Capítulo 1

POV: Clara Martins

“A verdade não se esconde nas sombras. Ela se esconde em quem controla a luz.”

A chuva caía fina sobre Ravenhold, desenhando reflexos dourados e tremidos no asfalto molhado. Lá do vigésimo andar da sede do jornal Ravenhold Herald, a cidade parecia bonita demais para esconder tanta coisa podre. Eu segurava uma caneca de café frio entre os dedos enquanto observava os carros cruzando lentamente as avenidas abaixo. O relógio na parede marcava quase duas da manhã, e eu ainda estava presa naquele maldito escritório.

Três pessoas desapareceram em menos de dois meses. Sem ligação aparente, sem suspeitos e sem corpos. A polícia chamava de coincidência, mas eu chamava de mentira. Suspirei profundamente, afastando algumas mechas rebeldes do cabelo do rosto antes de voltar a encarar o mural improvisado de cortiça preso na parede principal. Fotos, recortes de jornal, nomes escritos e linhas vermelhas de barbante ligavam os rostos daqueles perfeitos desconhecidos. Tudo levava exatamente para o mesmo lugar: o Baile de Inverno da Fundação Belmont.

Luxuoso, exclusivo e intocável. A elite de Ravenhold adorava fingir que aquele evento anual era apenas uma noite beneficente cheia de vestidos caros e discursos hipócritas sobre solidariedade. Eu não acreditava nisso nem por um único segundo. Dinheiro demais sempre escondia sujeira demais. Peguei a foto de Miguel Azevedo, de trinta e quatro anos. Ele trabalhava como segurança terceirizado e acabou desaparecido três dias depois do baile do ano anterior. A polícia logo alegou fuga voluntária, mas a família insistia que não. E eu acreditava de verdade neles.

Ao lado da foto de Miguel estava fixada a ficha de Beatriz Mello, uma garçonete temporária de vinte e dois anos desaparecida há duas semanas. Sua última localização conhecida foi a Fundação Belmont.

— Isso não pode ser coincidência — murmurei para as paredes vazias, falando comigo mesma em meio ao silêncio sepulcral da sala.

Meu celular vibrou sobre a mesa, quebrando o transe do meu raciocínio lógico.

"Você ainda tá no jornal?"

A mensagem de texto de Camila apareceu na tela e eu sorri de leve, pois ela me conhecia bem demais após tantos anos de convivência.

"Tô terminando."

Eu respondi de forma rápida, mas a tréplica da minha amiga chegou de forma praticamente instantânea na tela iluminada.

"Mentira. Vai dormir."

Soltei uma pequena risada cansada e apoiei a cabeça no encosto da cadeira por alguns segundos. Dormir parecia uma ideia maravilhosa, mas totalmente impossível no momento. Não enquanto aquilo continuasse incompleto.

Olhei novamente pela janela. Ravenhold brilhava lá fora como uma cidade perfeita, elegante, rica e viva. Mas eu sentia o cheiro da podridão escondida sob aquela beleza. Talvez fosse por isso que eu me tornei jornalista. Enquanto as outras pessoas aceitavam respostas fáceis, eu precisava cavar mais fundo. Precisava entender, mesmo quando a verdade machucava, e, principalmente, quando machucava.

Voltei para o notebook e comecei a revisar a lista de convidados confirmados para o baile daquele ano. Políticos, empresários e famílias tradicionais. Então, um nome me chamou a atenção: Ethan Vance. Franzi a testa imediatamente. Os Vance eram conhecidos em Ravenhold justamente porque ninguém sabia quase nada sobre eles. Ricos, extremamente discretos e estranhamente ausentes da vida pública.

Cliquei no perfil dele na busca. Pouquíssimas informações: empresário, investidor, solteiro. Nenhuma rede social, nenhuma entrevista, nenhum escândalo. Nada. O que era estranho demais para alguém tão rico na era digital.

— Você é misterioso demais para o meu gosto, Ethan Vance — sussurrei para mim mesma, estreitando os olhos diante do monitor.

Algo naquele nome me causou um desconforto estranho, como uma sensação persistente no fundo da mente. Peguei meu caderno e anotei a caneta: “Observar Ethan Vance durante o baile.” Meu celular vibrou novamente, mas dessa vez era uma ligação. Eu atendi.

— Clara? Você ainda tá aí? — questionou minha amiga do outro lado da linha, com a voz carregada de preocupação.

