Eita, caramba! Todo mundo resolveu tomar café aqui? Apresso-me e começo a dividir o atendimento das mesas com Jasmim. Anoto os pedidos com um sorrisão estampado no rosto. Estou adorando a agitação e amando mais ainda, que estejam elogiando meus crepes e bolinhos. Opa! Quase provoco um desastre ao esbarrar em uma mesinha. Peço desculpas e me concentro em não derrubar nada. Ai, Jesus! Estabanada e desastrada poderiam ser meus nomes do meio. Olho no relógio e está quase na hora de eu ir. Se não estivesse tão preocupada com o péssimo estado de conservação dos jardins da Callas, até poderia ajudá-la mais... Sorte que as coisas parecem ter acalmado, Jasmim possui um dom para lidar com os clientes e organizar o caos de pedidos. Volto para trás do balcão, Jasmim me estende uma xícara de café e um misto quente. — Aposto que passou outra noite sem jantar. — olha feio e apenas concordo. — Até quando vai ficar vivendo nesta pindaíba [6] ? Pelo menos, comer, você tem que fazer direito. Dou uma mordida no sanduiche e fecho os olhos em êxtase. Nem eu sabia que estava faminta. — Só mais este mês, juro. Já não devo mais nada para os advogados do divórcio, mas até o próximo salário chegar, a coisa está apertada. Não quero mexer nas poucas economias que me restam, mas não exagere, não tenho passado fome. — minto. — Ontem foi exceção, tive uma reunião última hora. Acho que, finalmente, a intragável da minha chefe vai me dar um projeto grande. Fiquei estudando as plantas baixas [7] e acabei chegando super tarde. Capotei sem janta e banho. — Percebi. — repreende enquanto termino de devorar o lanche. — O Daniel foi te chamar umas duàs vezes e nada. Precisa de diversão, Polaca. Não pode ficar só do trabalho para casa. Isso não é vida. Sinto-me envergonha, tenho dado furo atrás de furo. Quero me divertir, adoraria fazer novos amigos e confesso que ouvi as batidas do namorado dela na minha porta, contudo estava tão exausta, que virei para o lado e apaguei. — Eu sei disso. Juro que hoje, eu apareço por aqui mais tarde. — junto e beijo os dedos em sinal de promessa. O assunto é interrompido por um ronco de motocicleta e uma discussão, que começa lá fora, chamando a nossa atenção. Ambas levantamos a cabeça, na mesma hora, para espiar. Curiosidade é uma merda! Diacho! Parece que o casal, que dá um pequeno show em frente ao café, não está em seus melhores dias. Uma morena, escandalosamente bonita, gesticula e fala sem parar, enquanto um homem permanece apoiado na moto, ainda de capacete. O moço não diz uma só palavra e isto me intriga. Há algo nele que prende minha atenção logo de cara e me faz observá-lo de novo. O homem é bem construído e grande, mas não do tipo bombado. Apenas do tipo 0% de gordura e na medida certa. Como um desses atletas sarados. Um gostoso. As coxas grossas, apertadas em um jeans desgastado, balançam impacientes e despertam mais o meu interesse. Fico em alerta... Os gritos da mulher aumentam... e flashes de cenas de brigas, que eu protagonizei na minha antiga vida, passam diante dos meus olhos fazendo a pele do meu pescoço formigar. Porém, em minhas memórias, quem gritava era o homem. Á essa altura, o café inteiro assiste ao espetáculo da morena. Ela chora, faz beicinho e bate os saltos altíssimos na calçada. Sua calça é tão justa que nem sei como consegue respirar. Um “Ohhh” coletivo surge quando o homem ameaça dar a partida na moto e a morena agarra-se a ele, impedindo que saia. Sinto-me mal por ela... Que papelão! A moça segura nos braços do cara como se sua vida dependesse disto. Um outro “Ohhhh” invade o café, exclusivo da ala feminina, quando o cara faz um gesto, a briguenta se afasta e lá se vão o capacete e a jaqueta. Pelos Deuses do Olimpo e adjacências! Suspiro. O céu estava em festa quando projetaram esse aí. Até eu me sinto em festa! Ohhh. Suspiro novamente . Ele é tão... Bonito. Parabéns pelo seu rosto, senhor! Reparo nos bíceps, que a mulher não larga nem por decreto, e tenho um mini frenesi. Aliás, parabéns pelo corpo todo, amigão! Entendo-a completamente, também quero me agarrar nesses