POV: Clara Martins
“Algumas pessoas entram em nossas vidas como acidentes. Outras entram como destino.”
O vestido preto apertava mais do que eu gostaria. Puxei discretamente o tecido na lateral enquanto observava a fachada iluminada da Fundação Belmont pela janela do táxi. O prédio parecia saído de outro século, ostentando colunas enormes, escadarias de mármore e janelas douradas que refletiam a luz da cidade. Era rico, elegante e intimidador. Exatamente o tipo de lugar onde pessoas perigosas escondiam segredos atrás de sorrisos educados. Respirei fundo antes de pagar o motorista e descer do carro. O vento gelado da noite arrepiou minha pele imediatamente.
Por um breve segundo, hesitei. Talvez Camila tivesse razão e aquilo fosse grande demais, perigoso demais. Então lembrei das famílias dos desaparecidos, da mensagem atrás da fotografia e da sensação horrível de estar sendo observada. “Pare de procurar.” Meu maxilar se contraiu. Agora eu precisava descobrir a verdade ainda mais. Subi os degraus lentamente, tentando ignorar o aperto estranho no peito. O salão principal era absurdamente luxuoso. Lustres enormes refletiam luz dourada pelo teto altíssimo, a música clássica preenchia o ambiente suavemente e garçons atravessavam o salão carregando bandejas de prata, enquanto perfumes caros se misturavam ao aroma de vinho e flores brancas. Todo mundo parecia pertencer àquele lugar, menos eu.
Peguei uma taça de champanhe apenas para parecer menos deslocada enquanto analisava discretamente os convidados. Havia políticos, empresários e socialites. Rostos treinados para sorrir mesmo escondendo podridão por trás dos dentes perfeitos. Caminhei devagar pelo salão, observando conversas e movimentos. Nada parecia fora do lugar, e aquilo me incomodava mais ainda. Meu olhar percorreu o ambiente mais uma vez. Então encontrei ele. O mundo inteiro pareceu desacelerar. Um homem estava parado próximo à grande escadaria central. Ele era alto, vestido completamente de preto, e os cabelos escuros caíam levemente sobre a testa. Sua postura imóvel transmitia uma presença absurdamente intimidadora. Mas foram os olhos que prenderam minha atenção: dourados, intensos e impossíveis.
Meu coração falhou por um segundo. Uma sensação estranha atravessou meu corpo tão rápido que perdi o ar, como eletricidade correndo sob minha pele. Ele também estava me encarando agora, e algo na expressão dele mudou instantaneamente. Houve choque e reconhecimento. Meu peito queimou de repente. Levei a mão até o coração por instinto, sentindo uma dor quente atravessar meu corpo. Era profunda, estranha e quase viva. O homem deu um passo na minha direção, e eu senti algo invisível puxando nós dois. Meu corpo inteiro entrou em alerta. Aquilo não fazia sentido, afinal, eu nunca tinha visto aquele homem antes. Então por que parecia que alguma parte de mim o reconhecia? Ele parou abruptamente. Os músculos do maxilar se tensionaram como se estivesse lutando contra alguma coisa. Por um instante, os olhos dourados brilharam de maneira sobrenatural. Prendi a respiração. Aquilo não era normal. Uma voz masculina surgiu ao meu lado.
— Interessante — murmurou uma voz masculina ao meu lado, chamando minha atenção.
Me virei, assustada. O homem ao meu lado parecia o completo oposto do desconhecido de olhos dourados. Ele era elegante, calmo e perigosamente bonito. Os cabelos castanho-escuros estavam perfeitamente alinhados, e os olhos avermelhados analisavam meu rosto com atenção desconfortável. O sorriso dele era educado, mas frio, muito frio.
— Desculpe? — indaguei, estreitando as sobrancelhas com desconfiança.
O homem ergueu lentamente sua taça de vinho na minha direção, fazendo um brinde silencioso antes de desviar o olhar para a base dos degraus.
— Faz muito tempo que não vejo Ethan Vance perder o controle daquela maneira — comentou ele, com a voz mansa e calculada.
O nome atingiu minha memória imediatamente. Ethan. O sobrenome da lista. Voltei os olhos para o homem próximo à escadaria. Ele continuava me encarando como se o resto do salão tivesse deixado de existir.
