Capítulo 2

ADRIAN CORTEZ

Eu já tinha visto muita coisa nessa vida.

Negócios sujos.

Homens mentindo olhando nos meus olhos.

Traições mascaradas de lealdade.

Mas aquilo...

Aquilo me fez apertar o volante com tanta força que meus dedos chegaram a doer.

A chuva caía pesada, quase violenta, batendo contra o para-brisa enquanto o limpador tentava inutilmente manter alguma visibilidade. E foi ali, no meio daquele cenário cinza e caótico, que eu a vi.

Letícia.

Sozinha.

Molhada.

Pequena demais diante de um mundo que, claramente, tinha acabado de desabar sobre ela.

Meu maxilar travou.

Que porra o meu filho fez dessa vez?

Porque não... não era normal. Não era só uma briga. Não era um desentendimento qualquer.

Eu conhecia aquela postura.

O jeito como ela andava sem direção.

Os ombros caídos.

O olhar perdido.

Aquilo era dor.

E não era pouca.

Pisei no freio antes mesmo de pensar duas vezes.

O carro parou ao lado dela, e por alguns segundos eu apenas observei.

A água escorrendo pelo rosto dela.

Os lábios trêmulos.

Os olhos... vermelhos.

Aquilo não era só chuva.

- Entra no carro, Letícia! - minha voz saiu firme, autoritária, sem espaço para discussão.

Ela virou o rosto devagar.

E quando nossos olhares se encontraram...

Algo estranho aconteceu.

Algo que eu não soube nomear na hora.

Mas eu senti.

Forte demais.

Os olhos dela estavam molhados, sim.

Mas não era só por causa da chuva.

Era tristeza.

Era raiva.

Era algo quebrado ali dentro.

E, por um instante, ela hesitou.

Claro que hesitou.

Letícia sempre foi orgulhosa demais pra aceitar ajuda fácil.

Principalmente de mim.

Eu abri a porta antes mesmo que ela tivesse tempo de recusar.

Saí do carro, sentindo a chuva pesada molhar meu terno em segundos.

Ela deu um passo pra trás.

- Não precisa, Adrian... eu-

- Chega. - cortei, firme.

Segurei o braço dela.

E foi aí que aconteceu.

Contato.

Simples.

Direto.

Mas intenso demais.

A pele dela estava fria por causa da chuva... mas, mesmo assim, eu senti.

E ela também.

Porque o corpo dela reagiu.

Sutil.

Mas eu percebi.

Sempre percebo.

- Você está tremendo. - falei, baixo, encarando ela.

- É só a chuva... - ela desviou o olhar, tentando se soltar.

Não deixei.

Abri a porta do carro e a conduzi pra dentro com cuidado, mas sem dar espaço pra discussão.

Ela protestou.

Claro que protestou.

- Eu não preciso disso, eu vou me virar, eu...

- Foda-se você se virar, Letícia. - fechei a porta com mais força do que o necessário e entrei no carro logo depois.

O silêncio que se seguiu foi pesado.

Carregado.

Denso.

Eu liguei o carro novamente, mas não arranquei.

Virei o rosto devagar pra ela.

Ela estava encolhida no banco.

Molhada.

Respiração descompassada.

E linda.

Perigosamente linda.

Meu olhar desceu por um segundo.

A roupa grudada no corpo dela por causa da chuva.

O contorno marcado.

A pele arrepiada.

Droga.

Eu fechei os olhos por um instante.

Controle, Adrian.

Controle.

- Eu gostaria de saber... - minha voz saiu mais baixa agora, mas ainda firme - ...por que você está debaixo de chuva, desse jeito e chorando.

Ela virou o rosto na minha direção.

E, por um segundo, parecia ofendida.

- Como você sabe que eu estou chorando?

Eu soltei um riso sem humor.

- É nítido.

Silêncio.

Ela desviou o olhar.

E foi aí que a ficha caiu de verdade.

Aquilo não era só uma discussão.

Era algo maior.

Muito maior.

Meu maxilar travou novamente.

- Quem fez isso com você?

Ela demorou a responder.

Respirou fundo.

E quando falou...

A voz saiu amarga.

Quebrada.

- Você não acreditaria.

Meu estômago revirou.

Mas eu já sabia.

Eu conhecia meu filho.

Conhecia as falhas dele.

Mas queria estar errado.

Por uma vez.