— Eu já tô indo embora, Cami, relaxa — menti descaradamente, ajeitando os papéis na mesa.

— São quase duas da manhã, garota! — repreendeu Camila, em um tom de censura carinhosa que eu conhecia bem.

— O jornalismo investigativo não dorme com hora marcada — argumentei com um tom determinado, defendendo minha obsessão pelas pistas.

— Pelo visto você também não, aparentemente — rebateu Camila com um suspiro repreensivo antes de continuar. — Falando sério, Clara, você precisa descansar.

— Mas eu tô muito perto de descobrir alguma coisa grande, Cami — insisti, encostando o aparelho na orelha enquanto analisava o mural de cortiça.

— Você sempre fala exatamente isso antes de se meter em alguma encrenca federal — lembrou ela, conhecendo meu histórico de riscos.

— Mas encrenca faz parte da minha profissão, você sabe muito bem — justifiquei com um sorriso de lado.

Camila suspirou profundamente do outro lado da linha, e quando voltou a falar, adotou um tom consideravelmente mais sério do que o habitual, o que me fez endireitar a postura na cadeira.

— Só toma cuidado de verdade com essa fundação, Clara. Gente poderosa demais costuma esconder coisas piores ainda.

Olhei novamente para o mural na parede, focando nas fotos, nos desaparecidos e nas perguntas que continuavam sem nenhuma resposta oficial.

— E isso por acaso deveria me deixar mais tranquila, Cami? — indaguei, sentindo um arrepio sutil na espinha.

Camila soltou uma risada baixa e totalmente desprovida de humor antes de me dar o veredito.

— Não. Deveria fazer você pensar duas vezes antes de entrar naquele baile sozinha e sem proteção.

Mas eu já tinha me decidido e não voltaria atrás na minha investigação. Entraria naquele salão de festas da elite nem que precisasse mentir para metade da cidade ou falsificar credenciais para conseguir um convite.

— Eu vou ficar bem, relaxa — garanti de forma firme.

— Essa frase nunca termina bem em filmes de suspense, Clara — alertou ela com um tom sombrio.

— Ainda bem que isso aqui não é um filme. Até amanhã, Cami — finalizei, desligando a chamada.

Depois de desligar, fiquei alguns segundos olhando meu reflexo no vidro da janela. Eu parecia destruída pelo cansaço: olheiras leves, cabelo preso de qualquer jeito e uma expressão tensa. O glamour do jornalismo investigativo definitivamente era propaganda enganosa.

A redação inteira estava silenciosa agora. Só restavam o som distante da chuva forte e o zumbido baixo das luzes do prédio. Então, ouvi um estalo no corredor. Meu corpo inteiro ficou rígido e tenso. Virei imediatamente na direção do corredor escuro do lado de fora da sala.

— Tem alguém aí? É o segurança? — gritei para o corredor escuro, mas nenhuma resposta veio da recepção vazia.

Nenhuma resposta veio da recepção. Provavelmente era algum guarda noturno, ou pelo menos era isso que eu queria forçar a minha mente a acreditar. Levantei devagar da cadeira e caminhei até a porta aberta. As luzes automáticas do corredor haviam apagado fazia alguns minutos, deixando tudo mergulhado numa escuridão estranha e silenciosa demais.

Foi então que eu vi. Uma sombra atravessou o final do corredor principal. Era rápida, alta e impossivelmente silenciosa para o tamanho dela. Meu estômago gelou instantaneamente.

— Ei! Para aí! — gritei para a sombra, correndo na direção do vão da porta.

Nada de resposta. Dei mais alguns passos rápidos para fora da sala, mas o corredor já estava completamente vazio. Mas o ar pareceu totalmente diferente agora: mais pesado, mais frio. Uma sensação desconfortável de arrepio percorreu minha nuca, exatamente como se alguém estivesse me observando na penumbra. Respirei fundo e tentei afastar a paranoia da cabeça. Eu estava exausta, só isso. Precisava dormir. Precisava ir para casa urgentemente.

Voltei rapidamente para a sala, recolhi minha bolsa, guardei o notebook e peguei a câmera profissional. Então, percebi algo estranho que me chamou a atenção no mural. Uma das fotografias havia caído no chão: a foto de Miguel Azevedo. Me abaixo lentamente para pegá-la do carpete e congelei no mesmo instante. No verso da fotografia, havia uma frase escrita à mão com uma tinta preta fresca. Uma frase ameaçadora que definitivamente não estava ali antes.