— Você o conhece? — perguntei antes de conseguir conter o impulso da minha curiosidade.
O homem ao meu lado sorriu de lado, um sorriso que não alcançou seus olhos frios.
— Infelizmente, sim — respondeu ele, adotando um tom enigmático e controlado demais para soar natural. Ele estendeu a mão na minha direção. — Julian McCord. Sou um velho conhecido da família Vance.
Apertei sua mão por educação e senti sua pele anormalmente gelada, fria demais para um ser humano vivo. Reprimi um arrepio instintivo, quebrando o contato o mais rápido possível.
— Clara Martins — me apresentei, sustentando o olhar dele.
Os olhos vermelhos de Julian pareceram escurecer discretamente ao ouvir meu nome. Foi rápido, quase imperceptível, mas eu percebi. Ele inclinou levemente a cabeça.
— Então você é a Clara — disse ele, e o tom de sua voz fez minha pele gelar na mesma hora.
— Como você sabe o meu nome? — indaguei, cruzando os braços e assumindo uma postura defensiva.
— Jornalistas costumam chamar bastante atenção quando fazem perguntas perigosas pela cidade — respondeu Julian, exibindo um sorriso cínico.
O sorriso elegante permaneceu intacto, mas agora eu conseguia enxergar algo escondido por trás dele. Era uma ameaça, um instinto puro e predatório. Julian se aproximou apenas o suficiente para que ninguém além de mim pudesse ouvir.
— Você deveria tomar cuidado com certas portas, senhorita Martins. Algumas verdades costumam devorar pessoas inteiras.
Meu estômago apertou instantaneamente. Antes que eu pudesse responder, uma presença surgiu logo atrás de mim. Era pesada, quente e avassaladora. Meu corpo reagiu imediatamente e eu me virei. O homem misterioso da escadaria estava diante de mim agora. De perto, ele parecia ainda mais intimidador, mais alto, mais intenso e mais perigosamente bonito. Os olhos dourados passaram rapidamente por Julian antes de voltarem para mim. A expressão dele era impossível de decifrar, mas havia tensão em cada músculo de seu corpo, como um animal contendo violência. Julian sorriu lentamente.
— Ethan — provocou Julian, e o nome soou como uma afronta direta no meio do salão.
O recém-chegado ignorou completamente a presença de Julian, mantendo seus olhos dourados presos aos meus com uma possessividade que me deixou sem ar.
— Você precisa ir embora daqui imediatamente — disse ele, e sua voz grave e impositiva atravessou meu corpo de uma forma absurda. Franzi a testa no mesmo instante, recusando-me a ser intimidada.
— Desculpa? — desafiei, firmando meus passos no mármore.
— Agora — ordenou ele, mantendo o tom firme.
O tom autoritário dele deveria me irritar, e irritava, mas estranhamente também despertava outra sensação: uma vontade irracional de confiar nele. O que era completamente absurdo, já que eu mal conhecia aquele homem.
— Acho que consigo decidir muito bem sozinha quando devo ou não ir embora de um evento — respondi, cruzando os braços e sustentando o olhar dourado.
Por um segundo, algo parecido com frustração atravessou o rosto de Ethan. Então ele se aproximou mais, ficando perto demais. Senti o cheiro dele imediatamente, uma mistura de madeira, chuva e algo selvagem. Meu coração disparou.
— Você não entende o perigo, Clara — sussurrou ele com uma urgência cortante, aproximando o rosto do meu. — Este lugar não é seguro para você.
Julian soltou uma risada baixa e contida logo atrás de nós, observando a nossa proximidade com um brilho de puro divertimento nos olhos vermelhos.
— Ah… isso está ficando consideravelmente interessante — murmurou ele, cruzando os braços na penumbra do salão.
POV: Ethan Vance
“O instinto reconhece aquilo que a mente ainda tenta negar.”
O cheiro dela estava me destruindo. Não de uma forma humana, mas muito pior. Kaos também sentia. Meu Lycan caminhava inquieto dentro da minha mente desde o instante em que Clara Martins entrou naquele salão e inundou o ar com seu perfume único de lavanda e notas de pêssego, o cheiro dela era suave, floral e adocicado, mexia comigo de uma forma que não conseguia explicar, me atraia e me acalmava ao mesmo tempo.
"Companheira."
