Capítulo 2

Ponto de Vista de Alina Sampaio:

"Como assim, você teve que realizar o procedimento sem o meu consentimento?" As palavras rasgaram minha garganta, cruas e irregulares. "Você não tinha o direito!"

O médico, um homem com olhos cansados e uma atitude profissional praticada, recuou. "Sra. Sampaio, você estava com uma hemorragia. Tivemos que agir imediatamente para salvar sua vida. O feto não era mais viável."

"O feto?", cuspi o termo clínico de volta para ele. "Aquele era meu filho. Meu bebê. E você o deixou morrer."

"Não havia nada que pudéssemos fazer para salvar o bebê", uma enfermeira interveio gentilmente. "A escolha foi salvar você."

Minha cabeça latejava, uma batida frenética contra o interior do meu crânio. Estava tudo errado. Todos estavam mentindo. Eduardo estava mentindo. O mundo estava mentindo.

Justo quando eu estava prestes a gritar de novo, a porta do meu quarto particular se abriu com um estrondo. Eduardo entrou correndo, seu rosto uma máscara de angústia.

"Alina!", ele gritou, correndo para o meu lado. "Meu amor, eu sinto muito, muito mesmo."

Ele me puxou para um abraço, seus braços envolvendo meus ombros trêmulos. Por uma fração de segundo, quase me inclinei para o conforto familiar. Mas então eu senti o cheiro. Fraco, mas inconfundível. O perfume floral enjoativo de Carla grudado no tecido de seu paletó.

Os últimos vestígios da minha esperança viraram cinzas.

Eu o empurrei, minhas mãos espalmadas contra seu peito. "Por que você não atendeu seu celular?", perguntei, minha voz perigosamente baixa. "Eu te liguei, Eduardo. Logo depois que aconteceu."

Ele teve a audácia de parecer confuso. "Querida, eu te disse, meu celular estava no silencioso. Uma reunião crucial do conselho. Você sabe como minha mãe é." Ele passou a mão por seu cabelo perfeitamente penteado. "Eu vim assim que soube."

"Não minta para mim", sibilei. "Eu vi você. No bar do hotel. Com ela."

Seus olhos se arregalaram, um lampejo de pânico antes que a máscara voltasse ao lugar. "Alina, do que você está falando? Você deve estar confusa. A medicação..."

Ele alcançou minha mão, sua voz pingando falsa simpatia. "Perder o bebê... é um trauma terrível. Pode fazer você ver coisas, imaginar coisas."

Ele estava tentando me manipular. Me fazer acreditar que eu estava louca. A pura audácia daquilo era de tirar o fôlego.

Antes que eu pudesse responder, seu smartwatch, aquele que ele convenientemente esqueceu em casa, apitou em seu bolso. Ele obviamente o havia recuperado. A mesma voz rouca do memorando encheu o quarto estéril, desta vez como um alerta de calendário. "Jantar com o Dudu hoje à noite. Não se atrase."

Eduardo congelou, seu rosto empalidecendo. Ele se atrapalhou para pegar o relógio, tentando silenciá-lo, mas era tarde demais.

Eu avancei sobre ele, meus movimentos alimentados por uma onda de adrenalina. Arranquei-o de sua mão e o ergui, a tela brilhando com o nome de Carla.

"Explique isso, Eduardo", exigi, minha voz tremendo de raiva. "Explique esse 'esqueminha'."

Ele olhou para o relógio, depois para mim, sua mandíbula trabalhando em silêncio. "Não é o que você pensa, Alina. Carla e eu... somos apenas amigos. Ela me ajuda com conselhos de negócios."

"Conselhos de negócios?", ri, um som áspero e quebrado. "É assim que você chama beijá-la em um bar? É assim que você chama ter um filho secreto com ela?"

A cor sumiu completamente de seu rosto. Ele olhou para mim como se eu tivesse criado uma segunda cabeça. "O que... do que você está falando? Um filho?"

Ele era um bom ator. Eu tinha que admitir. Ele quase soou convincente.

"Não se faça de idiota comigo", rosnei. "Eu vi suas mensagens. Com J.H. Sobre o 'pequeno Theo'."

Ele recuou como se eu o tivesse atingido fisicamente. Ele abriu a boca para falar, mas naquele momento, a porta se abriu novamente.

