Capítulo 2
O fim de semana havia passado apressado, entre o trabalho exaustivo no bar e as noites mal dormidas. Eu estava pronta, ao menos deveria estar, para a entrevista. Meus saltos faziam barulho no mármore que cobria a recepção do luxuoso prédio da BioNex. Assim que cheguei à recepção, o recepcionista sorriu para mim.
- Bom dia, em que posso ajudá-la?
- Bom dia, sou Aurora Morneau. Estou aqui para uma entrevista de emprego.
Ele digitou algo no computador, me entregou um crachá e apontou para o elevador.
- No décimo andar, procure por Niume Ulvsson Vargr.
Sorri e agradeci, indo direto ao elevador. Assim que o elevador se abriu, caminhei pelo corredor rumo à sala indicada.
A recepção estava cheia de candidatas que, à primeira vista, pareciam muito mais preparadas e mais bem vestidas do que eu. Seus terninhos elegantes e posturas confiantes contrastavam dolorosamente com meu vestido simples e os sapatos que haviam visto dias melhores.
Sentei-me numa cadeira vazia na sala de espera, tentando ignorar os olhares avaliadores das outras candidatas. Meu estômago revirava de nervosismo, mas me forcei a permanecer focada. Era apenas uma entrevista, repeti o mantra silenciosamente, tentando acalmar os batimentos acelerados do meu coração.
Quando meu nome foi chamado, respirei fundo e caminhei em direção à sala onde Niume me aguardava. Assim que entrei, notei seu olhar crítico percorrendo cada detalhe da minha aparência. Sentei-me, tentando não demonstrar o quanto estava intimidada.
- Bom dia. - Murmurei, mas o silêncio continuou.
Vi suas narinas dilatarem ligeiramente e ela me olhou confusa. Senti-me culpada, eu usava um perfume de Serena. Ela insistiu dizendo ser um perfume caro, mas ele estava me irritando, e ali naquele momento tive a certeza de que não era a única afetada pelo cheiro enjoativo. Encolhi-me, sem graça, evitando fazer movimentos em sua direção para não a afetar com a fragrância.
- Bom dia, senhorita Aurora. Sou Niume Vargr, a responsável pelas contratações. Vejo que é formada recentemente na área de biotecnologia, mas ainda não possui experiência.
Ela foi direto ao ponto, encarando o meu currículo em suas mãos.
- Eu... sim, não tenho experiência. Mas meu trabalho na faculdade venceu como o melhor projeto do ano. - Tentei me mostrar confiante e continuei. - Sei que buscam pessoas experientes, mas eu aprendo rápido, trabalho bem em equipe e sou concentrada nas tarefas designadas a mim. - Insisti.
Senti meu coração acelerar de repente, não era pelo nervosismo da entrevista. Os pelos dos meus braços se arrepiaram e senti um calor por todo o meu corpo. A fragrância que eu sentia em alguns momentos, me deixando confusa, me atingiu. Acontecia sempre em meus sonhos ou durante minhas corridas na floresta. O cheiro era doce, mas selvagem, cheirava a floresta. Fechei os olhos com força e quando os abri, Niume estava me encarando, ela parecia confusa. Claro, eu deveria parecer uma louca. Ela sorriu com meu desconforto, mas continuou a entrevista com perguntas padrões sobre minhas experiências e habilidades. No entanto, não demorou para que suas perguntas tomassem um rumo pessoal estranhamente específico.
- De onde você vem, Aurora? Fale-me sobre sua família. - Ela indagou, sua curiosidade parecendo ir além do profissional. Senti um aperto no peito.
- Sou daqui do Canadá. Infelizmente, não conheci meu pai e minha mãe faleceu alguns meses atrás. - Não quis entrar em detalhes, pois ainda era um assunto sensível para mim.
- Sinto muito. Me desculpe, mas prezamos saber sobre a família dos funcionários, pois aqui somos mais que um grupo empresarial, somos uma grande família.
- Tudo bem, eu entendo. - Sorri.
- Ótimo, vamos prosseguir. Qual seria sua disponibilidade para viagens? - Ela perguntou, continuando o seu trabalho.
Ao final da entrevista, ela simplesmente disse que eu saberia do resultado em breve e desejou-me boa sorte com um meio sorriso.
Saindo da sala, senti uma mistura de alívio e incerteza. O olhar de Niume e suas perguntas fora do contexto profissional ecoavam na minha mente enquanto eu deixava o prédio, perguntando-me se eu tinha causado alguma boa impressão. Mas as esperanças não eram as melhores.
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Naquela noite...
- Ei belezinha, você está surda? - O homem me encarava com um ar debochado.
A raiva fervilhava dentro de mim, existia uma voz em minha cabeça dizendo: "Mate-o, ele não é um ser humano bom."
Balancei a cabeça levemente e apertei os olhos enquanto servia mais uma cerveja para o imbecil. Aquelas vozes na minha cabeça se tornavam cada vez mais cruéis, precisava com urgência ver a médica que mamãe me levava. A conversa não me ajudava muito, mas as ervas que ela me fornecia me ajudavam a acalmar aqueles pensamentos em minha mente.