- Enzo? - falei o nome devagar, controlando a raiva que começava a crescer dentro de mim. - Foi aquele infeliz? O que ele fez?

Ela soltou uma risada fraca.

Sem humor.

Sem vida.

- Me traiu.

As palavras vieram secas.

Diretas.

Sem rodeio.

Eu fechei os olhos por um segundo.

Mas ela continuou.

- Com a secretária. - pausou. - E me expulsou do apartamento que eu paguei.

Silêncio.

Total.

Absoluto.

E então...

A raiva veio.

Forte.

Violenta.

Crua.

Minhas mãos apertaram o volante com força.

- Eu não posso acreditar numa putaria dessa... - minha voz saiu baixa, mas carregada de ódio. - Esse não é o homem que eu criei.

Mas talvez fosse.

Talvez eu tivesse ignorado sinais.

Talvez eu também tivesse fechado os olhos.

Droga.

- Mas ele vai me pagar. - continuei, olhando pra frente. - Ele vai aprender.

- Não precisa, Adrian. - ela cortou rápido. - Pelo amor de Deus.

Eu virei o rosto pra ela.

- Você está defendendo ele?

- Não. - ela respondeu firme. - Eu só... não quero mais confusão. Eu vou pra um hotel.

- Nem pensar.

A resposta saiu automática.

Sem filtro.

Sem espaço.

- Você vai pra minha casa.

Ela me encarou.

- Não precisa. Eu tenho meus pais.

- Seus pais estão em outro estado, Letícia. - falei com calma, mas firme. - E sua vida está aqui.

Ela desviou o olhar.

Insegura.

Vulnerável.

- Eu não quero incomodar.

Eu soltei um suspiro.

Inclinei levemente o corpo na direção dela.

Mais perto.

Perto demais.

- Não é incômodo nenhum.

Ela levantou o olhar.

E, por um segundo...

A gente ficou assim.

Próximos.

Demais.

O ar dentro do carro parecia mais pesado.

Mais quente.

Minha atenção caiu nos lábios dela.

Ainda levemente entreabertos.

Respiração irregular.

Droga.

- Felizmente... - comecei, mantendo o olhar preso ao dela. - ...você não é mais minha nora.

O silêncio caiu.

Pesado.

Carregado de algo que nenhum dos dois nomeou.

Mas estava ali.

Claro.

Presente.

Ela engoliu seco.

- Felizmente?

A pergunta veio baixa.

Mas cheia de significado.

Eu sustentei o olhar dela.

Sem recuar.

Sem desviar.

- Sim. - respondi, com a voz mais grave do que o normal.

Porque a verdade era simples.

Perigosa.

E eu já estava começando a perceber.

Letícia nunca foi só a namorada do meu filho.

E, naquele momento...

Ela definitivamente deixou de ser só isso.

E isso...

Isso era um problema.

Um grande problema.

Mas, estranhamente...

Eu não estava com vontade nenhuma de fugir disso.

Soltei o cinto.

Inclinei ainda mais o corpo.

Parei a poucos centímetros dela.

- Você vem comigo. - falei baixo, firme. - E dessa vez... não é um pedido.

Os olhos dela vacilaram.

A respiração falhou.

E, por um segundo...

Eu tive a impressão de que ela não ia dizer não.

{...}

Capítulo 3

ADRIAN CORTEZ

Estar tão perto dela estava acabando comigo.

Era simples assim.

Cruel.

Perigoso.

Insuportavelmente tentador.

O cheiro dela misturado com chuva invadia o carro inteiro, me deixando inquieto de uma forma que eu odiava admitir. Letícia estava encolhida no banco do passageiro, abraçando o próprio corpo enquanto tremia de frio, e mesmo daquele jeito - destruída, molhada, vulnerável - ela continuava absurdamente linda.

Talvez linda demais.

E isso era um problema.

Um maldito problema.

Porque eu conhecia aquele sentimento.

Conhecia há anos.

Desde o dia em que Enzo apareceu em casa dizendo que tinha conhecido alguém na faculdade.

Desde o primeiro jantar.

Desde o instante em que ela sorriu pra mim e estendeu a mão delicada enquanto dizia:

"Prazer, senhor Cortez."

Foi ali.

Naquele maldito instante.

Eu soube que estava fodido.

E passar todos esses anos fingindo normalidade foi uma tortura silenciosa.

