Capa do Romance O Sacrifício Dela, O Ódio Cego Dele

O Sacrifício Dela, O Ódio Cego Dele

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Cora serviu Augusto Ortega por sete anos, mas ele só lhe retribuiu com desprezo. Sob ordens dele, ela doou medula à sua noiva, Helena, que passou a sabotá-la cruelmente. Após ser torturada e presa por crimes falsos, Cora vê seu mundo ruir quando Augusto sequestra seus pais. Um erro fatal faz o casal despencar de um prédio diante de seus olhos. Doente e sem razões para viver, ela decide seguir o conselho cruel de seu carrasco e se lança ao abismo, encerrando sua agonia.

O Sacrifício Dela, O Ódio Cego Dele Capítulo 1

Meu chefe, Augusto Ortega, me forçou a doar medula óssea para a noiva dele. Ela tinha medo de ficar com uma cicatriz.

Durante sete anos, fui a assistente do menino com quem cresci, o homem que agora me desprezava. Mas a noiva dele, Helena, queria mais do que a minha medula; ela me queria fora do caminho.

Ela me incriminou por quebrar um presente de vinte e cinco milhões de reais, e Augusto me fez ajoelhar nos cacos de cristal até meus joelhos sangrarem. Ela me incriminou por agressão em uma festa de gala, e ele me mandou prender, onde fui espancada até sangrar em uma cela.

Então, para me punir por um vídeo de sexo que eu nunca vazei, ele sequestrou meus pais.

Ele me fez assistir enquanto os pendurava em um guindaste em um arranha-céu inacabado, a centenas de metros de altura. Ele ligou para o meu celular, sua voz fria e presunçosa.

"Já aprendeu sua lição, Cora? Está pronta para se desculpar?"

Enquanto ele falava, a corda se partiu. Meus pais despencaram na escuridão.

Uma calma aterrorizante tomou conta de mim. O gosto de sangue encheu minha boca, um sintoma da doença que ele nunca soube que eu tinha.

Ele riu do outro lado da linha, um som cruel e feio. "Sinta-se à vontade para pular desse telhado se dói tanto. Seria um final apropriado para você."

"Ok," eu sussurrei.

E então, eu dei um passo para fora da beirada do prédio, em direção ao ar vazio.

Capítulo 1

A agulha para a extração de medula óssea era grossa e fria.

Cora Salazar estava deitada na cama estéril do hospital, com as costas expostas. Ela não olhou para o instrumento, mas podia sentir sua presença, uma promessa da dor que estava por vir.

O médico explicou o procedimento novamente, sua voz gentil, mas isso não suavizou a realidade. Ia doer. Muito.

Augusto Ortega estava perto da janela, de costas para ela. Ele era alto, vestido com um terno sob medida que custava mais que o meu carro. Ele olhava para a cidade, um rei observando seu domínio. Sua noiva, Helena Hughes, havia sofrido um acidente. Ela precisava desse transplante para viver, mas não suportava a ideia de uma cicatriz em sua pele perfeita.

Então, ele recorreu a Cora.

Sua assistente pessoal. A mulher que ele acreditava que faria qualquer coisa por dinheiro.

A agulha perfurou sua pele.

Cora mordeu o lábio com força, um gosto metálico e forte enchendo sua boca. Ela se recusou a fazer qualquer som. Não lhe daria essa satisfação. Seu corpo enrijeceu, cada músculo gritando enquanto a agulha se aprofundava, procurando a medula em seu osso do quadril.

A dor era uma pontada profunda e lancinante que irradiava por todo o seu corpo. Ela fechou os olhos com força, o suor brotando em sua testa.

Ela manteve o silêncio. Era a única coisa que lhe restava.

Depois do que pareceu uma eternidade, acabou. O médico enfaixou a ferida, seu toque profissional e distante.

Cora, lenta e dolorosamente, sentou-se. Suas costas latejavam com uma agonia surda e persistente. Ela vestiu suas roupas com as mãos trêmulas.

Augusto finalmente se virou. Seu rosto estava tão bonito como sempre, mas seus olhos estavam frios, completamente vazios do calor que um dia tiveram por ela.

