Acordei com os murmúrios abafados dos meus pais. Seus rostos estavam marcados pela preocupação, minha mãe segurando minha mão, seus olhos vermelhos. Eu estava em uma cama de hospital, o cheiro estéril queimando minhas narinas. "Ela estava tão preocupada com você, querida", minha mãe sussurrou, acariciando meu cabelo.
Então eu o vi. Daniel. Ele estava parado sem jeito perto da porta, um buquê de lírios brilhantes demais para o quarto em sua mão. Seu charme habitual e sem esforço foi substituído por uma incerteza hesitante. Desviei o olhar imediatamente, encarando fixamente o teto. Eu não suportava olhar para ele.
"Ele ficou tão preocupado", meu pai acrescentou, sua voz suave. "Ele até foi em casa quando você não atendeu as ligações dele. Disse que te procurou a noite toda."
Meu estômago se revirou. Preocupado? Me procurando? Era uma ironia cruel.
"Letícia", disse Daniel, sua voz surpreendentemente gentil. "Você está bem? Eu... eu fiquei muito preocupado."
Fechei a boca com força, recusando-me a responder. Meus pais, interpretando mal meu silêncio como fraqueza, acenaram agradecidos para ele. "É tão gentil da sua parte visitar, Daniel", disse minha mãe.
Meus pais finalmente saíram para falar com uma enfermeira, nos deixando sozinhos. O silêncio se estendeu, denso e sufocante. Eu podia sentir seus olhos em mim, mas mantive meu olhar fixo em outro lugar.
Então, senti seu peso na beirada da cama. Ele suspirou, um som suave e cansado, e então, lentamente, passou um braço ao meu redor. Era um abraço familiar, um que costumava me trazer tanto conforto. Agora, parecia uma jaula.
"Olha, Letícia", ele começou, sua voz baixa. "Sobre ontem à noite... eu sei o que você ouviu. E sei que pareceu ruim." Ele fez uma pausa, como se esperasse que eu protestasse, mas permaneci imóvel. "A Gabi... ela só fica com ciúmes às vezes. E as coisas saíram do controle. Eu nunca quis que você ouvisse nada daquilo."
Ele apertou o braço ao meu redor. "Você sabe que eu não me importo com o seu peso, Letícia. Nunca me importei. Você é linda, não importa o quê."
Eu podia sentir uma rara suavidade em seu tom, um vislumbre do que eu costumava acreditar ser afeto genuíno. Sua bochecha descansou contra meu cabelo, e por uma fração de segundo, eu quase acreditei nele. Seu rosto, quando arrisquei um olhar, tinha uma expressão de preocupação genuína, uma ternura que eu não via há muito tempo. Ele poderia realmente se arrepender? Ele poderia se sentir mal?
Meus olhos arderam, mas me recusei a deixar as lágrimas caírem novamente. Não por ele. Não mais. Eu estava tão cansada de tentar decifrá-lo, de procurar constantemente pelo Daniel "bom" que eu achava que conhecia.
"Eu preciso ir para casa", eu disse, minha voz rouca, afastando-me de seu abraço. "Tenho provas importantes chegando."
Sua expressão escureceu. "Provas? Você quer dizer a entrevista para a vaga antecipada da USP?"
Eu assenti, meu coração afundando. Claro, ele sabia. Todos em nossa pequena cidade sabiam sobre a prestigiosa bolsa de estudos.
"Mas... isso é para a Gabi também", ele disse, sua testa franzida. "É uma vaga muito competitiva. Apenas um aluno da nossa escola consegue."
Meu olhar se aguçou. "Você está preocupado com a Gabi, Daniel?", perguntei, um gosto amargo na boca. "Preocupado que eu possa realmente conseguir?"
Ele se encolheu. "Não! Claro que não. É que... nós sempre falamos sobre ir para a USP juntos, lembra? Você, eu, a Gabi..."
Ele parou, mas a implicação era clara. Você deveria ser o plano B. A amiga inteligente que poderia dar aulas para ele, não a rival.
"Então, você não quer que eu tenha sucesso?", perguntei, minha voz mal um sussurro, mas tingida com uma nova e silenciosa fúria. "É isso? Nossas vidas inteiras, falamos sobre ir para a faculdade juntos, sobre nos tornarmos alguém. Isso foi só mais uma mentira?"
