Meu estômago se contraiu, ameaçando se rebelar. Forcei a última mordida goela abaixo, a textura como cinzas na minha boca. Minha garganta ardia. Lutei contra a vontade de vomitar, lutei com cada fibra do meu ser.
Esse era o jogo. E eu tinha que vencer.
Consegui esboçar um sorriso fraco e grato para Breno. Uma performance perfeita de subserviência. Meus olhos, no entanto, mantinham uma resolução fria e inabalável que ele não conseguia ver.
Karina oscilou levemente, a mão voando para a boca. Seus olhos, arregalados e horrorizados, alternavam entre Breno e eu. Ela parecia que ia passar mal. A ironia não me escapou.
Lembrei-me de um tempo em que eu não suportava um grão de poeira nas minhas roupas, uma mancha nos meus talheres. Minha antiga eu, aquela que organizava meticulosamente seu império farmacêutico, que exigia perfeição em cada faceta de sua vida. Aquela Clarice teria rido da ideia de comer do lixo. Ela teria demitido Breno, e depois seu chefe de gabinete, só por sugerir isso.
Meu pai estava tão orgulhoso de mim naquele dia, o dia em que anunciei meu divórcio de Breno. Ele viu o fogo nos meus olhos, o aço na minha espinha. Ele sabia que eu não toleraria infidelidade, nem em um parceiro, nem nos negócios. Ele aplaudiu minha força.
Essa força, no entanto, foi rapidamente usada contra mim.
O que eu não sabia era que Breno e Karina já haviam conspirado. Enquanto eu focava em reconstruir minha vida, eles envenenavam a medicação cardíaca do meu pai, assistindo-o desaparecer lentamente, e depois celebrando sua morte "acidental". Minha suspeita, meu luto, minha fúria – tudo foi distorcido como sintomas de instabilidade.
Eles atacaram rápido.
Semanas após a morte do meu pai, Breno, tendo garantido sua posição através da minha curatela, tomou o controle do Grupo Mendes. O legado da família, construído por gerações, agora era deles. Seus nomes estavam estampados em todas as manchetes, em cada conquista. Enquanto eu estava trancada, sedada, rotulada como "mentalmente instável".
Minha fúria, uma brasa crua e ardente, explodiu uma vez. Eu confrontei Breno, gritando, acusando-o do assassinato do meu pai. Tentei até empurrá-lo, uma tentativa desesperada e desajeitada de retribuição. Foi toda a prova de que precisavam. O "surto". O "perigo". O prego final no meu caixão.
Eles usaram meu amor pelo meu filho, Léo, contra mim.
— Você é um perigo para ele, Clarice. Você não está bem.
A Dra. Alice, a psiquiatra gentil e astuta que trouxeram, foi rapidamente influenciada pelas mentiras encantadoras de Breno e pela performance chorosa de Karina. Fui institucionalizada.
Por meses, eles viveram no luxo, banhando-se em sua glória roubada, em sua fortuna roubada. Eles achavam que tinham vencido. Mas não tinham visto o fogo nos meus olhos de fantasma.
Um gemido suave me trouxe de volta.
Léo. Ele estava chorando no berçário.
Meu coração apertou. Caminhei até lá, minhas pernas pesadas, cada passo um esforço consciente. Peguei-o no colo, aninhando seu corpo pequeno e quente contra meu peito. O choro dele suavizou para um gorgolejo. Ele se aconchegou em mim, seu peso inocente um bálsamo, uma razão.
Karina estava na porta, nos observando. Havia algo não dito em seu olhar, algo quase suplicante. Ela abriu a boca, depois fechou novamente.
Evitei os olhos dela, virando-me, carregando Léo para dentro do quarto. Ouvi-a suspirar, um som suave e derrotado.
Uma fresta de luz sob a porta. Era Breno. Ele tinha seguido Karina. Ele estava zombando dela, eu sabia.
— Não se preocupe, Karina. — A voz dele era baixa, debochada. — Ela vai limpar. Ela sempre limpa. — Ele entregou a ela um frasco de limpador industrial. — Aqui. Você parece precisar disso.
Karina pegou o frasco, os dedos tremendo. Ela não olhou para mim, mas seus olhos continham um novo tipo de medo.
— Obrigada — ela sussurrou, a voz quase inaudível.
O olhar de Breno demorou em mim, um comando silencioso. Eu entendi. A limpeza. O ritual. A penitência por ousar existir.
Fechei a porta do berçário suavemente. Léo dormia pacificamente agora. Meu pequeno guerreiro.
