— Cansada? — Ele pareceu surpreso. — Está tudo bem, Eli?
— Só um dia longo — menti, subindo as escadas.
— Bem, deixe-me melhorar isso — ele disse, sua voz baixando para um ronronar baixo e sugestivo. Ele me seguiu, sua mão buscando a minha.
Eu me esquivei do seu toque.
Ele parou, um lampejo de algo — irritação? confusão? — em seus olhos.
— Ok. Entendi. Tenho trabalhado muito. Vamos ter um encontro amanhã à noite. Só nós dois. Podemos ir àquele lugar que você adora, no Guarujá.
— Tudo bem — eu disse.
Ele sorriu, aliviado.
— Ótimo. Tenho uma surpresa para você também.
— Eu também tenho uma para você — eu disse, pensando na caixa de veludo cinza lá em cima.
Seu sorriso se alargou.
— Ah, é? Já é meu aniversário?
A pergunta era uma piada amarga. Meu próprio aniversário tinha sido na semana passada. Ele havia esquecido. Mandou uma mensagem de uma reunião em Tóquio. *'Feliz niver, amor. Super ocupado. Comemoramos quando eu voltar.'* Ele nunca mais tocou no assunto.
— Não — eu disse. — Só porque sim.
Ele se aproximou, tentando me beijar. Virei a cabeça, e seus lábios encontraram minha bochecha.
— Ok — ele disse, recuando, parecendo um pouco magoado. — Te vejo de manhã.
Deitei na cama naquela noite, olhando para o teto, ouvindo sua respiração constante ao meu lado. Isso era uma performance agora. O último ato de uma peça de longa duração. E eu sabia minhas falas.
Na noite seguinte, ele era todo charme, abrindo a porta do carro para mim, sua mão na base das minhas costas.
Ele tagarelou durante todo o caminho até o restaurante, falando sobre um novo negócio, um membro difícil do conselho, o fracasso de uma empresa rival. Eu fiz os sons certos, assentindo e sorrindo nos lugares certos.
Quando ele parou na fila do manobrista, algo no chão do lado do passageiro chamou minha atenção. Um único e longo fio de cabelo loiro.
O cabelo de Jéssica.
Olhei para ele, depois desviei o olhar. Não o peguei. Não o apontei.
Não havia mais sentido em lutar. Você não discute com um fantasma. E ele já era um fantasma para mim.
O restaurante era onde ele me pedira em casamento. Situado em um penhasco com vista para o oceano, as ondas quebrando abaixo. Era para ser o nosso lugar.
Naquela noite, seria o lugar onde tudo terminaria.
Enquanto entrávamos, uma mulher em uma mesa próxima ofegou.
— Meu Deus, é o Ricardo Almeida!
Ele lhe deu um aceno gracioso, o rei da tecnologia em seu elemento.
Ele tinha acabado de ligar para o trabalho, uma "emergência rápida". Ele estava a alguns metros de distância, de costas para mim, sua voz baixa e urgente.
— Desculpe, amor, preciso sair rapidinho — ele disse, virando-se para mim, o rosto uma máscara de arrependimento. — Surgiu um imprevisto no escritório. Um data center no quadrante quatro caiu. É uma bagunça.
— Vá — eu disse.
— Serei super rápido. Vinte minutos, no máximo. Não saia daí, ok? Peça uma garrafa daquele vinho bom para nós. — Ele piscou.
Uma mulher na mesa ao lado suspirou sonhadoramente.
— Ele é tão dedicado. E tão apaixonado pela esposa.
Eu sabia para onde ele estava indo. Ele não estava falando com seu chefe de engenharia. Ele estava falando com Jéssica. O "data center" era o apartamento dela. A "emergência" era ela.
Voltei para o carro. Disse ao manobrista que tinha esquecido meu xale.
O segundo celular dele, o que ele achava que eu não conhecia, estava no porta-luvas. Estava desbloqueado.
As mensagens estavam bem ali.
