O cheiro de desinfetante no hospital era forte, mas não conseguia encobrir o fedor de álcool que emanava do meu corpo. Eu estava deitado na cama, sentindo um frio que não vinha da sala climatizada, mas de dentro, dos meus órgãos que paravam de funcionar.
O médico, um homem de meia-idade com olhos cansados, olhava para a prancheta e depois para a mulher ao meu lado.
"Senhorita Isabella, a situação do Pedro é crítica. A intoxicação alcoólica aguda causou uma falha renal em cascata. O único rim que ele tem está entrando em colapso."
Isabella, minha namorada, a mulher por quem eu doara meu outro rim um ano atrás, nem sequer olhou para mim. Ela estava lixando as unhas, entediada.
"E daí? Ele não consegue nem aguentar umas bebidas a mais para ajudar o Carlos a fechar um negócio? Para que serve esse pobretão que só sabe se aproveitar dos outros?"
A voz dela era fria, cortante. Cada palavra dela me feria.
Eu queria gritar, queria dizer a ela que o rim que estava falhando era o único que me restava, porque o outro estava dentro do corpo dela, mantendo-a viva. Mas minha garganta estava seca, e nenhum som saía.
Nesse momento, a porta se abriu e a mãe dela, Sra. Helena, entrou correndo. Seus olhos estavam vermelhos e inchados de tanto chorar. Ela era a única pessoa daquela família que sempre me tratou com carinho, como um filho.
"Isabella! O que você está fazendo? O Pedro está morrendo!"
Ela agarrou o braço da filha, desesperada.
"Me solta, mãe! Que escândalo é esse?" Isabella puxou o braço com força.
"Eu imploro, filha, salve o Pedro! Assine os papéis para a cirurgia de emergência! Os médicos disseram que ainda há uma chance!" Sra. Helena empurrou o diagnóstico médico para Isabella, as mãos tremendo.
Isabella pegou o papel, deu uma olhada rápida e riu.
"Parece bem real. Ele deve ter usado esses truques sujos para me conquistar antes, não é? Fingir que está morrendo para eu sentir pena?"
Ela amassou o papel e o jogou no lixo ao lado da minha cama.
"Isabella!" Sra. Helena gritou, incrédula.
Desesperada, sem saber mais o que fazer, Sra. Helena se ajoelhou no chão frio do hospital, diante da própria filha. Ela abandonou toda a sua dignidade.
"Filha, por favor. Eu te dou tudo que eu tenho. Minhas economias, minha casa. Apenas dê a ele uma chance de sobreviver. Por favor."
A humilhação daquela boa senhora, tudo por minha causa, era uma dor insuportável.
Isabella ficou furiosa com a cena.
"Pare de encenar! Vocês todos dizem que eu o amava tanto antes do acidente, mas devem estar me enganando. Caso contrário, por que não me lembro de sentir nada por ele? O único que eu amo é o Carlos!"
Ela se virou para os seguranças que chamara.
"Tirem essa mulher daqui. Ela está perturbando os pacientes."
Sra. Helena foi arrastada para fora, seus gritos de súplica ecoando pelo corredor antes de serem cortados pela porta se fechando.
Isabella tinha sofrido um acidente de carro há alguns meses. Quando acordou, disse que tinha amnésia e não se lembrava de mim. Lembro-me da dor que senti, mas acreditei nela. Acreditei que meu amor poderia fazê-la se lembrar.
Agora eu entendia. A amnésia era uma farsa. Uma mentira conveniente para se livrar de mim e ficar com Carlos, seu melhor amigo.
Ela me usou. Carlos precisava fechar um contrato com um cliente difícil que gostava de beber. Isabella me convenceu a ir junto, para ser o "escudo de bebida" de Carlos. Eu bebi garrafa após garrafa, tentando proteger o homem que ela agora amava, esperando que meu esforço a fizesse ver o quanto eu me importava.
Ela pensou que, se a farsa da amnésia fosse convincente o suficiente, eu não a culparia quando ela "recuperasse" a memória, já com uma nova vida ao lado de Carlos. Mas ela não contava com isso. Ela não contava que duas garrafas a mais seriam o suficiente para me matar.
Uma escuridão começou a tomar conta da minha visão. Meu corpo na cama ficou pesado, inerte. De repente, senti uma leveza.
Minha alma se desprendeu do meu corpo.
Eu flutuava perto do teto, olhando para baixo. Via meu próprio rosto pálido na cama do hospital, os lábios azuis. Via Isabella, que agora pegava o celular para mandar uma mensagem, provavelmente para Carlos.
Lembrei-me do dia da cirurgia de doação. Eu estava com tanto medo, mas quando olhei para ela, sorrindo para mim da cama ao lado, todo o medo desapareceu. Eu daria minha vida por ela. E, no fim, foi exatamente o que eu fiz.
Meu sonho era ser arquiteto. Eu havia acabado de ser aceito em uma universidade de prestígio, mas tranquei a matrícula para cuidar dela durante sua recuperação. Eu nunca voltei. Meus sonhos, meus planos, tudo foi sacrificado por ela. E em troca, ela me descartou como lixo.
O médico entrou na sala novamente, com uma expressão ainda mais grave.
"Senhorita Isabella, o coração dele está parando. Precisamos da sua autorização para a reanimação de emergência e a cirurgia. É a última chance."
