Cinco anos depois
A prova não estava difícil. Embora eu não tivesse certeza de todas as respostas, creio que tenha acertado grande parte. Fui a penúltima a deixar a sala e entregar a folha com o gabarito.
Assim que saí pela porta, Francis me esperava do lado de fora.
- Achei que você nunca mais fosse sair. – ele disse, me oferecendo uma caixa com chicletes.
- Não... – recusei, observando que enquanto passávamos, todas as mulheres, independente da idade, ficavam olhando para ele.
- Achou fácil a prova?
- Não estava difícil. E o que você achou?
- Acho que vou ser um bom “advogato” futuramente.
- Daqueles nada convencidos? – ironizei.
- O que um advogado e uma bióloga tem em comum? – ele perguntou, empurrando meu corpo com o dele.
- Isso é uma piada?
- Claro que não. Eu achei que você responderia “uma amizade eterna”.
- Me poupe, Francis. – revirei meus olhos. – A propósito, você veio com os braços de fora só para chamar a atenção?
- Você não costumava ser tão chata, Vi.
- É que eu estou com muita fome. Isso me deixa irritada e você sabe.
- Vamos comer algo antes de ir embora.
- Sabe que não gosto de comer na rua...
Assim que deixamos o portão da universidade de Noriah, tinha um carrinho móvel de cachorro-quente. Francis foi até lá e pediu um. Cruzei meus braços enquanto ele saía dando uma mordida gigantesca no pão.
- Isso é para me fazer passar vontade? Você é cruel, Francis.
- Quer um pedaço? – ele colocou perto da minha boca enquanto seguíamos caminhando.
- Não.
- Então me olhe comer.
Segui ao lado dele enquanto íamos até o carro. Ele abriu a mochila e retirou duas maçãs de dentro, me entregando.
- Você trouxe isso para mim? – dei uma mordida com vontade, chegando a sentir água na boca.
- Na verdade era uma pra mim e a outra pra você, pois imaginei que poderia ter fome e não traria nada.
- Ah, Francis, você é um encanto de amigo. Eu já disse que te amo hoje?
- Ainda não...
- Eu te amo hoje.
Ele acionou o alarme, abrindo a porta do carro e jogando a mochila para dentro. Sentei ao lado dele e respirei fundo:
- E se eu passar e não vir para a faculdade?
- Pelo menos tentou. – ele ligou o carro, pegando a outra maçã da minha mão.
- Ainda está com fome? Comeu o cachorro-quente em menos de cinco minutos.
- Estou em fase de crescimento.
Comecei a gargalhar ironicamente:
- A sua fase de crescimento deve ter passado a no mínimo uns cinco anos atrás.
- Não brinca! Chata.
Havíamos feito a prova do vestibular. Eu para Biologia e ele para Direito. A diferença é que a família de Francis sabia que ele estava ali naquele momento, certamente torcendo por ele. Enquanto eu estava escondida. Se minha mãe sonhasse que eu estava fazendo aquilo, literalmente me mataria, depois de me torturar em praça pública.
Michelle Miller, minha mãe, não queria que eu perdesse tempo estudando. Conforme fui terminando o Ensino Médio, achei que fosse passar esta ideia dela de que eu nasci para ser modelo ou algo do tipo. Mas não. Ela seguia focada nisto. Além de exigir que eu recebesse a coroa de rainha do baile anual de Primavera todos os anos.
A faculdade implicava estudar longe da minha cidade e me preocupar com outras coisas a não ser futilidades diárias como exercícios, corridas, cuidar da pele, do corpo, do cabelo... Ainda assim Francis insistiu para mim pelo menos tentar. Acabei ouvindo-o e vindo fazer a prova do vestibular escondida.
- Pensando na sua mãe? – ele perguntou.
Assenti com a minha cabeça:
- Como sabe?
- Você fica com o olhar distante.
- Jura?
- Sim. Quando eu for advogado vou processar a sua mãe.
Comecei a rir:
- Por quê? Vai alegar qual motivo?
- Privação de direitos.
- Existe isso?
- Vou ver com meu pai... Mas se não tiver, vou criar para Michelle Miller.