Ele permaneceu em silêncio por um longo momento, sua mandíbula tensa. "Olha, Letícia", ele finalmente disse, sua voz tensa. "A Gabi... ela realmente precisa disso. A família dela está passando por dificuldades agora. E você é tão inteligente, vai entrar em uma ótima faculdade de qualquer maneira. Talvez... talvez você pudesse apenas... abrir mão dessa vez? Deixar ela conseguir?"
Meu coração despencou. Meu corpo ficou frio. Ele estava me pedindo para desistir do meu sonho. Pela Gabi. De novo. Passei por ele, saindo da cama. "Eu tenho que ir", repeti, sem olhar para trás.
"Letícia, espere!", ele chamou, sua voz urgente. "Pelo menos... me deseje feliz aniversário?"
Parei na porta, minha mão no metal frio. Ele estava lá, bonito como um astro de cinema, seu cabelo dourado caindo perfeitamente sobre a testa. Mas meus olhos pousaram em seu pulso. Um relógio novo e caro brilhava ali. Era o modelo exclusivo que Gabi lhe dera de aniversário, aquele de que todos os garotos populares estavam falando. Meu próprio presente, um diário com capa de couro feito à mão que eu personalizara com suas citações favoritas, ainda estava na minha bolsa, amassado e esquecido. Lembrei-me de como ele sempre parecia "perder" meus presentes, alegando que não eram seu estilo. Eu costumava pensar que ele era apenas descuidado. Agora eu sabia. Ele tinha vergonha.
Virei-me para ele, forçando um sorriso frágil. "Feliz aniversário, Daniel", eu disse, minha voz monótona. "Espero que você consiga tudo o que deseja. E eu digo isso de verdade. Sinceramente."
Minhas palavras pairaram no ar, pesadas com um significado não dito. Ele não pareceu notar. Ele apenas sorriu, um sorriso oco e vazio.
No momento em que passei pela porta da frente, ainda com a bata do hospital, encontrei meus pais esperando, seus rostos uma mistura de alívio e preocupação. "Mãe, pai", eu disse, minha voz surpreendentemente firme. "Eu quero terminar o noivado com o Daniel."
Eles me olharam como se eu tivesse criado uma segunda cabeça. "Do que você está falando, Letícia?", minha mãe perguntou, sua voz aguda de incredulidade. "Vocês dois são praticamente inseparáveis. Nós sempre assumimos..."
Eles tinham todos os motivos para assumir. Minha infância tinha sido uma constelação com Daniel no centro. Cada segredo compartilhado, cada olhar roubado, cada sonho sussurrado. Eu era a garota que catalogava meticulosamente suas estatísticas de futebol, que sabia seu pedido de café favorito, que guardava uma pequena e gasta foto nossa do jardim de infância dentro de seu diário. Eu era a garota que valorizava a caneca de cerâmica lascada que ele me fez na aula de artes quando tínhamos dez anos, mesmo sendo horrivelmente torta. Eu estava completa, desesperada e irreversivelmente apaixonada por Daniel Mendes.
E agora, eu estava deixando tudo para trás.
Naquela noite, fui para o meu quarto, peguei a caneca de cerâmica e, com as mãos trêmulas, a joguei na lata de lixo. Ela se quebrou com um som pequeno e desolado. Lágrimas escorreram pelo meu rosto, mas eram diferentes agora. Não lágrimas de dor por sua traição, mas lágrimas de luto pela garota que eu costumava ser, a garota que acreditava em contos de fadas. "Cansei de tentar me encaixar em algo que nunca foi para mim", sussurrei, as palavras um elogio silencioso.
Na manhã seguinte, o ar na sala de provas estava denso de tensão. Esta era a rodada final para a bolsa de estudos por mérito da USP. Enquanto me acomodava em meu lugar, meus olhos percorreram a sala. E então eu a vi. Gabriela Almeida, parecendo impecavelmente arrumada, já folheando seu caderno de prova. Meu coração deu um salto doloroso.
No meio da prova, eu notei. Gabi, seus olhos dardejando nervosamente, estava tirando uma pequena cola da manga. Ela olhou para cima, seus olhos encontrando os meus por uma fração de segundo, arregalados de pânico. Eu sustentei seu olhar, uma certeza fria se instalando em minhas entranhas. Ela rapidamente a guardou, o rosto corado.
Quando o sinal tocou, sinalizando o fim, Gabi estava me esperando do lado de fora da sala. Sua arrogância habitual havia desaparecido. Ela apertava os papéis da prova contra o peito. "Letícia, por favor", ela implorou, sua voz mal acima de um sussurro. "Você não vai dizer nada, vai? Meus pais... eles vão me matar se eu não conseguir essa bolsa." Lágrimas brotaram em seus olhos, mas não vi nenhum remorso genuíno ali. Apenas medo.
