Capítulo 2

Ponto de Vista: Clara

Naquela noite, o sono foi um estranho. Fiquei perfeitamente imóvel, fingindo dormir enquanto o braço de Gabriel pesava sobre minha cintura, um peso possessivo e impensado. Ele respirava profundamente, perdido em um mundo de sonhos onde seus enganos estavam seguros. Um mundo onde eu ainda era sua esposa complacente e alheia.

O amor dele era uma performance, e eu era a plateia relutante de uma pessoa só. Cada toque gentil, cada carinho sussurrado, não era para mim. Era para ela. Para Lia. Era tudo uma peça de teatro cuidadosamente construída para manter sua máquina de fazer sucessos feliz e produtiva.

Esperando até que sua respiração se acalmasse em um ritmo constante e profundo, comecei o meticuloso processo de fuga. Levantei seu braço, milímetro por milímetro, meus músculos gritando com o esforço do movimento lento e deliberado. Quando finalmente estava livre, prendi a respiração, ouvindo. Ele não se mexeu.

Deslizei para fora da cama, meus pés descalços silenciosos no chão de mármore frio. A luz da lua que entrava pelas janelas do chão ao teto projetava sombras longas e distorcidas pelo quarto, transformando objetos familiares em formas monstruosas. Meu coração martelava contra minhas costelas, uma batida frenética no silêncio opressor.

Enquanto passava na ponta dos pés pela poltrona onde ele havia jogado o paletó, meu quadril esbarrou nele. Um pequeno objeto metálico caiu no chão. O som foi ensurdecedor no silêncio. Gelei, meu sangue virando gelo. Olhei para a cama, esperando vê-lo sentado, os olhos semicerrados em suspeita.

Mas ele continuava dormindo, perdido para o mundo.

Soltando um suspiro trêmulo, me abaixei, meus dedos tateando no escuro para encontrar o que eu havia derrubado. Era o isqueiro dele. Um Zippo de prata, pesado e frio na minha palma. Foi um presente meu, no nosso primeiro aniversário. Ou assim eu pensava.

Algo parecia diferente nele. Passei o polegar pela superfície lisa. Havia uma gravação na lateral, uma que eu não reconhecia. Inclinei-o em direção à luz da lua, meus olhos se esforçando para decifrar a escrita delicada.

Não era o simples "G" que eu havia encomendado.

Em vez disso, duas letras estavam entrelaçadas em uma caligrafia elegante e fluida.

G & L.

Gabriel e Lia.

O ar saiu dos meus pulmões de uma vez, como se eu tivesse levado um soco no estômago. Por meses, eu vinha juntando provas, montando os fragmentos da traição deles — ligações ouvidas por acaso, recibos suspeitos, o cheiro persistente do perfume dela em suas roupas. Eu sabia, logicamente, o que eles estavam fazendo. Eu sabia que o casamento era uma transação.

Mas isso... isso era diferente. Isso era uma profanação. Ele havia pego um símbolo do meu amor, do nosso suposto começo, e o havia reescrito com a verdade do caso deles. Ele carregava o amor deles no bolso todos os dias, bem ao lado do coração, enquanto eu vivia em uma mentira cuidadosamente construída.

Qualquer resquício microscópico de dúvida que eu pudesse ter abrigado, qualquer esperança patética e desesperada de que eu tivesse interpretado tudo errado, desapareceu naquele instante. O amor que eu sentia por ele, um amor que havia definido toda a minha vida adulta, não apenas morreu. Ele apodreceu. Transformou-se em algo feio, frio e duro no centro do meu peito.

Eu era uma tola. Um peão em um jogo que eu nem sabia que estava jogando. Meu marido não apenas não me amava; ele me desprezava. Ele e minha irmã, as duas pessoas que eu mais amava no mundo, conspiraram para roubar minha vida, meu talento, meu coração, e fizeram isso com rostos sorridentes e promessas vazias.

O isqueiro parecia queimar minha pele. Era a peça final da evidência, o último prego no caixão da minha antiga vida. Não havia mais volta. Não havia espaço para perdão. Não restava nada além da certeza fria e clara do que eu tinha que fazer a seguir.