Carla Vasconcelos estava lá, uma visão em um casaco de caxemira creme, uma única lágrima traçando um caminho perfeito por sua bochecha. Seus olhos, no entanto, estavam frios e triunfantes.

"Oh, Eduardo", disse ela, sua voz um soluço teatral. "Eu estava tão preocupada. Ela está bem?"

Eu a encarei, a mulher que havia roubado meu marido, conspirado para matar meu filho, e agora tinha a coragem de fingir preocupação. A raiva dentro de mim era um inferno branco e quente.

"Saia daqui", sussurrei.

Carla me ignorou, deslizando para o lado de Eduardo e colocando uma mão bem-cuidada em seu braço. "Dudu, querido, sinto muito. Eu sei o quanto você queria este bebê." Ela virou seu olhar gelado para mim. "Mas talvez seja melhor assim. Você nunca nasceu para ser mãe, Alina. Você é fria demais. Focada demais no seu trabalho. Tudo o que você realmente se importa é com sua preciosa empresa."

Cada palavra era um dardo cuidadosamente apontado, projetado para infligir a dor máxima. Ela estava zombando do meu luto, menosprezando o trabalho da minha vida e transformando tudo em uma falha de caráter.

"Você não passa de uma incubadora ambulante para ele", ela continuou, sua voz baixando para um sussurro conspiratório. "Um meio para um fim. Assim que ele tiver o que quer, você será descartada. Assim como seu bebê foi."

A crueldade de suas palavras sugou o ar do quarto. Meu corpo estava fraco, devastado pelo acidente e pela perda, mas minha mente estava gritando. Eu queria me lançar sobre ela, arrancar aquele olhar presunçoso e vicioso de seu rosto. Mas eu não conseguia me mover. Eu estava presa, uma prisioneira em meu próprio corpo quebrado.

Ela se inclinou mais perto, seu perfume me fazendo engasgar. "Este é o seu carma, Alina", ela ronronou. "A vingança por tudo o que você fez."

Ela se endireitou, um sorriso estranho e triunfante brincando em seus lábios antes de se virar e sair do quarto, deixando um rastro de veneno em seu caminho.

Carma? O que eu já fiz para merecer isso? Vasculhei minha memória, minha vida inteira, por qualquer ato tão hediondo que justificasse esse tipo de retribuição cósmica. Não havia nada. Eu construí minha empresa do zero, de forma ética e honesta. Tratei as pessoas com respeito. Amei meu marido com tudo o que eu tinha.

Suas palavras não faziam sentido. Era apenas mais uma camada de tortura psicológica. Outra maneira de me fazer sentir responsável pela minha própria destruição.

Mas não iria funcionar. Não mais.

Capítulo 3

Ponto de Vista de Alina Sampaio:

O fogo dos insultos de Carla queimava em minhas veias, mas meu corpo era um peso morto. Cada músculo gritava em protesto, a dor surda em meu abdômen um lembrete constante e brutal do vazio que ela ajudou a criar. Eu a vi sair, suas palavras pairando no ar como esporos tóxicos, e uma onda de desamparo me dominou.

Eduardo ficou por mais três dias, desempenhando o papel do marido enlutado com uma perfeição nauseante. Ele me trouxe flores — lírios, que ele sabia que eu era alérgica. O cheiro enjoativo encheu o pequeno quarto, fazendo meus olhos lacrimejarem e meu estômago revirar.

"Você esqueceu", eu disse, minha voz plana enquanto afastava o vaso.

Ele ergueu os olhos do celular, um lampejo de irritação cruzando seu rosto antes de ser substituído por sua familiar máscara de preocupação. "Esqueci o quê, querida?"

"Sou alérgica a lírios. Estamos casados há três anos, Eduardo."

Era uma coisa tão pequena, mas era tudo. Era o descaso, a completa falta de pensamento genuíno. Ele não era meu parceiro; era meu guardião, e um negligente.

"Oh, Alina, sinto muito", disse ele, o pedido de desculpas soando oco e ensaiado. "Minha cabeça está... toda confusa." Ele estendeu a mão para tocar meu braço, mas eu me afastei.

"Por que você se casou comigo, Eduardo?" A pergunta escapou, fria e afiada.

