Capítulo 2

Rafael olhou para a mulher à sua frente, a respiração presa na garganta. Ele estava acostumado a lidar com CEOs gananciosos, políticos corruptos e investidores astutos, mas nenhum deles havia sido tão... explosivo. A raiva em seus olhos verdes era genuína, e o desafio em sua voz não era uma fachada. Ela não o temia. Pela primeira vez em anos, ele se sentiu desestabilizado.

"Sente-se, Isabela", disse seu pai, a voz trêmula de nervosismo. "Por favor. Não estrague tudo."

Isabela hesitou, mas a súplica no olhar do pai a fez obedecer. Ela se sentou, mas não relaxou. Seus olhos estavam fixos em Rafael, como se o desafiasse a dizer algo estúpido de novo.

Rafael, por sua vez, fechou a pasta com um som seco e a empurrou na mesa, como se estivesse encerrando um assunto. "Dr. Medeiros, por favor, explique as condições para a senhorita Monteiro. Ela parece não ter entendido a gravidade da situação."

O advogado, um homem idoso e de rosto austero, ajeitou os óculos. Ele parecia mais à vontade explicando a lei do que lidando com a tensão palpável entre os dois.

"A herança do patriarca Albuquerque, o senhor Fernando, é uma das maiores do país", ele começou, a voz monótona e formal. "Mas ele estava preocupado com a frieza e o pragmatismo de seu neto. O senhor Fernando percebeu, em seus últimos anos de vida, que o verdadeiro sucesso vem do coração, não apenas da mente. Lamenta não ter ensinado isso ao neto em lugar do treinamento rígido e constante para torná-lo forte e metódico."

Isabela soltou uma risada sarcástica. "Ah, que lindo. Então ele quer me usar para amaciar o herdeiro de coração de pedra."

Rafael a ignorou, seu olhar ainda mais penetrante.

O advogado prosseguiu, ignorando a interrupção. "A cláusula principal é simples: para ter acesso total ao império, o senhor Rafael deve se casar. A noiva deve ser de uma família que represente valores que o senhor Fernando admirava: lealdade, trabalho duro e, principalmente, uma conexão com a terra. A família de vocês, que tem uma tradição centenária de criação de cavalos, se encaixa perfeitamente."

Isabela franziu a testa. "Mas... e se ele se casasse com outra pessoa? Outra família 'da terra'?"

O Dr. Medeiros suspirou. "O testamento foi muito específico. O senhor Fernando deixou claro que a família Monteiro era sua única opção. Ele via no seu pai, no legado dele, a essência do que ele queria para o futuro de sua própria família. E ele sabia da dívida de vocês, infelizmente. Ele viu a oportunidade perfeita para forçar a união."

A revelação caiu como uma bomba. Não era uma coincidência, era um plano meticuloso e cruel. O avô de Rafael a havia escolhido, não por ela ser uma pessoa, mas por ser um "ativo" que se encaixava em sua equação.

Isabela sentiu uma onda de fúria e humilhação. Eles foram observados, avaliados e, por fim, comprados.

Rafael, vendo a mudança no rosto dela, finalmente falou, sua voz com uma estranha seriedade. "Meu avô sempre foi um jogador. Ele sempre jogava para vencer."

"E eu sou o prêmio?", ela perguntou, a voz baixa, mas perigosa.

"Você é o ponto de virada", ele corrigiu. "O testamento também tem cláusulas de desempenho. Se o conglomerado não atingir certas metas de responsabilidade social e ambiental, parte da herança é doada a instituições de caridade. É o 'Plano B' dele para se certificar de que eu não seja apenas um empresário sem alma."

Isabela piscou, surpresa. Aquilo ela não esperava. Culpabilidade ambiental era uma de suas maiores paixões. Ele sabia disso? O avô dele sabia disso?

"E a sua cláusula de fidelidade?", ela questionou, voltando ao ponto principal.

"Se qualquer um de nós for pego em um escândalo de infidelidade, o casamento é anulado e o testamento me desqualifica da sucessão. E sua família volta à estaca zero, com a dívida devolvida", ele disse, a voz inabalável. "Não há espaço para erros. Precisamos ser, no mínimo, parceiros de negócios confiáveis."

Isabela sentiu o peso do mundo sobre os ombros. A lealdade dela e o futuro da sua família, o haras, e até mesmo sua vida pessoal estavam atrelados à rigidez e à honra de Rafael. O testamento não era apenas um contrato, era uma teia complexa, e eles estavam completamente presos.

Ela se levantou novamente, mas desta vez, a raiva deu lugar a um novo sentimento: a determinação.

"Eu entendi", ela disse, olhando diretamente para Rafael. "Vamos fazer isso."

Ele a encarou, o ar de desinteresse substituído por uma faísca de surpresa.

"A partir de agora, não somos mais desconhecidos. Somos parceiros. E parceiros de negócios se conhecem. Portanto, senhor Albuquerque... me conte o que você perdeu de mais valioso com essa vida fria e calculista que você leva."