Assistir ela ao lado do meu filho.

Ouvir ela rir com ele.

Ver os dois juntos em reuniões de família enquanto eu precisava me controlar pra não olhar tempo demais.

Pra não pensar demais.

Pra não desejar demais.

Porque desejar a noiva do meu filho era errado.

Doentio.

Imperdoável.

Mas eu desejava.

Desejava mais do que devia.

Muito mais.

E agora ela estava ali.

No meu carro.

Sem ele.

Vulnerável.

Machucada.

E aquilo despertava o pior em mim.

Ou talvez... o mais verdadeiro.

- Você me olhando desse jeito... parece que vai me devorar.

A voz dela me arrancou dos pensamentos.

Baixa.

Tensa.

Eu virei o rosto lentamente.

Ela ainda estava abraçada ao próprio corpo, os cabelos molhados grudando na pele, os lábios levemente arroxeados por causa do frio.

Mas eram os olhos dela que me prendiam.

Sempre os olhos.

Porque Letícia tinha aquele tipo de olhar perigoso.

Expressivo demais.

Honesto demais.

Ela sentia tudo intensamente.

E eu conseguia ver.

A dor.

A vergonha.

A insegurança.

E, no meio de tudo aquilo...

A tensão.

Ela também sentia.

Talvez não entendesse ainda.

Mas sentia.

Eu apoiei uma mão no volante.

Inclinei levemente o corpo na direção dela.

- Minha vontade era fazer outras coisas, Letícia. - falei devagar, sustentando seu olhar. - Não apenas te devorar.

O ar dentro do carro mudou.

Pesou.

Ela prendeu a respiração.

Eu vi.

Droga...

Aquela mulher tinha consciência do efeito que causava?

Porque eu estava perigosamente perto de perder o controle.

- Adrian...

Ela não terminou.

Porque um espirro interrompeu tudo.

- Atchim!

Eu fechei os olhos por um segundo e passei a mão pelo rosto.

Ótimo.

Perfeito.

- Droga! - rosnei baixo. - Meu filho inútil te fez pegar chuva desse jeito.

Ela tentou minimizar.

Claro que tentou.

- Não é pra tanto...

- Minha vontade é matar aquele moleque.

Ela soltou uma pequena risada sem humor.

Fraca.

Cansada.

E aquilo me irritou ainda mais.

Porque ela ainda tentava proteger o idiota que acabou de destruí-la.

Eu parei o carro na garagem da minha casa e saí imediatamente, caminhando até o lado dela antes mesmo que pudesse protestar.

Quando abri a porta, ela tentou descer sozinha.

Mas quase caiu.

Eu segurei sua cintura por reflexo.

Firme.

E o contato...

Merda.

O corpo dela estremeceu sob minhas mãos.

O meu também reagiu.

Silenciosamente.

Perigosamente.

Ela levantou o rosto devagar.

Próxima demais.

Bonita demais.

Os lábios entreabertos.

A respiração falhando.

Por um segundo inteiro...

Eu pensei em beijá-la.

Ali mesmo.

Na garagem.

Sem pensar nas consequências.

Sem pensar em Enzo.

Sem pensar em nada.

Mas então ela voltou a tremer de frio.

E a realidade voltou junto.

Sem dizer nada, passei um braço por trás das pernas dela e a peguei no colo.

Leve.

Quente mesmo molhada.

Perfeita demais encaixada em mim.

- Adrian! - ela protestou imediatamente, segurando meu ombro. - Não precisa disso!

- Fica quieta, Letícia. - comecei a andar em direção à entrada da casa. - Estou tentando me concentrar pra não ir agora mesmo quebrar a cara daquele moleque.

Ela soltou um suspiro frustrado.

Mas não tentou descer novamente.

E isso...

Isso mexeu comigo mais do que deveria.

O silêncio entre nós ficou estranho.

Intenso.

Eu conseguia sentir a respiração dela contra meu pescoço.

Conseguia sentir o perfume suave misturado à chuva.

Conseguia sentir tudo.

Cada detalhe.

Cada maldito detalhe.

Entrei em casa rapidamente.

Aquecimento ligado.

Luzes baixas.

Silêncio absoluto.

Apenas nós dois.

E aquilo parecia perigosamente íntimo.

Subi as escadas sem dificuldade, caminhando diretamente para meu quarto.

Porque o banheiro da suíte era maior.