Jéssica: *'Soube que você tá num encontro com a velha. Que tédio.'*
Ricardo: *'Tenho que manter as aparências. Chego em 10 min. Usa aquela lingerie vermelha que eu gosto.'*
Jéssica: *'Anda logo. Tenho uma surpresa pra você.'*
Depois, uma foto. Jéssica, fazendo beicinho para a câmera, usando uma lingerie de renda vermelha. Na mesa de cabeceira atrás dela, havia uma pequena caixa azul da Tiffany.
Meu estômago se revirou. Senti uma necessidade violenta e visceral de vomitar. As ostras perfeitamente preparadas que eu acabara de comer ameaçavam reaparecer.
Ele voltou vinte e cinco minutos depois, parecendo satisfeito consigo mesmo.
— Tudo resolvido. Viu? Eu disse que seria rápido.
Forcei um sorriso, os músculos do meu rosto protestando.
— Você está bem? — ele perguntou, vendo meu rosto pálido. — Parece um pouco enjoada.
— Só... as ostras — consegui dizer. — Talvez não estivessem muito boas.
— É isso — ele disse, o rosto se fechando. — Vou ter uma conversa com o gerente. Este lugar caiu muito de qualidade.
— Não, Ricardo, não faça isso — eu disse. — Está tudo bem.
Ele olhou para mim, a testa franzida.
— Sabe, eu estava pensando no que você disse. Sobre o meu aniversário. Eu sei que esqueci o seu. Eu sou um idiota. Sinto muito, Eli.
O pedido de desculpas, tão tardio, tão vazio, pairou no ar entre nós.
— Vou compensar você — ele disse, a voz sincera. — Eu prometo.
Pensei na lingerie de renda vermelha. Na caixa da Tiffany. No data center no quadrante quatro.
Senti o vômito subir pela minha garganta. Levantei-me da cadeira e corri para o banheiro, mal conseguindo chegar à cabine antes de passar mal.
Fiquei no banheiro por um longo tempo, jogando água fria no rosto, meu reflexo um estranho pálido e assombrado no espelho.
Ricardo estava me esperando, o rosto gravado de preocupação.
— Tem certeza de que está bem? Podemos ir para casa.
Como ele podia ser tão bom nisso? Nas mentiras, na performance. Uma parte de mim se perguntava se ele ainda sabia que estava fazendo isso. Se a linha entre o marido amoroso e o canalha traidor havia se tornado tão tênue em sua própria mente que ele não conseguia mais vê-la.
O ar fresco da noite no caminho para casa clareou minha cabeça. A náusea diminuiu, substituída por uma calma fria e clara.
— Estou me sentindo melhor — eu disse, enquanto ele estacionava na garagem.
— Que bom — ele disse, a mão no meu joelho. — Porque eu ainda tenho aquela surpresa para você.
— Amanhã — eu disse. — Vamos deixar as surpresas para amanhã.
Ele pareceu desapontado, mas assentiu.
— Ok. Amanhã.
Uma pequena ideia perversa surgiu em minha mente. Um golpe final, de despedida.
— Na verdade — eu disse, virando-me para ele. — Estive pensando. Você tem razão. Precisamos de mais tempo juntos. Por que você não tira o dia de amanhã de folga? Podemos passar o dia inteiro juntos. Aqui. Em casa.
Ele pareceu surpreso. Depois um pouco em pânico. Um dia inteiro. Um dia inteiro em que ele não poderia escapar para ver Jéssica.
— Eu... eu não sei, Eli. Tenho aquela apresentação importante...
— Reagende — eu disse, com a voz doce. — Por mim.
Ele mordeu o lábio, encurralado.
— Ok — ele disse finalmente, forçando um sorriso. — Por você. Qualquer coisa.
Fomos para a cama. Ele adormeceu quase instantaneamente. Esperei até que sua respiração estivesse profunda e regular, então saí do quarto.
