O teto branco do quarto do hospital entrou em foco.
Meu ombro latejava.
Não tanto quanto meu coração.
Luzes vermelhas e azuis piscavam do lado de fora da janela, pintando as paredes estéreis.
A música alegre do meu casamento foi substituída pela estática áspera dos rádios da polícia.
Lembrei-me do rosto de Heitor, frio, distante.
Do corpo caído do meu pai.
Um soluço escapou de mim.
Onde estava Heitor? Ele deveria estar aqui.
Mesmo que ele tivesse prendido meu pai, ele não me abandonaria assim.
Uma mulher de rosto afiado e terno entrou. Agente Ramires, dizia seu distintivo.
"Alana Reis?"
Eu assenti, minha garganta apertada.
"Precisamos fazer algumas perguntas sobre as atividades do seu pai."
Sua voz era seca, desprovida de simpatia.
"Especificamente, sobre os negócios dele perto do aniversário da morte da sua mãe."
Minha mãe.
Seu acidente de trilha no Parque Nacional da Serra dos Órgãos. Anos atrás.
Por que trazer isso à tona agora?
"O Heitor... ele se machucou?", perguntei, uma esperança desesperada e tola.
Ramires olhou para mim, um brilho de algo indecifrável em seus olhos.
"O Agente Bastos está bem. Ele é dedicado ao trabalho."
As palavras foram um tapa. Agente Bastos. Não Heitor.
"Ele tem uma vida real, Sra. Reis. Compromissos dentro da PF."
Vida real.
Então eu era a falsa.
"Ele... ele tem outra pessoa?" A pergunta foi um sussurro, vergonhoso.
Eu precisava saber quão completa era a mentira.
A expressão de Ramires não mudou.
"O Agente Bastos é um profissional. A vida pessoal dele é problema dele."
Mas seus olhos diziam mais. Diziam, sim, claro que ele tem, sua tola.
"Posso vê-lo?", perguntei à Agente Ramires na manhã seguinte. Minha voz estava rouca.
Ela nem sequer levantou os olhos dos papéis.
"O Agente Bastos está ocupado com a investigação. Ele não tem tempo para contato com civis que não seja pertinente ao caso."
Contato com civis. Era isso que eu era agora.
Escondi meu rosto no travesseiro barato do hospital.
As lágrimas vieram então, quentes e silenciosas.
Ele nunca me amou.
Foi tudo uma atuação.
Meu celular, milagrosamente devolvido a mim, estava na mesa de cabeceira.
Lembrei-me de ter enviado uma mensagem para ele na noite anterior, antes do casamento.
"Mal posso esperar para ser a Sra. Bastos. Te amo mais que tudo."
Ele não respondeu.
Eu pensei que ele estava ocupado com os preparativos de última hora do casamento.
Meu polegar pairou sobre o contato dele.
Talvez se eu ligasse. Talvez ele explicasse.
Chamou. Uma vez. Duas.
"Bastos." Sua voz, seca, impaciente.
"Heitor, é a Alana."
Silêncio.
Então, "Este número é apenas para assuntos oficiais da PF. Não ligue mais."
A linha ficou muda.
Tentei de novo.
Uma mensagem gravada: "O número para o qual você ligou bloqueou chamadas do seu número."
Bloqueada.
Ele me bloqueou.
A dor no meu ombro era uma pontada surda comparada a isso.
Os dias se arrastaram.
Mais perguntas. Mais salas estéreis.
As enfermeiras eram gentis, mas distantes.
Eu era a filha de um chefe do tráfico. Uma pária.
Mas eu não acreditava. Meu pai? Escorpião?
Não era possível. Ele era um filantropo. Um senador.
Ele me amava.