Ponto de Vista de Keyla Castelo:
Meu grito de "Seu monstro!" ainda ecoava no ateliê arruinado, mas não foi o suficiente. Não foi o suficiente para parar a onda de raiva que consumiu Axel. Ele se virou do corpo imóvel da minha mãe, seus olhos travando em mim. O lampejo de horror nascente desapareceu, substituído por uma fúria fria e dura.
Ele avançou.
Meu mundo inclinou. A mão dele se fechou em volta do meu braço, torcendo, puxando. Perdi o equilíbrio, tropeçando para trás sobre os destroços dos meus sonhos despedaçados. Um cavalete, sua estrutura de metal retorcida agora uma arma, atingiu meu quadril com um baque nauseante. A dor explodiu através de mim, uma agonia aguda e ardente que roubou meu fôlego.
Desabei no chão, minha cabeça errando por pouco uma paleta de madeira lascada. Tubos de tinta, pincéis e cerâmicas espalhados ao meu redor, um testamento colorido e caótico da violência. O impacto fez meus dentes baterem, e um zumbido agudo encheu meus ouvidos, momentaneamente abafando todos os outros sons.
Fiquei lá, desorientada, olhando para Axel através de olhos cheios de lágrimas, tentando compreender o monstro em que ele se tornara. Este não era o homem com quem me casei. Este era um estranho, alimentado por um veneno que eu não conseguia entender.
— O que... o que está acontecendo?
Minha mãe, Dália, com a voz fraca e carregada de medo, apareceu na porta novamente. Ela devia ter recuperado a consciência, mas seu rosto estava pálido, um fio fino de sangue ainda escorrendo pela têmpora. Ela absorveu a cena, os olhos se arregalando de horror, e então correu em minha direção, sua própria dor esquecida em sua necessidade desesperada de ajudar.
— Keyla! Meu Deus! — ela gritou, ajoelhando-se ao meu lado, as mãos trêmulas tentando me ajudar a sentar. Meu corpo gritava em protesto, cada músculo doendo.
Axel nos observava, o peito arfando, o rosto contorcido.
— Sai de perto dela, Dália! — ele rosnou, a voz crua. — Ela é uma mentirosa! Uma traidora!
— Axel, por favor, pare com isso! — minha mãe implorou, me protegendo com o corpo. — Tem que haver um mal-entendido! Você está machucando ela!
Mas ele não estava ouvindo. Seus olhos estavam injetados de sangue, o maxilar cerrado com tanta força que pensei que seus dentes poderiam se quebrar.
— Mal-entendido? — ele zombou, um escárnio torcendo os lábios. — Não há mal-entendido quando minha esposa está transando por aí pelas minhas costas e tentando ficar rica com o dinheiro de outro homem!
Ele agarrou um vaso de cerâmica pesado de uma prateleira próxima e o arremessou passando pela cabeça da minha mãe. Ele se espatifou contra a parede atrás de nós, enviando cacos voando. Minha mãe engasgou, me puxando para mais perto.
— Ela é uma vadia! Uma interesseira! — ele esbravejou, suas palavras me perfurando. — E esse bebê... esse bebê nem é meu!
As palavras me atingiram como outro golpe físico, roubando o pouco ar que me restava. O bebê. Ele sabia. Mas como? Minha mente corria, tentando conectar os pontos entre sua destruição, suas acusações e isso. O teste de paternidade. Tinha que ser o teste de paternidade.
— Axel, você está errado! — engasguei, me forçando a levantar apesar da dor. — Não tem outro homem! Eu não sou uma traidora! E esse bebê é seu!
Ele riu, um som demente e sem humor.
— Ah, é mesmo? Então o que é isso, Keyla?
Ele tirou o celular do bolso, o dedo deslizando furiosamente. Ele o empurrou em direção ao meu rosto, a tela exibindo uma conversa de mensagens de texto.
Meus olhos examinaram a tela, tentando dar sentido ao emaranhado de palavras. Era um chat, entre Júlio Andrade e... Kelly? A esposa de Júlio, Kelly? Meu coração martelou. As mensagens eram acusatórias, implicando um caso.
E então, havia uma foto. Uma foto granulada e mal iluminada da mão esbelta de uma mulher, adornada com um anel distinto — um anel que reconheci como meu — segurando um pequeno pássaro de madeira intrincadamente esculpido.