“Pare de procurar.”

Meu coração disparou violentamente contra as costelas. Virei imediatamente em direção ao corredor escuro e vazio, com a respiração curta e os dedos gelados de pavor. Porque, naquele instante, eu tive absoluta certeza de uma coisa: alguém esteve dentro daquela sala enquanto eu estava distraída ao telefone. E talvez essa pessoa ainda estivesse na escuridão, me observando.

Capítulo 2

POV: Clara Martins

“Algumas pessoas entram em nossas vidas como acidentes. Outras entram como destino.”

O vestido preto apertava mais do que eu gostaria. Puxei discretamente o tecido na lateral enquanto observava a fachada iluminada da Fundação Belmont pela janela do táxi. O prédio parecia saído de outro século, ostentando colunas enormes, escadarias de mármore e janelas douradas que refletiam a luz da cidade. Era rico, elegante e intimidador. Exatamente o tipo de lugar onde pessoas perigosas escondiam segredos atrás de sorrisos educados. Respirei fundo antes de pagar o motorista e descer do carro. O vento gelado da noite arrepiou minha pele imediatamente.

Por um breve segundo, hesitei. Talvez Camila tivesse razão e aquilo fosse grande demais, perigoso demais. Então lembrei das famílias dos desaparecidos, da mensagem atrás da fotografia e da sensação horrível de estar sendo observada. “Pare de procurar.” Meu maxilar se contraiu. Agora eu precisava descobrir a verdade ainda mais. Subi os degraus lentamente, tentando ignorar o aperto estranho no peito. O salão principal era absurdamente luxuoso. Lustres enormes refletiam luz dourada pelo teto altíssimo, a música clássica preenchia o ambiente suavemente e garçons atravessavam o salão carregando bandejas de prata, enquanto perfumes caros se misturavam ao aroma de vinho e flores brancas. Todo mundo parecia pertencer àquele lugar, menos eu.

Peguei uma taça de champanhe apenas para parecer menos deslocada enquanto analisava discretamente os convidados. Havia políticos, empresários e socialites. Rostos treinados para sorrir mesmo escondendo podridão por trás dos dentes perfeitos. Caminhei devagar pelo salão, observando conversas e movimentos. Nada parecia fora do lugar, e aquilo me incomodava mais ainda. Meu olhar percorreu o ambiente mais uma vez. Então encontrei ele. O mundo inteiro pareceu desacelerar. Um homem estava parado próximo à grande escadaria central. Ele era alto, vestido completamente de preto, e os cabelos escuros caíam levemente sobre a testa. Sua postura imóvel transmitia uma presença absurdamente intimidadora. Mas foram os olhos que prenderam minha atenção: dourados, intensos e impossíveis.

Meu coração falhou por um segundo. Uma sensação estranha atravessou meu corpo tão rápido que perdi o ar, como eletricidade correndo sob minha pele. Ele também estava me encarando agora, e algo na expressão dele mudou instantaneamente. Houve choque e reconhecimento. Meu peito queimou de repente. Levei a mão até o coração por instinto, sentindo uma dor quente atravessar meu corpo. Era profunda, estranha e quase viva. O homem deu um passo na minha direção, e eu senti algo invisível puxando nós dois. Meu corpo inteiro entrou em alerta. Aquilo não fazia sentido, afinal, eu nunca tinha visto aquele homem antes. Então por que parecia que alguma parte de mim o reconhecia? Ele parou abruptamente. Os músculos do maxilar se tensionaram como se estivesse lutando contra alguma coisa. Por um instante, os olhos dourados brilharam de maneira sobrenatural. Prendi a respiração. Aquilo não era normal. Uma voz masculina surgiu ao meu lado.

— Interessante — murmurou uma voz masculina ao meu lado, chamando minha atenção.

Me virei, assustada. O homem ao meu lado parecia o completo oposto do desconhecido de olhos dourados. Ele era elegante, calmo e perigosamente bonito. Os cabelos castanho-escuros estavam perfeitamente alinhados, e os olhos avermelhados analisavam meu rosto com atenção desconfortável. O sorriso dele era educado, mas frio, muito frio.

— Desculpe? — indaguei, estreitando as sobrancelhas com desconfiança.

O homem ergueu lentamente sua taça de vinho na minha direção, fazendo um brinde silencioso antes de desviar o olhar para a base dos degraus.

