério?", Nina soltou uma risada fria. "Então por que ele procurou por você durante três anos sem receber uma única resposta? Mas no momento em que uma revista financeira relatou no mês passado que a avaliação do Grupo Blackwell havia ultrapassado cem bilhões de dólares, você de repente ficou cheia de saudades e voltou correndo?"
Ao redor delas, os convidados fingiam continuar suas conversas, mas todos estavam atentos à troca de palavras.
Aquilo não era uma rivalidade comum entre duas mulheres. Era a exposição pública da máscara de Aria.
Os olhos de Aria ficaram vermelhos enquanto sua voz tremia. "Julian! Você está vendo como ela está me caluniando na frente de todos!"
Julian se aproximou com uma expressão franzida, sua voz carregando um tom de advertência. "Nina, já chega!"
Nina olhou para ele e de repente riu. "Julian, você realmente acredita nela? Na mulher que foi embora quando você estava no seu pior momento?"
O olhar de Julian escureceu. "O passado é melhor deixado no passado."
"Muito bem." Nina colocou sua taça sobre a mesa e se virou. "Desejo a vocês uma vida juntos. Que nunca sejam separados."
Ela atravessou a multidão e saiu do Salão Rose.
Nina respirou fundo. Ela acabava de virar por um beco lateral para chamar um carro quando uma dor aguda atingiu a parte de trás de seu pescoço.
Alguém a agarrou por trás e pressionou um pano embebido em anestésico sobre sua boca e nariz.
Ela lutou, mas seus membros rapidamente enfraqueceram e sua visão ficou turva.
A última coisa que viu foi uma van preta sem placas estacionada na entrada do beco. A porta deslizou, revelando um par de sapatos de couro polido.
Um homem falou baixinho. "O senhor Blackwell disse para não matá-la. Levem-na para o Armazém nº 3 no porto."
O coração de Nina deu um salto. Eram homens de Julian?