brações. Seu rosto é feito de ângulos retos, maçãs destacadas, queixo quadrado, um nariz simétrico, tudo isso emoldurado em uma barba malfeita . Destas que dá vontade de tocar. Espetáculo de homem! Minha vontade é ir até ele, segurar em seu rosto estupendo e dizer obrigada por existir, e despertar pensamentos adormecidos em mim. Provavelmente, seria espancada pela morena ou presa pela polícia. Mas, que culpa tenho eu, se está escrito: feito para o seu prazer, na testa dele? Fico hipnotizada, só admirando... Tudo. Caramba ! Ele é atraente. Muito... Mesmo... De cegar meus olhos. Diferente, eu diria. Dono de uma morenice instigante que faria sucesso no Sul... É tão quente. Eu me animo mais e reparo mais... Gosto do seu cabelo escuro, curto e despenteado, e do jeito que cai um pouco para esquerda. Não consigo ver a cor dos olhos, mas aposto que vou gostar. Porém, o que mais me encanta, é que em momento algum, ele levanta a voz. Um Lord inglês! Argumenta tão baixo com a mulher histérica, que não consigo ouvi-lo. O que é uma pena e me deixa quase triste. O silêncio reina absoluto, todo mundo atento, nem um mísero barulhimo de louça batendo ou conversa... A platéia inteira focada, só esperando um desfecho para o drama que continua. Ele está aborrecido e seus lábios carnudos contraídos em uma linha fina. Hummm... Como será a sensação de ter essa boca grudada na minha? Balanço a cabeça para afastar o pensamento fora de hora... Estou com um pouco de pena dele, a mulher continua a chorar, gritar e fazer beicinho. Tudo ao mesmo tempo e não necessariamente nessa ordem. Um outro “Ooooooh” feminino eclode no momento em que ele a abraça. Consigo ouvir um... — Menos Andreza, bem menos. Meus pelos arrepiam e não tinha arrepios assim desde... Hum? Bom... Nunca . Daqui, sua voz soa como imaginei que seria. Não esperava nada menos que esse tom rouco e aveludado vindo de um ser como ele. Agora, já sinto até um pouco de inveja... Que mulher sortuda! Queria eu, ser apertada nesses brações e imprensada em seu peito largo. Eu sei... Eu sei... Cobiçar o homem alheio é feio. Pecado, diria a minha mãe. Mas, em minha defesa, alego que o homem foi feito para ser cobiçado. É até judiação comigo! É corpo que não acaba mais. Devem ter quase dois metros de pura virilidade, ali. E... É com certa nostalgia antecipada, que eu e todas as mulheres boquiabertas no recinto, observamos o casal subir na moto e sair das nossas vistas ao virar a esquina. — Ai, ai... Juro que amo o Dani, mas se um destes me chamasse para uma rapidinha ali no cantinho, iria sem pensar duàs vezes. — Jasmim suspira com os olhos vidrados na esquina. Dou risada quando ela abana-se, teatralmente, com a bandeja. — E quem recusaria? — brinco concordando com ela. — O homem é um dez mais para ninguém botar defeito. Lindo e ainda um cavalheiro! Nossa mãe! Viu que ele não levantou a voz nem por um minuto sequer? — imito seu gesto e também me abano com o avental. — Ôh se vi! Dez é pouco! Nota mil para ele! — assovia e alguns clientes olham com curiosidade. Jasmim desculpa-se, afunda atrás do balcão e senta-se no chão gargalhando. — Hum... Agora não te entendi, Polaca. Pensei que não estivesse à procura de diversão. Tiro o avental preparando-me para partir, mas antes, sento ao seu lado no chão. — Não estou à procura. — cutuco seu ombro com o meu. — Deus me livre de encrenca, mas não estou morta e nem louca. — brinco. — Também tenho minhas necessidades, poxa. — Tem? — parece surpresa. — Jurava que depois da separação você nunca mais...
