Capítulo 2

DOIS ANOS DEPOIS...

ANNA LIZ

Sentada na minha cadeira de rodas, eu observo o enorme parque. O lugar é simplesmente encantador. Maravilhoso! O final de tarde chega, acompanhado das lembranças mais dolorosas que, um dia já vivi na vida. É sexta-feira! E todas elas, são marcadas por uma diversão no píer. Ouvir o cantarolar dos pássaros e os barulhos das arvores me acalma. Deixei que meus pensamentos corressem soltos. Lágrimas molhando a face, não deixando que eu a impedisse. A dor, ao longo desses dois anos, ainda se encontra em aberto no meu peito.

De maneira nenhuma, conseguia superar o fato de que, eu não andaria mais. De que, depois de um acidente, fiquei paraplégica. Dói-me pensar que, por conta de tudo isso, fui abandonada por meu namorado, quando mais precisei dele. O amava tanto que, quando Eric me ligou, dizendo que gostaria de ter uma conversa comigo, nunca me passou pela cabeça que, ele iria me deixar. No entanto sabia, algo estava errado.

Sua expressão ao me ver, marca a minha memória. Frio. Cruel. Ele olhava-me com pena, nojo, como se eu fosse algo que, ele nunca viu em toda vida.

— Acho que devemos terminar por aqui. — Suas palavras vieram como uma rajada em minha direção, fazendo-me reprimir o choro que, estava preso na garganta. Eu deveria saber que isso estava prestes a acontecer. Desde que ele havia me ligado, mais cedo. Eu sabia! Algo estava errado. — Não acho que podemos ter uma vida normal, depois de você estar assim. — Apontou em minha direção. Eu estava deitada em minha cama. Como sempre, desde que havia voltado do hospital.

Respirei fundo. Olhos vidrados nos seus, não perdendo nenhum dos movimentos.

— Você não pode fazer isso, Eric. — Pedi. As lágrimas nos meus olhos, já começando a se formar. Burra. Não chore!

Ele riu friamente. O canto da boca levantado, em um risinho diabólico.

— Claro que posso. Você sabe muito bem que, não tem a menor chance de darmos certo. Não vou namorar com uma garota que, vai depender de mim para tudo. — Suas palavras rasgam-me por dentro. — Não vamos nem poder fazer sexo, Anna. Se, já era banal estar com você quando andava, imagina só agora que, estará presa em uma cadeira de rodas, para sempre? — Eu o expulso, não o deixando falar mais nem uma palavra sequer.

— Saia da minha casa. — Desta vez, eu que o olho com nojo. — Eu tenho pena do homem que é, Eric. Saia da minha casa e me deixe em paz. — Grito, a respiração faltando. — Eu que não o quero na minha vida. Não sabendo, o ser humano nojento que você é. De forma alguma eu ousaria passar, o resto da minha vida, com alguém de sua índole. Estou presa numa cadeira de rodas, mas estou bem melhor que você. Seja feliz! — Eu digo. Virando o rosto para a parede, onde choro, não me dando conta do que sai de sua boca a seguir, porque estou machucada demais, para me importar.

Fecho os olhos, sentindo o vento contra o rosto, o coração acelerado e doendo. Nunca pude imaginar que, meu próprio namorado, fosse ser a primeira pessoa a me virar as costas. Mas já deveria ter, pelo menos, a noção de que algo assim viria acontecer, vindo de um cara como Eric. Ele sempre estava com seus amiguinhos. Trocava-me sempre, pelos barzinhos, aos sábados, com seus colegas de trabalho. Duas semanas depois, descobri que ele me traia e que todo esse tempo, as reunião, ás minhas costas, com sua amiga que, por sinal, está com ela até hoje. O odeio tanto por isso. Por ter sido tão idiota!

Balanço a cabeça, a fim de espantar para longe, todo o pensamento sobre meu ex, quando mais uma vez, me recordo do dia em que mexi a perna. O súbito susto de uma barata. O inseto tão indefeso, mas que me causa pânico, foi o motivo de muita alegria um tempo atrás. Sempre revivo esse grande momento em minha vida, e o guardo a sete chaves, em minha memória e coração.

A sala está repleta de risos e conversas, mamãe está sentada ao lado do meu pai, em um bate papo animado, sorrindo um para o outro, enquanto eu e Kath, minha melhor amiga, estamos conversando sobre quando vou voltar á faculdade.