A voz grave dele atravessou meus pensamentos pela décima vez em menos de um minuto. Fechei os olhos rapidamente, tentando recuperar algum controle. Não, aquilo era impossível. Humanos não podiam formar laços de companheiros com Lycans; nunca aconteceu e nunca deveria acontecer. Mas Kaos não se importava com lógica. O instinto dele havia reconhecido Clara imediatamente, e agora meu próprio corpo começava a reagir como se ela fosse a coisa mais importante do mundo, o que era um desastre absoluto.
— Você precisa ir embora daqui imediatamente — ordenei de forma ríspida, aproximando meu rosto do dela em uma tentativa desesperada de tirá-la da mira dos predadores que circulavam o ambiente.
Ela cruzou os braços sobre o peito no mesmo instante, firmando os passos no mármore com uma postura inteiramente desafiadora.
"Nossa companheira tem coragem."
Kaos parecia profundamente satisfeito com a audácia da humana, mas eu ignorei o comentário mental dele com todas as minhas forças.
— Acho que consigo decidir muito bem isso sozinha — respondeu ela, mantendo o tom firme e sustentando o meu olhar dourado
Meu maxilar travou. Normalmente, aquela resposta teria arrancado um sorriso meu, mas não agora. Não com Julian observando cada movimento nosso. O vampiro permanecia alguns passos atrás dela, girando lentamente uma taça de vinho entre os dedos como se estivesse assistindo a um espetáculo particular. E talvez estivesse mesmo, porque Julian percebeu. Claro que percebeu. Vampiros tinham sentidos aguçados demais para ignorar mudanças emocionais e cheiro hormonal. Talvez ele não entendesse completamente o que estava acontecendo, mas sabia que Clara havia se tornado importante para mim. E isso já era perigoso o suficiente.
"Proteja ela."
Kaos voltou a falar. Meu Lycan raramente usava palavras completas; normalmente emoções e impulsos eram suficientes para nossa comunicação. Mas Clara… Clara estava afetando até ele.
— Clara, você precisa confiar em mim e sair deste salão — insisti, tentando suavizar a voz para acalmá-la, embora a urgência ainda estivesse cortante no meu tom.
Ela soltou uma pequena risada nervosa, dando meio passo para trás com desconfiança evidente em seus lindos olhos verdes esmeralda.
— Você continua dizendo que eu corro perigo sem se dar ao trabalho de explicar absolutamente nada para mim — rebateu ela, estreitando os olhos com os braços cruzados.
Porque eu não podia explicar. Como eu diria para uma humana que uma criatura ancestral dentro de mim havia acabado de reconhecê-la como companheira? Ela fugiria, ou pior: pensaria que eu era louco. O homem atrás dela se aproximou lentamente, e meu corpo inteiro reagiu instantaneamente. A ameaça veio antes mesmo do pensamento racional.
"Vampiro."
Kaos rosnou dentro da minha mente. Meu olhar encontrou o dele: frio, calculado e faminto. Ele ainda mantinha a postura elegante e impecável, mas eu conhecia aquele homem há séculos, tempo suficiente para reconhecer o que existia escondido sob a superfície: interesse. Perigoso interesse.
— Você está assustando a jovem jornalista com essa sua intensidade física, Ethan — comentou Julian, com a voz mansa e carregada de uma provocação sutil.
Ignorei o tom provocativo e continuei olhando apenas para ela. Os olhos verdes esmeralda da moça estavam cheios de perguntas agora, exibindo confusão, desconfiança e curiosidade. Curiosidade matava humanos rápido demais no nosso mundo.
— O que você quer de verdade aqui, Julian? — indaguei, mantendo a voz baixa e perigosa enquanto encarava o meu rival.
O oponente ergueu uma sobrancelha elegante, desfrutando da minha perda de controle.
— Neste momento? Honestamente? Estou apenas apreciando a situação dramática da Casa Vance — respondeu Julian com um sorriso de lado.
Mentiroso. Julian nunca observava nada sem motivo, especialmente não quando o cheiro de sangue humano e vínculo sobrenatural começava a preencher o ambiente.
"Companheira nervosa."
Kaos percebeu antes mesmo de mim. A respiração dela havia mudado e os batimentos cardíacos aceleraram. Meu corpo inteiro respondeu automaticamente através de uma proteção que era instinto puro. A jornalista olhou entre nós dois. Ela ainda não entendia, mas começava a perceber que existia algo profundamente errado naquela conversa.
