Ponto de Vista de Elisa:
Uma empregada com um rosto amargurado e infeliz agarrou meu braço e me puxou para longe da entrada principal, me guiando por um caminho estreito que contornava a lateral da mansão. As pedras estavam frias sob meus pés descalços. Ela não falou comigo, apenas me arrastou como se eu fosse um animal desobediente.
Entramos por uma pesada porta de aço em uma garagem cavernosa. O ar cheirava a óleo e desinfetante. Antes que eu pudesse admirar a frota de carros reluzentes, um rosnado baixo ecoou do canto.
Um Doberman enorme, seu corpo uma arma preta e elegante, caminhou em minha direção. Seus dentes estavam à mostra, um ronco ameaçador vibrando em seu peito. Eu congelei, meu sangue virando gelo. A empregada simplesmente recuou, a mão voando para a boca, sem fazer nenhum movimento para ajudar.
O cachorro, Zeus, me encurralou contra uma parede de pneus, seu hálito quente soprando no meu rosto. Fechei os olhos com força, esperando a mordida.
"Zeus! Senta!"
O comando agudo cortou o ar. Abri os olhos para ver Sofia, a menina do vestido rosa, parada na porta que dava para a casa. Ela olhou para mim, o nariz enrugado de nojo.
"Ele nunca faz isso", disse ela, a voz cheia de acusação. "Que nojo, você deve feder."
A empregada correu para o lado dela.
"Senhorita Sofia, você está bem? Não sei por que ele está agindo assim."
Sofia acariciou a cabeça do cachorro, que agora estava pressionada carinhosamente contra sua perna.
"Ele provavelmente precisa de um banho agora. Tire ele de perto... dela."
Ela disse "dela" como se fosse uma palavra suja.
A empregada e um jardineiro me arrastaram para uma pia de serviço e me deram um banho de mangueira com água fria, esfregando minha pele até ficar em carne viva com uma escova dura feita para limpar o chão. Eu tremia, cerrando a mandíbula para impedir que meus dentes batessem, meu vestido fino colado ao corpo. A humilhação era um peso físico, me pressionando, me sufocando.
Enquanto me secavam com um pano áspero, uma memória surgiu, nítida e urgente. Minha mãe. Amendoim. Beto, uma vez, em um raro momento do que ele chamava de bondade, deu a ela um pedaço de doce. A garganta dela se fechou. O rosto dela inchou. Lembro-me dela ofegando por ar, a pele ficando vermelha e manchada. Beto riu, mas eu fiquei apavorada.
Alergia severa a amendoim.
O cheiro de comida vinha da casa. Eles estariam fazendo o jantar para ela. Eu tinha que avisá-los.
Ignorando o "Ei!" agudo da empregada, corri pela porta aberta, para dentro da casa principal. Corri por uma lavanderia impecável e entrei em uma cozinha reluzente de aço inoxidável que era maior que toda a nossa cabana.
Chefs de chapéu branco se movimentavam, gritando ordens. O ar estava denso com o cheiro de carne assada e ervas. Em uma bancada, um chef estava moendo algo em uma tigela. Amendoim.
"Parem!", gritei, minha voz fina e fraca. "Vocês não podem usar isso! Minha mamãe... ela não pode comer. Ela vai morrer!"
Um dos chefs, um homem grande com o rosto vermelho, virou-se para mim.
"Que diabos é isso? Saia daqui, sua ladrazinha! Já está roubando comida?"
Ele não me ouviu. Ele não se importou. Ele me empurrou com força, e eu tropecei para trás, minha cabeça batendo na quina de uma mesa de aço. A dor explodiu atrás dos meus olhos. Enquanto eu deslizava para o chão, atordoada, ele chutou minha costela.
"Eu disse, saia!"
Nesse momento, um homem de terno, o mordomo, entrou.
"Que comoção é essa?", ele exigiu. Ele me viu no chão e zombou. "Removam isso."
"Ela estava tentando roubar comida, Sr. Antunes", disse o chef.
O Sr. Antunes então começou a listar as necessidades dietéticas da minha mãe para o chef principal.
"A Sra. Montenegro tem uma lista de alergias severas. Sem amendoim, sem frutos do mar, sem morangos. Suas refeições devem ser preparadas em um ambiente completamente estéril. Usem apenas os utensílios designados. O Sr. Montenegro não tolerará nenhum erro."
Meu aviso tinha sido inútil. Eles já sabiam. Mas o chute ainda latejava na minha costela.
Fui banida para um pequeno pátio do lado de fora da sala de jantar. Através das portas de vidro do chão ao teto, eu os observei comer. A mesa estava repleta de comida, brilhando com cristal e prata. Eles riam e conversavam. Henrique sentou-se ao lado da minha mãe, a mão dele cobrindo a dela sobre a mesa. Ele se inclinou e apontou para uma cicatriz prateada e fraca em seu antebraço. O sorriso dela vacilou. A família inteira percebeu. Dionísia estendeu a mão e deu um tapinha na outra mão dela. Sofia encostou a cabeça no ombro dela. Henrique beijou sua têmpora. Eles eram uma fortaleza de conforto, e eu estava do lado de fora, olhando para dentro.