- Isso não vai durar para sempre, Francis.
- Claro que não. Acaba quando ela morrer... Ou você.
- Não seja tão dramático, Francis.
- E Michelle é contraditória. Diariamente lembra você que não pode se relacionar comigo, mas ao mesmo tempo não quer que você saia de Primavera para conhecer outras pessoas. Às vezes tenho a impressão que se ela pudesse, guardava você numa caixinha só para ela.
- Ou no fim, vai sobrar só você para casar comigo, querido Francis Provost. – ri.
- Eu não tenho intenção de sair de Primavera. Minha vida é boa por lá. Então posso fazer o favor de casar com você... Daqui há uns quinze anos. Antes disto, nem pensar.
- Até lá eu já estarei velha e cheia de rugas.
- Se ainda estiver sob o teto da sua mãe, continuará plastificada e sem uma ruga sequer.
- Quanta crueldade com sua melhor amiga. Além do mais, eu não me casaria com você. Quem quereria viver o resto da vida com um homem que “comeu” todas as mulheres da cidade?
- Pensa no lado positivo: não será traída. – ele riu. – Já conheço todas as vaginas de Primavera.
- Não conhece a minha. – me exibi, orgulhosa.
- Isso é um convite?
Dei um tapa no braço dele, que estalou. Ele reclamou, gemendo. Acabei alisando a pele tatuada, arrependida.
- Bate e depois se arrepende?
- Francis, falando em conhecer todas as vaginas, eu não quero que você fique com Dothy.
Ele suspirou:
- Vi, eu amo você... Juro. Mas você não pode tentar me manipular desta maneira.
- Francis, ela tentou me matar.
- Isso faz quase dez anos, Vi. E ela não tentou matar você. Ela lhe deu um pedaço de bolo e tinha leite na composição. Mas talvez ela não esteja mentindo quando alega que não sabia.
- Francis, eu não acredito que você está protegendo Dorothy Falco, a mulher mais odiada de Primavera.
- Em primeiro lugar, eu não estou protegendo Dorothy: só estou dizendo que você pode estar enganada. Em segundo lugar, a mulher mais odiada de Primavera é sua mãe, Michelle Miller. Em terceiro lugar, só você odeia Dothy.
- Você não odeia Dothy? – perguntei, fingindo decepção.
- Eu quero dormir com ela.
- Você já fez isso. Não precisa repetir.
- Ela ficou mil vezes mais gostosa depois. E ela me quer, querida. Então, infelizmente, você não vai poder me impedir.
- E se eu nunca mais falar com você?
- Não somos mais crianças para você me ameaçar, Virgínia. – ele garantiu. – Não me importo.
Suspirei e disse:
- Combinamos que eu não transaria com Douglas, nem você com ela.
- Não “combinamos”. Você combinou sozinha e decidiu por nós dois.
- Francis, você não tem este direito.
- De dormir com quem eu quiser? – ele me olhou, sarcástico.
- De dormir com Dothy.
- “Você” tem problemas com Dothy. Não eu.
- Mas somos amigos...
- Bem falado, somos amigos. Não somos casados.
- Ok, você vai lá, dorme com Dothy e pronto, acabou.
- Eu não disse que iria namorar ou casar com ela. Disse?
- Não.
- Então, qual seu problema?
- Eu odeio ela.
- Não seja infantil, Vi. Você já passou da idade.
- Ok, então nada mais me impede de ficar com o irmão dela.
- Não mesmo. Quer ficar com Douglas, fique. Este acordo de não sairmos com os Falco não existe mais. Combinamos isso quando éramos adolescentes ainda.
Assenti com minha cabeça, furiosa. Sim, eu odiava Dorothy Falco, desde sempre. Motivo: ela tentou me matar, dando um bolo com leite na composição. Ela sempre jurou que não sabia que havia leite, mas nunca acreditei nela. Não nos suportamos, mesmo antes do episódio do bolo e de eu ter parado no hospital.
Mas tinha Douglas Falco, o irmão mais velho de Dorothy. E ele era simplesmente perfeito.
