Capítulo 1

O vento gelado me abraça assim que saio do aeroporto. Respiro fundo. Aquela cidade estranha — tão longe de tudo que eu conhecia — agora é meu novo lar.

Confiro no celular o endereço do hotel, ergo a mão e paro um táxi. No exato instante em que abro a porta, a do lado oposto se abre também.

— Rua das Acácias, por favor. — A voz masculina, firme, preenche o carro.

Viro, franzindo a testa.

— Esse táxi já está ocupado. — Minha voz sai firme... mas trêmula.

Ele me encara, e por um segundo, o ar some dos meus pulmões. Olhos negros, intensos, frios. Maxilar marcado, cabelos escuros desalinhados. Nada nele se abala.

— Ok. — Dá de ombros, olhando pro motorista. — Estou com pressa. Pode seguir.

Cerro os punhos. A audácia. Como se eu já não tivesse passado o suficiente nas últimas horas.

— Se está com tanta pressa, sugiro que encontre outro táxi. Esse já tem dona. — corto, amarga.

Ele acende um cigarro, jogando os fios de cabelo pra trás com um movimento irritantemente elegante. Me lança um sorriso torto, cínico... e, de algum jeito, perigosamente bonito.

— Isso é tudo?

Prendo a respiração, unhas cravando nas pernas. Eu deveria estar chorando, implorando por uma trégua da vida... Mas não. Estou discutindo por um táxi.

— Eu não vou a lugar algum com você nesse carro. — solto, amarga.

Ele ri. E aquele som... deveria me irritar, mas em vez disso, me arrepia. Tem algo nele que provoca e, ao mesmo tempo, alerta. Um sorriso limpo, insinuante... Mas os olhos? Sombras puras.

— E o que você tá esperando? — traga, soltando a fumaça. — Desce.

Abro a boca, pronta pra despejar nele tudo que me sufoca desde... Desde que encontrei meu noivo na cama com a minha própria irmã. A cena pulsa como uma ferida aberta. As promessas, as mentiras, tudo implodiu em questão de minutos. Ele me acusou. Disse que eu o traí. Quando, na verdade, foi ele quem destruiu tudo.

Fugir foi tudo que me restou. Antes que aquela cidade me destruísse também.

— Calma! — o motorista se mete, nervoso. — Dá pra resolver. Moça, pra onde você vai?

Respiro fundo, engolindo o orgulho.

— Grand Palace Hotel.

O motorista sorri, aliviado.

— Ótimo, é caminho do nosso amigo aqui. Levo os dois.

Cruzo os braços, bufando, olhando praquele homem. Ele traga o cigarro, olhando pela janela, indiferente. A decisão é minha.

Cedo.

— Tudo bem. — Minha voz sai mais rouca do que queria.

O táxi arranca. Observo a cidade pela janela, estranha, desconhecida... e, de repente, tudo o que eu sou também me parece estranho.

— E você, senhor? — o motorista pergunta, quebrando o silêncio. — Vai pra onde?

Ele joga a bituca pra fora.

— Cemitério das Flores.

Me viro pra ele, surpresa. E só então percebo os detalhes. Terno preto, impecável. Expressão dura. Olhar vazio. Está indo pra um funeral.

Meu peito aperta.

— De quem...? — escapa, sem que eu consiga evitar.

Ele me olha, como se não esperasse a pergunta.

— Isso não soa inconveniente?

— Estar nesse táxi também é. — rebato.

Por um segundo, quase vejo um sorriso. Mas evapora rápido.

— Minha esposa. — A voz vem seca, cortante.

Sinto meu corpo enrijecer.

— Eu... sinto muito. — murmuro, sincera.

Ele me observa por longos segundos. Então, seus lábios se curvam. Não em tristeza. É algo mais... sombrio.

— Não sinta. — abre a porta, já saindo. — Estou aliviado que ela finalmente morreu.

Congelo.

Antes que eu processe, ele desce e desaparece, caminhando na direção do cemitério. Deixa pra trás o cheiro de cigarro... e um rastro de mistério que me arrepia até os ossos.

Viro pra janela, tentando entender o que acabou de acontecer, quando algo no banco me chama atenção. Um brilho prateado.

Pego. Um isqueiro elegante, pesado, com iniciais gravadas em baixo relevo: J.B.

Olho pra fora. A silhueta dele some entre os portões do cemitério.

E, no fundo, algo me diz que esse encontro... não foi acaso.

Capítulo 2

Passei o fim de semana inteiro afogada nas minhas próprias lágrimas, ignorando qualquer ligação do mundo lá fora. Mas, quando a segunda-feira chegou, percebi que chorar não ia pagar aluguel nem me dar um emprego.