O pássaro. Aquele que eu tinha esculpido meticulosamente para Axel anos atrás, uma representação do nosso amor duradouro, colocado amorosamente em sua mesa de cabeceira.
Minha mente girou. O anel, o pássaro... eram meus. Mas a mão na foto não parecia a minha. Era muito esbelta, as unhas perfeitamente manicuradas, ao contrário dos meus dedos perpetuamente manchados de tinta.
— Isso é um erro, Axel — disse eu, minha voz mal passando de um sussurro. — Essa não sou eu. Esse é... esse é meu anel, e minha escultura, mas não é minha mão.
Ele zombou.
— Ah, agora você vai negar suas próprias posses? Aquele pássaro, você fez para mim, Keyla. E aquele anel, eu comprei para você. Acha que eu não os reconheço?
— Eu dei aquele pássaro para você! — gritei, minha voz subindo em desespero. — Estava na sua mesa de cabeceira semana passada!
Ele puxou o telefone de volta, o rosto endurecendo.
— Não se incomode com suas desculpas patéticas. Acha que sou cego? Acha que sou estúpido o suficiente para acreditar nas suas mentiras?
O polegar dele se moveu novamente, e outra foto brilhou na tela.
Era a mesma mão, o mesmo anel, o mesmo pássaro. Mas desta vez, a escultura repousava sobre um lençol de seda amarrotado. E ao lado dele, parcialmente obscurecido, estava um par de abotoaduras masculinas.
As abotoaduras. Eu as tinha visto antes. Pertenciam a Júlio.
Minha respiração prendeu na garganta. Minha mente ficou em branco. O mundo ao meu redor girou, cores e formas se borrando em uma bagunça indistinta. Não. Isso não podia estar acontecendo. Meu estômago revirou, e uma onda de náusea me invadiu.
Meu rosto deve ter ficado totalmente branco, porque até Axel pareceu pausar, um lampejo de algo ilegível em seus olhos.
— Onde... onde você conseguiu essas fotos, Axel? — gaguejei, minha voz quase inaudível. — Quem... quem mandou isso para você?
Ele não respondeu. Apenas olhou para o telefone, depois de volta para mim, os olhos cheios de uma nova onda de desprezo.
— Eu não entendo — sussurrei, minha mente em um nevoeiro. — O pássaro... eu dei para você. O anel... estava na minha penteadeira.
Um pensamento repentino, frio e perturbador, serpenteou em minha mente. Brenda. Ela esteve em nossa casa dias atrás, "ajudando" a limpar o ateliê. Ela tinha demorado no nosso quarto, fazendo comentários sobre minha falta de organização. Ela até tinha pegado o pássaro, admirando o artesanato, seus olhos muito astutos, muito conhecedores. E o anel... eu o tinha tirado para pintar, deixando-o na penteadeira.
— Brenda — sussurrei, o nome com um gosto amargo na língua. — Sua mãe. Ela esteve aqui. Ela estava no nosso quarto.
O rosto de Axel escureceu, o maxilar se fechando.
— Não se atreva a tentar culpar minha mãe pelo seu comportamento de vagabunda, Keyla! Ela viu você com ele! Ela viu você saindo do prédio do escritório do Júlio tarde da noite!
— Não! — gritei, a compreensão me atingindo como um trem. — Ela deve ter roubado! Ela pegou o anel e a escultura, e armou tudo isso! Ela está tentando me incriminar, Axel! Ela sempre me odiou!
Os olhos dele se arregalaram por uma fração de segundo, um lampejo de dúvida, talvez, antes de ser violentamente extinto por uma nova onda de fúria.
— Sua VADIA! — ele rugiu, a voz sacudindo as próprias fundações do ateliê arruinado. — Você acha que pode virar minha mãe contra mim? Acha que vou acreditar nas suas mentiras patéticas sobre ela?
Ele levantou o pé e me chutou com força na lateral do corpo, logo abaixo das costelas. A dor foi excruciante, roubando meu fôlego, forçando um grito gutural dos meus lábios. Dobrei-me, segurando meu lado, ofegando por ar.
Minha mãe gritou, correndo para frente, mas Axel a empurrou de volta com um empurrão violento, fazendo-a cambalear contra um cavalete quebrado.