Uma única lágrima quente traçou um caminho pela sujeira na minha bochecha. Eu a limpei rapidamente. Minha mãe nunca havia tocado nas minhas cicatrizes.
Mais tarde naquela noite, a fome se tornou uma fera roendo meu estômago. A cozinha estava escura e vazia. Voltei para lá sorrateiramente, meus pés descalços silenciosos no azulejo frio. Encontrei a lata de lixo, minhas mãos tremendo enquanto eu puxava o saco. Dentro, havia pães meio comidos, pedaços de bife e uma colherada de purê de batatas cremoso. Era mais comida do que eu tinha visto em dias.
Comi tudo, encolhida na escuridão da garagem, enfiando o banquete descartado na boca com os dedos. Pela primeira vez desde que saí do cativeiro, meu estômago estava cheio. Era uma sensação estranha e pesada.
Acordei algumas horas depois com uma cãibra violenta na barriga. Um fogo ardia dentro de mim. Saí cambaleando da garagem, dobrando-me de dor, e vomitei de novo, desta vez sobre as pedras brancas e imaculadas do pátio. Os sons que eu fiz, miseráveis e guturais, ecoaram na noite silenciosa.
Luzes se acenderam por toda a mansão. Portas foram abertas com violência.
Logo, um médico estava ajoelhado sobre mim, seu rosto uma mistura de pena e preocupação profissional.
"É síndrome de realimentação", ele explicou para Henrique e uma Dionísia sonolenta, que estavam nos degraus, agarrados a seus roupões de seda. "O sistema dela está severamente desnutrido. Não consegue processar comida rica assim. É um choque para o sistema." Ele olhou para mim. "O que você comeu, criança?"
Eu não conseguia falar, apenas apontei um dedo trêmulo em direção ao lixo da cozinha.
Do corredor, onde fui deixada em um banco frio, ouvi os soluços partidos da minha mãe vindo do andar de cima.
"Eu não consigo fazer isso, Henrique!", ela chorava. "Toda vez que eu olho para ela... eu vejo os olhos dele no rosto dela! Eu não consigo esquecer! Eu não consigo respirar!"
Uma tábua do assoalho rangeu acima de mim. Eu olhei para cima. Henrique estava no topo da escada, seu rosto uma máscara de raiva fria e controlada. Seus olhos me encontraram, e o ar em meus pulmões virou gelo.
"O que você ouviu?", ele perguntou, a voz perigosamente baixa.
Ponto de Vista de Elisa:
Antes que eu pudesse responder, Henrique estava descendo as escadas, seus movimentos rápidos e silenciosos. Ele agarrou meu braço, seus dedos cravando na minha pele como garras, e me levantou. Eu não fiz nenhum som, minha respiração presa na garganta.
Ele me arrastou pela casa silenciosa e cavernosa até um escritório escuro, com painéis de madeira, que cheirava a couro e uísque. Ele me empurrou para uma cadeira em frente a uma mesa enorme e ligou um grande monitor.
A tela se iluminou com uma transmissão ao vivo de uma câmera de segurança. O quarto era austero e branco, clínico. No centro, amarrado a uma cama de metal, estava Beto Medeiros. Seus olhos estavam abertos, encarando o teto sem expressão. Tubos entravam e saíam de seu corpo. Ele estava paralisado, uma estátua viva.
Enquanto eu observava, um enfermeiro corpulento entrou no quarto. Ele trocou bruscamente uma das bolsas de soro de Beto, batendo em seu braço com força desnecessária. Então, ele pegou um copo de água, segurou-o a centímetros do rosto de Beto e o derramou lentamente no chão. Um sorriso cruel brincava em seus lábios. Beto não podia se mover, não podia falar, não podia nem piscar para afastar a única lágrima que escorria por sua têmpora.
"Esta é uma clínica particular", disse Henrique, sua voz um sussurro baixo e arrepiante bem ao lado do meu ouvido. "Muito cara. Eu pago para mantê-lo vivo. Exatamente assim. Para que ele possa sentir cada segundo de sua existência miserável."
Ele se inclinou mais perto, seu hálito frio contra minha bochecha.
"Ele é um lembrete constante do que acontece com as pessoas que machucam minha esposa. Você", disse ele, a voz baixando ainda mais, "também é um lembrete constante. Toda vez que ela olha para você, ela o vê. Ela revive oito anos de inferno."
Ele se endireitou, sua sombra pairando sobre mim.
"Então, este é o acordo. Você ficará fora da vista dela. Você não falará com ela. Você não olhará para ela. Você se tornará invisível. Se você causar a ela mais um segundo de dor, se eu a ouvir chorar seu nome durante o sono mais uma vez... eu vou fazer você desaparecer. Você me entendeu?"