Caminhei até o banheiro, o cheiro forte e químico do limpador já preenchendo o ar. Minhas mãos ainda estavam em carne viva da esfregada forçada de ontem. Minha pele descascava, pequenos cortes cruzando as palmas.
Derramei o líquido agressivo no chão, os vapores ardendo no meu nariz, nos meus olhos. Ajoelhei-me, empurrando minhas mãos nuas na solução cáustica.
A dor foi imediata, abrasadora.
Minha pele gritou. Mordi o lábio para conter um grito, um gemido. Eu não daria a eles a satisfação. A mordida ácida corroía minha carne, cada esfregada uma punição pela minha própria existência. Minhas mãos eram uma confusão de carne viva e sangue.
— Já chega, Clarice. — A voz de Breno, desprovida de emoção, quebrou o silêncio. — Você terminou.
Levantei-me, meu corpo rígido, minhas mãos latejando. Vesti rapidamente uma camisa limpa e larga, meus movimentos desajeitados. Minhas mãos ardiam como se estivessem no fogo. Breno estava me esperando.
— Clarice, você está horrível — disse ele, a voz carregada de uma preocupação fingida. — Talvez você devesse tentar ser menos... dramática. Isso só torna as coisas mais difíceis para você. — Ele fez uma pausa, um brilho predatório nos olhos. — Sabe, se você apenas obedecer, nada disso precisa acontecer.
Obedecer. A palavra pairou no ar, pesada com ameaças não ditas. Obedecer, e talvez eu não voltasse para a clínica. Obedecer, e talvez eu pudesse ver meu filho.
Lembrei-me de Breno. O homem que me arrebatou, seu carisma uma luz cegante. Ele era o talento jovem, ambicioso e brilhante que contratei, aquele que viu minha visão, que entendeu minha garra. Ele jurou que amava minha ambição, jurou que sempre seria minha rocha, meu parceiro.
— Para sempre, Clarice. Com você, é sempre para sempre.
As palavras dele agora pareciam uma piada cruel.
Breno se mexeu impacientemente.
— Clarice, você está me ouvindo?
Assenti, forçando um sorriso vazio.
— Claro, Breno. Eu entendo. — Tentei passar por ele, em direção ao berçário, impulsionada por uma necessidade instintiva de verificar Léo.
Mas Breno bloqueou meu caminho, a mão no meu braço. O aperto era surpreendentemente gentil, mas firme.
— O que aconteceu com você, Clarice? — A voz dele era baixa, quase um sussurro. — Você costumava ser tão vibrante. — Ele parecia genuinamente perplexo, talvez até magoado.
Meu coração parecia uma coisa murcha dentro do peito.
O que aconteceu comigo? Você aconteceu, Breno. Você e sua bruxa conspiradora. Vocês me quebraram, pedaço por pedaço agonizante. Vocês me fizeram assistir meu pai morrer, roubaram minha empresa e me marcaram como louca. Vocês me fizeram passar pelo inferno, me despiram da minha dignidade, e agora você me pergunta o que aconteceu?
Lembrei-me do dia do nosso casamento. O sol brilhando no oceano, o cheiro de rosas frescas, a mão dele na minha. Seus votos, sussurrados no meu ouvido: "Prometo te amar, te honrar, ficar ao seu lado, sempre."
E eu acreditei nele. Tão completamente.
O rosto de Breno estava perto agora, os olhos procurando os meus.
— Sinto falta da velha Clarice — ele murmurou. — Aquela que tinha luz. — Ele se inclinou, como se fosse me beijar.
Recuei, meu corpo reagindo instintivamente. Os lábios dele roçaram minha bochecha, frios e insensíveis.
— Por que você me afasta, Clarice? — A voz dele estava carregada de algo que quase confundi com dor. — Você não se lembra de nós?
Eu me lembrava de tudo. Cada mentira, cada traição, cada movimento calculado.
E eu me lembrava da verdadeira Clarice. Aquela que eles achavam que tinham enterrado. Ela ainda estava aqui. Observando. Esperando.
E ela ia queimar o mundo deles até o chão.
Breno subiu as escadas de dois em dois degraus, seus passos ecoando no silêncio. Ele ia para seu escritório, seu santuário. E eu fui deixada nos destroços da nossa vida compartilhada.
Karina, sempre a oportunista, aproveitou o momento. Ela se colocou entre mim e a porta do berçário, a mão no quadril, um gesto territorial.