— Eu não acho uma boa ideia, Kath. — Respondo sem emoção alguma. Cabisbaixa.

Ela me analisa. Nunca foi de desistir fácil, quando o assunto é me incentivar em algo. A conheci na faculdade. E de todos os meus amigos, a Kath foi a única que restou para contar história. A amo com todo meu coração.

— Por que não, Anna? Você já movimenta seus braços, super bem. Se eu fosse você, tentaria voltar. — Aconselha como sempre.

— Você está errada quanto a isso, eu acho. — Eu rio. — Não consigo nem mesmo, abrir minhas mãos direito. Sei lá, apenas não me acho mais capaz, para fazer tal coisa. — Murmuro sem jeito. — Mas prometo que vou tentar.

Abre um enorme sorriso.

— Vai dar tudo certo. — Tranquiliza-me. Eu sorrio alegremente, confiando em suas palavras.

— Eu sei que vai. Agora por favor, você pode pegar uma água para mim? — Faço meu melhor beicinho, o que a faz rir e revirar os enormes olhos verdes esmeraldas.

— Você é uma aproveitadora, isso sim. — Gargalho, não conseguindo segurar, a risada escandalosa que me escapa.

Kath sai, me deixando pensativa sobre o assunto, faculdade. Não que seria uma boa ideia voltar, mas acho que, está na hora de começar a enfrentar meus medos. Desde que sofri o acidente, me distanciei de muitas coisas. Podem me chamar de fraca o quanto quiserem, mas acontece que, não me sinto pronta o suficiente, para estar sob a mira de pessoas maldosas. A insegurança sempre esteve comigo, e eu simplesmente, não consigo mandá-la ir á merda. Porque era isso que deveria fazer e não ficar me importando com opiniões bobas.

Movo minha cabeça em direção a minha mãe que, me olha agora com carinho, ela tem suas mãos entrelaçadas com as de papai. Meus pés, estão apoiados sobre o pedal da cadeira, onde eles descansam, o tempo em que estou nela. Distraidamente, levo minha mão direita á calça de pijama que visto, tirando fios imaginários de lá, quando meus olhos pousam em uma barata, próxima ao meu pé. O bicho nojento, tem suas antenas balançando de um lado para o outro e o súbito susto, faz com que eu solte um grito e tire meu pé do pedal da cadeira. Por um segundo, aquele bicho não importa mais, porque no minuto seguinte, lágrimas de alegria transbordam meus olhos. Eu olho na direção onde meu pé direito está agora e depois na direção dos meus pais que, me olham atentos. Boquiabertos. Olhos repletos por lágrimas. Emoção total. Só então, percebo que eles não estão mais sentados e sim em pé e, que Kath, tem seus olhos esbugalhados e um largo sorriso. Ela viu! Todos viram!

— Oh, meu Deus! Vocês... — Não sou capaz de concluir a frase, porque meu choro de felicidade, me impede. Foi real, eu senti.

Todos balançam a cabeça, dizendo a mim que sim, que eles presenciaram esse momento tão lindo.

— Mamãe, eu movimentei a perna. — Grito, eufórica. Felicidade absoluta.

Ela sorri gigante.

— Sim. Eu vi, filha! — Responde sorrindo e chorando ao mesmo tempo.

— Oh meu Deus, oh meu Deus. — Kath pula em cima de mim, o copo com água que ela tem na mão, sendo derramado sobre minha cabeça, me dando um banho. Ela me aperta em seus braços, em um abraço carinhoso. — Anna, tenta voltar com a perna outra vez. — Incentiva.

— Vamos lá, filha. Você consegue. — É papai que diz — Você não sabe o quanto esse movimento me deixou feliz. Eu a amo tanto. — Chegando perto, ele alisa meu rosto. É terno.

Tento voltar com pé, mas nada acontece. É como se tivesse um peso sobre a minha perna, me impossibilitando de movê-la. Ergo o olhar e encaro todos, na sala, tristes.

— Não consigo. Talvez tenha sido pelo susto. — Dou de ombros.

