Capítulo 2

No dia em que meu filho faria um mês, recebi uma ordem de restrição.

A ordem foi entregue pelo meu ex-marido, Lucas, e pela sua nova namorada, Sofia.

Eles estavam juntos, parecendo um casal feliz.

Lucas segurava a ordem com uma expressão fria, enquanto Sofia se escondia atrás dele, olhando para mim com medo e provocação.

"Isabela, assine. Depois disso, não se aproxime mais de mim ou da Sofia."

A sua voz era gélida, sem qualquer emoção.

Olhei para a ordem, depois para ele.

"Lucas, hoje é o dia em que o nosso filho faria um mês."

"E daí?", ele respondeu, impaciente. "Ele está morto. A vida continua."

A vida continua. Sim, para ele, a vida continuou.

Para ele, a morte do nosso filho foi apenas um inconveniente.

Um mês atrás, eu estava grávida de nove meses, a caminho do hospital para uma consulta de rotina.

Houve um acidente de carro. Um motorista bêbado bateu no meu táxi.

Liguei para o Lucas, meu marido na época, mais de vinte vezes.

Eu sangrava, sentia uma dor terrível e implorava por ajuda.

Ele nunca atendeu.

Mais tarde, soube por que.

Ele estava com a Sofia.

Ela tinha tido uma crise de ansiedade e ele estava no hospital com ela, segurando a sua mão, acalmando-a.

Enquanto a sua esposa e o seu filho por nascer lutavam pela vida, ele consolava outra mulher por causa de um ataque de pânico.

O nosso filho não sobreviveu.

Eu quase morri.

Acordei na UTI, sozinha. A primeira coisa que vi foi a notícia do nosso divórcio nos jornais, iniciada por ele.

A razão? Crueldade emocional. Ele alegou que a minha "negligência" durante a gravidez causou a morte do filho deles e que ele não suportava mais o fardo.

Agora, ele estava aqui, com a mulher por quem me abandonou, pedindo-me para ficar longe.

Peguei na caneta. As minhas mãos tremiam.

"Eu não fiz nada", disse eu, com a voz rouca.

"Você apareceu no meu escritório ontem", disse Lucas. "Isso assustou a Sofia."

"Eu só queria os pertences do meu filho. A caixa com as suas primeiras roupas."

"Mentira!", gritou Sofia, de trás do Lucas. "Você veio para me ameaçar! Você me odeia!"

Lucas abraçou-a protetoramente. "Viu? Você a aterroriza. Assine, Isabela. Torne as coisas mais fáceis para todos."

Olhei para o rosto dele, o rosto que eu amei por cinco anos.

Não havia mais amor. Apenas um vazio frio.

Assinei o papel. A minha assinatura saiu tremida e feia.

Entreguei-lhe a ordem.

"Satisfeito?", perguntei.

Ele nem sequer olhou para mim. Pegou no papel, agarrou a mão da Sofia e virou-se para sair.

"Lucas", chamei.

Ele parou, mas não se virou.

"A caixa. Eu só quero a caixa do meu bebé."

Ele hesitou por um segundo. "Joguei-a fora. Eram apenas coisas inúteis."

Depois, ele foi-se embora.

Fiquei ali, na porta da minha casa, a ver o carro dele desaparecer na rua.

Coisas inúteis.

As pequenas meias que tricotei. O primeiro gorro que comprei. A manta que a minha mãe fez.

Tudo o que restava do meu filho, ele chamou de coisas inúteis.

Naquele momento, o luto que me sufocava transformou-se em algo diferente.

Algo frio e duro.

Ele não apenas tirou o meu filho. Ele estava a tentar apagar todas as memórias dele.

Não. Eu não ia deixar.

Capítulo 3

A ordem de restrição era clara. Cem metros.

Eu não podia chegar a cem metros do Lucas ou da Sofia.

Isso significava que eu não podia ir ao meu antigo escritório para terminar os meus projetos. Lucas e eu trabalhávamos na mesma empresa de arquitetura.

Isso significava que eu não podia ir ao meu café favorito, porque ficava perto do apartamento dele.

Ele estava a encurralar-me, a tirar-me da minha própria vida.

Liguei para o meu chefe, o Sr. Almeida.

"Isabela, sinto muito pelo que aconteceu", disse ele, com uma voz simpática. "Mas o Lucas mostrou-me a ordem. Por razões legais, não posso permitir que venha ao escritório."

"Mas os meus projetos? O meu trabalho?"

"O Lucas vai assumir. Ele disse que você concordou em transferir tudo para ele."

Eu não concordei com nada.

"Sr. Almeida, isso é o meu trabalho. A minha carreira."

"Eu sei, Isabela. Mas as minhas mãos estão atadas. É uma ordem judicial."

Ele desligou.

Sentei-me no chão da minha sala vazia.

Primeiro, o meu filho. Depois, o meu marido. Agora, o meu emprego.

Ele estava a tirar tudo.

Senti uma onda de náusea. Corri para a casa de banho e vomitei.

Não havia nada no meu estômago. Apenas bílis amarga.

Olhei para o meu reflexo no espelho. Eu estava pálida, magra. Os meus olhos estavam fundos e sem vida.

A mulher que eu era antes do acidente tinha desaparecido.

Mas enquanto olhava para o meu próprio rosto, uma faísca de raiva acendeu-se dentro de mim.

Não. Eu não ia deixar que ele me destruísse.

Eu perdi o meu filho. Eu não ia perder-me a mim mesma.

Liguei para a minha amiga, Clara, que era advogada.

"Clara, preciso de ajuda."

Expliquei-lhe tudo. A ordem de restrição, a perda do meu emprego, a caixa do meu bebé.

"Esse desgraçado", disse Clara, com a voz cheia de fúria. "Isabela, vamos lutar contra isto. Essa ordem de restrição baseia-se em mentiras. Podemos contestá-la."

"Como?"

"Precisamos de provas de que as alegações da Sofia são falsas. Precisamos de mostrar que o Lucas está a usar o sistema para te assediar."

"Mas é a minha palavra contra a deles."

"Então, vamos encontrar mais do que a tua palavra", disse a Clara com determinação. "Onde é que ele deitou a caixa fora?"

"Ele disse que a deitou fora. Provavelmente no lixo do prédio dele."

"Ok. É um começo. Não vás lá. Deixa-me tratar disto."

Desliguei o telefone a sentir, pela primeira vez em semanas, uma pequena centelha de esperança.

Eu não estava sozinha.

E eu não ia desistir.

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