No dia em que meu filho faria um mês, recebi uma ordem de restrição.
A ordem foi entregue pelo meu ex-marido, Lucas, e pela sua nova namorada, Sofia.
Eles estavam juntos, parecendo um casal feliz.
Lucas segurava a ordem com uma expressão fria, enquanto Sofia se escondia atrás dele, olhando para mim com medo e provocação.
"Isabela, assine. Depois disso, não se aproxime mais de mim ou da Sofia."
A sua voz era gélida, sem qualquer emoção.
Olhei para a ordem, depois para ele.
"Lucas, hoje é o dia em que o nosso filho faria um mês."
"E daí?", ele respondeu, impaciente. "Ele está morto. A vida continua."
A vida continua. Sim, para ele, a vida continuou.
Para ele, a morte do nosso filho foi apenas um inconveniente.
Um mês atrás, eu estava grávida de nove meses, a caminho do hospital para uma consulta de rotina.
Houve um acidente de carro. Um motorista bêbado bateu no meu táxi.
Liguei para o Lucas, meu marido na época, mais de vinte vezes.
Eu sangrava, sentia uma dor terrível e implorava por ajuda.
Ele nunca atendeu.
Mais tarde, soube por que.
Ele estava com a Sofia.
Ela tinha tido uma crise de ansiedade e ele estava no hospital com ela, segurando a sua mão, acalmando-a.
Enquanto a sua esposa e o seu filho por nascer lutavam pela vida, ele consolava outra mulher por causa de um ataque de pânico.
O nosso filho não sobreviveu.
Eu quase morri.
Acordei na UTI, sozinha. A primeira coisa que vi foi a notícia do nosso divórcio nos jornais, iniciada por ele.
A razão? Crueldade emocional. Ele alegou que a minha "negligência" durante a gravidez causou a morte do filho deles e que ele não suportava mais o fardo.
Agora, ele estava aqui, com a mulher por quem me abandonou, pedindo-me para ficar longe.
Peguei na caneta. As minhas mãos tremiam.
"Eu não fiz nada", disse eu, com a voz rouca.
"Você apareceu no meu escritório ontem", disse Lucas. "Isso assustou a Sofia."
"Eu só queria os pertences do meu filho. A caixa com as suas primeiras roupas."
"Mentira!", gritou Sofia, de trás do Lucas. "Você veio para me ameaçar! Você me odeia!"
Lucas abraçou-a protetoramente. "Viu? Você a aterroriza. Assine, Isabela. Torne as coisas mais fáceis para todos."
Olhei para o rosto dele, o rosto que eu amei por cinco anos.
Não havia mais amor. Apenas um vazio frio.
Assinei o papel. A minha assinatura saiu tremida e feia.
Entreguei-lhe a ordem.
"Satisfeito?", perguntei.
Ele nem sequer olhou para mim. Pegou no papel, agarrou a mão da Sofia e virou-se para sair.
"Lucas", chamei.
Ele parou, mas não se virou.
"A caixa. Eu só quero a caixa do meu bebé."
Ele hesitou por um segundo. "Joguei-a fora. Eram apenas coisas inúteis."
Depois, ele foi-se embora.
Fiquei ali, na porta da minha casa, a ver o carro dele desaparecer na rua.
Coisas inúteis.
As pequenas meias que tricotei. O primeiro gorro que comprei. A manta que a minha mãe fez.
Tudo o que restava do meu filho, ele chamou de coisas inúteis.
Naquele momento, o luto que me sufocava transformou-se em algo diferente.
Algo frio e duro.
Ele não apenas tirou o meu filho. Ele estava a tentar apagar todas as memórias dele.
Não. Eu não ia deixar.
A ordem de restrição era clara. Cem metros.
Eu não podia chegar a cem metros do Lucas ou da Sofia.
Isso significava que eu não podia ir ao meu antigo escritório para terminar os meus projetos. Lucas e eu trabalhávamos na mesma empresa de arquitetura.
Isso significava que eu não podia ir ao meu café favorito, porque ficava perto do apartamento dele.
Ele estava a encurralar-me, a tirar-me da minha própria vida.
Liguei para o meu chefe, o Sr. Almeida.
"Isabela, sinto muito pelo que aconteceu", disse ele, com uma voz simpática. "Mas o Lucas mostrou-me a ordem. Por razões legais, não posso permitir que venha ao escritório."
"Mas os meus projetos? O meu trabalho?"
"O Lucas vai assumir. Ele disse que você concordou em transferir tudo para ele."
Eu não concordei com nada.
"Sr. Almeida, isso é o meu trabalho. A minha carreira."
"Eu sei, Isabela. Mas as minhas mãos estão atadas. É uma ordem judicial."
Ele desligou.
Sentei-me no chão da minha sala vazia.
Primeiro, o meu filho. Depois, o meu marido. Agora, o meu emprego.
Ele estava a tirar tudo.
Senti uma onda de náusea. Corri para a casa de banho e vomitei.
Não havia nada no meu estômago. Apenas bílis amarga.
Olhei para o meu reflexo no espelho. Eu estava pálida, magra. Os meus olhos estavam fundos e sem vida.
A mulher que eu era antes do acidente tinha desaparecido.
Mas enquanto olhava para o meu próprio rosto, uma faísca de raiva acendeu-se dentro de mim.
Não. Eu não ia deixar que ele me destruísse.
Eu perdi o meu filho. Eu não ia perder-me a mim mesma.
Liguei para a minha amiga, Clara, que era advogada.
"Clara, preciso de ajuda."
Expliquei-lhe tudo. A ordem de restrição, a perda do meu emprego, a caixa do meu bebé.
"Esse desgraçado", disse Clara, com a voz cheia de fúria. "Isabela, vamos lutar contra isto. Essa ordem de restrição baseia-se em mentiras. Podemos contestá-la."
"Como?"
"Precisamos de provas de que as alegações da Sofia são falsas. Precisamos de mostrar que o Lucas está a usar o sistema para te assediar."
"Mas é a minha palavra contra a deles."
"Então, vamos encontrar mais do que a tua palavra", disse a Clara com determinação. "Onde é que ele deitou a caixa fora?"
"Ele disse que a deitou fora. Provavelmente no lixo do prédio dele."
"Ok. É um começo. Não vás lá. Deixa-me tratar disto."
Desliguei o telefone a sentir, pela primeira vez em semanas, uma pequena centelha de esperança.
Eu não estava sozinha.
E eu não ia desistir.