— Está tudo bem. — Mamãe me abraça forte. — Você vai conseguir outra vez. — Sorri, tentando passar conforto. — A amo minha pedra preciosa, você sabe disso, não sabe? Não precisa chorar. Você irá conseguir outra vez. — Torna a repetir, com carinho.

— É, Anna, nós te amamos. — Kath fala, se juntando a minha mãe e meu pai, me dando um enorme abraço.

— Eu também os amo. Muito. — Por fim, eu disse.

E realmente os amo muito. Eles são minha razão e fortaleza. O jeito que eles vibraram quando eu, sem querer, realizei aquele pequeno movimento, fez com que meu coração transbordasse do mais puro amor. Foi genuíno e verdadeiro. Aquele, sem dúvidas, foi o dia mais feliz da minha vida e, assim como o acidente, eu não iria esquecê-lo, nunca.

— Anna! — Saio do meu pequeno transe, com a voz inconfundível de Kath.

Sabia que ela ia me encontrar de qualquer jeito. Nunca consigo me esconder, nem me livrar dela. Eu sorrio largo para minha melhor amiga. Ela vem em minha direção. Kath é uma mulher bonita. Seus cabelos estão arrumados, numa belíssima trança escama de peixe, de lado, o que é de se estranhar, porque ela nunca prende os cabelos, eles sempre estão soltos. Veste uma calça skinny preta, uma camiseta e nos pés, ela tem sapatilhas. Ela as coleciona.

— Oi, Katherine. — Revira os olhos pela forma que chamei. Sorrio!

Se aproximando, ela me dá um beijo estalado na bochecha.

— Ai, Kath está me babando toda, credo! — Brinco, fazendo-a semicerrar os olhos.

— Ah, para de ser tão chata. — Encolho os ombros, gargalhando. Adoro provocá-la.

Senta-se ao meu lado na grama.

— Eu sabia que você estava aqui. E olha só, você está tão linda hoje, e nem fui eu quem a arrumei. — Pisca os olhos em charme. Ela é uma provocadorazinha.

— Claro que estou. A dona Melanie escolheu o vestido. Foi presente dela. — Dou a ela um sorriso largo, mas de uma hora para outra, seu olhar fica triste.

—Você estava chorando? — Desvio meu olhar rapidamente, não querendo que ela veja. – Anna, já conversamos sobe isso. — Diz com carinho, sua mão alcançando a minha.

Meneio a cabeça.

— Eu só lembrei do dia em que movimentei minha perna. Foi apenas isso, Kath. — Um sorriso, brinca em sua boca. Sei que esse foi um dos dias mais felizes de sua vida, também. Ela sempre diz que, minha felicidade é sua.

— Sim. Foi com toda certeza, o dia mais feliz da minha vida. Nunca o esquecerei. —Lágrimas se formam em seus olhos. — Mas agora, chega de chorar. — Se levanta de onde está. — Você quer que eu a leve para casa? — Me olha atentamente.

Nego.

— Não precisa Kath, eu posso ir sozinha.

—Tem certeza? – Preocupação marca sua feição. Meneio a cabeça.

— Claro que tenho sua boba, só irei passar no senhor Martins, antes. Preciso comprar aquele biscoito que gosto, tenho certeza que o papai esqueceu. Ele anda trabalhando demais. Não o culpo.

— Qualquer coisa, Anna. Você está me ouvindo? — Balanço a cabeça, sorrindo com seu jeitinho preocupado. — Qualquer coisa você me liga e eu prometo que venho correndo, ok?

— Sim, mamãe! — Brinco revirando os olhos, fazendo-a gargalhar.

— Vou indo então. Se cuida.

Fico um pouco mais no parque. Olhando o sol que, está se pondo atrás das montanhas. A paisagem me encanta. Já deve ser quase 18:00 horas então, decido ir embora, pois não consigo andar na rua, se ficar um pouco mais tarde. O tempo está frio. Giro a cadeira, começando a movê-la devagar, indo em direção a saída do parque. A cadeira de rodas é automática, faz alguns meses que, eu ganhei do meu pai. Confesso que, é bem melhor que a outra que eu usava, além de ser bastante confortável. Passo pelos enormes portões e quando estou atravessando a extensa avenida, uma chuva acompanhada de trovoadas, cai sobre mim. Molhando-me inteira. Os carros freando, vindo em minha direção, me apavoram e faz-me recordar daquele maldito dia. O ataque de pânico me toma.