— Ela nunca faria isso! — Axel berrou, a voz cheia de uma lealdade cega e irracional. — Minha mãe me ama! Ela nunca mentiria para mim sobre isso!
Ele me chutou de novo, mais forte desta vez, sua raiva o consumindo.
— Você está apenas tentando desviar, não é? Tentando me fazer duvidar da palavra dela!
Encolhi-me em uma bola, tentando proteger meu lado latejante, minha barriga de grávida. Mas ele não tinha terminado. Ele me chutou de novo, e de novo, o pé conectando com minhas pernas, meus braços, minhas costas.
Cada golpe ecoava a dor no meu coração, um testamento do homem que ele se tornara. O homem que preferia acreditar em uma mentira fabricada por sua mãe manipuladora do que na esposa que esteve ao seu lado por anos. O marido que agora estava me espancando, sua esposa grávida, no chão.
— Axel, por favor! — a voz da minha mãe era um soluço desesperado e sufocado. — Você vai matá-la! Pare, por favor, pare!
Mas ele não parou. Ele apenas continuou chutando, o rosto uma máscara de fúria primitiva, as palavras um fluxo de veneno.
— Você merece isso, Keyla! Você merece cada pedaço disso! Acha que pode me fazer de idiota? Acha que pode me trair e sair impune?
Fiquei lá, indefesa, a dor física um latejar surdo comparado à dor agonizante na minha alma. Minha visão embaçou novamente, desta vez pelas lágrimas que escorriam pelo meu rosto, quentes e ardendo contra minha pele.
Ele estava me destruindo, pedaço por pedaço agonizante. E com cada chute, com cada palavra odiosa, os últimos vestígios do meu amor por ele morriam uma morte lenta e dolorosa.
Ponto de Vista de Keyla Castelo:
O mundo era um caleidoscópio de dor e barulho. Os chutes de Axel choviam sobre mim, cada um sacudindo meu corpo, roubando meu fôlego. Os gritos desesperados da minha mãe estavam desaparecendo ao fundo, abafados pelo zumbido nos meus ouvidos. Encolhi-me em posição fetal, tentando desesperadamente proteger minha barriga, a pequena vida crescendo dentro de mim.
— Axel, para com isso! Você vai matá-la!
Minha mãe, Dália, finalmente conseguiu agarrar o braço dele, sua estrutura pequena tremendo com o esforço. Ela não era forte o suficiente. A voz dela falhou enquanto implorava:
— Tem um mal-entendido, Axel! Por favor, apenas converse com ela! Não faça isso!
Ele a sacudiu com um grunhido impaciente, fazendo-a tropeçar para trás novamente. Ela gritou quando sua cabeça, ainda sangrando do impacto anterior, bateu no chão com um baque nauseante. Ela ficou lá, gemendo baixinho, os olhos tremulando e se fechando.
— Mãe! — gritei, um som cru e animal rasgando minha garganta. Minha protetora, caída. Meu coração deu um solavanco, um frio aterrorizante me invadindo. — O que você fez, Axel? Ela acabou de fazer uma cirurgia! Ela não está bem!
Meu pai. O pensamento passou pela minha mente, um pedido desesperado de ajuda.
— Meu pai é Capitão do Corpo de Bombeiros, Axel! Ele não vai deixar você sair impune disso! Ele vai fazer você pagar! — engasguei, as palavras queimando minha garganta.
Ele pausou, um lampejo de algo quase como reconhecimento em seus olhos. Ele conhecia meu pai, Gerson Castelo, um homem respeitado em toda a cidade, um homem que você não cruzava o caminho. Mas a raiva era forte demais. Tinha o consumido inteiramente.
— Seu pai? — ele zombou, um escárnio torcendo os lábios. — O que ele vai fazer? Apagar um incêndio? Ele é uma babá glorificada! E você, Keyla, é igualzinha a ele. Só garganta, nenhuma ação.
Ele deu um passo para trás, os olhos varrendo-me com desprezo.
— Você e toda a sua família patética. Vocês acham que são tão espertos, não é? Bem, vou ensinar uma lição a vocês, a todos vocês.
Uma multidão começou a se reunir do lado de fora, atraída pelos gritos e estrondos. Rostos curiosos espiavam pela janela quebrada, seus murmúrios ficando mais altos.