Acordei cedo, fiz o checkout do hotel e fui atrás de uma casa para alugar. Ingênua. Ninguém me avisou que, em cidade grande, até respirar custa caro.

— Me desculpa, só pra confirmar… — tento, incrédula. — Esse valor aqui é mensal, mas pra fechar, preciso pagar mais três meses adiantados?

— Isso. Aceita ou sai. Tem gente na fila. — o síndico responde, sem nem fingir empatia.

Engoli o nó na garganta. Não tinha opção.

— Tá… tudo bem. Hoje à noite eu trago. — Largo minha mala no meio do apartamento vazio, fingindo que era meu.

Saí dali sem saber como. A única esperança era aquela entrevista que consegui. E, sim, eu sabia que era surreal, ridículo, quase cômico… mas meu plano era simples: convencer eles a me pagar três meses adiantados no primeiro dia.

Talvez eles rissem da minha cara. Talvez eu risse junto, de tão absurda que era a ideia. Mas era isso ou a rua.

Cheguei na empresa uma hora depois.

O diretor de RH, um homem de meia-idade com cara de quem se acha mais bonito do que realmente é, me chamou para a sala.

— Ayla, certo? — sorri, mostrando os dentes muito brancos, provavelmente de lente. — Seja bem-vinda.

— Obrigada. — Respondi, tentando parecer profissional, mesmo com a voz meio trêmula.

A entrevista começou normal. Até que ele começou a me olhar de cima a baixo, mordendo os lábios como se eu fosse um prato de comida.

— Você… é muito bonita, sabia? — sorriu, claramente achando que estava sendo sutil. — Tenho certeza de que você se daria muito bem aqui.

— Prefiro que foquemos nas minhas habilidades, senhor. — Falei seca, cruzando os braços. — Comentários pessoais não são bem-vindos.

Ele fingiu uma tosse, ajeitou a gravata, mas não demorou nem trinta segundos pra voltar a ser um completo lixo humano.

— Sabe… — se inclinou na mesa, abaixando a voz — acho que podemos chegar a um acordo.

Meu estômago virou.

— Olha… — respirei fundo, reunindo a pouca dignidade que me restava — na verdade, eu queria saber se existe alguma possibilidade de adiantamento. Uns... três meses, talvez? Eu sei que é fora do normal. Eu mesma acho isso absurdo. — Ri, nervosa. — Mas estou passando por uma situação bem complicada.

Preparei-me pra ouvir um “claro que não”, seguido de risadas. Só que ele me surpreendeu:

— Isso... é possível, sim. — respondeu, abrindo um sorriso estranho. — Claro... se você for uma funcionária disposta.

Meus olhos se arregalaram. Algo me dizia que “disposta” não significava exatamente trabalhar horas extras.

— Me explica melhor isso. — minha voz saiu fria.

Ele deslizou a cadeira, relaxando como quem dá um golpe certeiro.

— Dormir comigo, Ayla. Hoje. E você tem três meses pagos adiantado.

Por dois segundos, fiquei em choque. No terceiro, levantei e... PLAFT!

A palma da minha mão estalou no rosto dele com força suficiente pra ecoar no prédio inteiro.

— Escroto nojento!

Saí dali batendo a porta, tremendo de ódio. O peito ardendo, os olhos marejados... mas eu não ia chorar. Não por um lixo como aquele.

Caminhei sem rumo, chutando pedras, folhas, até que uma folha de jornal voou e grudou no meu rosto. Arranquei irritada... mas congelei quando li o anúncio estampado bem no centro:

“Procura-se babá. Salário acima da média. Moradia inclusa.”

Por um segundo, o universo parecia ter dado um sinal.

— Ok… minha chance. — Sussurrei, apertando o papel nas mãos.

Duas horas depois, parei na frente do endereço. Meus olhos quase saltaram.

Uma mansão. Enorme. Impecável. Com jardim, fonte e cercas brancas.

— Uau… — engoli em seco. — Eu não pertenço aqui.

— Veio pra entrevista? — um homem bem alinhado me abordou.

Assenti e ele me guiou até a sala.

A cena quase me fez rir — nervosa, claro. Uma fila de mulheres, todas lindas, produzidas, parecendo saídas de uma revista de moda.

Sentei, tentando não parecer tão deslocada quanto me sentia. E fingi naturalidade, mesmo apertando o papel do anúncio com tanta força que ele quase rasgou.

Quando fui chamada, respirei fundo e entrei.

E quase caí pra trás.

Ele estava de costas, olhando a vista pela janela. Quando se virou, meu corpo inteiro gelou.

Era ele.