De repente, a cadeira para no meio da avenida movimentada, a respiração falha. Os pulmões parecem não me obedecerem. Sinto-me sufocada. Oh, Jesus! De novo não!

— Parem! — Grito por sob o barulho das buzinas, em completo desespero. — Por favor, parem. — Lágrimas ardentes, tomam conta dos meus olhos, fazendo as vistas ficarem embaçadas.

Os carros passam em alta velocidade. A cadeira de rodas, não se move para lugar algum. Tento forçar, mas ao invés de conseguir movimentá-la, eu vou ao chão, caindo, encolhida. Chorando feito um bebê. Precisando de ajuda, mas sem ter alguém que faça algo por mim. Ouço quando as pessoas passam, jorrando ofensas em minha direção. São dolorosas as palavras que saem da boca, de cada uma dessas pessoas.

Tomara que morra.

Levanta-se daí, garota!

Sufoco o grito que, quer me escapar e me encolho, a fim de amenizar a dor que queima dentro de mim. Choro baixinho, chamando por minha mãe e permaneço ali. Quebrada, assustada. De repente, todo flashback do acidente, aparece na minha mente, como um filme de terror, me atormentando ainda mais e levando-me ao dia mais infeliz da minha vida. O cheiro forte de sangue, paira no ar e me apavora. É como se aquilo estivesse acontecendo, outra vez. Maldito acidente!

Então, não ouço nada. Tudo parece distante ao meu redor. Apenas sinto, quando braços firmes me pegam e me segura contra o peito. Acalentando-me. Acalmando-me.

— Peguei você. Está tudo bem agora. — A voz é rouca, mas é suave igual, como se fosse a voz de um anjo.

Capítulo 3

ZACCARY

Acabo de sair de mais uma reunião. Uma dessas que, venho esperando á meses, para fechar contrato. A cabeça tem um leve latejar, como se fosse tambores rufando dentro dela. Massageio as têmporas, a fim de amenizar a dor irritante. Estou estressado e sinto que a qualquer momento, a cabeça possa explodir. Preciso de um analgésico urgente! Hoje o dia foi corrido, como todos os outros. Estou cansado. Corpo, mente e alma e sinto que preciso de um banho.

Saio da minha sala, com a pasta em mãos. Passo pela recepção, arrancando suspiros excitados de algumas mulheres, ali presentes.

Reviro os olhos e dou a elas um falso sorriso.

Fúteis e grandes interesseiras. Isso que todas elas são, e eu não dou a mínima para nenhuma delas.

Não sou de ficar com qualquer mulher, mas se eu o fizer que, seja de minha escolha. Sou um homem fechado para relacionamentos. Nunca namorei ou mantive algo sério com uma mulher, além de uma noite selvagem de sexo duro.

Sinto-me sozinho, às vezes, claro. Mas não quero qualquer mulher, para ocupar um espaço na minha vida. Quero que seja especial quando a encontrar. Quero que, ela seja perfeita e feita para mim, tão genuinamente que, nunca em hipótese alguma, eu sinta vontade de deixá-la ir embora.

Suspiro, fugindo dos meus pensamentos por um segundo, assim que encaro Darla na minha frente. Ela tem um largo sorriso.

— Darla, por favor, remarque minhas reuniões para segunda-feira. — Me olha perdida, sem entender.

—Mas, senhor Mitchell...

Dou a ela um olhar reprovador.

— Apenas faça o que lhe mando, Darla, sem questionamentos.

Rapidamente ela pega a agenda e com a caneta em mãos, começa as anotações.

— Sim, senhor. Gostaria de mais alguma coisa, senhor? — Pergunta-me, profissionalmente.

— Não. Obrigada, até mais!

Saio da empresa acompanhado por Antony, meu motorista. Está comigo, desde que me tornei CEO de uma das empresas mais famosas, de toda a Seattle. O trato como se fosse da minha família. Aqui, trata-se de companheirismo e entendo sobre isso muito bem. O tenho como um pai. Quando já estamos na Interestadual, para pegar a avenida, um temporal toma conta de toda a cidade, com trovoadas fortes e relâmpagos que, rasgam o céu. Chega ser assustador.

