Capítulo 2

Parte dois - Amantes e problemáticos

A apresentação do dia seguinte fora cancelada para a próxima semana. Gerard andava de um lado para o outro, dona Márcia tentava em vão acalmar o homem em meio aos seus surtos, enquanto Loryna folheava uma revista de moda, sentada tranquilamente no sofá.

– Gerard, fique calmo, o mundo não vai acabar por causa de um simples cancelamento de apresentação – Loryna disparou para ele, ficando inquieta com o homem indo e vindo pela sala de sua casa.

– Tragédie – cuspiu o homem em francês – uma terrível tragédia.

– Ora, Gerard, não foi a Torre Eiffel que caiu. Sossegue. – Márcia berrou e se juntou a filha, esparramando-se no sofá.

O homem vibrou num salto impulsivo e caiu num segundo sofá do outro lado da sala. Loryna e dona Márcia riram e arrazoaram dele, que por sua vez, fechou a cara e, tomando uma revista nas mãos, se dispôs a folheá-la.

– Se não pode com eles junte-se a eles, não é mesmo, Gerard – dona Márcia caçoou do homem birrento, balançando uma revista nas mãos.

Por sua vez, Loryna se ergueu de seu lugar e disse:

– Vou sair, mamãe. Fique aqui com Gerard, tente suportá-lo se for capaz. Qualquer novidade, me avise.

Largando a revista na mesa de centro, saiu da sala e subiu para o andar de cima, a fim de se trocar em seu quarto.  Escancarando a porta, e batendo atrás de si, Loryna se trajou com um leve vestido florido e calçou sandálias frescas e foi caminhar. Saiu de casa há tempo de evitar ser bombardeada pela discussão de sua mãe e Gerard.

Ganhou a rua à sua frente ela sorriu para o majestoso céu acima dela. O vento, aliás, a brisa que soprava ali passava por Loryna e a saldava, batendo em seu rosto, esvoaçando-lhe os cabelos que ela soltara para sair de casa.

Seu vestido ondulava ao vento, suas pernas eriçavam mal-acostumadas com o tempo gélido. A bailarina foi para a praça, onde um lago era mantidopreservada lá. A mais bela cena na opinião de Loryna, não porque a lembrava de cisnes e sua profissão como bailarina, mas porque era um lugar que lhe trazia calma.

A garota amava balé, sua profissão de bailarina era o que a mantinha viva, o que fazia pulsar seu coração, mas turnês, apresentações e discussões com seu austero empresário Gerard a deixavam exaustas. Eram poucas as folgas que tinha para poder passear a esmo por aí, e ela as aproveitava ao máximo quando as mesmas surgiam.

Até mesmo caminhando Loryna confundia-se entre os passos de dança e andar com todos andavam. Ela não podia evitar, bailar estava preso a sua personalidade, era o que a tornava especial. Andando, a moça apreciava a beleza da cidade onde vivia. Com muitas casas elevadas, prédios diversos. Nova York era linda no outono.

Entrando numa praça cercada por belas árvores, circulando pelos corredores de arbustos e moitas, a moça aboletou-se em um dos bancos no interior do lugar, e ficou ali observando o lago de longe.

Os pensamentos da garota se enevoaram acima de sua cabeça, deixando-a perplexa. O acontecido da noite passada ainda a chocava bastante. Ela não compreendia como errara aquele simples passo. Sabia a coreografia perfeitamente. Vivera aqueles passos nos ensaios e em outras apresentações.

De olhos semicerrados e a boca crispada, Loryna refletia nas dores que havia assolado a garota dias atrás. Uma onda de preocupação inundou-a. Se Gerard sequer sonhasse que a garoto tivera fortes dores nas pernas e não o comunicara, certamente o homem saltitaria metros e metros de raiva. A ideia a fez sorrir. Gerard era um bom homem, rude em certas ocasiões, mas fora quem a enxergou no fundo de uma sala empoeirada em sua antiga escola de balé e a trouxe para fora do anonimato, fazendo-a brilhar.

“Ele me ensinara a voar”, pensou, satisfeita. Ela era grata à todos os que a auxiliavam nesta nova etapa de sua vida. Do anonimato aos holofotes, a carreira da jovem garota de 20 anos se elevara como um balão, se perdendo na imensidão do céu. Algo inexplicável, fruto de seu tão raro talento.

Fustigada com lembranças de seu passado e de seu presente, a garota perdeu o olhar no lago. As árvores faziam sombra sobre a praça; flores caídas e folhas secas flutuavam nas superfícies das águas, parecia um quadro natural pintado pela natureza. Era perfeito.

Loryna fez um gesto em falso tentando se levantar do banco, suas pernas não obedeceram ao seu comando, em compensação a garota emitiu um grunhido de dor. Seus ossos doíam, sentia os músculos das pernas incharem, não conseguia se levantar.