A imagem de Beto, indefeso e atormentado na tela, estava gravada em minha mente. Eu só consegui assentir, meu corpo tremendo tanto que pensei que poderia desmoronar. Ele não era meu pai. Ele era meu captor. Mas vê-lo daquele jeito... era uma promessa. Uma ameaça do que aquele homem poderoso e implacável poderia fazer.
Fui confinada aos aposentos dos funcionários, um quarto pequeno e estéril no porão, ao lado da lavanderia. Minha vida se tornou a existência de um fantasma. Eu comia minhas refeições em uma tigela de cachorro de aço deixada no chão do lado de fora da minha porta – arroz sem graça e vegetais cozidos no vapor, o que o médico havia prescrito. Eu nunca via minha mãe. Eu nunca via Henrique. Eu só via os rostos ressentidos dos funcionários e o sorriso cruel e zombeteiro de Sofia.
Numa tarde ensolarada, eu estava sentada nos degraus dos fundos, tentando absorver um pouco de calor. Sofia saiu marchando, Zeus trotando em seus calcanhares. Ela segurava uma tigela de cachorro nova e brilhante, feita de cerâmica.
"Eu estava procurando por isso", disse ela, apontando um dedo para minha simples tigela de aço no chão.
"Essa... essa é a minha tigela", sussurrei.
"Mentirosa!", ela gritou. "Você roubou a tigela do Zeus! Você é nojenta! Você provavelmente tem doenças!"
Antes que eu pudesse reagir, ela pegou um pesado vaso de cristal de uma mesa de pátio próxima e o quebrou na minha cabeça. Uma explosão de luz branca explodiu atrás dos meus olhos, seguida por um calor surdo e crescente. Toquei minha testa e meus dedos saíram pegajosos de sangue.
O rosto de Sofia estava contorcido com uma raiva aterrorizante e exultante.
"Você é um monstro, igual a ele! Eu queria que você estivesse morta!"
Ela apontou para mim, sua voz ecoando pelo gramado perfeitamente cuidado.
"Zeus! Pega ela!"
O Doberman, treinado e leal, não hesitou. Ele avançou, seu corpo poderoso me derrubando dos degraus. Caí com força na grama, o ar sendo expulso de mim. Os dentes do cachorro se fecharam no meu pulso, não uma mordidinha de brincadeira, mas uma mordida de verdade. A dor, aguda e imediata, subiu pelo meu braço.
Eu não gritei. Não consegui. Tudo o que pude fazer foi olhar para cima, meu olhar procurando, suplicando. Eu a vi. Minha mãe, Eleonora, estava em uma janela do segundo andar, olhando para a cena. Nossos olhos se encontraram por uma fração de segundo. Vi um lampejo de algo – choque, talvez até horror. Um grito desesperado e silencioso por ajuda se formou em meu coração. *Mamãe, por favor.*
Então, lenta, deliberadamente, ela estendeu a mão e fechou as cortinas, mergulhando seu quarto, e meu mundo, na escuridão.
A última gota de esperança dentro de mim murchou e morreu.
Zeus começou a me arrastar pelo gramado, seus dentes ainda presos no meu braço. A grama estava fria contra minha cabeça sangrando. Senti-me estranhamente calma. Era isso, então. Era assim que terminava.
De repente, um carro freou bruscamente na entrada da garagem. Uma porta bateu.
"O que, em nome de Deus, está acontecendo aqui?!", uma voz profunda e autoritária bradou.
Um homem mais velho, alto e imponente com uma mecha de cabelo prateado, estava atravessando o gramado. Ele agarrou o cachorro pela coleira e, com uma força que me surpreendeu, abriu suas mandíbulas.
Ele se ajoelhou ao meu lado, seu rosto uma máscara de fúria e preocupação.
"Você está bem, criança?"
Este era Horácio Montenegro, o pai de Henrique. O patriarca.
A próxima coisa que soube foi que eu estava em um hospital. As luzes eram muito fortes, o cheiro de antisséptico muito agudo. Uma enfermeira estava costurando o corte na minha testa, seu toque gentil. Eu não chorei. Nem sequer estremeci. A dor no meu pulso da mordida do cachorro era uma pontada surda, mas a ferida no meu coração pelas cortinas fechadas da minha mãe era um cânion vasto e vazio. Eu não sentia nada.
Tarde da noite, a porta do meu pequeno quarto se abriu com violência. Dionísia, Eleonora e Sofia entraram correndo, seus rostos pálidos de pânico. Os olhos da minha mãe estavam vermelhos e frenéticos. Por um momento louco e impossível, pensei que elas estavam ali por mim.
Mas Sofia passou correndo pela minha cama.
"Vovó, o papai está bem? Ele vai ficar bem?"
Eleonora estava olhando, não para mim, mas para o espaço vazio ao lado da minha cama, as mãos se torcendo.
"Onde ele está? Disseram que ele sofreu um acidente grave."
Uma enfermeira entrou apressada atrás delas.
"A família de Henrique Montenegro?", ela perguntou.
Elas não estavam ali por mim. Estavam ali por ele.