"Já terminou?" ele perguntou, a voz sem expressão.

Cora assentiu, não confiando na própria voz. Ela só queria que aquilo acabasse. Queria ir embora.

"Nosso acordo," ela conseguiu dizer, a voz rouca. "Está encerrado?"

Ela se referia ao contrato, ao arranjo distorcido que a prendia a ele. O emprego. A tortura diária e sem fim de estar perto dele.

Augusto entendeu errado. Ou talvez ele escolheu entender errado.

Ele enfiou a mão no paletó e tirou um talão de cheques. Rabiscou um número, destacou o cheque e o estendeu para ela.

"Aqui," ele disse, seus lábios se curvando em um sorriso de escárnio. "Seu preço. Você sempre foi boa em vender pedaços de si mesma, não é, Cora?"

As palavras a atingiram com mais força do que a agulha.

Ela olhou para o cheque, depois de volta para o rosto dele. O rosto que ela amava desde criança. O rosto que agora a olhava com nada além de desprezo.

Sua mão tremia ao alcançá-lo. Seus dedos roçaram nos dele, e ele recuou como se tivesse se queimado.

Ela pegou o cheque. Precisava do dinheiro. Desesperadamente.

Ela o dobrou com cuidado e o colocou no bolso, a cabeça baixa para esconder as lágrimas que ameaçavam cair. Pegou sua bolsa e saiu da sala sem dizer mais uma palavra.

Quando as portas do hospital se fecharam atrás dela, o ar da cidade de São Paulo pareceu frio em sua pele. Ela se encostou na parede, a dor nas costas e a dor no coração se tornando um peso insuportável.

Nem sempre foi assim.

Houve um tempo antes do dinheiro, antes do ódio.

Um tempo em que Augusto Ortega não era um bilionário de coração frio, mas apenas Augusto. O seu Augusto.

Ele chegou à sua família como um menino adotivo, um garoto quieto e brilhante abandonado pelo mundo. Os Salazar o acolheram, o amaram como se fosse deles. Ele era a estrela de sua pequena e feliz família. Ele e Cora cresceram como irmãos, mas o vínculo deles era mais profundo. Era um amor secreto, não dito, que floresceu à sombra do ipê-amarelo que plantaram juntos no quintal.

Ele era o menino de ouro, excelente em tudo, destinado à grandeza. Cora era sua sombra, sua confidente, a guardiã de seus sorrisos. Em particular, ele era apenas um menino que amava a família dela, que a amava.

O mundo perfeito deles se despedaçou no dia em que seu pai biológico apareceu.

Cornélio Ortega era um nome que impunha medo no mundo da tecnologia. Um titã implacável que via as pessoas como peões. Ele queria seu filho brilhante de volta e não pararia por nada para consegui-lo.

Ele começou destruindo a família de Cora. Seus pais foram demitidos de seus empregos em circunstâncias misteriosas. Seu pai, um homem bom e honesto, foi incriminado por uma agressão que não cometeu. Sua mãe foi vítima de um atropelamento e fuga, um "acidente" que a deixou aleijada e com dores constantes.

Cornélio apresentou a Cora uma escolha impossível. Ele lhe ofereceu vinte e cinco milhões de reais.

"Pegue o dinheiro," ele disse, sua voz desprovida de emoção. "E diga ao meu filho que você nunca o amou. Diga a ele que prefere ter isso a um futuro com ele. Ou assista sua família desmoronar completamente."

Para salvá-los, para proteger Augusto do veneno de seu pai, ela fez sua escolha.

Ela ficou diante de Augusto, o menino que amava mais que a própria vida, e proferiu as palavras mais cruéis que já havia dito.

"Estou pegando o dinheiro, Augusto. Vinte e cinco milhões de reais. O que você poderia me oferecer que valha mais do que isso?"

O olhar nos olhos dele — a dor crua e despedaçada — foi uma ferida que ela carregaria pelo resto da vida.

Ele acreditou nela. Ele partiu sem olhar para trás, seu coração cheio de um desejo ardente de vingança contra a garota que escolheu o dinheiro em vez dele.