Transei? Ela balança a cabeça assentido. Gargalho… Por que será, que o mundo pensa que junto com o divórcio, assinamos também votos de castidade? — Claro que já... — faço um gesto de pouco caso. — Foi o meu casamento que acabou, não a minha vida. Arrisquei alguns encontros... Não morri só porque me separei, Jasmim. Gosto de sexo e não vejo graça nenhuma em vibradores. Mas no fim das contas, só encontrei muita promessa e nenhuma empolgação. Entretanto, não estou a fim de entrar em um ciclo de fodas vazias e sem sentido com caras que não valem a pena. Minha prioridade é arrumar a bagunça que minha vida virou. Só que um dez é um dez, não tem como ignorar. Ainda mais um exemplar como aquele. Nunca vi um igual. — Nunca viu? — descrente, Jasmim gira o corpo ficando de frente para mim. — Qual é, o Sul está cheio de homens lindos. Pelas fotos que mostrou no Face, seu ex é bem um dez. Estico as pernas e as uso como apoio para dobrar o avental. — Bernardo é bonito sim, mas é um nove menos, muito menos. Os dez mais são raros, quase extintos. Pensando bem, acho que o moreno delícia deve ser um dez menos. Na certa aprontou uma das boas. Aquela beleza inalcançável dele é bem típica dos cretinos, a mulher não iria surtar daquele jeito à toa. — Também não precisa exagerar. — Pode até ser preconceito, mas minha experiência me ensinou que homens bonitos são um perigo. Charmosos e sedutores no começo e depois viram uns demônios insensíveis. — dou uma bufada antes de ficar de joelhos e entregar o avental dobradinho. — Nossa, foi tão ruim assim? Sei que abriu mão de uma vida confortável para estar aqui. Mas, nem o sexo compensava? Achei seu homem tão quente pelas fotos. Levanto e ela me segue. — Meu ex homem você quis dizer. — rebato com ironia. — Ele era quente sim e carinhoso... No começo... Pena que o príncipe transformou-se em tirano, impondo-me coisas não muito prazerosas. Meu casamento virou um mar de solidão e quase pirei, pensei que o problema estivesse em mim. Cheguei ao cúmulo de ler livros e ver filmes para apimentar a relação. Descobri e aprendi coisas que uma senhora de família nem sonharia em fazer com o marido. Tudo em vão. — sorrio tentando disfarçar as más lembranças. — O problema estava nele e em suas preferências nada ortodoxas. Fui muito ingênua, o ordinário já andava frequentando outros parquinhos e a trouxa aqui nem sonhava. O rosto bronzeado de Jasmim contrai em repulsa. — Fez bem em mandar o babaca pastar, Polaca. — Eu sei. — sorrio, agora de verdade, e saio apressada dando um tchau para todos e para ninguém. Dois ●●● ● ● ● ●●● D epois de sair o café, caminho em direção ao prédio da Callas Corporation. Consigo ver o arranha céu daqui. Uma torre de vinte e um andares em concreto, aço e vidros espelhados, que desponta solitária e imponente à minha frente. Os raios de sol incidem nos espelhos a fazem brilhar como um diamante. Há dois meses, faço o mesmo caminho para o trabalho e há dois meses, impressiono-me com sua arquitetura. O prédio fica em um terreno amplo, na principal avenida do bairro. Um contraste moderno diante da simplicidade ao seu redor. Dizem que a escolha do lugar, para a nova sede, foi exigência do próprio dono. Dou a volta no quarteirão e a imagem do homem bonito montando em sua moto, levando a morena com ele, ainda está marcada na minha memória. Rio sozinha do quão idiota eu sou... Fiquei mesmo impressionada pela beleza avassaladora dele. Olho para os lados, antes de atravessar para a reta final de cinquenta passos. Diacho Nina! Praguejo baixinho... Tenho vontade de arrancar minha trança... Foi justamente assim, que me meti no pior relacionamento do século. A beleza de Bernardo me fascinou, nunca estive nem aí para o dinheiro dele. Porém, não nego, fiquei muito animada com seu tipo exótico e olhe que posso dizer com certeza, que ele é bonito, mas não chega aos pés do motoqueiro gentil Pronto, Nina! Chega de bobageira! Deixe o homem no lugar dele... Só na fantasia... Paro na calçada, bem em frente ao prédio e a placa que diz: CUIDADO! SOMENTE PESSOAL CREDENCIADO . Pulo a correntinha de isolamento e os homens da manutenção já estão a todo vapor trabalhando nos jardins. Jardins que eu reformulei! A torre espelhada fica ao fundo. Antes dela, abrindo o caminho como um tapete vermelho, temos uma alameda extensa. Uma espécie de passarela em granito negro que conduz até as portas envidraçadas do hall de entrada. De um lado, um espelho d’água com os mesmos cem metros que a passarela e do outro, um jardim de descanso com canteiros rodeados por bancos rústicos. Em cada um deles: árvores, folhagens e flores. Modéstia