Capítulo 2

Ponto de Vista: Catarina

O quarto de hotel era estéril e anônimo, um espaço esquecido que ecoava meu próprio passado recente. O único cheiro era o de produto de limpeza industrial.

Depois de um banho escaldante, senti como se tivesse esfregado e tirado três anos de sujeira, o peso sufocante de ser a Sra. Stanley.

Eu era apenas Catarina Queiroz novamente.

Meu telefone tocou, um número desconhecido.

Deixei tocar quatro vezes antes de atender.

"Sra. Stanley", disse uma voz de homem.

Reconheci como sendo Zane, um dos soldados de maior confiança de Ricardo.

"O Subchefe está preocupado. Você precisa voltar para casa. Pense na imagem da Família."

O nome soou como um tapa.

"Esse é um título que não reconheço mais", eu disse, minha voz uma lâmina afiada. "Você se dirigirá a mim como Catarina, ou Sra. Queiroz. Entendeu?"

Ele gaguejou por um momento antes que eu cortasse a ligação.

Segundos depois, meu telefone criptografado vibrou.

Ricardo.

"Que porra você pensa que está fazendo?", ele rosnou, sua fachada controlada de sempre estilhaçada, substituída por pura fúria. "Você está tentando me destruir. Quer me fazer de palhaço na frente do sindicato inteiro."

Peguei um arquivo da pequena escrivaninha.

"Estou olhando seu relatório médico, Ricardo. Ferimento de bala no ombro. No Setor Gama. Um setor que o Dom Gagliardi ordenou explicitamente que você evitasse."

A linha ficou em silêncio.

"Eu também tenho a gravação das comunicações", continuei, minha voz inabalável. "Os trinta segundos completos. Sua ligação para a Bianca. Consigo ouvir a vozinha de menina dela tão claramente. 'Estou com tanto medo, você tem que vir me buscar.' E sua resposta... qual foi mesmo? Ah, sim. 'Estou indo, meu bem. Não se preocupe. Não vou deixar nada acontecer com você.'"

Eu podia ouvir sua respiração, ofegante e irregular.

Ele estava sem palavras.

Ele sabia que eu tinha: a prova irrefutável de sua profunda desonra.

"Você fala de profissionalismo", zombei, a palavra com gosto de cinzas na minha boca. "Como seu status de herói vai se sustentar quando os Dons do Conselho ouvirem que você abandonou seu posto, sua esposa e seu dever por uma Associada com quem você anda dormindo?"

Pela primeira vez, sua voz perdeu a arrogância habitual, substituída por uma nota crua que eu não ouvia há anos: súplica.

"Cat... eu cometi um erro. Foi um momento de fraqueza."

"Um erro?", eu ri, um som amargo e feio. "Diga-me, Ricardo, foi um erro porque você a ama? Ou foi porque ela era mais fraca que eu? Salvar a donzela em perigo finalmente te fez sentir como um verdadeiro chefão?"

Ele não respondeu.

Ele não podia.

"Estou peticionando ao Conselho", informei-o, minha determinação se transformando em aço. "Não apenas pela anulação. Estou peticionando por um cargo formal: a negociadora e intérprete principal deles. Vou mostrar a eles como é a verdadeira lealdade e profissionalismo."

Pensei na nossa noite de núpcias.

Nele saindo para a varanda para atender uma ligação, de costas para mim em nossa cama de casal.

Ele murmurava palavras de conforto ao telefone, o mesmo tom suave que usou para Bianca no meio de um tiroteio.

Eu tinha sido uma tola naquela época, acreditando que era apenas negócio da Família.

Uma tola ingênua e cega.

Nunca mais.

Com um clique final, desconectei a chamada e bloqueei seu número, cortando o último laço.

Capítulo 3

Ponto de Vista: Catarina

Uma intimação chegou na manhã seguinte por um mensageiro discreto.

Era um único cartão pesado, com o brasão da Família Gagliardi em relevo. Um convite — não, uma ordem — para me encontrar com Giuliano Ferraz.

O Consigliere.

Seu escritório era uma fortaleza dentro de uma fortaleza, uma sala silenciosa com painéis de madeira no alto de um arranha-céu no centro da cidade que servia de fachada legítima para o império Gagliardi.

Ele sentou-se atrás de uma enorme mesa de carvalho, um homem mais velho com olhos que já viram de tudo e não esqueceram nada.

Eu expus tudo para ele.

A traição na Mooca, as mentiras de Ricardo e a existência da gravação no pen drive, que coloquei em sua mesa.

Giuliano ouviu em completo silêncio, as mãos unidas à sua frente.

Quando terminei, ele não ofereceu pena. Ele ofereceu respeito.

"Você não é um fracasso, Catarina", disse ele, sua voz um ronco baixo. "Você é o ativo mais afiado que já testemunhei em uma negociação. Sua compostura sob fogo é lendária."

Senti uma rachadura na parede de gelo ao redor do meu coração.

Eu não tinha percebido o quanto precisava ouvir aquilo. "Sinto que falhei com minha Família. Por deixar isso acontecer."

Ele balançou a cabeça lentamente.

"O fracasso é de Ricardo. Eu sempre vi a fraqueza nele."

"Um pavão que se importa mais com o brilho de suas penas do que com a força de suas asas. Você deveria saber", ele se inclinou um pouco para a frente, "as outras Famílias têm muito mais respeito por você do que jamais terão por seu marido."

Aquela simples declaração era uma arma.

Ele estava me armando.

"Eu quero ser a intérprete oficial do Conselho", eu disse, minha voz firme. "Uma parte neutra, mas poderosa. Minha lealdade será ao código, não a um homem."

"Feito", disse Giuliano sem hesitar. "Vou aconselhar meu Dom que apoiar sua petição é uma jogada de mestre estratégica."

"Enfraquece um rival e defende os princípios da honra. Minha única condição é esta: os interesses das Famílias, como um todo, devem sempre vir em primeiro lugar."

"Sempre vieram", respondi.

Saindo de seu escritório, minha mente estava a mil.

Eu tinha um aliado poderoso.

Quando as portas do elevador se abriram, um homem em equipamento tático completo entrou.

Ele era alto, construído como uma montanha, com uma aura de autoridade absoluta que preenchia o pequeno espaço.

Dom Rocco Gagliardi.

Seus olhos, da cor de aço frio, encontraram os meus.

"Sra. Queiroz", disse ele, sua voz um rosnado baixo.

Era a mesma voz das comunicações. A voz que tinha sido o único ponto de calma no caos da Mooca.

"Eu estarei pessoalmente cuidando da segurança para a cúpula do Conselho", ele afirmou, não como uma informação, mas como um fato da vida.

"Estaremos trabalhando juntos novamente."

"Dom Gagliardi", comecei, as palavras saindo antes que eu pudesse detê-las. "Obrigada. Pelo seu comando durante o incidente da Mooca. Você..."

Ele me cortou com um aceno rude e desdenhoso de mão. "Apenas fazendo meu trabalho."

As portas se abriram no térreo, e ele se foi.

Mas eu ainda podia sentir o peso de sua presença.

E eu me lembrava de sua voz, uma tábua de salvação de autoridade fria e brutal que me manteve no chão enquanto meu mundo desmoronava.

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