Quando estávamos no Ensino Fundamental, ele estava no Médio e sempre arrancou suspiros de toda Primavera... Depois de Francis, claro. A diferença é que Francis já havia dormido com todo mundo e Douglas era bem mais seletivo.
Eu sabia que ele era interessado em mim, pelos olhares que me lançava. E costumávamos correr nos mesmos horários e com o tempo passamos a nos cumprimentarmos. Mas nunca passou disto.
Apesar de eu ser despachada e decidida, não era muito boa em começar uma conversa com um homem que me interessasse. Eu raramente dava o primeiro passo. Fazia sempre o jogo de flerte, com olhares, gestos, sorrisos, mas dizer abertamente meu interesse, não.
Com Douglas não foi diferente. Não abri precedente para mais de um cumprimento e ele não foi adiante. Se ele tivesse puxado assunto, talvez já teríamos ficado juntos, pois era suficiente para eu sair com ele.
Eu havia ficado com alguns garotos de Primavera na adolescência. E vários de outras cidades também, nos concursos nas proximidades, que minha mãe costumava me inscrever. Embora ela sempre me “empurrasse” descaradamente para os que ela achava que tinham maior poder aquisitivo, às vezes eu conseguia me livrar dela e dar uns beijos em garotos que eu não conhecia e nem queria nada além daquele lance de beijar a passar a mão, sem compromisso.
Perdi a virgindade aos dezesseis anos, com um conhecido da escola. Eu não gostava dele, mas o achava bonito e interessante. Como meu círculo de amigos era pequeno, na verdade minúsculo: eu e Francis, Francis e eu; e o via fazendo sexo com todo mundo, achava que tinha que fazer aquilo também.
Francis me deu uma aula básica de como perder a virgindade e encheu minha bolsa de camisinhas. Odiei a minha primeira experiência sexual. Foi como beijar... Francis... Ou o mesmo que a palma da minha mão. Sem sal, sem gosto, sem tesão, sem nada.
Fui na casa do garoto e Francis ficou me esperando na rua até eu acabar. Sim, porque parece que eu só tinha ido até a casa dele perder a minha virgindade e voltar. E foi o que aconteceu. Uma única vez, dolorida, ardida, saiu sangue e foi decepcionante. Não tive tesão, não fiquei úmida e o membro dele entrou que parecia me rasgar ao meio. Além do fato de ele estar preocupado, com medo dos pais voltarem para casa e nos pegarem na cama. Então, nota zero para minha primeira vez. Orgasmo? O que era isso mesmo?
O garoto acabou indo embora de Primavera alguns anos depois e nunca mais o vi. Não era alguém que eu gostava de lembrar.
Depois disso, decidi que não transaria com ninguém sem realmente ter vontade ou tesão pela pessoa. Então houve mais quatro vezes, ou seja, quatro homens que me despertaram algum tipo de sentimento até aquele momento.
O fato de eu estar sempre com Francis me atrapalhava um pouco com os homens. Embora morássemos numa cidade pequena e praticamente todos se conhecessem, éramos populares dentre os demais, assim como Dothy e seu grupo.
Acabei me tornado um pouco seletiva com os homens, conforme fui crescendo, e isso fez com que eu conseguisse mais admiradores e fosse até motivo de apostas no Ensino Médio. Acho que já havia beijado mais da metade de Primavera... Um pouco na escola e o restante na praça pública, que era o local onde os jovens e reuniam nos finais de semana e algumas noites.
A questão é que os adolescentes cresceram, viraram adultos e continuaram na praça, como se fosse o nosso território. E os que foram crescendo tomaram outros espaços: o salão do baile anual e o lago, que na nossa época não usávamos por ser distante da área central da cidade. Os adolescentes hoje eram mais seguros quanto a isso.
Francis passou devagar pela praça e abaixou a cabeça, olhando para quem estava lá.
- Tivemos sorte, Vi. Douglas e Dothy estão com as amigas dela ali.
Ele estacionou o carro e eu escorei minha cabeça no banco.
- Douglas deixa você nervosa? – ele perguntou, seriamente.
