Não se estresse! Não se estresse! Não mate ele na frente de todo mundo!
Mesmo repetindo o meu mantra de vida, que adquiri depois que fui contratada pela Arme Technology, Sebastian Smith estava, mais uma vez, tentando me rebaixar a nada só por ser mulher.
Um parêntese nisso: eu era a única mulher neste setor. Havia muitos engenheiros nessa empresa e apenas algumas mulheres escapavam do navio machista existente. Diziam e repetiam que não davam prioridade a um sexo ali, e que a questão era que poucas mulheres haviam se formado nesse ramo. Uma grande mentira.
Minha entrada na empresa foi graças ao Rodolfo, o antigo chefe do setor de desenvolvimentos. Eu sempre fui a garota que estudava, estudava... e pensava nos estudos, só que meu amor pela engenharia mecânica veio somente depois que entrei na faculdade.
Não sabia o quanto seria difícil me manter em paz, porém valia o esforço, já que eu era a melhor entre cinco homens arrogantes e idiotas.
— Acha mesmo que isso vai melhorar a eficiência e a aerodinâmica? — indagou o meu arqui-inimigo e concorrente.
Ele sabia que sim, no entanto adorava pôr em questão as minhas habilidades, na frente dos caras de ternos. Assim era como eu chamava os chefes que determinavam para onde e quem iriam os projetos feitos pela Arme Technology.
— Isso diminui a temperatura do motor e aumenta a capacidade e velocidade. Sebastian, sabe disso melhor que ninguém. — respondi com minha mais falsa educação e um sorriso amarelo.
Muitas vezes sonhei com ele, mas não de um jeito sensual ou erótico. Eu podia até me excitar. Um soco faria um grande estrago no seu rosto convencido.
— Senhorita Still, ficamos muito felizes com o seu projeto e com a descoberta de torná-lo mais eficiente. — disse o homem de quase sessenta anos, com um olhar meigo.
Entre todos com quem já havia tido algum tipo de interação, ele era o mais educado e simpático. Pelo menos não me olhava como uma estranha quando falava dos meus projetos e ideias.
— Espero que conversemos mais sobre isso, em outro momento. Sei que estou alongando a nossa conversa. É que fiquei curioso.
— Não tem nada demais, senhor. — Mantive um belo sorriso no rosto. — Posso tirar todas as suas dúvidas.
Dava para sentir o olhar de Sebastian em mim enquanto a fúria crescia em meu peito.
Assim que Rodolfo nos deixou a sós, despejei toda a raiva em cima do idiota intrometido.
— Parabéns, colega! — debochou.
— Olhe aqui, Sebastian! — Aproximei-me dele, tendo que me controlar para não lhe bater com a pasta que estava em minha mão. — Acha que não sei o que tentou fazer?
— Não tentei fazer nada, assim como...
— Não teste a minha inteligência! — Quando estendi a pasta em sua direção, ele levantou os braços e abriu um sorriso irônico. — Se fizer isso outra vez, vou atingi-lo onde mais dói, e não vai gostar muito.
— Está me ameaçando, docinho?
— Por que não procura se envolver nos seus projetos e me esquecer?
Já tinha passado por muito disso antes e durante o meu período ali, para saber que homens como ele não se importavam com palavras doces ou pedidos simples, do tipo “me deixe em paz”. Contudo, era sempre bom reforçar, para que não acabassem fazendo merda.
— Não se surpreenda quando eu conseguir um cargo maior, e você não, já que só serve de bode expiatório e provocador.
Ele iria dizer algo, no entanto eu já estava de saco cheio e tinha que chegar logo em casa. Hoper parecia bem preocupada e nós tínhamos planejado um jantar, que, no caso, seria pizza e refrigerante.
Era bom morar com minha melhor e única amiga, pois muito do que eu passava no trabalho, despejava quando chegava em casa. Muitas vezes seu conselho era: “Você não merece passar por isso. Sabe que pode arranjar coisa melhor”. Era verdade, todavia eu gostava de morar em Nova York e estar ao lado dela. Minha vida solitária era triste demais para voltar para ela, então aguentava tudo e esperava encontrar uma forma de mostrar meu valor ou talvez outro emprego.
Aquela história com o idiota do Sebastian me deixou tão irritada, que o segurança nem falou comigo. Ele era sempre simpático e dizia que eu parecia com sua filha. Era bom alguém falar de mim em um bom sentido, já que nunca havia tido algo parecido na minha vida. Na verdade, eu achava que ela me odiava ou que eu tinha nascido com má sorte.
Desde muito pequena tive que aprender a me cuidar e a não depender de outras pessoas. Minha família? Não existia. Só tinha uma integrante: eu mesma. Triste e solitária: essas foram as definições que dei a mim.