Mais quente.

Melhor pra ela.

Quando entrei, coloquei Letícia cuidadosamente no chão.

Ela parecia um pouco zonza.

Exausta.

Eu imediatamente liguei a banheira, ajustando a temperatura morna da água.

Depois liguei o aquecedor do banheiro.

Só então voltei a olhar pra ela.

E me arrependi no mesmo instante.

Porque a roupa molhada estava praticamente transparente.

Marcando cada curva do corpo dela.

Cada detalhe.

Cada tentação.

Meu maxilar travou.

- Tome um banho quente. - minha voz saiu mais rouca do que o normal. - Senão você vai adoecer.

Ela abriu a boca pra responder.

Mas o corpo vacilou antes.

- Eu...

E então ela desabou.

Droga.

Eu a segurei antes que atingisse o chão, trazendo o corpo imediatamente contra o meu.

Ela estava gelada.

Tremendo.

Fraca.

A preocupação apagou qualquer outro pensamento da minha mente.

- Minha vontade de matar aquele inútil só aumenta. - rosnei.

Levei ela até a pia e a sentei cuidadosamente sobre o balcão.

Ela respirava rápido.

Os olhos meio perdidos.

E eu sabia.

Se ela continuasse naquela roupa molhada, acabaria doente.

Talvez pior.

Então fiz a única coisa possível.

Comecei a abrir os botões da blusa dela.

Devagar.

Controlado.

Tentando ignorar o caos dentro de mim.

Mas quando a peça deslizou pelos ombros dela...

Letícia segurou meus pulsos imediatamente.

- Adrian!

A vergonha tomou conta do rosto dela no mesmo instante.

As bochechas ficaram rosadas.

Ela tentou cobrir os seios com as mãos, claramente desconcertada.

E Deus...

Aquilo me destruiu.

Porque ela era linda até envergonhada.

Principalmente envergonhada.

Eu respirei fundo.

Precisava manter o controle.

Precisava.

- Não se preocupe, Letícia. - falei baixo, sustentando seu olhar. - Eu não vou tocar em você se não quiser.

Ela continuou me olhando.

Desconfiada.

Confusa.

Então completei:

- Por mais que isso seja tudo que eu queira.

O silêncio caiu entre nós imediatamente.

Pesado.

Quente.

Ela arregalou os olhos.

A respiração falhou.

E eu sabia que tinha ido longe demais.

Mas já era tarde.

Porque era verdade.

Crua.

Feia.

Perigosa.

Mas verdade.

Eu queria ela.

Há anos.

E esconder aquilo estava começando a ficar impossível.

Desviei o olhar antes que acabasse fazendo alguma loucura.

Terminei de tirar cuidadosamente a roupa molhada dela sem ultrapassar nenhum limite.

Sem tocar mais do que o necessário.

Mesmo que meu corpo inteiro implorasse pelo contrário.

Então a peguei no colo novamente.

Nua.

Quente agora por causa da proximidade.

E a levei até a banheira.

Quando a coloquei dentro da água morna, ela soltou um suspiro involuntário de alívio.

Eu observei por um segundo.

A água cobrindo parcialmente o corpo dela.

Os cabelos molhados.

Os olhos ainda presos em mim.

E senti algo perigoso crescer dentro do peito.

Algo que já estava fora de controle.

Eu precisava sair dali.

Agora.

Antes que esquecesse quem ela era.

Ou pior...

Quem eu era.

Então me virei lentamente em direção à porta.

- Quando terminar... me chama. - falei sem olhar diretamente pra ela. - Eu venho te ajudar.

E saí.

Porque ficar naquele banheiro por mais um minuto seria a pior decisão da minha vida.

Desci as escadas tentando controlar a própria respiração.

Mas não adiantava.

A imagem dela continuava na minha cabeça.

A pele.

Os olhos.

A voz.

Droga.

Passei a mão no rosto e fui direto pra cozinha.

Precisava ocupar a mente.

Precisava fazer qualquer coisa.

Abri os armários, peguei os ingredientes e comecei a preparar uma sopa quente pra ela.

Mas até ali...

Até cortando legumes...

Eu ainda conseguia sentir o toque do corpo dela nos meus braços.

E isso era um problema.

Um grande problema.

Porque, pela primeira vez em anos...

Eu não tinha certeza se ainda queria resistir.

{...}

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