Aflita, a garota pensou em gritar por ajuda, girando a cabeça e olhando em volta da praça não avistou ninguém, estava sozinha ali. O lago era sua única companhia, era quem presenciava suas dores e suas desgraças.

Tentando se manter calma, Loryna ousou flexionar suas pernas. Sem sucesso, o resultado foi mais um grito de dor, a garota agonizava no banco daquela praça. Já não suportava omitir seus gritos, agora os mesmos fugiam de sua boca e resvalavam por entre as árvores.

Os arbustos atrás do banco de Loryna farfalharam e um garoto de cabelos claros e olhos azuis saltara para frente do banco, surpreendendo a moça, que hesitou em gritar novamente.

– Você? – Loryna se recordara daquele rosto. O mesmo rosto, os mesmos olhos que a surpreendera na noite anterior.

Era o mesmo rapaz que se sentiu atraído por ela e fora até seu camarim, preocupado com sua queda repentina. Eram os olhos de John que agora a fitavam, brilhavam ao vê-la.

– Você está bem? Ouvi seus gritos de detrás das árvores – John pronunciava tais palavras com uma leveza em sua vez, desta vez não era uma leveza falsa.

Apesar da situação dolorosa em que se reencontraram, os dois sentiram-se calmos. John fora a praça para se acalmar, acordara com os impulsos martelando em sua mente, Loryna fugira das brigas e discussões em sua casa. Ambos ansiavam pela paz, e era o que um proporcionava ao outro.

– Não consigo me mover – retorquiu Loryna para John, inquieta.

John se ajoelhou diante de Loryna e, examinando as pernas da garota, o rapaz massageou suas panturrilhas, carinhosamente. Loryna sentiu o calor das mãos aconchegantes e convidativas roçarem entre seu vestido florido. Seus olhos lacrimejaram, sentiu o prazer e o pesar dentro de si mesma, como se a garota fosse uma consternação de emoções ambulantes.

Num movimento involuntário, Loryna se ergueu do banco, não conseguindo se equilibrar nas próprias pernas, cambaleou para frente e caiu por cima de John; espatifaram-se na grama. Seus olhares se encontraram, se combinaram. Como estrelas se chocando, como dois corpos celestes inflamados se colidindo causando erupções e explosões em grande escala.

– Me desculpe – murmurou a garota, que sem querer, uniu sua mão a de John, tateando em busca de amparo.

Os dois hesitavam no chão; enquanto a brisa soprava fraca sobre o lago, os dois arfavam caídos no gramado da praça.

– Seus olhos brilham – John ressaltou.

Eram como duas pequenas crianças que se conheciam há anos. Por eles próprios nunca mais se ergueriam do chão, era acolhedor para ambos estarem ali, caídos um sobre o outro. John suportava o corpo de Loryna como se fosse capaz de ficar ali por horas, e a garota ainda não soltara sua mão.

Impulsionados por algumas pessoas que iam passando por ali, quase constrangidos, mas insatisfeitos, decidiram levantar-se; John esgueirou o corpo de Loryna de cima do seu, com cuidado para não a machucar, ergueu-se e ajudou-a a se sentar novamente no banco.

– Ainda dói? – O rapaz encurvou-se para ela.

– Sim, parece dormente, mas bem pior – Loryna explicou, fazendo uma careta de horror.

– Vou te levar até sua casa – disparou John, o garoto não deu a chance nem de argumentação à moça. – Vamos, se apoie em mim.

Loryna passou um dos braços por cima do pescoço de John e o garoto segurou o outro braço, amparando-a em cada passo falso. O caminho não era longo, e os dois percorreram rapidamente. Quando Gerard abriu a porta, incrédulo e aos gritinhos ao ver Loryna nos braços de John, possivelmente ferida.

– Calma, Gerard – vociferou, soltando-se de John e caindo levemente sobre o sofá.

– Ela está bem, senhor – John disse enquanto se sentava ao seu lado.

Gerard bateu a porta e gritou pela mãe da garota. Márcia entrou na sala e correu para sua filha, interrogando-a.

– O que houve? Se machucou? Caiu? Diga logo, Loryna – dona Márcia metralhou a menina com as perguntas, fitando-a e lhe conferindo o corpo todo.

– Mamãe, estou bem. John me ajudou a voltar para casa – os olhos de dona Márcia e de Gerard se voltaram para o rosto do garoto.

– Muito obrigado – disseram em uníssono.

Gerard se encarapitou ao lado de John, com palavras confusas, disse:

– O que fazia na praça? Quem é você? Reponsé s´il vous plaît – seu sotaque causou alguns risinhos em seu investigado.

– Gosto de ir à praça para pensar – respondeu John, convencido. – Pensar é algo que todos deveriam fazer de vez em quando.