Eu poderia entender se meus parentes tivessem morrido ou vivessem em uma péssima situação financeira, só que não foi isso que aconteceu, apesar de nunca termos tido dinheiro o suficiente para um estilo de vida como as pessoas adoram. E minha mãe — ou melhor, progenitora. Mães não fazem o que ela fez comigo — achou melhor para si mesma se livrar de mim como se eu fosse um bichinho de pelúcia que foi jogado no lixo, mesmo que eu tivesse um trabalho que poderia nos sustentar até a minha adolescência.
Lembrar-me disso doía... Doía mais do que uma ferida. E ela não foi a única que abriu um buraco no meu peito. Como eu disse, não nasci com sorte alguma.
Parei em um orfanato e, mesmo sendo uma menina notável, não consegui aquela coisa que as pessoas chamam de família. Para falar a verdade, fui levada para três casas diferentes, com casais que desejavam uma filha. Todavia, após ambos conviverem comigo só por algumas semanas, mandaram-me de volta para o orfanato.
“Não sei como lidar com alguém como ela. Samantha tem uma inteligência fora do comum, e não sei o que fazer. Sinto muito querida, mas não.”
Não! Não! Não!
Essa palavra era mais minha amiga do que a solidão e estava constantemente voltando para mim, quando eu pensava estar em casa e ao entrar na escola e na universidade. Sabia que ela voltaria muitas vezes.
Parei em frente ao meu carro estacionado em uma vaga na rua. Meu reflexo no vidro estampava a tristeza que era me lembrar disso. Não importava o quanto eu me esforçava, porque esse “não” me perseguia. Foi por isso que decidi nunca mais esperar por algo bom ou por um “sim”.
Respirei fundo, abri a porta do automóvel e me sentei no banco do motorista.
Pelo menos tenho para onde ir agora. — pensei.
Como de costume, deixei Hoper falar primeiro, pois ela era a que mais lamentava entre nós duas. Eu já tinha desistido de fazer isso, já que era comum coisas ruins me acontecerem.
— Sabe aquela pesquisa que estou estudando? — ela perguntou com a boca cheia de pizza.
A morena era assim: bruta, sem modos e bem sem noção. O que me fazia gostar dela.
— A ideia de que casais usam a superficialidade para determinar seus pretendentes? — Esse foi um resumo bem ruim para a pesquisa que ela mesma desenvolveu. — Sei.
— Enfim... — Revirou os olhos e respirou fundo. — Sabemos que a aparência determina muito dos nossos relacionamentos, mas sabemos também que os sentimentos...
— Sei que isso é bem importante, porém está querendo levar um efeito químico no cérebro humano para outro nível. — Eu a interrompi. Algo que ela odiava quando acontecia.
— Sabe o quanto é ruim quando alguém te desmerece. Por que está fazendo isso comigo? — indagou chateada, estreitando os olhos e apontando o pedaço de pizza, que estava em sua mão, na minha direção. — Achei que fosse uma cientista.
— Sou cientista, mas não acredito no amor. — Dei de ombros. — E você tem razão. Me desculpe.
— Sabe? Minha ideia está sendo posta em prática e devo dizer que será um sucesso.
— Quer descobrir em que ponto as pessoas podem se ligar emocionalmente?
Li a sua pesquisa. Realmente, é boa e tem pontos muito fortes. O problema — ou melhor, o meu problema — é que ela bate de frente com a minha realidade, jogando na minha cara que pode ser possível pessoas que não se conhecem, em menos de um mês, criarem sentimentos afetivos uma pela outra.
— Sei que você não acredita que possa ser possível, no entanto me baseio nos pensamentos de quem se apaixona à primeira vista.
— Uma alucinação humana, Hoper. Ninguém pode se apaixonar só de ver outro alguém. — Revirei os olhos. Outra coisa que ela odiava.
— Você está certa. — Sua resposta me surpreendeu. — Na realidade, o que acontece é um efeito inconsciente de atração baseado na aparência, e não no amor real, o qual só é alcançado com uma convivência com a pessoa e a experiência de um casal.
— Finalmente, algo em que concordamos. — afirmei mais animada.
Peguei um pedaço da pizza, que estava quase no fim, e o mordi. Estranhamente, minha amiga me encarava, observando cada movimento meu. Estava difícil até mastigar sem me sentir julgada.
— O que foi?
— Você é o meu maior desafio. — disse como se lamentasse. — Sempre amei as ciências e saber mais como a sociedade se tornou o que é hoje, assim como os seres humanos e seus relacionamentos, mas, quando conheci você, encontrei uma incógnita.