- Um pouco. – confessei. – Eu sou interessada nele há um bom tempo. E ele nunca tentou nada comigo.
- Quer que eu ajude de alguma forma?
- Eu sei como seduzir um homem, Francis. – reclamei.
- Jura? Por que não o seduziu então? Disse que está interessada nele há um bom tempo.
- Então... Acho que não serve para ele minhas técnicas.
Francis riu e abriu a porta para mim, pelo lado de dentro:
- Vamos, sua chata. Hora de conquistar os Falco e aproveitar que meu pai emprestou o carro e levar Dothy para um bom motel.
- Ela não merece... Você vai ver. – desci do carro.
Francis acionou o alarme e pegou meus ombros, olhando nos meus olhos:
- Vi, eu já dormi com ela.
- Então por que precisa dormir de novo?
- Toda Primavera sabe que ela está interessada em mim, Vi.
- Você não precisa provar nada para ninguém, Francis. Então não precisa ficar com ela de novo.
Dorothy Falco era loira e tinha os cabelos passando dos ombros, mais claro que o tom mel. Os olhos eram azuis e ela sempre marcava eles com muito delineador preto. Acho que nunca a vi sem delineador ou máscara para cílios... Desde os doze anos, creio eu.
Ela não era alta, mas também não servia para baixa. Eu era mais alta que ela. Era magra. E completamente antipática. O nariz era fino e ela nem havia feito procedimento estético, como eu. A boca era carnuda, sem botox, creio. Enfim, ela era natural... Se não toda, quase cem porcento.
Suspirei. Todos na cidade sabiam que eu passava no cirurgião uma vez ao ano para “arrumar” qualquer coisa que não estivesse em harmonia no meu corpo eu face. A parte boa era que não jogavam isso na minha cara. Não sei se por medo da minha mãe ou de Francis. Enfim, na adolescência eu tive um certo preconceito contra mim mesma e cheguei a ficar retraída um tempo por vergonha, especialmente depois de ter colocado silicone aos dezesseis anos.
Hoje, aos vinte e um anos, eu era feliz com meu corpo, meu rosto e meus procedimentos estéticos. Já estava numa fase que os próprios cirurgiões diziam para minha mãe que eu era “perfeita” e por isso conseguia fugir de uma facas e bisturis na maioria das vezes.
Devido à minha alimentação restritiva fora de casa e os exercícios físicos regulares de manhã e à noite, meu peso era sempre o mesmo ou às vezes diminuía.
Entramos à praça central de Primavera. Ela ocupava uma quadra inteira e tinha uma calçada cimentada normal. Numa das extremidades tinha um espaço coberto, grande, mas não fechado nas laterais, reservado à eventos importantes como aniversário da cidade, festa de primavera, venda de flores e artigos artesanais nos finais de semana e épocas comemorativas.
Na outra extremidade, havia uma estátua enorme com o primeiro prefeito da cidade, que ficava antigamente na Zona C, quando Noriah ainda era dividida por letras que definiam o nível social das pessoas.
O local era todo gramado naquele lado e tinha um enorme labirinto verde, de altura maior que qualquer pessoa, que era a atração de quem vinha de fora da cidade. O centro dele não era fácil de encontrar, exceto para moradores, já acostumados. Eu nasci tentando encontrar o fim do labirinto. Mas rolava uns beijos na noite naquele local, que era pouco iluminado e geralmente fechado depois das dezenove horas, regra que não cumpríamos, pulando o muro e nos apossando completamente da praça que achávamos que nos pertencia.
Mas hoje respeitávamos as regras. Ficávamos sentados, conversando, nos locais permitidos. Não éramos mais adolescentes em busca de aventuras. Ou éramos? Porque eu e Francis estávamos ali, em busca de aventura, literalmente “caçando” os irmãos Falco.
A praça era em desnível e o labirinto ficava na parte baixa, descendo a escadaria. Na parte superior havia o jardim mais florido do mundo inteiro, creio eu. Tinha tantas flores que era quase impossível contar as quantidades ou espécies.