parte... Lindo, lindo. Eu amo o meu trabalho! Sou boa no que faço. Hoje, são as árvores que me trouxeram aqui. Podem me chamar de louca, mas elas conversam comigo e não estão felizes. De duas semanas para cá, têm perdido o viço. Fui contra o uso de adubo químico, mas fui vencida pela minha chefe. “ Mais baratos e menos fedidos.” Taí o resultado! Folhas amareladas e caindo. Briguei, argumentei e agora, posso sentir no ar o cheiro do melhor adubo que existe: a boa e potente titica de galinha. Dane-se o fedor. Até segunda-feira, não restará nem lembrança do odor e minhas árvores vão ficar magníficas. — Senhorita Nina! — o chefe de jardinagem acena e vem em minha direção. — Oi André. Vocês adiantaram bem o trabalho. — elogio satisfeita. — A adubação já foi refeita. Reviramos a terra e trocamos as folhagens dos canteiros laterais. Falta só regar, vou dispensar os homens. Posso fazer a rega sozinho. — Eu te ajudo. — digo esfregando as mãos no macacão — Pode liberar o pessoal, que eu vou começando. — Não precisa, Senhorita. Essa mangueira tem uma pressão desgranhenta. — olha para os meus braços finos, sem muita convicção que seja possível. Endireito o corpo tentando parecer maior e mais forte que sou. Quer ver eu tentar alguma coisa até a exaustão? É só dizer que acha que não consigo. Sorrio, abaixo e pego a mangueira. Eitaaaa! Pesaaaada. Não é à toa que os bombeiros são tão sarados. Movo a alavanca no bocal com cara de que sei exatamente o que estou fazendo. — Opa, cuidado com isso aí. — desespera-se. — Só abra depois que o fluxo de água estiver completo. Hum, hum... Ooook... Fluxo de água completo. Molezinha. — Relaxê, André. Libera essa água para mim, piá [8] . — sorrio confiante e preparo-me. Fico de costas para a rua ao assistir ao homem correr até o hidrante. Está escrito na testa dele que não gostou nada, nada. Reviro os olhos, ajeito meu chapéu e agarro firme na mangueira. Afinal, vim aqui para pôr a mão na massa e o que pode dar errado? Mangueira é mangueira. Esses homens e suas malditas manias de acharem que não somos capazes. Sinto uma vibração começar a sacudir a mangueira como um maremoto... Ô... Ooooh. Lascou-se. ●●● ● ● ● ●●● Theo Atrasado, estaciono minha moto na entrada lateral da Callas. Tiro o capacete e a jaqueta depositando-os sobre o banco. Checo o celular e ainda tenho uns minutos. Respiro fundo, aliviado... Menos mal, detesto chegar atrasado e abomino mais ainda, cenas de ciúmes patéticas como as de Andreza mais cedo. Porra! Se não fosse pela platéia assistindo, acho que teria perdido a cabeça. A merda é que eu sou o único culpado, deveria ter cortado as asas daquela maluca logo no início, mas não, arrastei a coisa nem sei por quê? Hummm... Amiguinha de infância... Gata insistente e fácil… Bunda empinada... Seios tentadores e uma boca gulosa... Bem, eu sei por quê. Mas não importa, ela que se controle. Não há beleza que resista a chatice. Pulo a corrente de proteção, que proíbe a passagem, no mesmo momento em que o meu celular vibra... Caminho apressado pela passarela respondendo ao texto de Andreza. Será que ela não entendeu nada do que falei? Praguejo alto... — Mas, que merda de dia. “Meleca! Danou-se! “ Meleca? Ouço um grito de mulher, mas quando desvio a atenção do celular para ver de onde veio o som, sou atingido. Mas que porra? Um jato d’água, mais forte que um soco, golpeia em cheio minhas bolas. — Puta que pariu, como isto dói! — berro deixando cair o celular e inclino-me para frente tentando me proteger. Um jato atinge meu rosto... Um murro doeria menos e tenho que fechar a boca para não me afogar... Umagritariacomeçaesouatingidováriasvezes,atéque finalmente, o jato é desviado para outro lado. Sou invadido pelo alívio, mas ele dura pouco. Abro os olhos só para ver uma onda lamacenta ejetar-se e espirrar em mim. Mais gritos, incluindo os meus, e um cheiro ruim paira no ar. Percebo que minhas roupas, além de encharcadas e cobertas de terra, estão impregnadas pelo fedor. Mas que merda é essa? Respiro fundo para recuperar o fôlego e conter a dor entre as pernas. Caralho!