— Querida — ela ronronou, a voz enjoativamente doce. — Breno quer que você o leve até o local do novo empreendimento. Sabe, onde estão construindo o novo campus do Grupo Mendes. — Ela fez uma pausa, o sorriso se alargando. — Você não tem saído muito, não é? Vai te fazer bem ver um pouco da cidade, mesmo que seja só de dentro do carro.
Engoli em seco, o significado implícito pairando pesado no ar. Você não tem permissão para ir a lugar nenhum sozinha. Você ainda está sob curatela. Você ainda é uma prisioneira.
— Claro — eu disse, minha voz plana. — Vou pegar as chaves.
Ela se afastou, os olhos brilhando de satisfação. Uma pequena vitória para ela. Mas eu tinha um destino diferente em mente.
Dirigi, minhas mãos apertadas no volante. As ruas familiares de São Paulo passavam borradas, cada curva um eco doloroso de uma vida que eu vivi. O horizonte da cidade, antes um símbolo da minha ambição, agora um monumento à minha perda.
Meu estômago apertou. Este não era o caminho para o novo empreendimento. Meu coração martelava contra as costelas. Eu conhecia essa estrada. E um pavor frio se instalou nas minhas entranhas.
Era o caminho para casa. A casa da minha infância. Aquela que Breno e Karina tinham colocado à venda recentemente.
Apertei o volante com mais força. Não. Eles não fariam isso.
Pisei no freio com força, os pneus cantando, parando pouco antes do velho portão familiar. Breno nem percebeu que eu tinha parado. Estava ocupado demais no celular, alheio a tudo.
Abri a porta do carro, correndo e tropeçando no caminho de cascalho. Meus olhos se arregalaram, a respiração presa na garganta.
Minha casa. Minha linda e imensa propriedade de família.
Tinha sumido.
Substituída por um canteiro de obras. Um buraco enorme na terra onde meu jardim de rosas costumava ficar.
Escavadeiras estavam paradas, suas lâminas maciças sujas de lama. Trabalhadores em coletes laranjas se moviam como formigas, desmontando o que restava. Meu coração se estilhaçou em um milhão de pedaços. Eles não tinham apenas vendido. Eles tinham demolido.
— Com licença! — Gritei, minha voz rouca. Um jovem trabalhador olhou para cima, assustado. — O que vocês estão fazendo? Onde está a casa? Onde estão os Mendes?
Ele coçou a cabeça, depois apontou para uma pilha de entulho.
— Ah, o lugar antigo? É, foi derrubado. Vai subir um complexo comercial novo. Mas mudaram o cemitério da família para o novo local. Lá perto do antigo parque de escritórios do Grupo Mendes. — Ele deu de ombros, totalmente indiferente.
Outro trabalhador, mais velho, com olhos gentis, se aproximou. Ele olhou de mim para Breno, que ainda estava absorto no telefone.
— Breno Albuquerque, não é? O novo CEO. Incrível o que ele está fazendo com o legado dos Mendes. Um verdadeiro visionário. — Ele sorriu, alheio.
Breno levantou os olhos do telefone, um lampejo de irritação cruzando o rosto. Ele me viu, viu a ferida aberta onde minha casa um dia esteve. E então, uma sombra passou por suas feições. Um lampejo de algo que quase poderia ser arrependimento. Ele evitou meu olhar.
— Clarice, querida, não ligue para eles — disse Breno, a voz tensa. — Era só uma casa velha. Valor sentimental, eu sei. Mas é o progresso, meu amor. Progresso.
Ele tentou colocar um braço ao meu redor, mas eu me afastei.
Minha mente ficou dormente. Minha casa. O local de descanso do meu pai. Tudo se foi. A terra parecia inclinar sob mim. Uma onda de náusea me invadiu, mais forte do que antes. Tudo ficou cinza.
O céu, espelhando meu desespero, se abriu. A chuva caiu, fria e implacável.
Eu corri.
Corri em direção ao antigo parque de escritórios, em direção ao novo local, em direção a qualquer semelhança do que eu havia perdido. O vento uivava, chicoteando meu cabelo no rosto.
Tropecei na lama, caindo com força. Minhas mãos, ainda em carne viva da punição de Breno, rasparam contra fragmentos afiados de concreto e madeira lascada. Pedaços quebrados da minha vida, da minha história, espalhados por toda parte.
Escavei os destroços, desesperada, procurando por qualquer coisa. Um pedaço de porcelana do jogo de chá da minha mãe. Uma pedra do caminho do jardim do meu pai. Qualquer coisa.