Nossa cidade era mantida pelas flores. Por isso o nome nada sugestivo: Primavera. Grande parte das famílias sobreviva do cultivo de flores, que exportavam para vários lugares, inclusive internacionalmente. O solo era perfeito, o clima propício e todos estudávamos desde o Ensino Fundamental sobre plantas e flores.
Por isso meu interesse em Biologia. Eu não gostava daquela cidade pequena, onde todo mundo sabia da vida uns dos outros. Mas a parte das flores eu amava.
Por todos os lugares haviam bancos de madeira espalhados, chamados “namoradeiras”. E no centro da praça um pergolado grande, alto e frondoso, com trepadeiras de várias espécies e luzes redondas amarelas e de tom quente, que davam a impressão de que estávamos num filme antigo de romance, daqueles que o galã deita mocinha em seus braços e a beija apaixonadamente.
Eu beijei muitos garotos naquele pergolado. E nos bancos. E no labirinto.
Escolas próximas de nossa cidade vinham fazer visitas alguma vezes para conhecer as espécies de flores. Isso abria brecha para conhecermos garotos novos e levá-los para passear, numa espécie de intercâmbio estudantil.
Os intercâmbios deixaram Francis Provost famoso. Era tido como lindo, bom de cama e gentil com todas as garotas. Mesmo quando dispensava alguém, ele era um fofo. E eu mesma já havia visto várias vezes ele dizendo que não queria uma garota, com a velha desculpa “não é você, sou eu”. “Não mereço você”. Ou então “Você é muito para mim.”
Conforme fomos passando dos dezoito anos, Francis começou a parar um pouco de “comer” todas as garotas da cidade e redondeza. Acho que ele não tinha mais muita opção na verdade... Só se voltasse a pegar todas de novo. Ainda assim, ele não queria se “apegar” a ninguém. E falar em namorar era ofensa para ele. Gostava da sua vida pacata, onde seus pais faziam tudo por ele, o filho único.
Eu e Francis éramos amigos desde sempre. Crescemos juntos, morando um ao lado do outro. Nossos pais eram amigos e se davam bem, estando sempre uns na casa dos outros. De uns anos para cá, isso não acontecia com tanta frequência. Mas eu não sabia se eles haviam se enjoado ou estavam velhos demais para compartilharem ideias e sonhos.
Eu me sentia em casa na casa de Francis e ele na minha, embora minha mãe sempre fosse irritante com ele. Mas acho que ele havia acostumado. Ele também se dava bem com meu irmão, embora não fossem tão amigos quanto eu e ele. Liam era três anos mais novo que nós.
A família Provost não era rica, mas tinha mais poder aquisitivo que os Hernandez. Minha mãe, por não querer que eu me envolvesse com Francis de forma alguma, insistia de chamá-lo de pobre e deixar claro que ele era pouco para mim. Não que um dia fôssemos nos envolver, mas caso tivesse uma mínima possibilidade de acontecer um dia, ela fazia questão de deixar claro sua objeção.
Já tínhamos 21 anos e nunca nos envolvemos amorosa ou fisicamente. Então, não havia possibilidade de acontecer. Eu tinha ciúme dele algumas vezes e deixava isso bem claro. Mas sabia que mais cedo ou mais tarde ele iria se apaixonar por alguém e assumir um relacionamento sério. E eu teria que aceitar que meu amigo não seria mais meu. Mas aquela pessoa não seria Dothy... Porque eu não deixaria.
Eu já estava cansada de ficar sozinha. Francis me fazia companhia, mas éramos amigos, só isso, nada mais que isso. E eu sentia falta de alguém ao meu lado, que me amasse de verdade, que me levasse para passear, que dormisse comigo todas as noites fazendo carinho em mim, que pudesse transar comigo a hora que quiséssemos e não em motéis. Enfim, alguém que se preocupasse comigo e que fosse verdadeiramente meu.
Eu não poderia ficar para o resto da vida com Francis. Mais cedo ou mais tarde, teríamos que encontrar alguém.
Quando percebi, Francis já estava com uma perna para cima, se exibindo com sua camiseta sem mangas e seu braços fortes e tatuados para Dothy. Ele estava arrancando risos de todos, inclusive de Douglas.