Meu olhar, antes cheio de adoração pelo homem na minha cama, tornou-se um vazio plano e inexpressivo. A mulher que amou Gabriel Bastos se foi. Em seu lugar havia outra pessoa, uma estranha forjada nas chamas da traição.

E ela estava pronta para vê-lo queimar.

Capítulo 3

Ponto de Vista: Clara

Na manhã seguinte, encontrei Gabriel na cozinha, cantarolando uma das músicas de Lia — uma das minhas músicas — que tocava suavemente nos alto-falantes embutidos. Ele estava montando o café da manhã com a precisão focada de um cirurgião.

— Eu já ia levar isso para você — disse ele, exibindo um sorriso que não alcançava seus olhos.

— Na verdade — eu disse, com a voz firme —, mudei de ideia. Acho que gostaria de ir à festa da Lia hoje à noite.

Seu sorriso vacilou por uma fração de segundo. Um lampejo de algo — irritação? pânico? — cruzou seu rosto antes que ele o suavizasse com sua máscara usual de preocupação.

— Tem certeza, amor? Você parecia tão exausta ontem.

— Estou me sentindo melhor — menti. — Quero estar lá pela minha irmã. É uma grande noite para ela.

Ele hesitou, depois assentiu lentamente.

— Claro. Então vamos só dar uma passada rápida. Não queremos que você se esforce demais.

Eu sabia exatamente por que ele não me queria lá. Ele tinha medo que eu, de alguma forma, ofuscasse sua preciosa Lia. Ele não queria a artista de verdade ao lado da falsa. Ele não queria que ninguém olhasse de perto demais.

Mas eu tinha que ir. Tinha que vê-los uma última vez. Isso não era apenas um adeus ao meu marido; era um adeus a toda a minha família, à vida que eu estava prestes a deixar para trás para sempre. Amanhã, os preparativos finais para minha nova identidade, minha nova vida, começariam. Esta noite era para o encerramento.

A mansão da família Ávila estava agitada, uma colmeia de taças de champanhe e risadas forçadas. Os convidados se aglomeravam em torno de Lia, que estava como uma rainha no centro do grande salão, uma mão repousando possessivamente em sua barriga de grávida pequena e arrumada. Ela estava radiante, absorvendo os elogios por sua conquista. Pela minha conquista.

— Um verdadeiro gênio! — um crítico elogiou.

— Essa pintura é uma obra-prima. É a favorita para o grande prêmio — declarou outro.

Lia se deliciava com aquilo, seu sorriso largo e radiante. Quando ela me viu entrar de braços dados com Gabriel, seu sorriso se contraiu por uma fração de segundo. Uma sombra passou por seus olhos antes que ela a mascarasse com um calor fraternal ensaiado.

— Clara! Que bom que você pôde vir — ela arrulhou, a voz escorrendo falsa sinceridade. — Fiquei preocupada que você ainda estivesse enfurnada naquele seu estúdio, fazendo... bem, seja lá o que você faz hoje em dia.

A alfinetada foi sutil, destinada a me pintar como uma reclusa, uma amadora, enquanto ela era a artista celebrada. Eu a ignorei, meus olhos atraídos para além dela, para a pintura exibida em um cavalete coberto de veludo.

Uma onda de náusea me atingiu. Era como olhar para um fantasma.

Meu coração parecia estar sendo espremido em um torno. A pintura era de um farol solitário contra um mar tempestuoso, as ondas quebrando em um spray violento e caótico. O céu era um turbilhão de roxos machucados e cinzas raivosos. Era uma peça que eu havia pintado anos atrás, um desabafo cru e emocional após a morte de nossa mãe.

Era uma das minhas obras mais privadas e pessoais. Eu nunca a havia mostrado a ninguém. Estava trancada em um depósito, junto com outras peças de uma vida que eu pensei ter deixado para trás.

Como aquilo chegou aqui?

Como estava pendurado neste salão, com o nome de Lia em uma pequena placa de latão embaixo? Como era a sua inscrição em uma competição nacional?

Lia seguiu meu olhar, um sorriso presunçoso e triunfante brincando em seus lábios. Ela deslizou até mim, sua voz um sussurro baixo e zombeteiro, destinado apenas para que eu ouvisse.

— Gostou? Eu chamo de 'Tempestade'.

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