A descida de elevador levou quarenta e cinco segundos. Nesse tempo, Seraphina se reconstruiu.
Quando as portas se abriram com um bipe no térreo, ela estava de pé. Sua coluna estava ereta. Seu rosto estava seco. Ela havia compartimentado a dor, enfiando-a em uma caixa mental rotulada "Depois" e soldando a tampa.
Ela saiu para o saguão da Vance Innovations. Era uma catedral de vidro e aço, projetada para fazer todos que entravam se sentirem pequenos. Seraphina geralmente se sentia pequena aqui. Hoje, ela se sentia como um fantasma assombrando a própria vida.
Seu celular vibrou em seu bolso. Ela o ignorou. Sabia quem era. Ethan. Ou Susanna.
Ela passou pela mesa da segurança. Os guardas, Mike e Jerry, acenaram para ela. "Boa tarde, Sra. Vance."
"É Sra. Reed", ela corrigiu em voz baixa, sem diminuir o passo.
Eles trocaram olhares confusos, mas não a impediram.
Ela foi direto para a saída, mas as portas giratórias pareciam a quilômetros de distância. Os sussurros começaram antes mesmo de ela chegar ao meio do saguão.
Susanna agia rápido.
"Você ouviu?", sussurrou uma recepcionista em seu headset, com os olhos fixos em Seraphina. "Disputa doméstica. Ela tentou chantageá-lo."
"A segurança está descendo", murmurou outra pessoa.
Seraphina manteve os olhos à frente. Ela precisava chegar aos arquivos do subsolo — a sala empoeirada e sem janelas onde passara o último ano digitalizando arquivos antigos de graça, apenas para ter um motivo para sair de casa. Ela precisava de sua caixa.
Ela pegou o elevador de serviço de volta para o nível do subsolo. Cheirava a produto de limpeza e papel velho.
Quando chegou à sua mesa, a luz vermelha no leitor de seu cartão já estava piscando. Acesso negado.
Eles haviam bloqueado seu acesso.
Ela não entrou em pânico. Olhou ao redor. O corredor estava vazio. A porta era de um modelo antigo, a trava estava frouxa. Ela se apoiou com seu peso contra ela, balançando a maçaneta com uma pressão específica para cima que aprendera uma vez com um zelador.
Clic.
A porta se abriu.
Ela pegou a caixa de papelão de debaixo da mesa. Jogou seus cadernos pessoais dentro dela — diários cheios de esboços de botânica e anotações de química. Estes eram sua sanidade. O resto — o grampeador, a caneca da Vance Innovations — ela deixou para trás.
"Ei!"
O grito veio do corredor.
Ethan estava lá. Ele estava ofegante, com gotas de suor se formando em sua testa. Susanna estava logo atrás dele, parecendo menos perfeita que o normal, com o cabelo um pouco bagunçado.
"Você está demitida", anunciou Ethan, tentando recuperar a compostura. Ele ajeitou o paletó. "Até mesmo dessa bobagem de voluntariado. Fora."
"Eu já estava de saída", disse Seraphina. Ela não ergueu o olhar enquanto arrumava os diários na caixa.
Susanna se encostou no batente da porta, cruzando os braços. "Vamos congelar a conta conjunta, Seraphina. Você não vai conseguir comprar nem um sanduíche."
"Eu tenho minhas próprias economias", mentiu Seraphina. Ela tinha duzentos dólares em dinheiro na gaveta de meias.
"De onde? Vendendo limonada?", debochou Susanna. Era um sorriso predatório. "Nós sabemos que você não tem um centavo. Ethan paga por tudo."
Seraphina pegou sua caixa. Não era pesada, mas parecia conter o peso de seu futuro.
"Segurança!", gritou Ethan. "Escortem a Sra. Reed para fora!"
Dois guardas corpulentos viraram a esquina. Eles pareciam hesitantes. Conheciam Seraphina. Ela lhes trazia café às vezes.
"Sra. Reed?", perguntou um deles, estendendo a mão para o braço dela.
Seraphina virou a cabeça. Ela não ergueu a voz. Apenas olhou para eles com uma tristeza profunda e cansada.