Eu fiquei para trás, parada, observando-os. Dothy e seus amigos não eram do mesmo círculo de amizades que eu. Pelo contrário, éramos quase inimigos de grupo. Mas Francis, pelo visto, mesmo pertencendo ao meu grupo, que era quase uma dupla de nós dois, conseguia se inserir facilmente no deles.
Quando percebi, ele veio até mim e olhou nos meus olhos:
- Não está pensando que aquele não é o seu grupo, não é mesmo?
- Estou. – confessei, estreitando meus olhos e enrugando a testa.
- Porra, que parte você não entendeu que cresceu, Vi?
- Olha aqui, Francis, vai até lá, fica no grupo que bem quiser e me deixa aqui, ok?
- Pois bem, vou fazer isso.
E aquela foi a primeira vez que Francis me deixou por outra garota, em 21 anos de amizade. E o problema é que não era qualquer garota: era Dorothy Falco, minha inimiga da vida inteira.
Dei meia volta e fui até a barraquinha de algodão doce. Iria caminhando até minha casa e comendo, pois estava prestes a desmaiar de fome.
- Boa noite, Cesar, eu quero dois algodões.
- Dois? Francis gosta de azul. – ele me entregou um azul e outro rosa.
- Não. – devolvi o azul. – É para mim. Quero dois rosas.
Não que a cor importasse, porque todos tinham o mesmo gosto. Mas eu queria deixar claro que Francis não ficaria com o azul. Aliás, que nem teria azul. Eu comeria dois rosas.
Procurei dinheiro na bolsa e não encontrei.
- César, minha bolsa está uma bagunça... Mas vou achar, um minuto.
- Pode pagar depois, Virgínia. Não tem problema.
- Mas eu vou achar...
- Eu pago para a mulher mais bonita de Primavera. – disse a voz masculina ao meu lado.
Olhei para cima e vi Douglas, já pagando os dois algodões.
- Não precisa... Sou desorganizada, mas tenho dinheiro aqui... – falei, envergonhada.
- Não duvido que tenha. Mas faço questão de pagar.
- Não seja indelicada e aceite, Virgínia. – César riu.
- Obrigada, Douglas. – falei sem jeito.
Peguei os dois algodões e entreguei um para ele:
- Já que pagou, tem direito a um.
- Eu não acredito que você comeria dois. Isso é só açúcar. Vou comer um para ajudar você a não engordar, senão terá que correr em dobro.
- Sabe aqueles dias que você está de mal com o mundo e decide descontar na comida?
- Na comida seria interessante, mas no doce, não. Ainda mais você, que não tem uma grama acima do peso.
Eu amava algodão doce e comecei a comer desesperadamente: por fome e prazer. Minha mãe não me deixava apreciar doces, especialmente aquele, que era praticamente açúcar puro com corante. Mas livre de leite, o que me fazia amá-lo ainda mais. Vez ou outra Francis me levava um escondido na mochila e comíamos no meu quarto.
- Digamos que é o único doce que eu como sem culpa e sem medo. – confessei.
Estávamos voltando em direção aonde estava o carro quando vi Francis de mãos dadas com Dothy, em seguida abrindo a porta do carro para ela.
- Se importa de ir caminhando para casa? – Francis me perguntou, sem se preocupar muito com a minha resposta.
- Não... Tudo bem. – respondi.
- Eu a levo... Se ela quiser, claro. – Douglas sorriu para mim.
- Eu quero. – respondi imediatamente.
- Então tudo certo. – Francis deu a volta para entrar no carro.
Dothy entrou e abriu o vidro, dizendo:
- Douglas, cuide onde vai levá-la. E não esqueça: ela é alérgica a todos os tipos de leite. – ironizou.
- E Francis é alérgico a galinha. – já tentei avançar nela, sendo segurada por Douglas.
Francis me fuzilou com o olhar e ligou o carro, partindo com a piranha e minha inimiga mortal.
Douglas me virou para ele e disse:
- Calma, eu sei que ela é irritante. Mas você já está grandinha para brigar na praça, não é mesmo?