— Para casa, senhor? — Antony pergunta. Hoje é sexta-feira. E todas as sextas. eu nunca vou para casa, sempre desvio o caminho para um barzinho que, sempre frequento. Gosto de lá. O lugar é aconchegante e me trás boas lembranças, de quando era apenas um adolescente de apenas quinze anos, querendo transar e tentando arrumar uma namorada. Eu rio, com o mero pensamento. Mas hoje não! Hoje quero ir para casa. Estou morto, preciso de um banho, um bom vinho e cama.

— Sim, Antony. — Respondo com cautela.

O barulho da chuva batendo contra o vidro do carro, faz-me perder em pensamentos. Porém, o som de buzinas, é bem mais alto. Baixo o vidro do carro, apenas uma fração, alguns pingos de chuvas pulando para dentro do carro e me molhando, enquanto observo os carros passarem, em alta velocidade, na pista contrária. Ouço algumas pessoas soltarem xingamentos, denunciando seu ódio a quem quer que seja. Os palavrões são jorrados da maneira mais descabida. É horrível a maneira, com que cada uma das ofensas, saem de suas bocas, deixam-me com um ódio insano, ao ouvir cada idiotice. Quem quer que seja, não merece essas piadinhas sem graça.

— Tomara que morra. — Grita um homem, de aparência nojenta, ao volante, um cigarro preso entre os lábios.

— O que diabos está fazendo aí garota? — Mas que pergunta mais idiota.

— Levanta-se daí, aleijadinha. — Dessa vez, uma loira peituda e suas palavras, me incomodam de uma forma absurda.

Mais palavrões e xingamentos, e eu não sou mais capaz de suportar. Quem no mundo, machucaria uma pessoa assim, chamando-a dessas coisas horrorosas?

Quando finalmente nos aproximamos, a bile sobe minha garganta, eu quero matar cada uma daquelas pessoas, por todas as palavras preconceituosas. Eu olho pela janela, apenas para ver uma mulher, de pele branca e cabelos negros, está no meio da avenida, encolhida e mostra está chorando pelos solavancos bruscos que seu corpo pequeno dá. Ao seu lado, encontra-se uma cadeira de rodas automática que, provavelmente, deve ter falhado com a chuva. Ela veste em seu corpo, um lindo vestido longo. O tecido contém pequenas borboletinhas estampadas, todas coloridas, deixando-a ainda mais linda.

Meu peito aperta, ao vê-la ali, chorando baixinho, como uma criança abandonada, chamando por sua mãe.

— Para o carro, Antony. — Ordeno e assim ele o faz, imediatamente, deixando o veiculo no acostamento.

Meus pés criam vida própria e sem esperar nenhum segundo, eu desço do carro, atravessando a extensa avenida com rapidez e agilidade, e então estou perto dela. Tomo-a em meus braços. O corpo frágil e pequeno, se moldando ao meu, tão perfeitamente que, no mesmo minuto, sinto um frenesi passar por minha corrente sanguínea, o cheiro suave do perfume, é tudo que sinto quando a aperto, tão cuidadosamente em meus braços.

— Peguei você. Está tudo bem agora. — Murmuro tão suavemente quanto posso, tentando ao máximo passar conforto.

Ergo a cabeça, olhando para cima. A chuva ainda cai e o céu brilha, acima de nós. Fecho os olhos e fico, por um bom tempo, pensando no que fazer com essa garota que, tenho nos meus braços agora.

Diga-me Deus? Será destino de uma vida? — Pergunto silenciosamente. A mente vagando ao pensamento de mais cedo.

Volto a abrir os olhos e quando abaixo a cabeça, ela está me encarando. Olhos azuis piedosos. Os mais bonitos que eu já vi. As íris brilham, com as lágrimas incessantes. A pele do rosto, é de porcelana, tão branca que, combina perfeitamente, com seu olhar de anjo. Ela me encara por um momento e eu me perco na imensidão dos olhos bonitos e sinto-me encantado por tamanha beleza. Cristo! Nunca vi nada igual. Ela é perfeita. Levantando uma mão, eu toco o rosto com delicadeza, mas logo em seguida seu grito de dor me faz recuar.

— Dói. Por favor, dói! — Ela chora copiosamente. As lágrimas descendo pelos cantos dos olhos, fazendo seu caminho doloroso.

Sem saber o que fazer, apenas a olho com desespero. Estou perdido.