Então aconteceu. O cheiro de sangue atravessou o salão, fraco e recente. Virei imediatamente a cabeça e vi que um dos garçons havia cortado discretamente a mão enquanto trocava taças numa bandeja. O corte era pequeno, mas suficiente. O inimigo percebeu no mesmo instante e seus olhos vermelhos escureceram discretamente. Droga, o vampiro estava com fome, e a jornalista estava perto demais. Me movi automaticamente para a frente dela. Ela percebeu imediatamente.
— O que está acontecendo aqui? — perguntou Clara, com a voz assustada e olhando para as minhas costas.
O predador fechou os olhos por um breve segundo antes de recuperar o controle de sua sede de sangue, mas foi por muito pouco.
— Nada que precise preocupá-la de verdade, senhorita Martins — respondeu Julian com uma suavidade gélida na voz.
Mentira. Conhecia vampiros bem demais para acreditar naquele tom calmo. Então Clara deixou a taça escapar. O vidro atingiu o chão com força, espalhando cacos próximos aos pés dela. Antes que pudesse pensar, segurei o pulso dela: quente. O toque atravessou meu corpo inteiro como fogo.
"Companheira."
Kaos praticamente rugiu dentro da minha mente. A moça ficou imóvel por um segundo, com a respiração presa. Meu corpo inteiro reagiu ao cheiro dela tão perto. Então senti: sangue. Uma gota pequena surgiu no dedo dela, e meu mundo inteiro ficou perigosamente silencioso.
"Companheira ferida."
Kaos avançou dentro da minha mente imediatamente. Meu controle vacilou; senti as garras tentando surgir sob a pele, os olhos queimando e o instinto tomando espaço demais. Não machucar. Proteger. Respirei fundo lentamente.
— Ethan…? — murmurou Clara, olhando fixamente para as minhas pupilas com os olhos arregalados.
Piscar. Respirar. Controle. Soltei o braço dela abruptamente antes que Kaos assumisse espaço demais.
— Você está ferida — comentei com a voz saindo rouca devido ao esforço interno.
Ela olhou para o próprio dedo, minimizando o estrago de forma inocente.
— É só um corte pequeno, não foi nada — respondeu ela.
Mas não era apenas isso. Sangue de companheira mudava tudo para um Lycan, principalmente para um Alfa. O aristocrata soltou uma risada baixa atrás de nós. Quando olhei para ele, os olhos vermelhos estavam presos na gota de sangue no dedo dela, e pela primeira vez naquela noite o sorriso elegante desapareceu. Meu corpo inteiro ficou rígido. A fome vampírica havia aparecido. Instantaneamente me coloquei na frente de Clara, protetor e possessivo. Meu instinto não se importava mais em esconder.
"Companheira nossa."
Kaos parecia perigosamente próximo de perder o controle e rasgar a carne humana para se libertar.
— Clara, vá até o banheiro e lave esse corte imediatamente — ordenei, mantendo o tom firme e autoritário que não aceitava recusa.
— Você está falando sério por causa disso? — questionou Clara, relutante em aceitar minhas ordens diretas.
— Sim, estou falando perfeitamente sério — respondi de pronto, e a resposta saiu rápida e cortante.
A resposta saiu rápida demais. Ela olhou entre nós dois novamente, confusa, desconfiada e assustada. Ótimo, assustada significava cautelosa, e cautela mantinha humanos vivos. Ela se afastou lentamente pelo salão. Esperei até que desaparecesse entre os convidados antes de voltar minha atenção completamente para Julian. O vampiro sorriu de lado, lento e calculado.
— Companheira, Ethan? — provocou Julian, e o tom de sua voz indicava que ele havia desvendado o enigma.
Meu sangue gelou nas veias. Droga, ele sabia a verdade, ou pelo menos suspeitava que tinha um laço de companheirismo que me unia àquela humana.
"Livre-se do vampiro agora."
Kaos rosnou violentamente dentro da minha mente, exigindo que nos livrássemos imediatamente do nosso rival. Ignorei o impulso destrutivo com dificuldade. Por enquanto, precisei manter a diplomacia do Tratado viva.