Comecei a rir:
- Estou envergonhada, Douglas. Mas eu entendi o que ela quis dizer e...
Ele colocou o dedo nos meus lábios, me impedindo de falar:
- Eu sei que você é alérgica a leite.
- Não do tipo de leite que ela falou.
- Não entendi... – ele estreitou os olhos e arqueou a sobrancelha, confuso.
Porra, mil vezes porra. Só eu que entendi o sentido duplo do que ela falou? Ou Douglas era muito “lerdo”?
Peguei o dedo dele que tocou meus lábios e o suguei, sensualmente, levando-o quase à minha garganta.
Vi o membro dele endurecer sob a calça rapidamente e umedeci meus lábios, dizendo:
- Não quero ir para casa, Douglas.
- Nem eu... – ele pegou minha mão e foi rapidamente até o carro estacionado.
- Seu? – perguntei.
Ele assentiu, abrindo a porta para mim.
Para que fingir que eu não queria dormir com ele? Fazia anos que eu o admirava correndo e se exercitando com seu belo corpo e morria de tesão por ele, encharcando minha calcinha enquanto olhava a bundinha dura dele no calção colado.
Mas eu achava que não poderia casar com ele, pois odiaria minha cunhada, então não daria certo. Não havia a mínima possibilidade de eu ser amiga de Dothy algum dia.
Eu não costumava ser tão direta. Mas ele foi uma exceção.
Assim que Douglas começou a dirigir, avisei:
- Não quero ir no Motel de Primavera.
Ele me olhou e arqueou a sobrancelha:
- Ok, não me importo de andar mais para comer você.
Que ridículo. Fui direta, mas ele não foi nada romântico. E por que deveria? Éramos adultos que transariam por decisão própria, satisfazendo um ao outro. Não havia sentimentos e nem haveria, muito menos um relacionamento, em função da irmã dele. Ok, pelo menos ande uns quilômetros a mais para “me comer”.
Não conversamos nada enquanto ele dirigia. Comi meu algodão doce e depois o dele, que sequer olhava na minha direção.
- O que você gosta de fazer? – tentei quebrar o clima estranho que se formava.
- Correr. – ele disse secamente.
Ah, eu sabia que ele gostava de correr. Fazia anos que ele corria no mesmo horário, todos os dias, fizesse chuva ou sol. Mal ele sabia que eu corria porque minha mãe me obrigava.
Meu estômago roncou de fome. Puta que pariu, e se eu desmaiasse de fome? Que vergonha... Chamar ele para sair, tentar bater na irmã dele e depois desmaiar de fome.
Enquanto eu pensava em não fazer aquilo e desistir, já que me parecia não haver conexão entre nós, chegamos no Motel. Ele escolheu o primeiro que tinha no caminho, deixando Primavera.
Nada criativo o homem de bunda perfeita e pernas torneadas. E para constar: eu não gostava daquele motel. Era simples e barato. Nada propício para transar com um homem que desejei por anos.
Ele estacionou e abrimos a porta do quarto simples e nada atrativo. Acho até que eu já tinha usado aquele mesmo quarto com o meu parceiro de terceira transa.
Antes que eu pudesse pensar ou falar, ele retirou minha bolsa e fechou a porta, me empurrando para ela e me beijando. Ah, o beijo era bom. Ele tinha lábios macios, a barba era bem-feita e a língua quente e ansiosa. Correspondia ao beijo e coloquei meus braços nos ombros dele, envolvendo seu pescoço. Ele abriu minha calça e a abaixou, junto com a calcinha, meu empurrando até a cama.
Parou de me beijar e começou a tirar a camisa. Retirei o restante da minha calça rapidamente enquanto admirava o abdômen perfeito dele e os braços musculosos. Ele não tinha nenhuma tatuagem e aquilo, por incrível que pareça, não parecia normal, já que eu passava o tempo todo com Francis, que tinha o corpo quase todo tatuado.
Depois Douglas desceu a calça, junto da cueca. Foi então que vi seu membro, ereto e falei, sem pensar, olhando fixamente para ele:
- Meu pai do céu! Que porra é esta?