Isabella guardou o celular e olhou para o médico com desdém.
"Já disse que não. Ele não é nada para mim. Deixem-no em paz."
O médico ficou chocado, sem palavras. Ele olhou para mim, deitado na cama, e depois para ela. A decepção em seu rosto era evidente.
Ele sabia do rim. Todos no hospital sabiam. A história do namorado que doou um rim por amor tinha sido um assunto comentado por semanas. Agora, essa mesma história terminava de forma tão sórdida.
Eu via tudo, ouvia tudo, mas não podia fazer nada. Minha alma era apenas uma espectadora silenciosa da minha própria morte, orquestrada pela mulher que eu amava.
O som agudo e contínuo do monitor cardíaco preencheu o quarto. A linha verde que antes subia e descia agora era uma linha reta e impiedosa.
"O paciente está em parada cardíaca!" gritou uma enfermeira que entrou correndo.
O médico se virou para Isabella uma última vez.
"Senhorita, esta é a última chamada. Se não agirmos agora, ele morrerá. Você é o contato de emergência dele. Precisamos da sua permissão!"
Isabella cruzou os braços, com uma frieza que congelaria o inferno.
"Eu já disse. Eu não o conheço. Não tenho nenhuma relação com ele. Façam o que quiserem, ou melhor, não façam nada. A decisão é de vocês."
Com essa declaração, ela selou meu destino. Ela não apenas se recusou a ajudar, ela negou nossa história, nosso amor, meu sacrifício. Naquele momento, para o mundo, eu me tornei um estranho.
"Hora da morte: 23h42," disse o médico, com a voz pesada de resignação, desligando o monitor barulhento.
Do lado de fora, Sra. Helena, que tinha sido expulsa, tentava desesperadamente voltar.
"Por favor, me deixem entrar! Meu genro está lá dentro! Ele precisa de mim!"
Eu via sua alma boa e atormentada através da porta. Ela batia, implorava a cada enfermeira e médico que passava.
"Por favor, doutor, salve o Pedro! Eu pago! Eu assino qualquer coisa!"
Mas a resposta era sempre a mesma.
"Sinto muito, senhora. A acompanhante responsável, a senhorita Isabella, nos deu ordens claras. Não podemos fazer nada."
A frustração e a impotência no rosto dela eram esmagadoras. Ela era uma mãe lutando por um filho que não era seu, contra a crueldade da própria filha.
Ela percebeu que não conseguiria nada ali. Com uma nova determinação, ela correu para o final do corredor, tentando falar com a administração para conseguir uma transferência para outro hospital. Qualquer coisa para me tirar das garras de Isabella.
Mas o poder de Isabella e Carlos já havia se espalhado pelo hospital.
"Sinto muito, senhora, mas nenhum prontuário pode ser liberado sem a autorização da família direta," disse a recepcionista, sem nem olhar para ela.
Desesperada, Sra. Helena viu que estava encurralada. As instituições que deveriam proteger a vida estavam sendo usadas para garantir a minha morte. Com o rosto banhado em lágrimas, ela pegou o celular. Era sua última esperança.
"Vou chamar a polícia! Vou contar a eles o que vocês estão fazendo! Isso é assassinato!"
Ela estava prestes a discar o número quando uma sombra surgiu atrás dela.
Era Carlos.
Ele se moveu rápido. Com um movimento brusco, ele arrancou o celular da mão dela.
"O que você pensa que está fazendo, sua velha maluca?" ele sibilou, a voz cheia de veneno.
Antes que Sra. Helena pudesse reagir, a mão de Carlos voou e atingiu seu rosto com um tapa violento. O som ecoou no corredor silencioso. Ela cambaleou para trás, a marca vermelha surgindo instantaneamente em sua bochecha.
"Você quer arruinar a Isabella? Quer arruinar o nosso futuro?"
Ele não parou por aí. Ele a empurrou contra a parede, e quando ela caiu no chão, ele chutou sua barriga.
"Sua intrometida! O Pedro já era. Por que você não consegue aceitar isso?"
Minha alma, que observava tudo, se contorceu de uma raiva que eu nunca senti em vida. Eu queria rasgá-lo em pedaços, proteger aquela mulher inocente que só queria me salvar. Mas eu era apenas um espectro, uma testemunha impotente.
Carlos olhou para o celular na sua mão. Com um sorriso cruel, ele o jogou no chão e pisou com força, quebrando a tela e o aparelho em pedaços. A única prova, a última chance de pedir ajuda, destruída.
Sra. Helena, mesmo caída e com dor, olhou para ele com um desprezo ardente.
"Você... você é um monstro," ela cuspiu, o sangue escorrendo do canto de sua boca.
"Eu sou um monstro?" Carlos riu, uma risada feia e sem alegria. "Eu estou apenas limpando a bagunça. O Pedro era um peso morto, e você é apenas um eco irritante do passado. A Isabella seguiu em frente. É hora de você fazer o mesmo."
Ele se agachou, pegando-a pelos cabelos e forçando-a a olhá-lo nos olhos.
"Ou talvez seja hora de você se juntar a ele."
A ameaça pairava no ar, fria e mortal. A crueldade dele não tinha limites. Ele não estava apenas garantindo meu silêncio com a morte, ele estava disposto a silenciar qualquer um que chorasse por mim.