— Como assim? — Franzi o cenho, achando que a noite estava começando a acabar para mim. Eu odiava ser estudada por ela, ainda mais por ser uma brilhante pesquisadora social.
— Você é uma das pessoas mais fechadas que conheço. Seus medos ultrapassam barreiras nunca vistas por mim, e teme tanto se machucar, que se recusa a viver. — E lá estava ela, a menina que me julgava. Era a parte em que discutíamos. — Sabe por que me empolguei ou insisti tanto nessa experiência?
— Não quero saber. — Joguei de volta na caixa de papelão o pedaço de pizza e me levantei da cadeira, desejando não brigar por conta daquilo.
Eu sabia sim o porquê de tudo, e era do que estava fugindo.
— Por sua causa. — respondeu, mesmo vendo que eu não estava interessada no assunto. — Quero poder te ajudar a quebrar essa barreira. Sei muito bem o que a fez se sentir tão sozinha e mal-amada, embora isso não seja verdade. Eu amo você como minha melhor amiga e...
— Já chega, Hoper! — pedi duramente. — Se realmente gosta de mim, acho melhor parar.
— Por favor, prove que estou errada.
O sorriso de deboche que saiu de mim, doía por dentro. Era assim que eu me sentia quando era alvo das suas pesquisas. Parecia que estava em uma gaiola, como um rato de laboratório.
— Me desculpe, amiga, mas nada fará com que eu acredite em tal coisa ou a aceite. — falei um pouco alterada. — Sou medrosa por isso? Sim, eu sou, e não tenho medo de dizer em voz alta. Essa foi a maneira que encontrei para não me decepcionar comigo outra vez.
— E se você achasse alguém que lhe fizesse se sentir bem consigo mesma, pelo que é?
— Isso não vai acontecer. — Coloquei as mãos na cintura, sentindo o nervosismo de sempre. Sabia que me torturaria a noite inteira.
— Não fica curiosa para saber se daria certo ou não?
— Não!
— Então, faça pela ciência.
— Não!
— Samantha! — exclamou chateada.
— Hoper, eu não vou...
— Para quem odeia a palavra “não”, está a falando muito.
Desejei matá-la por jogar isso na minha cara. Não era fácil me permitir fazer algo, ainda mais isso.
— Eu amo você. Sabe disso.
— Você se diz não merecedora do amor. Eu te amo e quero provar que alguém pode gostar de você sem nenhum interesse. — Levantou-se e veio em minha direção. — Eu sei que é difícil e que estou prometendo uma loucura, mas não precisa ser um namorado. Pode achar um amigo além de mim.
— Esse é o seu objetivo? Me dar mais amigos? — Estreitei os olhos. — Uma já dá muito trabalho.
— Quero propor a pessoas totalmente diferentes umas das outras a oportunidade de conhecer alguém que vá amar o que tiver dentro delas. Nosso mundo se baseia muito no corpo, no fenótipo e até mesmo em ter dinheiro ou não.
Eu queria ir embora nesse exato momento. Sabia que mais um pouco e ela logo me convenceria a fazer algo que eu não acreditava.
— É difícil para você se permitir. Sempre se boicota e perde a oportunidade de viver, por conta do medo.
— Pessoas são decepcionantes, Hoper. — Encarei-a. — Achei um modo de sobreviver, de aceitar que nunca serei escolhida. Você está me propondo algo absurdo: conversar com caras que não vou ver, nos quais não vou tocar, nem pesquisar sobre eles na internet, para saber se são de verdade ou mentirosos. E não seria apenas eu lá, teriam outras pessoas. Mesmo que eu não queira um relacionamento, seria terrível levar mais um “não” de um homem de quem poderia ou não gostar.
Minha amiga não disse nada e seu olhar pensativo me deixou desconfortável. Odiava não saber o que se passava na sua mente.
— Tudo bem. Me desculpe. — Abaixou a cabeça e se afastou de mim. — Não propus isso por desejar que se decepcione. E se acha que será exatamente isso que vai acontecer, é melhor não ir.
Para mim, foi uma surpresa vê-la concordar comigo.
Andei até meu quarto, fechei a porta e me deitei sobre a cama macia. O teto era meu amigo em dias de pensamentos tempestuosos. E eu estava em mais um desses dias.
Muitas vezes já me martirizei por conta do meu medo. O desejo de me manter na minha me protegia das decepções, só que também de novas experiências. Não era do meu gosto ser assim, mas como me sentiria bem em conhecer outro alguém, se a pessoa que deveria me amar, deixou-me para trás? Como pensar que seria escolhida, quando fui mandada embora tantas vezes?
— Isso não é para mim.