— O que está acontecendo aí dentro? — alguém gritou.
— Parece violência doméstica! — outro sussurrou, claramente horrorizado.
De repente, um homem alto e de ombros largos abriu caminho entre os espectadores, o rosto marcado pela preocupação.
— Ei, amigo! Você precisa se acalmar! — ele gritou para Axel. — Você não pode bater em uma mulher, especialmente numa grávida!
A cabeça de Axel girou, os olhos em chamas.
— Cuida da sua vida! — ele rugiu, a voz falhando de fúria. — Esta é minha esposa! E ela é uma mentirosa traidora! Esse bebê nem é meu!
O homem deu um passo à frente, a expressão firme.
— Isso não te dá o direito de encostar a mão nela. Olha para ela, está sangrando! E sua mãe também! Alguém chame a polícia!
— Chamar a polícia? Vá em frente! — Axel desafiou, estufando o peito. — Acha que uns policiais aleatórios vão me dizer como lidar com minha esposa infiel? Acha que pode interferir nos assuntos da minha família?
Ele apontou um dedo trêmulo para a multidão.
— Qualquer um que se envolver vai se arrepender! Isso é entre mim e minha esposa traidora!
A multidão, intimidada por sua agressão crua e pela ameaça em sua voz, começou a se dispersar, seus murmúrios morrendo. Eles derreteram, me deixando sozinha com o monstro que eu um dia amei.
Axel se virou para mim, os olhos brilhando com uma intensidade maníaca.
— Ainda negando, Keyla? Ainda negando que dormiu com o Júlio? Olha para você, tentando proteger o bebê daquele bastardo!
Ele olhou para minha barriga, um brilho arrepiante nos olhos. Era um olhar que eu nunca tinha visto antes, um olhar que prometia destruição absoluta.
Ele era como um animal selvagem, completamente perdido para a razão. Eu nunca o tinha visto tão zangado, tão fora de controle. Era aterrorizante. Meus instintos gritavam para eu proteger meu bebê, para proteger minha vida crescente de sua ira. Instintivamente envolvi meus braços em volta do estômago, me pressionando contra o chão estilhaçado.
— Axel, por favor — implorei, minha voz mal acima de um sussurro, tentando injetar alguma calma no caos. — Eu não dormi com o Júlio. Há um erro. Vamos apenas conversar, por favor. Podemos trazer o Júlio aqui, podemos perguntar a ele. Ele vai te dizer a verdade.
Ele soltou uma risada áspera, como um latido.
— Falar com o Júlio? Acha que eu já não fiz isso? Aquela cobra já foi cuidada, Keyla. Ele não vai falar com ninguém por um longo, longo tempo.
Meu sangue gelou. O que ele tinha feito com o Júlio?
Axel caminhou até uma bancada de trabalho, seu olho capturando uma chave inglesa pesada e ornamentada que eu usava para apertar as bases das minhas esculturas. Ele a pegou, testando o peso na mão. O aço frio brilhou sob as luzes do ateliê.
— Então, me diz, Keyla — ele rosnou, balançando a chave inglesa lentamente, ameaçadoramente. — Você vai admitir? Vai admitir que me traiu? Que essa criança não é minha?
Minha garganta estava seca, meu coração batendo um ritmo frenético contra minhas costelas.
— Não! Eu não te traí! Esse bebê é seu, Axel! Juro pela minha vida!
Os olhos dele se estreitaram ainda mais.
— Mentirosa! Acha que eu não sei? Acha que sou tão cego assim? Minha mãe me contou tudo. E o Júlio... o Júlio acabou de confirmar.
Ele levantou a chave inglesa, o metal frio brilhando.
— Última chance, Keyla. Confesse.
Apertei os olhos com força, me preparando para o impacto, um grito aterrorizado escapando dos meus lábios. Eu não podia confessar algo que não tinha feito. Não podia mentir sobre meu filho.
Mas o golpe nunca veio. Em vez disso, ouvi um baque nauseante, um grito sufocado, e então a chave inglesa caiu no chão. Abri os olhos, meu coração parando no peito.
Minha mãe, Dália, estava parada bem na minha frente, os braços estendidos, me protegendo de Axel. A chave inglesa tinha atingido ela, não a mim.