Fui ao escritório dele. O notebook do trabalho estava em sua mesa. Ele usava a mesma senha para tudo. Nosso aniversário de casamento. A ironia era tão densa que chegava a sufocar.
Encontrei o que procurava na pasta de itens excluídos. Ele não era tão esperto quanto pensava.
Um vídeo. Jéssica, de novo. Desta vez, ela estava no escritório dele, empoleirada em sua mesa, vestindo nada além da camisa social dele.
— Ricardo, meu amor — ela arrulhou, passando a mão pela coxa. — Quando você vai largar ela? Ela é tão velha e sem graça. Eu sou muito mais divertida.
Ele não respondeu, mas pude ouvir sua risada baixa fora da câmera.
Fechei o notebook, minhas mãos firmes. A dor era um eco distante agora. Tudo o que eu sentia era um nojo profundo e sem fundo.
Voltei para o nosso quarto. Ele havia se virado durante o sono, um braço jogado sobre o meu lado da cama, me procurando.
— Eli? — ele murmurou, meio adormecido.
— Estou aqui — eu disse, minha voz um sussurro.
Ele suspirou e voltou a dormir.
De manhã, o celular dele começou a vibrar às 6 da manhã. Vibrou de novo. E de novo. Um ritmo implacável e insistente.
— Droga — ele gemeu, virando-se e pegando-o da mesa de cabeceira. — O que diabos ela quer agora?
Ele se levantou da cama, entrando no banheiro adjacente para atender a ligação. Ele achava que eu não podia ouvir. Ele estava errado.
— O que foi, Jéssica? — ele sibilou. — Eu disse que vou tirar o dia de folga... Não, você não pode vir aqui... Porque a Eliana está aqui, é por isso... Olha, apenas resolva isso. Te ligo mais tarde.
Ele voltou para o quarto, parecendo irritado. Eu o vi colocar o celular no bolso do roupão.
— Trabalho? — perguntei, fingindo sonolência.
— É — ele resmungou. — Emergência estúpida. Eu resolvi.
Ele desceu. Alguns minutos depois, o cheiro de café e bacon encheu a casa. Ele estava fazendo o café da manhã. Um grande gesto.
Ele subiu com uma bandeja carregada de comida. Panquecas, ovos, bacon, suco de laranja espremido na hora. Um banquete.
— Eu estava pensando — ele disse, colocando a bandeja na cama. — Você faz tanta coisa por aqui. Talvez devêssemos contratar uma governanta. Uma cozinheira, até. Para tirar um pouco da pressão de você.
Ele queria me substituir. De todas as maneiras.
— Não, obrigada — eu disse. — Gosto de cuidar da nossa casa. — Minha casa. Não por muito mais tempo.
Belisquei a comida, meu apetite havia sumido.
— Então — eu disse, olhando para ele por cima da minha xícara de café. — Estamos bem, você e eu?
Ele pareceu assustado.
— Claro que estamos bem. Por que você perguntaria isso?
— Por nada — eu disse.
Ele estendeu a mão sobre a bandeja e pegou a minha. A mão dele era quente e forte. Parecia a de um estranho.
— Eliana — ele disse, a voz carregada de sinceridade. — Eu te amo. Você sabe disso, certo? Eu nunca, jamais faria nada para te machucar. Você é o meu mundo.
Olhei em seus olhos, um azul profundo e sincero. Ele era um mentiroso fenomenal. Ou talvez ele mesmo acreditasse nisso.
— Eu morreria antes de te trair — ele disse.
Eu quase ri.
— Bom saber — eu disse, puxando minha mão. Levantei-me e caminhei até o armário. — Vou me vestir.
Ele pareceu aliviado, a conversa terminada.
Enquanto eu vestia um suéter, perguntei, casualmente:
— Então, onde você colocou meu presente de aniversário?
Ele congelou.
— Seu... presente?
— Da semana passada — eu disse, virando-me para encará-lo. — Você disse que tinha um para mim.
Ele era um cervo pego pelos faróis. Ele não tinha nada. Ele havia esquecido completamente.