— Faz muito tempo que não vejo Ethan Vance perder o controle daquela maneira — comentou ele, com a voz mansa e calculada.

O nome atingiu minha memória imediatamente. Ethan. O sobrenome da lista. Voltei os olhos para o homem próximo à escadaria. Ele continuava me encarando como se o resto do salão tivesse deixado de existir.

— Você o conhece? — perguntei antes de conseguir conter o impulso da minha curiosidade.

O homem ao meu lado sorriu de lado, um sorriso que não alcançou seus olhos frios.

— Infelizmente, sim — respondeu ele, adotando um tom enigmático e controlado demais para soar natural. Ele estendeu a mão na minha direção. — Julian McCord. Sou um velho conhecido da família Vance.

Apertei sua mão por educação e senti sua pele anormalmente gelada, fria demais para um ser humano vivo. Reprimi um arrepio instintivo, quebrando o contato o mais rápido possível.

— Clara Martins — me apresentei, sustentando o olhar dele.

Os olhos vermelhos de Julian pareceram escurecer discretamente ao ouvir meu nome. Foi rápido, quase imperceptível, mas eu percebi. Ele inclinou levemente a cabeça.

— Então você é a Clara — disse ele, e o tom de sua voz fez minha pele gelar na mesma hora.

— Como você sabe o meu nome? — indaguei, cruzando os braços e assumindo uma postura defensiva.

— Jornalistas costumam chamar bastante atenção quando fazem perguntas perigosas pela cidade — respondeu Julian, exibindo um sorriso cínico.

O sorriso elegante permaneceu intacto, mas agora eu conseguia enxergar algo escondido por trás dele. Era uma ameaça, um instinto puro e predatório. Julian se aproximou apenas o suficiente para que ninguém além de mim pudesse ouvir.

— Você deveria tomar cuidado com certas portas, senhorita Martins. Algumas verdades costumam devorar pessoas inteiras.

Meu estômago apertou instantaneamente. Antes que eu pudesse responder, uma presença surgiu logo atrás de mim. Era pesada, quente e avassaladora. Meu corpo reagiu imediatamente e eu me virei. O homem misterioso da escadaria estava diante de mim agora. De perto, ele parecia ainda mais intimidador, mais alto, mais intenso e mais perigosamente bonito. Os olhos dourados passaram rapidamente por Julian antes de voltarem para mim. A expressão dele era impossível de decifrar, mas havia tensão em cada músculo de seu corpo, como um animal contendo violência. Julian sorriu lentamente.

— Ethan — provocou Julian, e o nome soou como uma afronta direta no meio do salão.

O recém-chegado ignorou completamente a presença de Julian, mantendo seus olhos dourados presos aos meus com uma possessividade que me deixou sem ar.

— Você precisa ir embora daqui imediatamente — disse ele, e sua voz grave e impositiva atravessou meu corpo de uma forma absurda. Franzi a testa no mesmo instante, recusando-me a ser intimidada.

— Desculpa? — desafiei, firmando meus passos no mármore.

— Agora — ordenou ele, mantendo o tom firme.

O tom autoritário dele deveria me irritar, e irritava, mas estranhamente também despertava outra sensação: uma vontade irracional de confiar nele. O que era completamente absurdo, já que eu mal conhecia aquele homem.

— Acho que consigo decidir muito bem sozinha quando devo ou não ir embora de um evento — respondi, cruzando os braços e sustentando o olhar dourado.

Por um segundo, algo parecido com frustração atravessou o rosto de Ethan. Então ele se aproximou mais, ficando perto demais. Senti o cheiro dele imediatamente, uma mistura de madeira, chuva e algo selvagem. Meu coração disparou.

— Você não entende o perigo, Clara — sussurrou ele com uma urgência cortante, aproximando o rosto do meu. — Este lugar não é seguro para você.

Julian soltou uma risada baixa e contida logo atrás de nós, observando a nossa proximidade com um brilho de puro divertimento nos olhos vermelhos.

— Ah… isso está ficando consideravelmente interessante — murmurou ele, cruzando os braços na penumbra do salão.

Capítulo 3

POV: Ethan Vance

“O instinto reconhece aquilo que a mente ainda tenta negar.”