Um caco de vidro, brilhando molhado, cortou minha palma. Mal registrei a dor. Meus dedos se fecharam em torno de um objeto familiar, liso e frio. Era um fragmento da estátua de mármore que um dia enfeitou nosso saguão. Meu coração doía, uma pulsação profunda e oca.
— Pai — sussurrei, lágrimas se misturando com a água da chuva no meu rosto. — Ah, pai. Sinto muito. Eu falhei com você. Falhei em proteger seu legado. Falhei com todos.
A tempestade se intensificou, a visibilidade caindo para quase nada. O mundo era um borrão de cinza e verde.
— Clarice?! — A voz de Breno, distante e tensa, cortou o vento. — Clarice, onde você está?
A preocupação dele, eu sabia, era puramente pelas aparências. Ele não podia se dar ao luxo de ter sua esposa mentalmente instável desaparecida, especialmente não aqui. Não agora.
Então, Karina apareceu, um guarda-chuva amarelo brilhante contrastando fortemente com a escuridão. Ela me encontrou primeiro, os olhos arregalados com uma mistura de medo e outra coisa. Algo frio. Malicioso.
— Aí está você, sua vagabunda louca! — Ela gritou, a voz mal audível sobre o vento. Ela correu para frente, agarrando-me pelo braço bom, as unhas cravando. — Que diabos há de errado com você? Não se atreva a estragar isso para o Breno! Não se atreva a estragar minha vida!
Ela me empurrou, com força. Tropecei, meus pés escorregando na lama.
— Você devia estar morta! — Ela sibilou, o rosto contorcido de raiva. — Você devia ter ficado trancada! Minha vida seria perfeita se você não estivesse aqui!
Ela me arrastou em direção à borda do poço lamacento, o chão desmoronando sob meus pés. Engasguei, lutando para respirar, o fedor de terra úmida e sonhos despedaçados enchendo meus pulmões. Minha outra mão, ainda segurando o fragmento de mármore, raspou contra o chão lamacento.
— Karina! Que diabos você está fazendo?! — O rugido de Breno estava mais perto agora.
Karina girou, os olhos selvagens.
— Diga a ela, Breno! Diga que você vai me escolher! Diga que não a quer! Escolha a mim!
Ela me soltou, mas seu pé disparou, me fazendo tropeçar. Gritei, caindo de cabeça no poço, o fragmento de mármore ainda preso na minha mão. Karina gritou, um som agudo e aterrorizado. Ela perdeu o equilíbrio também, caindo atrás de mim.
Caí com força, meu corpo batendo em bordas afiadas, minha cabeça estalando contra algo sólido. O fragmento de mármore pressionou contra meu lado, uma dor lancinante florescendo nas minhas costelas. Karina caiu em cima de mim, seu peso empurrando o caco mais fundo. Engasguei, sangue enchendo minha boca. Senti um fluxo quente e pegajoso descendo pelo meu lado.
Calor. Depois frio. Minha visão embaçou. Eu podia ouvir os gritos em pânico de Breno.
Através da névoa, eu o vi. Breno, descendo a encosta lamacenta. Ele nos alcançou, o rosto pálido de horror. Ele olhou para Karina, depois para mim.
Karina soluçava, segurando o tornozelo.
— Breno! Meu tornozelo! Está quebrado! Ela tentou me matar!
Breno olhou para mim, os olhos cheios de um cálculo aterrorizante. Ele alcançou Karina, puxando-a para seus braços.
— Meu amor, meu pobre amor — ele murmurou, acariciando o cabelo dela. Ele nem olhou para mim.
Estava acontecendo de novo. A mesma escolha. A mesma traição. Meu pai, morrendo no chão, e Breno, segurando Karina, fingindo confortá-la. Ele a escolheu naquela época. Ele a estava escolhendo agora.
— Breno — engasguei, um som cru e desesperado. — Dói.
Ele olhou para mim então, os olhos breves, frios. Um lampejo de algo, talvez culpa, talvez aborrecimento. Mas foi fugaz. Então, ele estava focado em Karina novamente.
— Preciso conseguir ajuda para você, querida — disse ele a ela, a voz frenética. — Fique aqui. Vou chamar socorro.
Ele beijou a testa dela, depois subiu a encosta lamacenta, me deixando sangrando, morrendo, no fundo do poço.
Apertei o fragmento de mármore, o fragmento do meu pai. A chuva continuava a cair, lavando minhas lágrimas, meu sangue, minha dor.
— Pai — sussurrei, o nome um sopro irregular. — Sinto muito. Eu devia ter visto. Eu devia ter protegido você. Eu nunca devia ter deixado você sozinho com ele.