Coloquei a cerveja no balcão e encarei o homem à minha frente.
- Esta é a última, terei que fechar o bar em dez minutos. - Adverti.
Ele me encarou com um olhar irritado, mas manteve o silêncio. Ignorei e virei de costas, continuando meu trabalho. Odiava trabalhar naquele turno e, naquela noite, era ainda pior, pois estava sozinha já que James tinha algum compromisso, deixando o bar em minha responsabilidade. A posição do bar, bem próximo à floresta, em uma região quase deserta, não era tão animadora assim, nem o ônibus passava ali. Agradecia por Serena ter um pequeno carro que me emprestava quando tínhamos turnos separados.
Senti uma sensação estranha e me virei rapidamente. O homem virou a última gota de sua bebida, quebrando o copo no balcão com um golpe forte. Ele retirou alguns dólares de sua jaqueta surrada e jogou sobre mim enquanto sorria debochado.
- Recolha do chão o seu dinheiro, tem gorjeta aí para você, vadia. - Dizendo isto, ele saiu.
Fechei a porta atrás dele, mesmo que a vontade fosse dar um chute em meio às suas pernas. Recolhi o dinheiro e terminei de encher as geladeiras. Limpei rapidamente o chão e saí com o lixo. Finalmente, era hora de voltar para casa, e o vento frio e a neve caindo não eram um clima agradável.
Assim que joguei o lixo fora e segui para o estacionamento, passos apressados se aproximaram e eu me virei para deparar com o homem do bar vindo em minha direção com uma faca em suas mãos.
Preparei-me para atacar, para me defender. Mas um uivo interrompeu qualquer movimento, seja meu, seja do homem à minha frente. Um grande lobo cinza se colocou entre nós, rosnando em direção ao homem que xingava e tentava golpear o animal.
O meu instinto de sobrevivência me atingiu em cheio e corri para o carro, atrapalhando-me para ligá-lo. Assim que consegui, fiz a manobra e saí para a estrada, vendo pelo retrovisor o lobo pular em cima do homem.
Não me interessava o que aconteceria com aquele bastardo. O lobo não o mataria, afinal ele estava armado, mas eu não ficaria ali para assistir a nada.
Capítulo 3
Dezembro 2023 Aleksander Vargr
Estava em SkogrVargr, o coração de nossa matilha, escondida nas densas florestas de Ottawa, quando convoquei meu braço direito, Torvald, para discutir as defesas de nossa cidade. Caminhávamos entre as árvores antigas, onde o som de nossos passos se misturava com os murmúrios da floresta.
- Torvald, precisamos revisar as barreiras que Sigurd, o ancião, colocou ao redor de SkogrVargr. Nada pode falhar, a segurança de nossa matilha depende disso - eu disse, observando a seriedade tomar o rosto de meu Beta.
Além das ervas, a matilha contava com uma defesa tecnológica de ponta. Desenvolvida pela Bionex, minha empresa, essa tecnologia avançada bloqueava qualquer tentativa de detecção por dispositivos eletrônicos. Drones, helicópteros, aviões e qualquer outro aparelho tecnológico eram incapazes de detectar a imensa cidade escondida. Os sinais eram distorcidos, e as leituras mostravam apenas uma floresta inóspita e vazia, protegendo a matilha de qualquer invasão indesejada.
A proteção da matilha era uma mistura engenhosa de sabedoria ancestral e tecnologia avançada, um equilíbrio perfeito que mantinha os segredos da cidade dos lobos escondidos. Essa fusão entre tradição e modernidade garantiu a paz e segurança da matilha por gerações, tornando-os invisíveis aos olhos humanos e impenetráveis ao mundo exterior.
- Aleksander, as proteções de Sigurd têm resistido há séculos. E a eficiência dos equipamentos da Bionex faz o resto. Nenhum humano jamais atravessou nossas barreiras. As ervas invocam a neblina densa que confunde seus sentidos e perturba a visão. Estamos seguros aqui - disse Torvald, sua voz carregada de uma confiança que eu gostaria de compartilhar.
- Não estou preocupado apenas com os humanos. As barreiras nos protegem, sim. Mas o que aconteceu na última noite não pode se repetir! - Murmurei, tentando controlar a raiva que pulsava no meu lobo, que já rangia os dentes.
Um lobo de uma das matilhas renegadas invadiu nosso território, mas foi capturado antes de sequer tentar algo. Não disse uma palavra em sua defesa e foi eliminado, exatamente como minhas ordens exigiam.
- As barreiras foram reforçadas, Alfa. O lobo que invadiu nosso território era dos Dark Hunters. - Torvald estendeu o colar para mim.
Peguei o colar e soube na mesma hora. A pedra negra polida, com a lua crescente esculpida, só podia pertencer aos Dark Hunters. As finas rachaduras em torno da lua lembravam veias, um reflexo do poder sombrio que corria naquelas criaturas. Era o símbolo de uma matilha feroz, governada pela brutalidade e o medo sob o comando de um alfa implacável.