John não dava atenção nem para as indagações de Gerard ou os grunhidos e soluços de dona Márcia, continuava a se dedicar à Loryna. Acariciava suas panturrilhas inchadas e doloridas, com deslizes singelos e toques carinhosos. A bailarina ferida sentia arrepios simultâneos aos toques que John dedicava a ela.

– Não há para que se preocuparem – interrompeu Loryna. – Eu estou ótima, vou para meu quarto.

Mas, a garota não se moveu, e outra vez suas pernas não se firmaram no chão. Os braços rápidos de John a agarraram no ar e o seu corpo se chocoucom o da garota, freneticamente.

– Não posso andar – se desesperou a moça. – O que eu tenho?

Seus olhos se desataram em torrentes de lágrimas, deixando a cabeça cair sobre o ombro de John, ela chorou amargamente, sem saber o que lhe causara a paralisia das pernas. Tomando a bailarina nos braços, o garoto subiu as escadas e pousou o corpo de Loryna sobre sua cama. A cana chocou e fez lágrimas caírem dos olhos de Gerard e dona Márcia, e seguindo-os, os dois observavam os garotos sem dizer palavra alguma.

– Tenho que ir embora – falou John, rompendo aquele momento delicado. – Espero que fique melhor – e depositou um beijo em sua testa, como um pai faz com um filho na hora de dormir.

E sem cumprimentou nenhum o rapaz deixou o quarto, no andar de baixo a porta da frente se abriu e fechou-se num estalo. Loryna encarou as duas pessoas em seu quarto e, chorando de tristeza profunda, desmaiou com a cabeça pousada no travesseiro molhado de lágrimas.

Capítulo 3

Parte três - Adeus aos palcos

Os olhos de Loryna encaravam o médico à sua frente. Ao seu lado sua mãe, calada, segurava a mão da filha em sinal de companheirismo. A garota precisa de forças e coragem para enfrentar o que viria.

Desconfortada com a série de exames a que foi encaminhada, a garota estava quieta e aflita, esperando a palavra final do médico.

– Pois bem, o resultado dos exames é delicado – falou Dr. Colbert, segurando papéis diante de seus olhos. – Loryna, você foi diagnosticada com a doença osteogenesis imperfecta, a doença dos ossos de vidro.

Parecia uma terrível incógnita, a garota não compreendia as palavras, queria se retirar dali e correr para um palco e bailar toda a sua peça outra vez.

– O que é isso? – Sua mãe perguntou, soltando sua mão e a deixando pousar sobre a mesa do consultório frio e sem cheiro.

– É uma doença genética – começou Dr. Colbert. – Provoca alterações na produção de colágeno, detectada facilmente em decorrência de uma queda, como no caso de Loryna.

– A queda no palco não foi tão brusca capaz de quebrar meus ossos – balbuciou a garota, com firmeza.

– Exatamente. Não fora a queda que quebrou seus ossos, e sim, a doença. – Dr. Colbert se levantou, arrastou a cadeira para perto de Loryna, segurou suas mãos, a garota sentiu um calor com o toque, e disse: – Você terá que abandonar o palco, minha querida. Nunca mais poderá dançar.

Os olhos de Loryna se descortinaram, a garota não viu mais nada, a não ser um vulto negro e depois mais nada. Com um grito de medo, dona Márcia segurou o corpo desfalecido de sua filha, Dr. Colbert correu e chamou enfermeiros.

A moça fora levada para um quarto e internada sob observação médica prescrita. Gerard que estava na sala de espera do lado de fora do consultório, assustando-se com a carreira que se intensificou nos corredores, dera saltinhos até dona Márcia e a fuzilou com questionamentos em seu francês, com sua voz amedrontada.

– O que houve? Pelo amor de Deus – e se agitava, andando de lado para o outro, indo atrás de dona Márcia e dos médicos.

Gerard foi arrastado por Márcia até o consultório de Dr. Colbert, lá o médico lhe direcionou todas as informações e lhe colocou a par da terrível doença que castigava os ossos de Loryna. Com lágrimas teatrais caído de seus olhos, que o homenzinhosecava com um lenço de seda rosa.

– Quelle honte – exibiu seu francês, Dr. Colbert franziu a testa.

– Ele é francês, doutor – explicou Márcia.

Os dois saíram do consultório com Dr. Colbert em seu encalço. A situação era como uma hecatombe que caíra sobre eles. Loryna internada, sonhos inacabados e frustrados, ossos quebrados, era assim que assimilavam o que estava acontecendo atodos.

                                                       ***

Enquanto lia um livro de contos extraordinários, trancado em seu quarto, concentrado. Ao virar a página, consternado ao lembrar-se de Loryna, o rapaz contraiu-se ao ser intimidado pelo toque de chamada de seu celular. A música reverberou em seus ouvidos, arrebatando-o de sua mesa, atendeu-o de um salto.