Rafael não respondeu, mas o silêncio falou por ele. E, naquele momento, Isabela soube que a promessa não estava selada apenas em papel. Havia um vazio entre os dois, um espaço para ser preenchido, e a jornada deles estava apenas começando.

Capítulo 3

A proposta de Rafael de morar na mansão foi recebida com um silêncio tenso. Isabela olhou para o pai, que parecia a ponto de ter um colapso nervoso, e depois de volta para Rafael, o olhar tão firme quanto uma rocha. Ele podia ter o dinheiro, o poder e o testamento do avô a seu favor, mas a única coisa que ele não tinha era o controle sobre ela.

"Eu vou para a sua mansão," ela disse, a voz baixa e controlada. "Mas sob as minhas condições. Não sou um objeto para ser guardado em uma caixa de vidro."

Rafael ergueu uma sobrancelha, visivelmente surpreso com a audácia dela. "Condições? Você estará na minha casa, senhorita Monteiro. A única condição aqui sou eu."

Isabela deu um sorriso frio, que não chegou aos seus olhos. "A cláusula do testamento diz que o casamento deve ser 'duradouro'. E um casamento duradouro, mesmo que arranjado, precisa de um mínimo de cooperação. Ou você acha que um juiz vai acreditar que somos um casal se a gente só se vê em eventos de gala?"

Ela se levantou, caminhando até a janela de vidro que dava para a cidade, sentindo-se pequena diante de toda aquela imensidão de concreto. "O meu mundo é feito de terra, de suor, de animais. Seu avô sabia disso. Ele me escolheu por isso."

Rafael a encarou, o silêncio preenchendo o espaço. Ele parecia estar analisando uma complexa equação de negócios.

"Eu não vou me desfazer do meu cavalo. Eclipse vai comigo. Eu preciso de um estábulo para ele, e de uma área para treinamento. Ele é minha família, e eu não vou abandoná-lo. Eu vou viver na sua mansão, mas vou precisar de um espaço para ele lá."

A proposta era tão absurda que os advogados e o pai de Isabela prenderam a respiração. Um haras em um condomínio de luxo? Rafael, o executivo impecável, com um cavalo no jardim?

Rafael, no entanto, não demonstrou reação. Apenas a observou, medindo a determinação em seus olhos. "O meu condomínio não permite animais de grande porte."

Isabela deu de ombros. "Seu avô queria uma conexão com a terra. Faça o seu 'Plano B' funcionar. Ou negocie com o condomínio. Se o senhor consegue controlar um conglomerado multimilionário, acho que pode lidar com as regras de um condomínio."

A ironia era palpável. Rafael ponderou a sugestão, seus olhos se estreitando em um cálculo silencioso. Ela sabia que tinha o trunfo na mão.

"Tudo bem," ele finalmente disse, a voz como gelo. "Eu darei um jeito. Mas você também terá que cumprir a sua parte do acordo. A convivência em meu mundo."

Ela virou-se para encará-lo, a luz do sol refletindo em seu olhar verde. "Estou pronta. Quais são as condições?"

"A cada dois finais de semana, você vai me acompanhar em eventos de negócios ou encontros familiares. Jantares, coquetéis... o que for necessário para nos mostrar como um casal. Você se veste de acordo e se comporta."

Isabela revirou os olhos. "Como se eu fosse uma boneca de porcelana. E o resto do tempo?"

Ele a fitou intensamente, um desafio em seus olhos. "Nos finais de semana que não tivermos compromissos sociais, eu passarei com você no haras. Para 'me conectar com a terra', como meu avô queria. "

A proposta pegou Isabela de surpresa. A ideia de Rafael Albuquerque, de terno e sapatos de couro caros, em meio à poeira e ao cheiro de cavalos, era no mínimo hilária. Ela queria gargalhar, mas se conteve.

"E em casa?", ela perguntou.

"Em casa, seremos apenas Rafael e Isabela. Dois estranhos vivendo sob o mesmo teto, cumprindo um contrato. Não há necessidade de demonstrações de afeto. Mas também não quero conflitos. Se você for madura o suficiente para aceitar isso, o contrato será assinado."

Ela o olhou, a teimosia em seu olhar. "Não sou a pessoa madura aqui. Você está tentando me controlar com dinheiro. Mas eu aceito. Vamos assinar."

A assinatura dos documentos foi rápida e silenciosa. O destino deles, selado em um pedaço de papel. O futuro, uma incógnita. Naquele momento, Isabela sabia que a batalha de vontades não havia terminado. Na verdade, ela estava apenas começando. A convivência em uma mansão luxuosa com um homem frio e um cavalo teimoso era a receita perfeita para o caos. E, por mais que tentasse, ela não conseguia se livrar da sensação de que, no fundo, talvez fosse isso que o avô de Rafael sempre quis.

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