- Fenrivar está devastando matilhas menores. Acredito que um dos seus lobos tentou cruzar nossas barreiras em fuga. Estava sozinho. Fenrivar não seria estúpido o suficiente para lhe desafiar diretamente, Alfa Aleksander - disse Torvald.
Eu sorri. Nada acontecia por acaso, e eu sabia disso. Ainda assim, me preparei para quem quer que ousasse pisar em meu território. Entreguei o colar de volta a Torvald.
- Envie o colar de volta a Fenrivar e avise que, na próxima vez, não devolvo nada. Só restará o silêncio, e seus lobos mortos no meu território.
Torvald sorriu de volta. Seu lobo era tão cruel quanto o meu, Magnus, e ambos tinham a mesma sede de sangue que nossos inimigos.
Ele estava prestes a dizer algo quando um cheiro perturbador cortou o ar, um aroma que mexia comigo de uma forma que incomodava e seduzia ao mesmo tempo. Torvald também notou, farejando o vento com desconfiança.
- Você sente isso, Alfa? É estranho... convidativo... doce... - comentou ele, franzindo o cenho.
- Vá verificar as rotações de guarda. Preciso de um momento - ordenei, minha voz mais brusca do que planejei. Torvald assentiu e saiu, deixando-me sozinho com meus pensamentos inquietos.
Sem mais hesitação, permiti que minha forma mudasse, meu corpo se contorcendo enquanto a pele dava lugar à pelagem. Minhas quatro patas tocaram o chão da floresta, e eu estava livre. Segui o cheiro, deixando meus instintos me guiarem.
Não demorou muito para que sua silhueta surgisse à minha frente. Uma humana corria pela floresta, ágil demais para sua espécie. Algo nela era intrigante, especialmente por estar na parte da floresta que apenas nós, lobos, deveríamos acessar. Como ela havia passado pelas barreiras sem perceber os perigos e a magia que nos protegia?
Ela me viu. Seu passo hesitou, o medo marcando cada movimento. Não mostrei qualquer agressão, apenas um rosnado baixo, mais por curiosidade do que por ameaça. Ela era pequena em sua forma humana, parecia frágil, mas se movia com uma rapidez surpreendente.
Avancei alguns passos, meus olhos fixos nela, emitindo outro rosnado, desta vez mais firme. Ela fugiu, correndo de volta além dos limites de nosso território.
Eu poderia ter relatado o incidente a Sigurd ou a Torvald, mas algo dentro de mim decidiu manter esse encontro em segredo. Era imprudente, talvez perigoso, mas havia algo nela, algo que desafiava nossa reclusão e mexia com a minha própria natureza.
Por enquanto, eu a observaria de longe. Eventualmente, falaria com o ancião. Mas, por enquanto, bastava apenas observá-la e desvendar o mistério que ela representava, tanto para SkogrVargr quanto para mim.
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Janeiro de 2024
Aurora Morneau
Encarei mais uma vez a manchete do jornal em uma página do Instagram, sabendo exatamente do que se tratava, mas ainda perplexa. "Homem encontrado ferido próximo à lanchonete Timberline Café. Ele não estava morto, mas muito ferido, e era evidente o ataque de um lobo." Uma grande discussão sobre o quanto os animais poderiam ser letais para os humanos indefesos se seguiu nos comentários. Irritada, virei o celular para baixo na mesa e encarei o meu chá, enquanto Serena me olhava confusa.
- O que foi?
- A manchete que está na maioria dos veículos de comunicação, falando sobre o perigo dos lobos para a comunidade. Mas se não fosse aquele lobo atacar aquele maldito, talvez eu estivesse nas manchetes como vítima de algum crime. Ele estava armado, Serena - exclamei.
- Você explicou ao policial, eles já o indiciaram, viram as câmeras. Não entendo por que os jornais não mencionam isso - Serena comentou, tão indignada quanto eu.
Meu telefone vibrou e, ao ver o número desconhecido no visor, atendi.
- Senhora Aurora Morneau, sou Edgard, secretário da senhorita Niume. Estou ligando para informar que a senhorita passou na seleção e aguardamos sua presença hoje às 13 horas para receber as informações necessárias para iniciar o trabalho.
Surpresa e aliviada, respondi com entusiasmo:
- Muito obrigada, Edgard. Estarei lá no horário combinado.
Ao desligar, um sorriso se abriu no meu rosto e olhei para Serena, que esperava ansiosamente pela novidade.
- Eu consegui! Passei na seleção. Tenho que estar lá esta tarde para pegar as informações e começar o trabalho.
Serena gritou de alegria e me abraçou apertado.
- Isso merece uma comemoração! Vamos te preparar, vou ajudar você a escolher a roupa perfeita para fazer sucesso no primeiro dia.
Serena, com seu bom gosto impecável, escolheu um conjunto elegante que me faria sentir confiante e preparada para qualquer desafio. Senti um calor reconfortante no coração, sabendo que, apesar de todos os obstáculos, eu estava seguindo em frente, com minha melhor amiga ao meu lado. Minha mãe ficaria orgulhosa de mim.