Ele me encarou, sua fachada perfeita finalmente rachando. O calor desapareceu de seus olhos, substituído por uma distância arrepiante. Ele olhou para mim como se eu fosse uma estranha, um problema que ele precisava resolver.

"Você não está bem", disse ele, sua voz seca. Ele se levantou, pegando o vaso ofensivo de lírios e jogando-o no lixo. "Você está de luto. Está dizendo coisas que não quer dizer. Vou te dar um pouco de espaço."

Ele saiu sem dizer mais uma palavra.

Ele não voltou nos dois dias seguintes.

Quando finalmente recebi alta, um motorista que ele enviou me levou não para nossa casa, mas para seu apartamento corporativo temporário perto do hospital. O lugar era estéril e impessoal, sem o calor e as memórias compartilhadas da casa que construímos juntos. Parecia uma jaula.

Sozinha no silêncio, rolei por suas redes sociais. Lá estava ele, o marido devotado, postando uma foto de nossas mãos dadas de uma semana atrás com a legenda: "Meu tudo. Minha rocha." Os comentários eram uma enxurrada de simpatia e condolências por nossa "trágica perda". A hipocrisia foi um golpe físico.

Meu dedo pairou sobre as informações de contato de Gabriel. Eu havia cortado os laços com ele quando me casei com Eduardo. Eduardo tinha ciúmes de nosso vínculo próximo, da maneira como Gabriel me olhava como uma filha. Ele sutilmente envenenou minha mente, convencendo-me de que Gabriel não aprovava nosso casamento, que ele estava tentando me segurar. Em meu estado de cegueira amorosa, eu acreditei nele. Escolhi meu marido em vez do homem que me orientou, me guiou e me ajudou a construir meu império. A memória daquela escolha era agora uma fonte de vergonha profunda e ardente.

Uma dor aguda atravessou minha cabeça, e o mundo ficou turvo. Caí na cama desconhecida e mergulhei em um sono agitado e cheio de pesadelos.

Quando acordei, estava escuro lá fora. Eduardo estava de pé sobre mim, afrouxando a gravata. Ele não perguntou se eu estava com fome ou como estava me sentindo. Apenas jogou o paletó em uma cadeira e desapareceu no banheiro.

Enquanto o chuveiro corria, vi seu celular na mesa de cabeceira.

Era isso. Chega de dúvidas, chega de esperar por um erro. Eu precisava da verdade. Toda ela.

Meus dedos tremeram quando o peguei. Nossa data de aniversário. A senha que uma vez pareceu romântica agora parecia uma piada cruel. Abriu na primeira tentativa.

Suas mensagens de texto eram um mapa de sua traição. A conversa com J.H. — que agora eu percebi que devia ser Júlio Henriques, um executivo júnior e primo distante do Grupo Medeiros — estava lá, preto no branco. Mas foi a conversa com o irmão de Carla que fez meu coração parar.

Ela expunha toda a conspiração. O Grupo Medeiros estava falindo, sangrando dinheiro e à beira do colapso. O casamento foi uma transação comercial, orquestrada pela mãe fria e calculista de Eduardo, Diana. O objetivo deles: colocar as mãos no meu código-fonte de IA Prometeus, a única coisa que poderia salvar sua dinastia em ruínas.

O acidente de carro não foi um acidente. Foi um "ciberataque direcionado", como a enfermeira havia dito. Eles planejaram. Eles hackearam os sistemas do meu carro. Eles pretendiam que eu tivesse um "acidente".

A mensagem final foi o tiro de misericórdia.

Irmão da Carla: Mamãe disse para acelerar as coisas. Assim que você tiver o código, pode pedir o divórcio. Carla e Theo estão esperando.

Eduardo: Eu sei. Só mais um pouco. Alina é mais forte do que pensávamos. Mas ela vai quebrar.

Eles não pretendiam apenas que eu perdesse o bebê. Eles pretendiam se livrar de mim completamente assim que eu não fosse mais útil. E a criança que eu perdi, a criança que eu estava de luto com cada fibra do meu ser... era um obstáculo que eles removeram clínica e impiedosamente.

Ele tinha uma família inteira. Uma vida da qual eu não sabia nada. Nossa vida, nosso amor, nosso filho — tudo era uma mentira. Uma performance meticulosamente elaborada para um único propósito: minha destruição.

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