O homem do táxi. O cara mais irritante, esnobe e petulante que eu já conheci na vida.

Eu respirei fundo. Queria correr. Mas, sinceramente? Talvez... talvez morar na rua fosse pior.

— Seria muito difícil entregar seu currículo? — a voz dele soa carregada de ironia.

Respiro fundo, caminho até a mesa e estendo meu currículo. Ele pega, analisa por alguns segundos, e dispara:

— Você não fez a melhor faculdade. — Não levanta os olhos. — E, sinceramente, seu currículo é inferior ao das outras candidatas.

Cruzo os braços, segurando a irritação.

— E, mesmo assim, estamos todas concorrendo, não? Ou... existe uma faculdade de babá em Harvard e eu não sabia?

Por um segundo, vejo a sombra de surpresa passar no rosto dele, como se não esperasse a resposta.

— Tenho prática. Já cuidei de muitas crianças. — concluo, mantendo o tom firme.

O toque estridente do meu celular quebra o silêncio constrangedor. Aperto os olhos, desligo no mesmo instante, torcendo pra não parecer mais patética do que já estava.

Quando volto a olhá-lo, ele fecha o currículo com um estalo seco.

— Pode sair.

O mundo parece girar. Por um segundo, penso em engolir meu orgulho e implorar... mas não. Aquele dia já tinha sido humilhante demais pra eu rastejar diante de um homem tão arrogante.

— Com licença. — digo, tentando manter alguma dignidade, e saio da sala.

Atravesso o jardim, mastigando frustração, até ouvir um chorinho abafado. Instintivamente, olho ao redor e encontro uma garotinha sentada na grama, tentando, em vão, encaixar a perna quebrada de uma boneca.

Me abaixo.

— Oi... o que aconteceu?

Ela levanta os olhos, enormes, verdes e cheios de lágrimas.

— Eu quebrei a Dorothea...

— Posso ver? — estendo a mão. Ela me entrega a boneca, e, com um pequeno encaixe, coloco a perna no lugar. — Prontinho. Tá vendo? Quase tudo na vida tem conserto.

O rosto dela se acende, e, antes que eu diga qualquer coisa, ela me abraça apertado. Depois, sai correndo, feliz, girando a boneca no ar como se nada tivesse acontecido.

Sorrio, desejando, do fundo da alma, que meus problemas também fossem fáceis assim. Me levanto... e, de relance, percebo a sombra de alguém se movendo atrás da cortina do escritório. Ele estava me observando.

Respiro fundo, balanço a cabeça e paro de pensar nisso. Perdi a vaga, não tenho onde morar... talvez ainda consiga negociar com o proprietário. Alguma alma caridosa existe nesse mundo, certo?

Volto pra casa, repetindo mentalmente mil planos de emergência, agarrada à esperança de que, chegando lá, ele tenha mudado de ideia.

Só que esperança é um bicho traiçoeiro.

Quando dobro a esquina, vejo. Meus pertences estão todos na calçada. Malas abertas, roupas espalhadas, caixas de livros encharcadas pela chuva fina que começa a cair.

— O quê...? — minha voz sai num sussurro rouco.

Corro até a portaria e começo a bater na porta.

— Otávio! Abre isso!

A janela do quinto andar se escancara, e ele aparece, cruzando os braços.

— Você abandonou suas coisas aqui sem pagar, mocinha! Liguei mil vezes! Agora tira isso da minha calçada! — E fecha a janela, sem nem olhar pra trás.

As lágrimas vêm antes que eu consiga impedir. Me ajoelho na calçada, tentando juntar o que dá. Um trovão estoura no céu. Como se fosse combinado, a chuva engrossa.

Me sento, tremendo, encharcada, encarando o pouco que sobrou da minha vida. Despedaçada.

— O que eu faço agora...? — sussurro, sentindo o peito apertar. — Pra onde eu vou...?

O celular vibra nas minhas mãos. Por um segundo, penso em jogar ele na rua... mas atendo.

— Ainda quer a vaga? — pergunta uma voz masculina, firme, do outro lado da linha.

Congelo. É ele.

— S-sim... — gaguejo, sem acreditar no que estou ouvindo.

Silêncio. E então, direto, curto, frio:

— Tem uma condição. Você precisa morar aqui.

Capítulo 3

— Alô, você está aí? — a voz dele volta, firme.

Ainda ajoelhada na calçada, respondo rápido:

— Sim! Sim, estou. E aceito. — disparei, sem respirar, como se ele pudesse mudar de ideia a qualquer segundo.

— Certo. Venha amanhã, às... — começa, mas interrompo sem pensar:

— Posso começar agora. — Me adianto. — Assim você economiza tempo me explicando tudo hoje. Imagino que seja um homem ocupado.