"Eu sei o caminho da saída, Mike", disse ela suavemente.
O guarda congelou. Ele baixou a mão. Algo em sua dignidade silenciosa o fez se sentir pequeno. "Certo. Apenas... vamos, senhora."
Ela passou por eles. Contornou Susanna, cuidando para não tocá-la.
"Patética", sibilou Susanna enquanto ela passava.
Seraphina continuou andando. Ela usou as escadas. Quatro lances até o saguão, e então para fora.
Quando ela surgiu na rua, havia começado a chover. Claro que sim. O universo adorava uma falácia patética. A água fria encharcou sua blusa instantaneamente, gelando-a até os ossos.
Ela andou até o meio-fio. Um sedã preto da empresa parou — o motorista da Vance. Ele abaixou o vidro. "Sra. Vance? O Sr. Vance disse para levá-la para casa."
"Eu não tenho uma casa", disse ela, e o dispensou com um aceno.
Ela chamou um táxi amarelo. Cheirava a tabaco velho e aromatizador de pinho. Ela deslizou para o banco de trás, abraçando a caixa de diários contra o peito.
"Para onde, moça?", perguntou o motorista.
"Apenas dirija", ela sussurrou. "Para qualquer lugar barato."
Seu celular vibrou em seu bolso. Não um toque. Um padrão específico.
Ela pegou o celular. Era um celular descartável que ela mantinha escondido no forro de sua bolsa. Havia uma única mensagem no aplicativo criptografado.
Remetente: O Professor
O pássaro voou. Precisa de um poleiro?
Seraphina fechou os olhos. Professor Finch. Ele entrava em contato toda terça-feira.
Ela digitou a resposta, seus polegares se movendo cegamente pela tela.
A gaiola está quebrada. O pássaro está molhado.
A resposta veio instantaneamente.
Contate Julian Thorne. Diga a ele "Referência ao Caso 404". Ele me deve um favor.
Seraphina encarou o nome. Julian Thorne. O "Advogado do Diabo". O advogado de divórcio mais caro e implacável de Nova York. O homem que nunca havia perdido um caso.
Ela limpou uma gota de chuva — ou talvez uma lágrima — de sua bochecha.
"Motorista", disse ela, sua voz se fortalecendo. "Leve-me a um motel em Queens. Um com Wi-Fi."
A intimação chegou três dias depois.
Seraphina estava hospedada em um motel no Queens que cobrava por hora. As paredes eram finas como papel, e o letreiro de neon do lado de fora zumbia em um ritmo que causava dor de cabeça. Ela passara as últimas setenta e duas horas encarando seu laptop, assistindo à sua vida ser desmantelada nas redes sociais.
EsposaIngrata estava nos trending topics. Susanna andara ocupada. Havia fotos de Seraphina com aparência desleixada, justapostas a fotos de Susanna com um ar radiante e caridoso. A narrativa estava montada: Seraphina era a caipira inculta e gananciosa que tentara chantagear o nobre Ethan Vance.
Seu telefone tocou. Era o telefone fixo do quarto do motel. Ninguém sabia que ela estava ali.
Ela atendeu. "Alô?"
"O carro está lá fora", disse uma voz grave e rouca. Era o mordomo da família Vance, Higgins. Ele parecia se desculpar. "O Sr. Harold Vance solicita sua presença na propriedade dos Hamptons. Imediatamente."
"Diga a ele que estou ocupada", disse Seraphina.
"Ele diz que se trata de uma... oferta de acordo. E que, se a senhora recusar, ele envolverá a polícia a respeito do 'roubo' de propriedade da empresa."
Seraphina apertou o telefone. Eles iam armar para ela. Por causa dos diários.
"Desço em cinco minutos."
A viagem até os Hamptons levou duas horas. O silêncio na parte de trás do Rolls Royce era opressivo. Seraphina observou a cidade dar lugar a gramados bem cuidados e cercas-vivas altas. Este era o mundo no qual ela tentara se encaixar por três anos. Um mundo de crueldade silenciosa.