Eu apenas olhei para ela, meu rosto desprovido de emoção. Passei por ela sem dizer uma palavra. Ela mordeu o lábio, depois soltou um soluço teatral, atraindo a atenção de vários alunos que ainda circulavam por ali. "Sinto muito, Letícia!", ela gritou, sua voz se elevando. "Eu não queria te intimidar! Por favor, não conte a ninguém que eu tentei colar!"
Meu sangue gelou. Me intimidar? Todos os olhos se voltaram para mim, acusadores e incrédulos. Sussurros explodiram, agudos e cruéis. "Olha pra ela, a porca gorda. Sempre causando problemas." "Ouvi dizer que ela é obcecada pelo Daniel. Provavelmente com ciúmes que a Gabi finalmente está com ele." "Ela sempre foi uma esquisita."
Meu rosto ficou carmesim. "Não foi isso que aconteceu!", gaguejei, mas minhas palavras foram engolidas pela maré crescente de desprezo deles. A sala pareceu encolher, se fechando sobre mim. Senti o julgamento deles, o nojo deles. A picada familiar de ser a estranha, o alvo.
Nesse momento, a multidão se abriu. Daniel entrou, seus olhos examinando a cena. Ele parecia impecavelmente bonito, mesmo agora. Ele foi direto para Gabi, que agora soluçava abertamente, enterrando o rosto nas mãos. Ele gentilmente colocou sua jaqueta do time sobre seus ombros trêmulos.
"O que está acontecendo aqui?", Daniel perguntou, sua voz calma, mas com uma ponta de autoridade subjacente.
Gabi olhou para ele, seus olhos arregalados e inocentes, vazando lágrimas. "A Letícia... ela me viu... ela ia contar a todo mundo que eu colei... e então ela começou a dizer todas essas coisas maldosas sobre mim..."
Daniel se virou para mim, seus olhos frios, distantes. "Letícia, isso é verdade?", ele perguntou, sem nenhum traço da antiga familiaridade em sua voz. "Você está realmente por aí intimidando a Gabi?"
A pergunta, a descrença flagrante em seu tom, foi uma ferida nova. "Não, Daniel!", gritei, minha voz falhando. "Ela está mentindo! Ela colou, eu a vi! E então ela começou a chorar e a me acusar!"
Os lábios de Daniel se afinaram. "Letícia, você conhece a Gabi. Ela é delicada. E você... você está apenas chateada com a noite passada, não é? Não é justo descontar nela." Ele fez uma pausa, depois desferiu o golpe final. "E para que fique registrado, Letícia, não há nada entre nós. Nunca houve. Nós não estamos juntos."
Um suspiro percorreu a multidão. Mais sussurros, mais altos agora. "Viu? Eu sabia. Ela é iludida." "Pobre Gabi. A Letícia é realmente louca."
Minha explicação, as palavras que eu ensaiei na minha cabeça, morreram na minha língua. Ele não acreditaria em mim. Ele já havia escolhido. Seus olhos, geralmente tão quentes e familiares, agora estavam cheios de um nojo arrepiante enquanto pousavam em mim.
"Apenas peça desculpas, Letícia", ele ordenou, sua voz monótona. "Peça desculpas à Gabi, e vamos deixar isso para trás."
Cerrei os punhos, minhas unhas cravando em minhas palmas. Eu não choraria. Não aqui. Não por eles. "Pedir desculpas?", perguntei, minha voz trêmula, mas firme. "Eu não fiz nada de errado. Você pode verificar as câmeras de segurança. Elas mostrarão tudo."
Os soluços de Gabi se intensificaram com a menção das câmeras. "Não, por favor! Não faça isso!", ela lamentou, agarrando o braço de Daniel.
Daniel olhou do rosto manchado de lágrimas de Gabi para minha postura desafiadora. "Não há necessidade disso", ele disse, sua voz fria. "Gabi está claramente angustiada. E, francamente, Letícia, você está fazendo uma cena. Eu te disse, não há nada entre nós. Eu nunca poderia... eu nunca poderia ficar com alguém como você." Ele fez uma pausa, seu olhar varrendo meu corpo ainda em recuperação. "Apenas... melhore, Letícia. Pelo seu próprio bem."
Então ele se virou, puxando Gabi para perto, e a guiou através da multidão. Minhas lágrimas, que eu lutei tanto para segurar, finalmente se libertaram. Elas escorreram pelo meu rosto, quentes e humilhantes.