— Senhor, ajude-me, por favor. Não me deixe morrer. — O seu choro é angustiante e acaba comigo.

— Mantenha a calma. Vai ficar tudo bem. — Tento passar tranquilidade, mas falho.

Seu corpo treme sem parar e ela chora em meus braços, e quando, sua respiração não está mais presente. Apavoro-me. De jeito nenhum vou permitir que, morra em meus braços. Não depois de encontrá-la.

— Respire. Por favor, respire. — Ela não me obedece e seu corpo fica ali imóvel.

Olhos arregalados, olhando para mim com desespero, implorando por ajuda, na dor do silencio. A vontade que tenho, é de tirar toda e qualquer dor que esteja sentindo agora, mas ao invés disso, eu a observo morrer, aos poucos, em meus braços, como o covarde que sou e não faço nada. De repente, seus lábios ficam roxos, fazendo o pavor, crescer ainda mais em mim.

— Respira, droga! — Chacoalho-a tentando despertá-la. —Você está prendendo a respiração, apenas solte-a. Você não pode morrer nos meus braços. — Acaricio a pele pálida do seu rosto. — Respire, por mim. Vamos lá, respire, borboletinha. — Imploro, deixando-a confusa com o apelido e então ela solta o ar que, estava prendendo. Seu grito é ensurdecedor e faz doerem meus ouvidos, mas isso não chega nem perto, do alívio que sinto agora. O choro rasga sua garganta. É um pedido de ajuda e socorro e me faz querer chorar.

— Por favor, eu preciso de ajuda. — Chora mais. — Me leve para um hospital, não me deixe aqui para morrer. — Meneio a cabeça, dizendo a ela que, vou fazer o que está pedindo. Sua voz vem suave e baixa e se eu não estivesse tão perto, não seria capaz de ouvi-la.

A chuva cai sem parar e a cada trovão, ela se encolhe mais em meu colo. Apertando-a contra o peito, beijo o topo de sua cabeça, enquanto a ouço fungar baixinho.

Vê-la assim, tão indefesa, me mata por dentro. Nunca acreditei nessa coisa de destinos, mas e se essa garota, aqui nos meus braços, for o meu. Vou fazer de tudo para tê-la.

— Aguenta firme. Vai ficar tudo bem, borboletinha, eu prometo! Você nunca mais estará sozinha. — Sussurro em seu ouvido, enquanto a ergo para cima, levantando-me de onde estou e caminhando até onde ficou meu carro. — Diga-me onde dói e eu vou fazer parar. Eu prometo que vou. — Ela acena com a cabeça, enchendo o meu coração do sentimento desconhecido.

A mulher que eu havia encontrado, minutos atrás, caída sobre uma pista molhada, havia mexido com meu coração, de uma forma inexplicável. Ou estava eu ficando maluco, ou certamente, apaixonado. Eu rio.

— Antony, você pode pegar a cadeira de rodas que, está próxima ao sinal, por favor? Em seguida nos leve para um hospital, com urgência. — Ditei a ordem e sem esperar por uma resposta sua, abri a porta do carro, coloquei-a no banco de trás, logo em seguida, entrei e coloquei sua cabeça para repousar no meu colo.

— Oh Deus, eu não aguento mais. — Seus olhos vieram parar em mim. Eles pediam compaixão. Estávamos a uma quadra do hospital. Faltava só mais um pouquinho, ela tinha que aguentar firme.

Olhando profundamente em meus olhos, ela implorou. Prendi as lágrimas que, ameaçavam a cair. Não poderia eu ser tão fraco, quando ela estava sendo forte, mesmo sentindo tanta dor.

— Por favor... — A cada vez que ela implora, uma parte de mim vai junto.

— Antony, mais rápido com isso, caramba! — Ordenei, já em tom ríspido. Acariciei-lhe os cabelos sedosos e molhados da chuva.

— Sim, senhor!

— Você poderia ligar para minha casa? Eu preciso da minha mãe. — Frágil, forte e incrivelmente doce. Seu pedido é um apelo ao meu coração, quebrantado. E eu percebo que, o que quer que fosse seu pedido nesse momento, eu faria sem questionar.

Eu ri um pouco.

— Não se preocupe, vou ligar sim. Basta apenas me dar o número, quando estiver se sentindo melhor.