Mordo o lábio. O desespero transbordando na voz. Eu sabia. Sabia que parecia desesperada... Porque estava. A verdade? Não tinha onde dormir. Aquele emprego era meu único plano. Morar ali já resolveria metade do meu problema — ou, no momento, o problema: não ter um teto.

O silêncio dele me faz gelar. E se ele mudasse de ideia? Só volto a respirar quando escuto, seco:

— Ok. — E desliga.

Fico olhando pro celular, atônita. Foi fácil... até demais. Mas não ia reclamar.

Recolho minhas coisas molhadas da calçada e pego um táxi, usando os últimos trocados.

De novo, parada diante daquela mansão, suspiro. Última ficha jogada.

— Deixe-me ajudá-la. — o mesmo mordomo aparece e pega minhas malas. — Levarei para seu quarto. O senhor Barrichello a espera. — E some.

Meu corpo inteiro vibra de nervoso enquanto caminho até a porta. A sala, enorme e impecável, parece ainda mais intimidadora agora.

Ele surge no corredor. Alto. Imponente. Rosto impassível. Olhar frio, cravado em mim. Não diz nada, apenas se vira e entra no escritório.

Entendo aquilo como “entre”. E obedeço. Fecho a porta, tentando fingir que não estou prestes a ter um colapso.

— Então... estou pronta. Diga tudo que preciso saber. — forço um sorriso, me esforçando pra parecer no controle.

Ele me olha de cima a baixo, depois aponta com os olhos pro sofá. Sento.

O escritório é exatamente como ele: sóbrio, rígido, impecável... e frio.

— Antes de tudo, senhorita Green... — sua voz preenche o ambiente, firme, intransigente — preciso deixar algo claro: minha filha é meu bem mais precioso. Não admito erros. Nenhum.

Engulo seco.

— Compreendo, senhor Barrichello. Sua filha estará em boas mãos.

Ele não reage.

— Espero que sim. — E começa. — Primeira regra: rotina. Ela tem horários. Não admito atrasos, nem mudanças. Segunda: qualquer problema de saúde, mínimo que seja, me avisa imediatamente. Entendido?

— Perfeitamente. — Tento soar firme.

Ele segue. Mais regras. E mais. E mais. Uma sequência infinita, como se estivesse contratando uma agente da CIA, não uma babá.

— Por ora, é isso. — encerra, seco. — Seu quarto é anexo à casa. Fale com Gomes se precisar.

Me levanto, sustento o olhar dele, e solto, sincera:

— Cuidarei da sua filha com todo meu empenho. Ela estará segura e feliz comigo.

Por um segundo — um único segundo — vejo algo quase... humano no olhar dele. Quase um sorriso. Mas some rápido demais pra ter certeza.

Dou meia-volta. Mas paro. Preciso perguntar. Não dá pra engolir isso.

Respiro fundo, viro, e encaro aquele olhar gélido.

— Se me permite... — começo — por que me escolheu? Havia candidatas mais... qualificadas.

Ele arqueia uma sobrancelha, como se a pergunta o surpreendesse.

— Minha decisão não se baseou apenas em currículos. — responde, firme. — Foi... um instante fugaz que me fez decidir.

— Um instante fugaz? — repito, desconfiada.

Ele se inclina levemente, voz baixa, certeira:

— Da janela, vi quando você ajudou minha filha. Vi como ela sorriu pra você. Foi genuíno. E raro.

Fico em silêncio. A lembrança daquele momento vem, clara. Mas nunca imaginei que... ele estava observando.

— Me perdoe, mas... — ajeito-me, desconfortável — não entendo como isso pode ser decisivo pra algo tão sério.

Ele sustenta meu olhar, inabalável. E então sua voz sai, carregada de aviso:

— Você não entende agora, senhorita Green. Mas entenda uma coisa: assim como te escolhi, posso te dispensar no primeiro sinal de erro.

Sinto um frio na espinha. O ar pesa. Mas não vou recuar.

— Entendo perfeitamente. — respondo, firme. — Aceito o desafio.

Ele me observa por segundos que parecem horas. Até que seus lábios curvam, quase imperceptíveis. Frio. Enigmático.

— Veremos. — E só isso. — Aqui não há espaço pra erros.

E foi assim que, naquela sala carregada de tensão, começou meu novo trabalho.

Um emprego pra cuidar de uma criança.

Sendo que... eu nunca cuidei de uma na vida.

— Meu Deus... o que eu tô fazendo? — sussurro pra mim mesma, encarando meu reflexo no vidro da porta.

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