Sete anos se passaram.

Augusto retornou, não mais um menino de coração partido, mas um bilionário self-made, mais frio e implacável que seu próprio pai. E ele veio para sua vingança.

Ele a fez sua assistente pessoal, um lugar na primeira fila para sua nova vida, sua nova noiva e sua crueldade infinita e criativa. Cada dia era um novo tormento, um novo lembrete de sua "traição".

Cora tirou o cheque do bolso e olhou para o número. Era muito dinheiro.

O suficiente para as crescentes contas médicas de seus pais.

E o suficiente para as suas próprias.

O que Augusto não sabia, o que ninguém sabia, era que Cora Salazar estava morrendo.

Leucemia em estágio avançado. Os médicos lhe deram semanas, talvez um mês se tivesse sorte.

O dinheiro não era para um futuro que ela não tinha. Era para deixar seus pais confortáveis no pouco tempo que lhe restava para cuidar deles.

Ela caminhou até um parque pequeno e tranquilo e sentou-se em um banco. Olhou para o cheque novamente, depois pegou o celular.

Abriu suas mensagens. A conversa com Augusto estava no topo, fixada. A foto de perfil dele era um logotipo corporativo frio. A dela ainda era uma foto do ipê-amarelo no quintal de seus pais.

O histórico de conversas era unilateral. Cheio de mensagens que ela havia digitado, mas nunca enviado.

*Augusto, está chovendo hoje. Lembra como costumávamos dividir um guarda-chuva?*

*O ipê-amarelo está tão grande agora. O aniversário dele está chegando.*

*Eu te vi no noticiário hoje. Você parece cansado.*

Eram tentativas pequenas e patéticas de preencher um abismo de sete anos de silêncio e ódio.

Ela digitou uma nova mensagem, seus dedos desajeitados.

*Augusto, me desculpe.*

Ela encarou as palavras, sua visão embaçando.

Pelo que ela estava se desculpando? Por partir o coração dele? Por salvar sua família? Por ainda amá-lo?

Ela apagou a mensagem. Era inútil. Ele não veria de qualquer maneira. Ele a havia bloqueado anos atrás.

A dor em suas costas era um lembrete constante e latejante do dia. Uma manifestação física da ferida em sua alma.

Ela sabia que merecia o ódio dele. Ela havia feito sua escolha.

Mas às vezes, no meio da noite, quando a dor a mantinha acordada, ela se permitia imaginar.

Será que ele já pensou nela? A verdadeira ela? A garota que subia em árvores com ele e compartilhava seus sonhos sob as estrelas?

Ou ela era apenas um fantasma, substituída pelo monstro ganancioso que ele criou em sua mente?

Ela inclinou a cabeça para trás, sentindo uma onda de exaustão tomar conta dela.

A leucemia era um ladrão silencioso, roubando sua força, sua respiração, sua vida.

Ela já havia contatado um advogado e arranjado tudo para depois que se fosse. Um fundo para seus pais. Um funeral simples e discreto.

Ela sentiu uma estranha sensação de calma. Uma libertação.

A luta estava quase no fim.

Ela pensou em Augusto uma última vez.

*Eu te amo*, ela pensou, as palavras uma oração silenciosa a um deus em que não acreditava mais. *Sempre amei.*

*Sinto muito por ter que te deixar com esse ódio.*

*Estamos quites agora, Augusto. Não te devo mais nada.*

Ela se levantou, seu corpo doendo. A ferida física em suas costas estava fresca e em carne viva, assim como a antiga ferida em seu coração.

Ela estava entorpecida para a frieza dele agora. Era uma dor familiar, parte de sua existência diária.

Ela era um navio afundando lentamente em um oceano escuro e frio. E não havia nada que pudesse fazer para impedir.

Mas mesmo enquanto afundava, uma pequena e teimosa parte dela se recusava a ser completamente quebrada.

Era a parte que ainda amava o menino sob o ipê-amarelo.

Um amor que estava emaranhado com um ódio tão profundo que a sufocava.

Amor e ódio. Era tudo o que lhe restava.

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