O cheiro dela estava me destruindo. Não de uma forma humana, mas muito pior. Kaos também sentia. Meu Lycan caminhava inquieto dentro da minha mente desde o instante em que Clara Martins entrou naquele salão e inundou o ar com seu perfume único de lavanda e notas de pêssego, o cheiro dela era suave, floral e adocicado, mexia comigo de uma forma que não conseguia explicar, me atraia e me acalmava ao mesmo tempo.

"Companheira."

A voz grave dele atravessou meus pensamentos pela décima vez em menos de um minuto. Fechei os olhos rapidamente, tentando recuperar algum controle. Não, aquilo era impossível. Humanos não podiam formar laços de companheiros com Lycans; nunca aconteceu e nunca deveria acontecer. Mas Kaos não se importava com lógica. O instinto dele havia reconhecido Clara imediatamente, e agora meu próprio corpo começava a reagir como se ela fosse a coisa mais importante do mundo, o que era um desastre absoluto.

— Você precisa ir embora daqui imediatamente — ordenei de forma ríspida, aproximando meu rosto do dela em uma tentativa desesperada de tirá-la da mira dos predadores que circulavam o ambiente.

Ela cruzou os braços sobre o peito no mesmo instante, firmando os passos no mármore com uma postura inteiramente desafiadora.

"Nossa companheira tem coragem."

Kaos parecia profundamente satisfeito com a audácia da humana, mas eu ignorei o comentário mental dele com todas as minhas forças.

— Acho que consigo decidir muito bem isso sozinha — respondeu ela, mantendo o tom firme e sustentando o meu olhar dourado

Meu maxilar travou. Normalmente, aquela resposta teria arrancado um sorriso meu, mas não agora. Não com Julian observando cada movimento nosso. O vampiro permanecia alguns passos atrás dela, girando lentamente uma taça de vinho entre os dedos como se estivesse assistindo a um espetáculo particular. E talvez estivesse mesmo, porque Julian percebeu. Claro que percebeu. Vampiros tinham sentidos aguçados demais para ignorar mudanças emocionais e cheiro hormonal. Talvez ele não entendesse completamente o que estava acontecendo, mas sabia que Clara havia se tornado importante para mim. E isso já era perigoso o suficiente.

"Proteja ela."

Kaos voltou a falar. Meu Lycan raramente usava palavras completas; normalmente emoções e impulsos eram suficientes para nossa comunicação. Mas Clara… Clara estava afetando até ele.

— Clara, você precisa confiar em mim e sair deste salão — insisti, tentando suavizar a voz para acalmá-la, embora a urgência ainda estivesse cortante no meu tom.

Ela soltou uma pequena risada nervosa, dando meio passo para trás com desconfiança evidente em seus lindos olhos verdes esmeralda.

— Você continua dizendo que eu corro perigo sem se dar ao trabalho de explicar absolutamente nada para mim — rebateu ela, estreitando os olhos com os braços cruzados.

Porque eu não podia explicar. Como eu diria para uma humana que uma criatura ancestral dentro de mim havia acabado de reconhecê-la como companheira? Ela fugiria, ou pior: pensaria que eu era louco. O homem atrás dela se aproximou lentamente, e meu corpo inteiro reagiu instantaneamente. A ameaça veio antes mesmo do pensamento racional.

"Vampiro."

Kaos rosnou dentro da minha mente. Meu olhar encontrou o dele: frio, calculado e faminto. Ele ainda mantinha a postura elegante e impecável, mas eu conhecia aquele homem há séculos, tempo suficiente para reconhecer o que existia escondido sob a superfície: interesse. Perigoso interesse.

— Você está assustando a jovem jornalista com essa sua intensidade física, Ethan — comentou Julian, com a voz mansa e carregada de uma provocação sutil.

Ignorei o tom provocativo e continuei olhando apenas para ela. Os olhos verdes esmeralda da moça estavam cheios de perguntas agora, exibindo confusão, desconfiança e curiosidade. Curiosidade matava humanos rápido demais no nosso mundo.

— O que você quer de verdade aqui, Julian? — indaguei, mantendo a voz baixa e perigosa enquanto encarava o meu rival.

O oponente ergueu uma sobrancelha elegante, desfrutando da minha perda de controle.

— Neste momento? Honestamente? Estou apenas apreciando a situação dramática da Casa Vance — respondeu Julian com um sorriso de lado.

Mentiroso. Julian nunca observava nada sem motivo, especialmente não quando o cheiro de sangue humano e vínculo sobrenatural começava a preencher o ambiente.

"Companheira nervosa."