Os portões da Propriedade Vance se abriram lentamente, como as mandíbulas de uma fera.
Ela foi conduzida à sala de visitas. Um fogo crepitava na lareira, apesar do tempo quente. Sentado em uma poltrona de couro de espaldar alto estava Harold Vance, o patriarca. Ele tinha oitenta anos, enrugado como uma maçã seca, mas seus olhos eram penetrantes e negros.
Ethan e Susanna estavam lá, sentados no sofá. Susanna parecia recatada, enxugando os olhos secos com um lenço de papel. Ethan parecia presunçoso.
"Sente-se", ordenou Harold, batendo com sua bengala no tapete persa.
Seraphina continuou de pé. "Prefiro ficar de pé. O que vocês querem?"
"Divórcios são complicados, Seraphina", disse Harold, com a voz parecendo folhas secas se roçando. "Ruim para o preço das ações. Os investidores ficam nervosos quando o CEO está envolvido em um escândalo."
"Infidelidade é pior para as relações públicas", rebateu Seraphina.
Susanna soltou um soluço baixo e teatral. "Não pudemos evitar nos apaixonar. Era o destino. Mas a Seraphina... ela tem sido tão cruel com isso."
"O amor é irrelevante", rosnou Harold. Ele olhou para Seraphina com um cálculo frio. "Queremos silêncio. Você vai assinar um Acordo de Confidencialidade. Vai admitir... instabilidade emocional. Em troca, não a processaremos por roubar pesquisa proprietária."
"Meus diários?", perguntou Seraphina, incrédula. "São minhas anotações pessoais."
"Foram escritos durante o horário de trabalho, em um prédio da empresa", disse Ethan, inclinando-se para a frente. "Tecnicamente, eles pertencem à Vance Innovations."
"Vocês querem ser donos dos meus pensamentos?"
"Queremos garantir que você não venda nenhuma 'história' para os tabloides", disse Harold. "Assine o NDA. Nós lhe daremos uma indenização generosa. Cinco mil dólares. O suficiente para você voltar para qualquer buraco de onde saiu rastejando."
"Cinco mil", repetiu Seraphina. Era um insulto. Não cobriria nem um mês de aluguel na cidade.
"Aceite", desdenhou Ethan. "Ou divulgaremos a filmagem de você me agredindo no escritório. Susanna filmou."
"Agressão?", Seraphina olhou para ele. "Eu pisei no seu pé para me afastar de você."
"Parece muito agressivo na câmera", disse Susanna suavemente, com os olhos brilhando. "Sem áudio... parece que você o atacou."
Seraphina sentiu o sangue sumir de seu rosto. Eles tinham editado a narrativa perfeitamente.
"Eu não vou assinar", sussurrou Seraphina.
Harold bateu com a bengala no chão. Thwack!
"Garota insolente!", ele rugiu. "Você não tem nada! Podemos esmagá-la como um inseto!"
"Então me esmague", disse Seraphina, com a voz trêmula, mas o queixo erguido. "Mas não vou mentir por vocês. E não vou desaparecer."
"Nós vamos soterrá-la em litígios", os olhos de Harold se estreitaram. "Vamos sangrá-la até secar com honorários advocatícios. Você será uma velha antes de ver um tribunal."
"Eu tenho tempo", disse Seraphina.
Ela se virou para o mordomo, que estava parado no canto, tentando ser invisível. "Meu casaco, por favor, Higgins."
Higgins se apressou em obedecer.
"Se você sair, não leva nada!", gritou Ethan, levantando-se. "Eu vou destruir você, Seraphina! Eu fiz você!"
Seraphina parou junto à pesada porta de carvalho. Ela olhou para trás, para o quadro de ganância e medo.
"Você não me fez, Ethan", disse ela em voz baixa. "Você apenas me alugou."
Ela saiu da mansão. Sua adrenalina estava disparando, suas mãos tremendo incontrolavelmente agora. Ela precisava de ajuda. Precisava de um escudo.
Ela pegou o celular e discou o número que o Professor lhe dera.
"Preciso de uma consulta", ela sussurrou no receptor. "Agora."