Afago seus cabelos, acariciando o couro cabeludo, ela fecha os olhos, sentindo meu toque e eu penso por um minuto que, poderia me acostumar com essa visão.

Quando finalmente chegamos ao Newcast Hospital, Antony estaciona o carro.

— Vamos lá, borboletinha.

Removo sua cabeça do meu colo, devagar, saindo do carro e abrindo a porta do outro lado, para que eu possa pegá-la logo em seguida, mas quando eu a toco, seu grito me faz parar.

— Aahhhhh! — Urra de dor. — Não, por favor, eu não aguento. Dói. Oh, meu Deus, ajude-me, dói muito. — Seu choro me quebra por dentro e é meu fim. As lágrimas que estive segurando todo esse tempo, vêm à tona, descendo por meu rosto como enxurradas. Molhando as bochechas e me fazendo sentir toda a sua dor.

De maneira grosseira, eu passo minhas mãos sobre o meu rosto, secando as lágrimas e olhando-a com admiração. Afasto os bancos da frente do carro, para que tenha mais espaço e me inclino, ficando da sua altura. Com cuidado, passo um braço por baixo de suas pernas, cobertas pelo vestido longo bonito e o outro entre seu pescoço e costas.

— Você é forte. Aguenta firme, só mais um pouquinho. — Encorajo-a, mas vejo ela menear a cabeça em negativa.

— Não tenho mais forças. — Umedece os lábios ressecados. A dor presente nos olhos bonitos e chorosos —A dor levou tudo de mim. Deixe-me morrer, eu não vou conseguir. — Respira profundo e então, para como se a dor a estivesse maltratando, ao fazer o movimento. Chorando ela me encara.

Oh, Deus! Como posso deixá-la morrer, depois de encontrá-la. Como posso deixá-la partir, quando me vejo completamente encantado, por seus lindos olhos azuis e seu vestido de borboletas?

— Eu não posso. — Eu rio, tristemente. — Eu encontrei você e não vou deixá-la ir. Nunca mais. — Sorrio triste, mas convicto de cada palavra.

Beijo seu rosto.

— Eu tenho você bem aqui. — Aponto na direção dos meus braços onde eu a seguro firmemente. — Eu vou apertá-la tanto, contra o meu peito que, por um segundo essa dor vai sumir. Confie em mim, borboletinha. Eu estou aqui para você, tudo vai ficar bem! — Ainda em lágrimas ela meneia a cabeça, e eu explodo em alegria sorrindo feito bobo.

Tomo-a em meus braços, apertando contra o meu peito. Suas mãos delicadas seguram forte o meu terno e sei que é para não gritar de dor.

— Eu tenho você. — Sussurro no seu ouvido, com carinho. — Olha só, eu tenho você. — Torno a repetir, para que cada palavra fique gravada em sua mente. — Eu tenho você, bem aqui, borboletinha, para sempre! — Beijo cada uma de suas lágrimas, secando-as.

Ela concorda, enchendo meu coração, fazendo com que o riso de felicidade me escape.

Nunca pensei que, um dia comum, pudesse me fazer virar do avesso. E que uma mulher desconhecida roubaria meu coração tão facilmente. Eu a encontrei caída sobre uma pista molhada, debaixo de chuvas e trovoadas, com sua cadeira de rodas ao lado, deitada em posição fetal e tentando se proteger enquanto chorava. Dona dos olhos mais lindos que, um dia já vi na vida. Eu a encontrei, envolta em um lindo vestido de borboletas, a promessa pairando na minha mente. O sentimento que sinto queimar e balançar meu peito agora é assustador. Abraço seu corpo mais apertado, as mãos segurando-me firme, forte. Os olhos fechados deixando que, algumas lágrimas escapem pelos cantos. Beijo a testa fria e molhada por alguns segundos. Abre os olhos novamente, eles imploram-me por ajuda. A dor que a maltratada se tornando insuportável e a levando para longe a cada instante. Dou a ela um sorriso, lágrimas rolando pelo meu rosto, quando sussurro mais uma vez para que ela aguente firme. Chamo-a pelo apelido que coloquei, encaro o vestido com pequenas borboletas e reforço minha promessa de cuidar da garota dos olhos bonitos, para toda uma vida, se assim ela quiser.

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