Kaos percebeu antes mesmo de mim. A respiração dela havia mudado e os batimentos cardíacos aceleraram. Meu corpo inteiro respondeu automaticamente através de uma proteção que era instinto puro. A jornalista olhou entre nós dois. Ela ainda não entendia, mas começava a perceber que existia algo profundamente errado naquela conversa.

Então aconteceu. O cheiro de sangue atravessou o salão, fraco e recente. Virei imediatamente a cabeça e vi que um dos garçons havia cortado discretamente a mão enquanto trocava taças numa bandeja. O corte era pequeno, mas suficiente. O inimigo percebeu no mesmo instante e seus olhos vermelhos escureceram discretamente. Droga, o vampiro estava com fome, e a jornalista estava perto demais. Me movi automaticamente para a frente dela. Ela percebeu imediatamente.

— O que está acontecendo aqui? — perguntou Clara, com a voz assustada e olhando para as minhas costas.

O predador fechou os olhos por um breve segundo antes de recuperar o controle de sua sede de sangue, mas foi por muito pouco.

— Nada que precise preocupá-la de verdade, senhorita Martins — respondeu Julian com uma suavidade gélida na voz.

Mentira. Conhecia vampiros bem demais para acreditar naquele tom calmo. Então Clara deixou a taça escapar. O vidro atingiu o chão com força, espalhando cacos próximos aos pés dela. Antes que pudesse pensar, segurei o pulso dela: quente. O toque atravessou meu corpo inteiro como fogo.

"Companheira."

Kaos praticamente rugiu dentro da minha mente. A moça ficou imóvel por um segundo, com a respiração presa. Meu corpo inteiro reagiu ao cheiro dela tão perto. Então senti: sangue. Uma gota pequena surgiu no dedo dela, e meu mundo inteiro ficou perigosamente silencioso.

"Companheira ferida."

Kaos avançou dentro da minha mente imediatamente. Meu controle vacilou; senti as garras tentando surgir sob a pele, os olhos queimando e o instinto tomando espaço demais. Não machucar. Proteger. Respirei fundo lentamente.

— Ethan…? — murmurou Clara, olhando fixamente para as minhas pupilas com os olhos arregalados.

Piscar. Respirar. Controle. Soltei o braço dela abruptamente antes que Kaos assumisse espaço demais.

— Você está ferida — comentei com a voz saindo rouca devido ao esforço interno.

Ela olhou para o próprio dedo, minimizando o estrago de forma inocente.

— É só um corte pequeno, não foi nada — respondeu ela.

Mas não era apenas isso. Sangue de companheira mudava tudo para um Lycan, principalmente para um Alfa. O aristocrata soltou uma risada baixa atrás de nós. Quando olhei para ele, os olhos vermelhos estavam presos na gota de sangue no dedo dela, e pela primeira vez naquela noite o sorriso elegante desapareceu. Meu corpo inteiro ficou rígido. A fome vampírica havia aparecido. Instantaneamente me coloquei na frente de Clara, protetor e possessivo. Meu instinto não se importava mais em esconder.

"Companheira nossa."

Kaos parecia perigosamente próximo de perder o controle e rasgar a carne humana para se libertar.

— Clara, vá até o banheiro e lave esse corte imediatamente — ordenei, mantendo o tom firme e autoritário que não aceitava recusa.

— Você está falando sério por causa disso? — questionou Clara, relutante em aceitar minhas ordens diretas.

— Sim, estou falando perfeitamente sério — respondi de pronto, e a resposta saiu rápida e cortante.

A resposta saiu rápida demais. Ela olhou entre nós dois novamente, confusa, desconfiada e assustada. Ótimo, assustada significava cautelosa, e cautela mantinha humanos vivos. Ela se afastou lentamente pelo salão. Esperei até que desaparecesse entre os convidados antes de voltar minha atenção completamente para Julian. O vampiro sorriu de lado, lento e calculado.

— Companheira, Ethan? — provocou Julian, e o tom de sua voz indicava que ele havia desvendado o enigma.

Meu sangue gelou nas veias. Droga, ele sabia a verdade, ou pelo menos suspeitava que tinha um laço de companheirismo que me unia àquela humana.

"Livre-se do vampiro agora."

Kaos rosnou violentamente dentro da minha mente, exigindo que nos livrássemos imediatamente do nosso rival. Ignorei o impulso destrutivo com dificuldade. Por enquanto, precisei manter a diplomacia do Tratado viva.

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