– John? – Um sotaque francês ressoou do outro lado da linha.

– Sim – respondeu.

– Aqui quem fala é Gerard, preciso que venha até o Hospital Central – e passou o endereço entre bordões franceses, informando-o sobre o que aconteceu com Loryna, sobre a ida ao hospital e a internação.

John anotou tudo, e em minutos, o rapaz ganhava a rua e corria em direção ao hospital. Percorrendo as ruas movimentadas com passos rápidos, com a mente com os pensamentos em ebulição, ele ruminava os efeitos dos encontros com Loryna. A bailarina era a figura feminina mais adorável que ele já vira e sentira em seus braços, era algo quase que divino estar em sua presença.

À porta do hospital, ele avistara Gerard encostado em um poste, o homem fumava um cigarro e soltava a fumaça pelos ares com um ar de preocupado. Apavorado com a chegada do garoto, o homem, em um de seus pulinhos, jogou o cigarro longe e fulminou o garoto com os olhos.

– Ninguém saberá disso, garoto – explicitou sua embaraçosa situação, como estivera transtornado, pedindo que aquilo se mantivesse em segredo entre os dois.

– Pode deixar – falou. – Onde está Loryna? – John se inquietava na presença de Gerard.

– Siga-me.

Empurrou a porta da frente do hospital, John passou pela entrada, Gerard o seguiu e a porta se fechou, automaticamente.

– John! – Dona Márcia correu na direção do garoto e o abraçou. O rapaz queria ter se desvencilhado, mas os braços rápidos da mulher o envolveram.

Os transtornos de ansiedade causados pela depressão recém curada de John o faziam ter aspectos incomuns na presença de outras pessoas. Um simples ato de abraçar alguém ou sair em público não era tão fácil quanto parecia ser.

– Está com frio, querido? Está tremendo – lhe questionou a mulher, notando sua repentina tremedeira.

– Um pouco – mentiu ele, soltando-se do abraço. – Onde está Loryna?

– No quarto, em observação – explicitou. E fez sinal para o garoto a seguir.

Cruzaram a sala de espera do hospital, virando em um corredor à esquerda e avançado para um quarto, John encontrara Loryna deitada numa cama de lençóis brancos e cheirava a talco de bebê. A garota que estava deitada não parecia com a bailarina que John vira no palco dias atrás; era uma garota frágil e vulnerável, quase deprimida.

– John – resmungou Loryna, erguendo a cabeça do travesseiro.

– Não se esforce, por favor – pediu, se aproximando do leito. – Como está se sentindo?

– Eu nunca mais vou dançar, John – choramingou. – Nunca mais.

Os olhos de John vibraram, sua mente buscou as imagens de Loryna se apresentando na peça, incrivelmente graciosa. Também lembrou-se da queda, da multidão alvoroçada num burburinho tremendo e todos saindo do teatro, em confusão.

– Não diga isso, Loryna – rogou para a garota.

– Fui diagnosticada com ossos de vidro – informou.

Dona Márcia desatou todas as palavras que dr. Colbert dissera para ela e a filha, como se tivesse decorado o informe do médico. Desacreditado, o garoto, já ao lado do leito de Loryna, segurou firme nas mãos da moça, com as lágrimas brotando de seus olhos, disse:

– Nas minhas lembranças você sempre bailará.

Loryna lembrou-se de sua queda no palco, do movimento em falso na praça quando caiu por cima de John, suas lembranças também fervilhavam. O consolo nas palavras do garoto de olhos azuis fez com que a doença fosse apenas uma simples incapacidade de dançar nos palcos, mas estaria sempre bailando, bastava as pessoas se lembrarem.

– Apenas fique comigo, John – rebateu.

De esguelha, Gerard, que seguira dona Márcia e John até o quarto, observava os dois. Os músculos de sua face não se moviam, seus olhos estavam fixos naquele cenário épico, era como assistir uma cena da mais trágica peça de teatro. O homem esperava que o pior acontecesse a qualquer momento.

Dona Márcia enxugou as lágrimas, ofegou, limpou a garganta com pigarros e saiu do quarto, puxando Gerard pelo colarinho de sua camisa, que se soltou urrando e bufando, e bateu a porta do quarto.

A sós, o garoto se inclinou para Loryna, que o encarava atenta e gentilmente, e cheio de sensações e emoções dentro de si, lhe desferiu um beijo. Os lábios finos da menina se intrincaram com os carnudos do garoto, ambos eram ardentes, doces e suaves; as emoções mais ardentes entravam em ebulição dentro deles; a garota passou o braço pelo pescoço de John, puxando-o contra si.

– Não me deixe – foi a voz de John que escapou por entre os beijos. 

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